sexta-feira, 2 de março de 2007

Deng 2010 (02/03)

Na entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva a um grupo de jornalistas, ontem pela manhã, o presidente falou sobre economia. Está na Folha de S.Paulo:

"(...) Em café da manhã com jornalistas, no Palácio do Planalto, Lula contou que, em 2004, em viagem à Índia, soube que o país tinha reservas de US$ 100 bilhões e pensou no dia em que o Brasil chegaria lá. Concluiu, então: 'Taí. Chegamos'. Um jornalista perguntou se, na viagem, ele não sonhara também em chegar ao crescimento de quase 10% da Índia. Lula esquivou-se, dizendo que o Brasil teve pico de crescimento de até 14%, chegou a índices médios de 7% com Juscelino Kubitschek, mas não distribuiu renda: 'O povo ficou mais pobre'. (...)"

Clique aqui para ler na íntegra a reportagem da Folha.

Está também n'O Estado de S.Paulo:

"(...) Indagado sobre o crescimento de apenas 2,9% do Produto Interno Bruto (PIB) registrado pelo País no ano passado, admitiu novamente que o desempenho foi aquém do que ele desejava. Mesmo assim, assegurou que o Brasil está no rumo certo. Admitiu que o desenvolvimento foi bem mais acelerado em pelo menos dois períodos históricos - durante o governo Juscelino Kubitschek e ao longo do regime militar. 'Mas não houve distribuição de renda”, frisou. “Agora as bases sociais estão colocadas para um crescimento com mais responsabilidade social.' (...)"

Clique aqui para ler na íntegra a reportagem do Estadão.

É evidente que Lula está completamente equivocado na avaliação que faz da economia sob Juscelino e sob os governos militares. Minha primeira reação foi mergulhar em números para mostrar o absurdo que é afirmar que o povo brasileiro ficou mais pobre -ou que não houve distribuição da riqueza criada- nos dois períodos de maior crescimento do Brasil, com JK e na ditadura. Mas nem vou desperdiçar meu tempo nessa tarefa. Eu afirmo que a fala do presidente não tem nenhuma conexão com a realidade. O povo não ficou mais pobre no período entre 1955 e 1985, pois todos os indicadores sociais melhoraram nessas três décadas. O que houve foi uma distribuição desigual da massa de riqueza produzida. Isso não quer dizer que os pobres tenham ficado mais pobres. Simplesmente, a vida melhorou bem mais para uns do que para outros. Desafio qualquer leitor deste blog a provar que as condições de existência no Brasil tenham piorado exatamente quando o Brasil mais avançou, entre os anos 50 e 80 do século passado. Se você concorda com Lula, vamos lá, tente então demonstrar a afirmação dele. Mas esse debate sobre pobreza e distribuição de renda é bom. É mais uma evidência de como um "pobrismo" e um igualitarismo rudimentares substituíram entre nós a ciência econômica (e até a matemática), com o objetivo de vender gato por lebre, de instituir o mito de que o Brasil agora faz tudo certo, enquanto o do passado recente seria uma droga. Essa maldita mania de tentar atirar no lixo o que outros fizeram pelo país, de usar como escada as dificuldades vividas pelos antecessores, de fingir que nada de bom fizeram quando foram governo. Vejam o esquema que segue. O país A tem um PIB de 1.000 para uma população de 100. Portanto, a renda per capita é 10. Suponha também que todo mundo em A ganha 10. Já o país B tem um PIB de 1.500 para a mesma população, 100 habitantes. Portanto, sua renda per capita é 15. O PIB de B está distribído assim: 13 pessoas ganham 10, 23 ganham 12, 33 ganham 13, 30 ganham 15 e uma, o rei (B é uma monarquia absolutista moderna), ganha 215. Suponhamos ainda que ambas as moedas valham a mesma coisa e que nos dois países o custo da simples sobrevivência de cada pessoa seja 10. Que beleza, A é um país igualitário, com uma distribuição de renda ideal, não há ricos, não há injustiça. Mas toda a população costeia a linha da pobreza. Já o país B é tremendamente injusto, pois 1% da população concentra 21,5% da renda. Entretanto, 87% das pessoas em B podem se dar ao luxo de comprar outras coisas além de comida. O que aconteceu no Brasil no governo de Juscelino Kubitschek e no regime militar? A riqueza da sociedade cresceu fortemente e a esmagadora maioria dos brasileiros ficou menos pobre, ao contrário do que Lula diz. Mas uns poucos se beneficiaram mais. Lula foi especialmente injusto com JK. O mesmo JK que ele tanto evocou quando as labaredas da crise política de 2005-2006 ameaçavam chamuscá-lo. Mas a política é assim mesmo. As conveniências substituem as convicções, quando necessário. A pessoa diz o que mais lhe convém, e quando lhe convém. Se colar, colou. Só que uma coisa não dá para mudar (pelo menos não muito): a História. Lula faz um bom governo na economia e no combate à pobreza, mas está a anos-luz de realizar pelos trabalhadores o que fizeram Getúlio Vargas, com a legislação social e trabalhista, e JK, com a arrancada industrial que mudou o país de patamar. Lula falou da Índia para os jornalistas, mas o Brasil teria mais a ganhar se o presidente se voltasse também para o exemplo da China. Um país que só conseguiu decolar quando deu as costas ao igualitarismo do qual Lula se vale para explicar por que o Brasil cresce pouco. Pena que não temos entre nós um Deng Xiaoping (foto). Eu votaria nele para presidente. Tem uma frase do Deng que cai como uma luva em muitos dos nossos debates aqui: "extraia a verdade dos fatos, e não da ideologia".

