domingo, 4 de março de 2007

Crescer e distribuir (04/03)

Escrevi no post Deng 2010 que a China só cresceu aceleradamente nas últimas décadas porque relativizou o igualitarismo. Mas o crescimento desigual é uma fábrica de tensões sociais. A China, por exemplo, não tem aposentadoria rural (clique aqui para ler Pensions just a dream for China's ageing villagers, da Reuters). E O Estado de S.Paulo traz hoje reportagem, com material de agências internacionais, sobre a reunião da Assembléia do Povo (o Congresso chinês) que vai tomar medidas para corrigir os rumos da economia. Um trecho da matéria:

(...) O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, deverá definir o objetivo de crescimento para 2007 em 8%, segundo fontes do governo (...). 'Os principais temas econômicos que serão discutidos na Assembléia são a reforma das finanças no campo (para melhorar o acesso ao crédito), a reforma do sistema bancário comercial e o desenvolvimento do mercado de capitais', disse Zuo Xiaolei, economista-chefe da Galaxy Securities de Pequim. Wen abrirá os debates com um discurso reiterando o objetivo do regime comunista de que todos devem se beneficiar do crescimento, algo que não vem ocorrendo para grande parte da população da China. Um enorme dinamismo econômico elevou a China ao posto de quarta potência mundial, mas provocou inquietantes diferenças de riqueza, em particular entre as cidades e o campo. 'O governo deve melhorar a proteção social e garantir os recursos necessários para os pobres', disse Wen no mês passado.(...)

Clique aqui para ler a reportagem do Estadão

Sístoles e diástoles. Não há como crescer aceleradamente sem produzir algum tipo de desigualdade. Mas uma hora as pressões políticas e sociais obrigam o Estado a mudar o jogo, a tomar as medidas destinadas a impedir que as diferenças econômicas e sociais ultrapassem certos limites. Assim tem sido na China. A história recente dos chineses é um pêndulo que balança entre o igualitarismo (coletivismo) e o arranque econômico. A Grande Revolução Cultural Proletária e as Quatro Modernizações são emblemáticas do que estou dizendo. E o Brasil? No Brasil, infelizmente, ainda estamos numa etapa anterior. Ainda precisamos decidir se queremos mesmo crescer aceleradamente e virar uma potência. Ou se não queremos, se ficamos na nossa vidinha de sempre.

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9 Comentários:

Anonymous JV disse...

Alon, sabendo que estou abusando de sua paciência, vou dizer o que eu acho. O igualitarismo é nocivo, e a desigualdade é condição sine qua non para o crescimento. O vizinho vê o carro novo que o cara comprou, e vai se esforçar, acordar mais cedo, poupar, o diabo, para comprar um carro novo tambem. Isto é Caxias do Sul, RS, e não é a toa que a região cresceu tanto. Se você taxar o cara para que tudo fique igual, ele nem de casa vai sair.

domingo, 4 de março de 2007 12:56:00 BRT  
Blogger cid disse...

alon

Concordo que precisamos (ainda) decidir se queremos crescer ou não. E a desigualdade que o crescimento não deveria nos incomodar. Afinal, este país é vice-campeão mundial da desigualdade e da concentração de renda.

Se decidirmos crescer, com certeza já sabemos que não será através deste intolerável modelo de exclusão. Um novo modelo precisa ser discutido, e não sei qual seria. Mas, pelo menos, sabemos qual não poderá ser. Já é um começo...

cid cancer
mogi das cruzes - sp

domingo, 4 de março de 2007 19:57:00 BRT  
Blogger Anão disse...

"O crescimento desigual é fábrica de tensões sociais"

Talvez estejamos chegando a um mínimo denominador comum. Imagino que você inclua a violência nessas tensões sociais.

domingo, 4 de março de 2007 22:30:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Alon, você disse tudo.
Se quiser enriquecer todos, a esquerda não pode ter medo de que alguns fiquem (mais) ricos.
E fazer políticas compensatórias para distribuir renda é mais fácil havendo renda.

Só vou tentar acrescentar no debate o papel da técnica (sem viés ideológico) nas 4 modernizações.

Isaac Newton fez mais para socializar o solo urbano do que muitos teóricos socialistas, porque através de suas equações que embasaram a construção de arranha-céus, permitiu socializar o mesmo terreno entre vários moradores.

As reformas chinesas não foram apenas de abertura econômica, mas também de inovação. As 4 modernizações foram um amplo projeto nacional de política educacional, industrial, agrícola, ciência e tecnologia, e defesa. Tudo com planejamento estatal.
Passaram-se 29 anos, e estão colhendo o plantaram.

Se no Brasil surgem tantos bons jogadores de futebol, porque toda criança joga (mesmo pobres, descalças), na China as habilidades são outras.

