sábado, 31 de março de 2007

A Oban não era de esquerda (31/03)

Antes mesmo de a cúpula palaciana, comandada por Luiz Inácio Lula da Silva, colocar a Aeronáutica de joelhos diante dos sargentos amotinados do controle nacional de tráfego aéreo, este blog produzira ontem duas notas que (não serei modesto) apontavam para a tendência dos acontecimentos. Às 17h44 foi postado "Ou vem o nosso aumento ou paramos o Brasil!". E o Brasil parou alguma horas mais tarde, quando os controladores-sargentos emparedaram a Força Aérea Brasileira e obtiveram o apoio formal do governo a suas reivindicações sindicais. No segundo post, às 21h15, escrevi Estupidez ideológica conduz a crise militar. Um trecho:

A mobilização dos controladores conta com simpatias dentro da cúpula do governo. Escorados nesse apoio político, os controladores vêm escalando sua confrontação com o comando da Aeronáutica. Hoje, chegaram finalmente ao motim. O caos atual deve ser debitado na conta de uma certa estupidez ideológica, que associa desmilitarização a democracia. Bem, o resultado da condução insana dessa questão pelo governo é uma crise militar. Eu, sinceramente, não consigo entender o que pretendem os governantes com essa estratégia, digamos, "janguista". Talvez julguem que os militares estão tão enfraquecidos politicamente que será fácil colocar a Força Aérea Brasileira (FAB) de joelhos diante de um sindicato amigo.

Um pouco mais tarde, o governo federal aceitou as reivindicações dos sargentos amotinados, quebrou a cadeia de comando da Aeronáutica e chancelou a desmoralização da hierarquia militar. Quem manda agora no controle do tráfego aéreo no Brasil é o sindicato dos controladores de vôo, sob as bênçãos de Lula. Ambos dividem o poder de decidir quando -e se- os aviões comerciais vão decolar ou aterrissar. Desde o momento em que, por determinação do presidente, autoridades civis federais assinaram um documento no qual o governo revoga decisões disciplinares tomadas pela hierarquia da FAB, há um segmento das Forças Armadas, organizado sindicalmente (o que a Constituição proíbe), que responde diretamente ao Palácio do Planalto, sem a intermediação dos chefes militares. Isso é uma clara violação da legalidade, do Estado de Direito. A hierarquia militar é um elemento constitutivo da democracia, por duas razões: a obediência à cadeia de comando garante a prevalência do poder civil sobre a força armada militar e também permite, em contrapartida, que o poder civil só possa empregar a força armada por meio de uma estrutura hierarquizada e submetida à lei. Esses dois elementos deixaram de existir no Brasil a partir de ontem, desde o momento em que o presidente da República abraçou os controladores militares de vôo e desenhou uma "nova hierarquia", sindical, do controle do tráfego aéreo do Brasill. Vamos esperar pelos desdobramentos. Nada impede que o presidente da República recue de sua decisão e reponha as coisas em seu devido lugar. Esse, aliás, será o conselho que os verdadeiros amigos darão a Lula quando ele voltar da viagem aos Estados Unidos. E uma última observação: a culto à indisciplina militar e a anarquia nos quartéis não são necessariamente "de esquerda". A Operação Bandeirante (Oban), por exemplo, não era de esquerda.

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8 Comentários:

Anonymous Artur Araújo disse...

Antes que ressurjam o cassandrismo e as vivandeiras de bivaques: sim, repito-me, boa parte da hierarquia alada já se "amotinou" desde que foi criada a ANAC. Que não haja ilusões. Os controladores, a meu ver burramente, são massa de manobra de parte de seus próprios comandantes.
Aos que pregam o enfrentamento a ferro e fogo, indago: vale o método para os mandantes ocultos ou só para os bagrinhos? Os adeptos do manu militari irão às ruas apoiar o governo se necessário?
Já que é para futucar a memória, que tal a República do Galeão, Parasar, Aragarças e Jacareacanga?

sábado, 31 de março de 2007 11:29:00 BRT  
Blogger Vera disse...