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15 Comentários:

Anonymous JV disse...

Àlon, mas você é muito reacionario mesmo....
:)

sexta-feira, 2 de março de 2007 14:39:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Reacionario por quê? O Alon está certo quando defende o JK e reconhece os méritos dos governos militares. Ele mostra que é um analista objetivo, que foge da papagaiada do petismo e do tucanismo irracionais. Eu não votaria no Deng porque ele era comunista. Mas o Alon, como comunista assumido que é, pode afirmar isso sem que ele esteja dizendo nada demais.

sexta-feira, 2 de março de 2007 14:48:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Alon,

A é pobre e tem justiça, porque todos são iguais. A deve ser um país comunista de verdade.

Se você fosse o rei de B, reduziria a desigualdade ou a maioridade penal?

sexta-feira, 2 de março de 2007 15:34:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Alon, dessa vez você cometeu uma falha no método científico ao não manter as mesmas condições de temperatura e pressão para o experimento.

Você está comparando 2 países com PIB's diferentes e mesma população (não captei qualquer razão em seu exemplo que justifique porque o PIB de A é menor do que de B; você poderia argumentar que o empreendorismo liberal teria levado a isso, mas entendi que você não está pensando assim em seu argumento).

Acho que comparar um país socialista com um liberal, teria que ser feito com PIB's iguais e renda per capta igual. Aí estaríamos comparando real vantagens e desvantagens do igualitarismo na distribuição de renda.

Nivelando o PIB do país A com o B, ambos com PIB de 1.500, teríamos todos do país A tendo uma renda de 15.

Neste caso 100% da população do país A teriam um excedente de renda de 5 e poderiam se dar ao luxo de comprar outras coisas além da comida, enquanto no país B 13 pessoas tangenciam a linha da pobreza.

E 69 pessoas do País A seriam mais ricas do que do país B, 30 teriam a mesma renda, e somente 1 pessoa do país A seria mais pobre do que do país B.

Essa deveria ser a comparação correta. Senão eu entendo estar comparando bananas com laranjas.

Se valer usar PIB's diferentes que tal tentar explicar as vantagens que haveria se o país B fosse o de menor PIB?

sexta-feira, 2 de março de 2007 17:15:00 BRT  
Anonymous Richard disse...

O NOME?! O NOME do corajoso jornalista que fez a memorável pergunta à Lula!!! É de pessoas assim que a imprensa deste país precisa... de vacas-de-presépio estou cheio.

sexta-feira, 2 de março de 2007 17:26:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro José Augusto, vamos lá:

Diz você:

Você está comparando 2 países com PIB's diferentes e mesma população (não captei qualquer razão em seu exemplo que justifique porque o PIB de A é menor do que de B)

Veja que o país B pode ser o país A depois de um ciclo de crescimento. Por isso o PIB de B é maior que o de A.

