sábado, 17 de março de 2007

Cada um na sua (17/03)

Vejam como eu reescrevi a nota que a revista Veja publicou sobre a morte de dom Ivo Lorscheiter, bispo de Santa Maria (RS):

Morreram: dom Ivo Lorscheiter, bispo de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Durante o regime militar, à frente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ele denunciou as torturas e os assassinatos de esquerdistas nos porões dos quartéis. Lorscheiter foi um dos principais defensores da Teologia da Libertação, uma concepção que se elevou acima do pensamento religioso médio de seu tempo. A teoria foi formulada por padres latino-americanos que tentavam conciliar cristianismo e marxismo. O suporte à Teologia da Libertação lhe valeu uma admoestação do papa João Paulo II, que o alertou, na qualidade de presidente da CNBB, para os riscos da politização do Evangelho. O bispo também apoiou a criação de grupos de camponeses armados que, a pretexto de lutar pela reforma agrária, deram origem ao MST. Dia 5, aos 79 anos, de falência de múltiplos órgãos, em Santa Maria.

Fiz poucas alterações no texto original da Veja. Foram apenas mudanças de forma. Troquei "excrescência" por "uma concepção que se elevou acima do pensamento religioso médio de seu tempo". Senti-me autorizado pelo Houaiss, para quem "excrescência" pode ser "ponto que se eleva acima da superfície; saliência, proeminência". Também troquei "bandos" por "grupos de camponeses". "Bando", para o Houaiss, pode significar "integrantes de um partido ou facção". Por isso, acho que não cometi nenhuma violência contra a revista. Eu não me incomodei com o texto da Veja sobre dom Ivo. Nem teria abordado o assunto, mas recebi um monte de emails querendo saber minha opinião. Eu não acho que a Veja tenha ofendido a memória de dom Ivo. Ela não o acusou de nenhum crime. A Veja só usou algumas palavras adequadas a seu propósito: deixar claro que discorda de várias das coisas que dom Ivo fez em vida. Quem diverge ideologicamente da Veja pelos mesmos motivos que levaram a revista a desgostar de dom Ivo deveria ler a nota da Veja sobre a morte do religioso como um elogio. Eu acho bacana o sujeito ter na sua biografia uma tentativa de sintonizar duas das três culturas mais importantes da nossa época, o marxismo e o catolicismo (a outra é o liberalismo). Eu acho muito respeitável o cara ter ajudado trabalhadores sem terra a resistirem ao avanço do latifúndio, usando, se necessário, a força para responder à violência. Aliás, o uso da força é uma marca da história agrária do Brasil. Não há novidade nisso. Todo mundo sabe que o campo brasileiro só será pacificado quando houver terra disponível para todo mundo que nela queira trabalhar. Em resumo, eu acho uma bobagem essa polêmica em torno do que a Veja escreveu sobre dom Ivo. E, como muitos brasileiros, sou grato a dom Ivo por ele ter ajudado a acabar com a ditadura -coisa que, aliás, a revista registrou com todas as letras.

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11 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Cada vez mais preocupada com a fraqueza da opinião pública, que é refém do petismo, estou decidida a assinar Veja assim que expirar minha assinatura da Folha. Não basta a sórdida campanha de desqualificação da revista perpetrada por petistas, que não aceitaram sob hipótese algumas as primeiras denúncias de corrupção de seu partido, que, corajosamente, foram feitas por Veja. Alon, corrigir os adjetivos usados por Veja no anúncio de morte de Dom Ivo Lorscheiter é simplesmente ridículo. A revista expressou, por meio de adjetivos até brandos, uma honesta opinião a respeito do posicionamento ideológico do bispo e do uso político indevido da Igreja. Não se trata de nenhuma concepção ACIMA do pensamento religioso e médio de seu tempo, mas de um claro desvio do pensamento de uma instituição religiosa, sendo explorada por orientações ideológicas notadamente partidárias...

sábado, 17 de março de 2007 11:16:00 BRT  
Anonymous Gerônimo Vargas disse...

Alon. Você conseguiu fazer uma crítica sem desqualificar, sem negar o direito de opinião ao diferente, sem desrespeitar ninguém. É por coisas assim que seu blog é lido e respeitado até por quem, como eu, discorda de muitas coisas que você pensa. Você está certo, a Veja só manifestou uma opinião. Ela não desrespeitou dom Ivo. E você manifestou uma opinião oposta à da Veja. Eu, que conheci dom Ivo, sei que ele não se incomodava quando era criticado. Foi por essa liberdade de crítica que ele lutou toda a vida.

sábado, 17 de março de 2007 13:57:00 BRT  
Anonymous Paula M Bastos disse...

Sensacional. Você fez a crítica sem agredir. Parabéns.

sábado, 17 de março de 2007 13:59:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Ou é tudo isso que você falou Alon, ou talvez os repórteres da Veja não conhecem o real significado da palavra excrescência...

sábado, 17 de março de 2007 14:53:00 BRT  
Blogger Vera disse...