Não entendi bem o que você pretende com a idéia de que o governo ficou de joelhos ante os controladores de vôo; você queria o quê, que prendessem todos eles, demitissem todos eles? Com a sua idade, que intuo pelo seu currículo, e sua experiência de vida e de sociologia, já devia saber que com amotinados excitados e unidos pela "causa", seja ela legítima ou não, o endurecimento só leva ao impasse, em que até podem surgir "mártires". Não leu Durkheim? O racional é negociar uma saída e depois repôr a ordem da legalidade. No auge da emoção (inflada, sem dúvida, por seus colegas de profissão), alguém tem de ter a cabeça no lugar, e saber inclusive que os observadores "de fora", como você, irão sempre acusar os que optam pela razão de covardia.

sábado, 31 de março de 2007 11:52:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Parabéns, mais uma vez, pela visão, interpretação e perspectiva histórica dos fatos. O problema da vez é apenas mais uma das facetas do imbroglio que é o governo Lula (na verdade um rol de boas intenções garroteado e limitado pela restrição de recursos, a qual ele imagina administrar). Diria mais, esse novo conceito de gestão pública que tenta equilibrar sindicalismo reformista com políticos de pedigree e qualificação duvidosa, digo com pesar, vai dar muito trabalho e mais cedo do que se pensava. Um abraço do Augusto.

sábado, 31 de março de 2007 13:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

CÓDIGO PENAL MILITAR:

"LIVRO I
DOS CRIMES MILITARES EM TEMPOS DE PAZ

TÍTULO II
Dos Crimes Contra a Autoridade ou Disciplina Militar


Art. 149 - Reunirem-se militares ou assemelhados:

I - agindo contra a ordem recebida de superior, ou negando-se a cumpri-la;

II - recusando obediência a superior, quando estejam agindo sem ordem ou praticando violência;

III - assentindo em recusa conjunta de obediência, ou em resistência ou violência, em comum, contra superior;

IV - ocupando quartel, fortaleza, arsenal, fábrica ou estabelecimento militar, ou dependência de qualquer deles, hangar, aeródromo ou aeronave, navio ou viatura militar, ou utilizando-se de qualquer daqueles locais ou meios de transporte, para ação militar, ou prática de violência, em desobediência a ordem superior ou em detrimento da ordem ou da disciplina militar:

Pena - reclusão, de quatro a oito anos, com aumento de um terço para os cabeças.

Parágrafo único. Se os agentes estavam armados:

Pena - reclusão, de oito a vinte anos, com aumento de um terço para os cabeças."

O MINISTÉRIO PÚBLICO MILITAR NÃO VAI SE MANIFESTAR? ONDE ESTÁ A PROCURADORIA GERAL?

sábado, 31 de março de 2007 13:42:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O post aborda com precisão o que é critico e relevante nessa história da bagunça planejada.

Quem se dispuser a pesquisar na internet vai encontrar farto material que mostra que a crise e o seu desfecho foram engenhosamente preparados.

O "descaso" do governo, que não enfrentou no nascedouro o que se anunciava pela ação de gente interessada na desmilitarização, não se deu por descuido, como você, Alon, bem apontou no post.

Fica evidente a estratégia dos defensores da desmilitarização em apostar na bagunça e na insubordinação como método para conseguir o que que queriam. Quem colocou Waldir Pires na gestão de uma área tão crítica quanto essa ou não entende nada ou entende tudo, se é que me faço entender.

Na minha opinião, o caldo entornou de vez e isso não foi obra do acaso. Agiram a
"incompetência" governamental numa aliança secreta com os defensores do projeto da desmilitarização. Estes, só agora revelam suas faces. Em segredo, e com o beneplácito de interesses que não sabemos exatamente quais são, articularam durante meses o caos que, como desfecho da "crise", eles nos propiciaram. O pior, não foram punidos e sim recompensados.

Reverter a situação será tarefa difícil. Os controladores e outros ainda secretos interessados na desmilitarização ganharam a guerra pelo controle aéreo.

Faço um paralelo, que talvez horrorize alguns, com o que o tráfico faz nos morros cariocas e periferias de grandes cidades. Lá mandam eles, os traficantes, que constituíram o seu (deles) um estado paralelo dentro do Estado. E assim o Estado de Direito vai sendo lenta e tenazmente corroído. Pagaremos um preço por tal escolha. Sem dúvida a conta virá e não será pequena.