Diz você:

Acho que comparar um país socialista com um liberal, teria que ser feito com PIB's iguais e renda per capita igual. Aí estaríamos comparando real vantagens e desvantagens do igualitarismo na distribuição de renda.

Não se trata de comparar socialismo com liberalismo. No exemplo dado, qualquer um dos dois poderia ser "socialista" ou "liberal". Tratam-se de dois países de população semelhante. com PIBs diferentes. Só.

Diz você:

Nivelando o PIB do país A com o B, ambos com PIB de 1.500, teríamos todos do país A tendo uma renda de 15. Neste caso 100% da população do país A teriam um excedente de renda de 5 e poderiam se dar ao luxo de comprar outras coisas além da comida, enquanto no país B 13 pessoas tangenciam a linha da pobreza. E 69 pessoas do País A seriam mais ricas do que do país B, 30 teriam a mesma renda, e somente 1 pessoa do país A seria mais pobre do que do país B.

Verdade, mas há um problema. Como crescer de A para B, rapidamente, mantendo inalterada a distribuição igualitária de renda. Esse é um problema ainda não resolvido pela teoria econômica, já que crescimento acelerado exige forte acumulação de capital. Na União Soviética, por exemplo, os anos 30 do século passado assistiram a uma brutal transferência de renda do campo para a cidade e à criação de fortes desigualdades. Mas isso permitiu a industrilização acelerada, o que os historiadores consideram decisivo para a URSS não ter sido derrotada pela Alemanha nazista. Mas esse é só um parêntese histórico. Ou seja, é necessário haver acumulação para haver crescimento.

Diz você:

Essa deveria ser a comparação correta. Senão eu entendo estar comparando bananas com laranjas.
Se vale usar PIB's diferentes que tal tentar explicar as vantagens que haveria se o país B fosse o de menor PIB?


Acho que já expliquei isso. Mas você, então, poderia tentar explicar como crescer de A para a situação B, mas igualitária, sem estatizar todo o excedente da produção e sem permitir a acumulação capitalista.

sexta-feira, 2 de março de 2007 17:41:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Alon, está provado por testes psicologicos ser[issimos que o ser humano se esforçamais para prejudicar o outro do que para se beneficiar.....náo tem jeito maneira....

sexta-feira, 2 de março de 2007 18:07:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Alon,
Ok, introduzindo o vetor tempo, fechou o raciocínio, e agora compreendi o post.

Crescer de A para B mantendo inalterada a igualdade de renda, é possível com ganhos de produtividade via inovação.

Uma tribo, quando aprendeu a cultivar rebanhos em vez de caçar, enriqueceu todos os seus membros igualmente, com mais comida e com menor trabalho e menor risco, sem depender de capitais externos, ou seja, criou riqueza pelo domínio de conhecimento. O mesmo se dá na sociedade industrial com a criação (ou cópia) de métodos de beneficiamento de matérias primas disponíveis.

O Japão não tem um regime socialista, mas sua sociedade manteve uma homogeneidade grande no enriquecimento pós-guerra (pelo menos até algum tempo atrás).
Como a moeda do Japão se valorizou no pós-guerra? Não foi por lastro em ouro, foi por lastro em ganhos de produtividade. Cada japonês passou a produzir mais coisas usando os mesmos recursos materiais dos outros, empregando para isso apenas o conhecimento (criatividade, inovação). Conclusão: com cada Yen comprava-se cada vez mais coisas (sobretudo eletrônicos e carros) no Japão do que comprava-se com o equivalente em dólares em outros lugares, o que atraiu compradores estrangeiros.
Então o exterior passou a comprar Yens com dólares em quantidade, através das exportações japonesas. Resultado: cada japonês ficou mais rico em dólares também, porque o Yen se valorizou com a grande procura por sua moeda.

Além disso, como no exemplo rebanho X caça, o japonês ficou mais rico em acesso a bens que ele mesmo sabia fazer barato para si.