Eis aí um exemplo puro e acabado de sofisma.

sábado, 17 de março de 2007 15:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Vera, por que sofisma? Você poderia explicar?

sábado, 17 de março de 2007 15:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Muito bem Alon, ensine essa turma como fazer o debate político.

sábado, 17 de março de 2007 15:53:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Tendo em vista a postura quase de panfleto partidário que a Veja adotou nos últimos tempos, uma nota dessas é alguma coisa deveras interessante.

Será que finalmente 'caiu a ficha' de que essa coisa de transformar picuinhas em guerras sem quartel, no final, só prejudica a todos os lados envolvidos?

sábado, 17 de março de 2007 17:35:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

As atitudes de D. Ivo foram corajosas e devem ter ajudado a salvar vidas.

Quanto à teologia da libertação, eu respeito a sua opinião. No entanto, ao menos do ponto de vista da Igreja, o que você afirma é quase uma heresia. Marxismo e cristianismo são inconciliáveis.

Tanto a ação popular católica (AP) como a teologia da libertação são iniciativas de católicos para oferecer uma face humana ao comunismo marxista. Ou seja, são tentativas de submeter o marxismo à doutrina eclesiástica. O surgimento desses movimentos católicos deve ser pensado dentro dos seus marcos históricos: as Encíclicas sociais e o Concílio Vaticano II.

Em 1968, durante o pontificado de Paulo VI, o Padre Joseph Comblin apresenta um documento na 2ª Conferência do CELAM em Medellin. Neste texto (que repercute as tentativas de união entre pensamento marxista e doutrina da Igreja efetivadas por intelectuais europeus) está a origem intelectual das tentativas latino americanas de união do catolicismo e do marxismo de face humana.

Isso influenciou o comportamento da Igreja Católica no Brasil até o pontificado de João Paulo II, que, de acordo com alguns católicos, representou a guinada conservadora da Igreja e determinou, desse modo, o enquadramento dos católicos militantes da teologia da libertação.

Entendo quando você chama de movimentos culturais ao catolicismo, ao marxismo e ao liberalismo. Mas se quisermos ser rigorosos, ao menos em relação ao ocidente, temos que dizer que existem apenas duas grandes culturas: a grega e a judaica. Mesmo o catolicismo, a primeira religião universal, "deve reverência máxima ao judaísmo".

Há um texto, Alon, do R. Romano, que examina a marca do orgulho na origem do nosso tempo.

Esta "paixão mais natural do ser humano (é) reprovada tanto na cultura grega quanto na judaica”. Ela, o orgulho, conclui o autor, poderá conduzir a humanidade a horrores ainda piores que os totalitarismos do séc. XX.

O juízo cristão sobre a recusa de Jesus pela comunidade judaica é oriundo de uma Igreja histórica que sucumbiu ao orgulho. Este juízo "armou tropas e massas contra o povo judeu e lhe abriu as portas do inferno nazista".

Ao falarmos de Igreja Católica, é preciso sempre saber bem do que estamos falando.

O texto fala do nosso assunto (política e religião) e pode ser lido aqui:
http://www.unimontes.br/unimontescientifica/revistas/Anexos/artigos/revista_v6_n1/03_dossie_os_lacos.htm

abs.

sábado, 17 de março de 2007 19:32:00 BRT  
Anonymous Artur Araújo disse...

Alon,
Acho que fiquei pascácio. Por que será que "Veja" não redigiu como vc, já que os "conteúdos seriam os mesmos"? Alguma crise léxica naquela redação?

sábado, 17 de março de 2007 19:46:00 BRT  
Blogger Cláudio de Souza disse...

Caro Alon,

Excelente post. Mas eu e vc somos jornalistas e sabemos o que é, hoje, a Veja. O que me preocupa é que ainda tem muita, mas muita gente que lê essa revista como se fora um produto jornalístico. Sempre que alguém, numa roda de pessoas, começa uma frase com a observação "Esta semana eu li na Veja que..." é infalível que o que se segue seja besteirol ou barbaridade. Outro dia -- já no segundo mandato!!! -- ouvi na mesa ao lado, em um restaurante aqui em São Paulo, uma mulher dizendo coisas como "o Lula mesmo em cima do Rolls Royce parece que tá no pau de arara", ou "que vergonha, aquela vagabunda [no sentido de não trabalhar] da Marisa um dia já foi recebida pela rainha Elizabeth, e o Lula, geeeente, nem quis colocar o traje obrigatório". Essa mulher citou a Veja várias vezes ao longo da noite. Eu sei que isso não prova nada, mas se ela tivesse começado as frases com "Esta semana li na Economist..." talvez o nível fosse mais alto.

Abraços!

sábado, 17 de março de 2007 22:17:00 BRT  

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