Para ter produção com tecnologia de ponta, nada mais óbvio do que investir maciçamente na educação em áreas ligadas à Ciência e Tecnologia.

39% dos formandos na China são engenheiros (em 2005 foram 600 mil engenheiros, número muito maior do que os EUA);
27% na Coréia;
23% em Taiwan;
19% no Japão;
5% nos EUA;

No Brasil são 8%. Cerca de 20 mil engenheiros/ano, pode-se acrescentar ainda bacharéis em computação (deve ser algo em torno de 10 mil formandos/ano).

Não por acaso, a maioria dos recentes líderes "politburo" chinês tem formação na área tecnológica. Hu Jintao, Jiang Zemin e Zhu Rongji são engenheiros.

Um parenteses para outra curiosidade do artigo o Estadão: a carga tributária para os chineses com esse crescimento todo é 33%. Isso não desmistifica alguns argumentos que costumamos ouvir por aí?

Para fazer justiça ao governo atual, desde Geisel, que só vimos a redução de planejamento estatal, e o PAC é uma tentativa (ainda que tímida) de retomar aquela agenda.
Além disso, a FINEP, atendendo a campanha da CNI, criou o PROMOVE (Programa de Promoção e Valorização das Engenharias). É uma iniciativa modesta, mas já é melhor que nada.

Alon, como citei números, vou dar as fontes de onde colhi:
http://www.ita.br/online/2005/itanamidia05/jul2005/revindbrasjul05.htm
http://www.inovacao.unicamp.br/report/news-engenharia060724.shtml
http://www.universia.com.br/html/materia/materia_bcgdg.html
http://www.vcconfidential.com/2006/04/leisure_class.html

segunda-feira, 5 de março de 2007 01:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

assim mesmo você votaria no Deng?
Num país onde mulher não conta?
Como o Lula diz: o Brasil já creceu a 10%. E o que o povo viu desse crescimento?

segunda-feira, 5 de março de 2007 08:00:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Caro José Augusto

Estava atrás dessa informação que você trouxe:

"Para ter produção com tecnologia de ponta, nada mais óbvio do que investir maciçamente na educação em áreas ligadas à Ciência e Tecnologia.

39% dos formandos na China são engenheiros (em 2005 foram 600 mil engenheiros, número muito maior do que os EUA);
27% na Coréia;
23% em Taiwan;
19% no Japão;
5% nos EUA;

No Brasil são 8%. Cerca de 20 mil engenheiros/ano, pode-se acrescentar ainda bacharéis em computação (deve ser algo em torno de 10 mil formandos/ano)."

Agora falta acrescentar dados sobre quanto cada país investe em C&T. Então o quadro desolador do Brasil ficará completo.

Também não sei onde está a informação sobre o percentual desses 8 ou 10 mil relativos ao número total de formandos no Brasil. Te digo que o número assusta.

abs.

segunda-feira, 5 de março de 2007 10:16:00 BRT  
Anonymous karl popper disse...

Esse post diz mais ou menos o seguinte: o marxismo é o caminho mais longo para o bom senso, he he he.

segunda-feira, 5 de março de 2007 12:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Crescimento sem desenvolvimento (aumento da distribuição de renda) não tem eficácia na diminuição da pobreza. Agora, estão confundindo igualdade de oportunidades com igualdade entre indivíduos. Esta última é impossível porque todos somos diferentes. Mesmo que todos tenham oportunidades iguais para alimentação, educação, informação, gozo de cultura, etc, ainda assim não seremos iguais. Há indivíduos que não se motivam no rumo da nação (seja por questões psicológicos, familiares, etc)e, portanto, não seguirão a média da sociedade. A motivação para a formação intelectual, profissional não está só na ausência. Há também o excesso de suporte (famílias abastadas em que o filho só pretende usufruir do patrimônio acumulado - trabalhar e estudar para que?). Há, finalizando, tantas variáveis na vida individual e comunitária que torna impossível a igualdade entre pessoas. No entanto, temos o dever de propiciar a igualdade de oportunidade para todos. É o princípio da igualdade universal consagrado na Carta Política, que convive com a economia de mercado.

Rosan de Sousa Amaral

segunda-feira, 5 de março de 2007 19:20:00 BRT  
Anonymous Sérgio Maidana disse...

Alon,
disse que a resposta sobre a questão da redução da maioridade lhe mandaria por artigo. Pois bem, foi publicado hoje, e apesar de mal escrito, dê uma olhadinha no jornal Correio do Estado - MS no link: http://www.correiodoestado.com.br/exibir.asp?chave=148204,1,1,05-03-2007

abraços.

segunda-feira, 5 de março de 2007 19:32:00 BRT  

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