Houve aumento da riqueza pela criação de valor na produção, e houve acumulo de capital vindo de fora para dentro, sem que houvesse necessariamente transferência de renda (mesmo relativa) de um japonês para outro (todos ficaram mais ricos com a valorização do Yen).

(Gostaria que o Brasil estivesse vivendo esse processo na atual valorização do Real, mas não tenho certeza se é isso que está acontecendo, porque exportação de commodities não é a melhor criação de valor, como seria exportação de patentes recebendo divisas de royalties).

Sobre a URSS nos anos 30 (é campo minado de conhecimento para mim, mas vou tentar), concordo que houve acúmulo de capital pelo Estado, e concentração de renda na cidade em relação ao campo. Mas (não estou dizendo que você falou isso, só estou complementando o meu racionício com as informações que tenho), a motivação produtiva não era a recompensa do lucro como no capitalismo, era o dever de cumprir metas como uma missão militar: os dirigentes de fábricas eram como oficiais e os operários soldados econômicos. O cumprimento de metas significava promoção e o não cumprimento das metas, rebaixamento. Será que estou certo?

(pensando bem qualquer semelhança com o post dos suicídios na Renault não é mera coincidência)

Daí concluo que é possível chegar de A a B com métodos militares aplicados à produção, e distribuição igualitária dos resultados. Mas concordo com Keynes que se esse método (socialista) é moralmente superior, o capitalismo é mais eficiente em gerar riquezas rápidas, porque estimula diretamente o instinto de recompensa (à semelhança do prazer, como explica Freud).

Deve ser por isso Deng Xiaoping chegou à conclusão de que é mais fácil estimular o enriquecimento via recompensa, para depois controlar os extremos desiguais (ou atingir o estado de abundância algum dia, na forma ideal), do que manter alto o "moral das tropas" proletárias no avanço às riquezas, até porque guerras intensas muito longas costumam exaurir as tropas.

sexta-feira, 2 de março de 2007 22:17:00 BRT  
Blogger O Anão Corcunda disse...

O grande mérito de Vargas e JK foi ter trazido o Brasil ao capitalismo, enfim. Deixamos de ser roça.

Mas: suas políticas estavam minimamente preocupadas com distribuição de renda e com o combate às desiguladades? Ou houve um crescimento da desigualdade?

Dizer que o Brasil cresceu nessas épocas, mas ressalvando que não houve distribuição de renda - isso não me parece um injustiça, nem uma inverdade.

Isso não significa omitir, entretanto, que, em níveis absolutos, a vida do trabalhador melhorou. Como muita riqueza passou a ser produzida, seus mínimos históricos se elevaram. Esse mérito de Vargas e JK é inquestionável, e acho que o próprio Lula nunca lhes negou isso. Apenas tenta introduzir que ele quer, que ele tenta fazer algo diferente. Faz parte, ao meu ver, de uma legítima propaganda política.

Mas aí eu acho que um outro conceito precisa entrar na análise, para não ficarmos restritos a esquemas muito positivistas: as demandas sociais.

Se um país produz mais riqueza, é de se supor que sua população passe a ter mais demandas que antes. Ninguém quer geladeira numa sociedade que não produz geladeiras. Ninguém quer tênis Nike numa sociedade onde a Nike não existe. Ninguém quer comer pizza numa sociedade sem muzzarela.

E é claro que isso também precisa ser pensado levando em consideração a produção no capitalismo global.

Há uma equação que me parece fundamental para entendermos a distribuição das riquezas: o aumento da demanda foi compensado nessa distribuição? Ou o crescimento econômico que tivemos fez também crescer a frustração de demanda? Como se mede isso em termos numéricos?

Afinal de contas, podemos ficar somente em número absolutos?

A gente tem fome de quê?

Acho que essa questão da demanda é fundamental também para começarmos a entender de que formas uma pobreza pode levar a uma violência.

sábado, 3 de março de 2007 10:29:00 BRT  
Blogger O Anão Corcunda disse...

Entrando no debate sobre acumulação e crescimento:

a acumulação de capital é necessária para o crescimento do próprio capital. Numa sociedade socialista não haveria capital. O capital só existe com propriedade privada dos meios de produção.

O crescimento econômico numa sociedade socialista se daria por acúmulo de trabalho e de conhecimento (que vem do trabalho). Não tem nada a ver com "métodos militares". Tem a ver com a propriedade dos meios de produção. Como o produto do trabalho é coletivizado, o trabalhador produz para si próprio, e não para o dono da fábrica, então ele tenderia a produzir com motivação social e civilizatória. Não trabalharia com o intuito individualista de simplesmente ganhar seu salário, mas de produzir uma riqueza coletiva.

Mas é claro que é muito difícil chegar nesse estágio de refinamento, num socialismo avançado. Não é de uma hora para outra. Não é de uma vez. E é complicado quando um país, isoladamente, tenta dar grandes saltos em curtos períodos históricos. Na URSS, foi produzida muita desigualdade. Isso não lhe tira o caráter socialista, mas é preciso avaliar que lá não se chegou em um estágio muito avançado. E não só por causa de erros, mas também pelo momento histórico.

sábado, 3 de março de 2007 10:52:00 BRT  
Blogger O Anão Corcunda disse...

José Augusto,

não conheço essa passagem do Freud em que ele usa um conceito de "instinto de recompensa" "à semelhança do prazer". Em que lugar está isso?

Abraço.

sábado, 3 de março de 2007 10:55:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Anão,
Eu não fiz uma citação exata de Freud, por isso usei o termo "à semelhança".
Freud formulou o princípio do prazer (desejos e necessidades instintivos).
A neurociência moderna, identifica o sistema de "recompensa" ou de "busca" (que inclui a procura de prazer), controlado pelo neurotransmissor dopamina, que apresenta uma incrível semelhança com a "libido" freudiana (Segundo o neuropsicólogo Mark Solms).

Daí, o que fiz foi traçar uma analogia, de que é mais fácil motivar as pessoas com recompensas (que remetem ao prazer), do que motivar pela repressão do dever, do medo do castigo.

Mas, pra falar a verdade, citar Freud foi infeliz porque mais confunde (a mim mesmo) do que ajuda a explicar. Até porque Freud também usa o processo de recompensas e castigos pelos pais para explicar o superego, o que acrescenta mais ingredientes na complicação.

Minha idéia se limita a expressar que "... o capitalismo é mais eficiente em gerar riquezas rápidas, porque estimula diretamente o instinto de recompensa [do indivíduo] ..."
E reconheço que é melhor deixar Freud fora disso, ou deixar explicações para quem entende a fundo sua obra, o que não é meu caso.

sábado, 3 de março de 2007 12:41:00 BRT  
Blogger Anão disse...

José Augusto,

o conceito de princípio de prazer é bastante simples. Trata-se de uma operação psíquica de busca de prazer e evitação de desprazer.

Mas essa teoria de recompensas e castigos nada tem a ver com a psicanálise freudiana. Essa é a teoria chave do behaviorismo, essa sim uma escola que vai ter ligações íntimas com a neurociência.

Em termos freudianos, é impossível falar de um "instinto de recompensa".

Um abraço.

sábado, 3 de março de 2007 14:26:00 BRT  
Blogger Bruno Abreu disse...

Caro Alon,

atendendo ao seu pedido, coloco, aqui também, minha reflexão:

você afirma que a "que a fala do presidente não tem nenhuma conexão com a realidade. O povo não ficou mais pobre no período entre 1955 e 1985, pois todos os indicadores sociais melhoraram nessas três décadas." e desafia "qualquer leitor deste blog a provar que as condições de existência no Brasil tenham piorado exatamente quando o Brasil mais avançou, entre os anos 50 e 80 do século passado."

A afirmação e o desafio não contemplam toda questão do crescimento brasileiro entre 1950 e 1980. Primeiro, porque o movimento da economia brasileira começou em 1930, que é o ano contra o qual se deve fazer comparações. Depois, porque o grau de desigualdade na distribuição do crescimento foi tão elevado que desqualifica a afirmação de que melhorou para uns mais do que melhorou para outros, uma vez que a melhoria dos menos favorecidos aconteceu na escala que o crescimento pré-1930, ou seja sem as mudanças que a economia sofreu, teria provocado. Dessa forma, o crescimento da economia entre 1950 – como você quer – e 1980 deixou sim mais pobres os não-favorecidos, que é a expressão correta neste caso, em relação aos favorecidos pelas mudanças na economia. Dessa forma, a afirmação do presidente Lula encontra amparo na realidade o que é corroborado pelo próximo volume do Cambridge History of Latin America -1930-1980, no qual o artigo do professor Marcelo de Paiva Abreu, cujo rascunho pode ser lido em http://www.econ.puc-rio.br/PDF/td433.pdf , informa, ao comparar os dados econômicos do país,

"Since 1940 improvement in GDP per capita was not reflected in similar improvement in
the major social indicators. Life expectancy improved little in the 1940’s and was
stagnant in the 1960’s: it was 42.7 years at birth in 1940 and reached 62 years in 1980.
Progress in relation to literacy rates was more evenly distributed over time as it increased
in the same period from 43% of the population over 10 years of age to 74.5%.
International comparisons show that Brazilian indicators have been consistently well
below the levels which would be predicted by estimates based on the income per capita
of other developing economies.
Improvement in social indicators was unevenly distributed between different
regions. The indicators for poorer regions improved less than those for the richest
regions. Infant mortality in the Northeast stagnated in the 1940’s while there was
progress in the South and the Southeast. In 1940, infant mortality was 1.4 times higher in
the Northeast than in the South. This increased to 1.54 in 1950, 1.78 in 1960 and after
improving very little in 1970, reached 1.96 in 1980.

quarta-feira, 7 de março de 2007 16:24:00 BRT  
Blogger Bruno Abreu disse...

Caro Alon,

A respeito da sua hipótese, observe a frase:

A prática de esporte é prejudicial à saúde.

Ela é inaceitável. Agora observe esta outra:

A prática indiscriminada de certos esportes violentos é prejudicial a saúde dos jovens subnutridos.

É a mesma frase, acrescida, no entanto, de uma série de adjuntos que a tornam absolutamente aceitável.


Tal qual esse exemplo do livro Comunicação em Prosa Moderna, de Othon M. Garcia, é a sua hipótese. Você, na condição de cientista social, sabe que as explicações sociais que tentam simplificar e reduzir a realidade tornam-se falsas. No Brasil, durante o período assinalado, não aconteceu, apenas, crescimento com distribuição desigual de renda. É princípio econômico que todo país deve fazer tradeoffs entre eficiência (crescimento) e eqüidade (distribuição). Por esse princípio, tão somente, a sua assertiva estaria correta. Teorias, contudo, não valem sem os fatos, e os acontecimentos brasileiros precisam ser "adjuntados" à sua hipótese. Quando isso ocorre, ela torna-se incorreta.

Para que o crescimento tivesse gerado apenas distribuição desigual, as suas políticas deveriam deixar a economia funcionar de forma liberal. Dessa maneira, ocorreria, apenas, a simples troca necessária entre eficiência e crescimento. A interferência governamental, contudo, operou para tornar o crescimento do Brasil excludente. Na educação, por exemplo, as políticas públicas agiam contra a ascensão social – forma liberal de distribuição das rendas do crescimento – ao reservar metade das verbas públicas do setor às universidades federais freqüentadas em sua maioria por filhos das camadas mais abastadas, enquanto nas escolas públicas primárias menos de 10% concluíam o curso e destes, menos de 15% terminavam o secundário (Brasil: de Castelo a Tancredo, pag. 12), não havia, também, nenhum programa oficial de alfabetização rural até 1965 com a criação do Mobral. Essa mesma população rural, 60% da população à época, não era abrangida pelas leis trabalhistas do período criadas especifica e deliberadamente apenas para o trabalhador urbano, sujeitado-os a manterem as mesmas relações sociais pré-desenvolvimento, qual seja, o sistema de compadrio tão abjeto aos olhos de hoje; não houve, também, crescimento na atividade econômica nas atividades rurais tradicionais, que ocupavam a maior parte da população do campo, como café, cana-de-açúcar e cacau. Apenas em 1988 a parcela rural da população, já reduzida a 30% mas ainda assim expressiva,passou a ser atendida pelo sistema de previdência social. Nem Getúlio, nem Juscelino, nem nenhum dos governos militares tentou mudar essa situação, ao contrário, consideravam-na necessária para não tolher o desenvolvimento.

Aos que tentavam incluir-se, saindo do campo em direção a cidade – e que poderiam receber parcela do crescimento, mesmo desigual – a condição não era tão melhor, pois a moradia era a favela e os empregos; como empregadas domésticas, trocadores de ônibus, apontadores do bicho ou porteiros não eram atendidos pelas leis trabalhistas, além disso, os salários eram mantidos baixos pelo excesso de mão-de-obra. Um quadro que está indicado n excerto que lhes mandei ao informar "International comparisons show that Brazilian indicators have been consistently well below the levels which would be predicted by estimates based on the income per capita of other developing economies." [ eu havia enviado um email anterior ao Alon com as reflexões do professor Marcelo de Paiva Abreu que serão publicadas no História da América Latina, da Cabridge University , e que estão em Studium] Isso aconteceu porque as que as tomadas de decisões do nosso desenvolvimento foram excludentes pois aumentaram deliberadamente a distância entre as rendas dos segmentos da população tornando os ricos ainda mais ricos e os pobres ainda mais pobres em relação aos primeiros, único padrão de comparação aceitável porque se é pobre absolutamente apenas quando se está em condição de subsistência, nos outros casos, é-se pobre em relação à alguém.

Não era, assim, apenas a eficiência liberal que operava no desenvolvimento do Brasil, haviam políticas públicas propositais para excluir os mais pobres dos frutos do desenvolvimento. Um dado a comprovar isso é a mortalidade infantil, presente no texto que lhe mandei ontem, a diferença entre as áreas predominantemente urbanas do Sudeste e predominantemente rurais do Nordeste dobrou em 40 anos. Por isso, não é possível comparar a renda de João das Brenhas cidadão analfabeto de São José do Bofete, na década de 50, com a de seu filho João do Morro com rudimentos de alfabetização, na década de 70. É possível, entretanto, comparar os padrões de vida de ambos e, nesta comparação, a qualidade de vida de João do Morro, por conviver com os problemas da urbanização descontrolada, era inferior a de seu pai, o que significa que a pequena parcela do crescimento econômico recebida por João lhes foi tomada. Ainda que João do Morro houvesse permanecido em São José do Bofete estaria enfrentando os mesmos problemas que seu pai, com renda de subsistência que é o que caracteriza a economia do sertão e dependência social de um latifundiário que não mudou de atividade – estagnada – nem de atitude – mandonista – no período. Ao mesmo tempo, o cidadão de classe média, nos anos 70 estava em situação melhor do que a do seu pai se ambos provinham do mesmo ambiente, porque recebeu parcela desigual do desenvolvimento . Para incrementar ainda mais o quadro e finalizar a argumentação, resta ainda um outro fator, essencialmente econômico: a inflação, relativamente alta nas décadas de 60 e 70 e absolutamente alta na de 80. Ao diminuir o valor real da moeda, a inflação transferiu renda real dos que dependem do papel-moeda para os que não dependem, ou seja dos pobres para os ricos, invertendo a fórmula do sistema de distribuição do crescimento, que é demonstrada pelo poder aquisitivo do salário mínimo no período.

Quando o presidente Lula afirma que os mais ricos ficaram mais ricos e os menos favorecidos ainda mais pobres estava referindo-se a esse conjunto de políticas públicas e, pelo que apresentei, ele está certo. Retórico é o presidente quando fala em "elite que a 500 anos governa o Brasil" pois elite brasileira é um fenômeno do século XIX (Bethell, 1996). Uma vez que as políticas brasileiras e as conseqüências delas, como a inflação, agiam para que alguns permanecessem pobres ou, ao menos, recebessem parcelas menores da renda gerada pelo desenvolvimento, caso da classe média, como prerrogativa para que outros se tornassem ricos a assertiva do presidente encontra amparo na realidade e a sua hipótese ampara-se de forma menos consistente nela.

Saudações cordiais,

Bruno Pereira Albuquerque de Abreu

quinta-feira, 8 de março de 2007 13:26:00 BRT  

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