Enquanto os que preparavam o caos agiam de forma muito bem articulada, nossos governantes, como mostra a reportagem do Estadão de hoje, não estavam nem aí. No entanto, eu pergunto: como é possível um governo ser pego de surpresa perante o desdobramento final de uma "crise" que se arrasta há mais de seis meses e na visibilidade dos aeroportos com suas filas imensas? Ou essa gente é muito burra ou é muito espertinha. Definitivamente, não há meio termo, qualquer relativização nessa episódio é sofisma. Lembrando Hegel e a sua história da velhinha desonesta, a questão é saber se tais ovos são ovos podres ou não podres. Espero para logo mais o contra ataque do sofismo triunfante: "quem é você para dizer que meus ovos estão podres?". Ou, nunca antes neste país blá, blá, blá, blá...

Segue trecho da matéria do Estadão:

"O mais sério desafio dos últimos meses, na vida do País — que, embora tenha durado menos de cinco horas, foi encarado como uma grave insurreição de militares — pegou a cúpula do governo inteiramente desmobilizada. Antes que o ministro Paulo Bernardo conseguisse o compromisso, já no final da noite, não havia no Distrito Federal uma única autoridade de primeiro escalão. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava a caminho de Washington, e o vice, José Alencar, em Belo Horizonte. O ministro da Defesa, Waldir Pires, havia saído no meio da tarde para o Rio e estava no início da noite paralisado em um aeroporto enquanto o movimento grevista se espalhava pelos Estados. Também estavam fora de Brasília o ministro da Justiça, Tarso Genro e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, além dos ministros Paulo Bernardo, do Planejamento, e Walfrido dos Mares Guia, das Relações Institucionais. Nem com os diretores da Agência Nacional da Aviação Civil (Anac) se podia contar: eles também tinham viajado e não conseguiram voltar."

sábado, 31 de março de 2007 14:20:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

No post faço apenas um reparo, novamente porque já fiz num outro:

"O culto à indisciplina militar e a anarquia nos quartéis não são "de esquerda". A Operação Bandeirante (OBAN), por exemplo, não era de esquerda."

No caso específico da OBAN, concordo plenamente. Mas derivar disso a conclusão que "O culto à indisciplina militar e a anarquia nos quartéis não são de esquerda" (retirei as aspas originais de propósito) é faltar com a verdade histórica. No campo da esquerda, como em qualquer outro, há coisas boas e belas convivendo com bestialidades. Penso que neste caso o melhor é citar Bobbio e sua belíssima metáfora da história como labirinto: "o que o labirinto nos ensina não é onde está a saída, mas quais os caminhos que não levam a lugar algum".

abs.

sábado, 31 de março de 2007 14:47:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Paulo,

Coloquei um "necessariamente" que acho que resolve o problema.

sábado, 31 de março de 2007 18:07:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Sobre coisas boas e belas, encontrei ontem um site da UNB com três entrevistas sobre o Honestino Guimarães. A que mais me tocou foi a entrevista da Maria Rosa Leite Monteiro, mãe do Honestino. Maravilha, Alon, Não há sequer uma gota de ressentimento nessa mulher.

http://www.unb.br/unb/historia/entrevistas.php

Portal UnB – Alguma vez a senhora pediu para que seu filho desistisse da luta?
Rosa – E adiantava? Ele não deixava de ouvir, mas tinha os argumentos dele.

Portal UnB – Mas o tempo não apagou as marcas...
Rosa – Não. Principalmente, nos meus filhos. Essas marcas são terríveis. Eu tive de ser um pára-raio. Tenho orgulho e dou graças a Deus por ter sido mãe dele. Cumpri meu papel ao meu modo.

Portal UnB – A vida da senhora mudou muito depois disso?
Rosa – Olha, o que dizem por aí é verdade: eu sou uma lutadora. Foi tudo muito difícil, mas na luta fui superando. Eu tinha de proteger os meus filhos. O Norton foi o primeiro a cair. Fizeram muita coisa com o Norton. Mesmo depois de prenderem Honestino, ou melhor, depois de matarem. Eu nunca chorei pelos cantos. Eu choro de alegria. Poucas vezes eu choro de tristeza. E eu não tenho tristeza. Nossa vida não começou aqui e nem vai acabar aqui.

Portal UnB – Se a senhora tivesse uma última chance de falar com seu filho, o que falaria?
Rosa – Iria abraçá-lo, beijá-lo, fazer todas as coisas que ele gostava de fazer. A parte mais importante para mim do Honestino é ele, como filho. Embora, eu ache que o que ele deu ao Brasil foi muito grande e importante. Até hoje, falo com Honestino. Não sou uma mãe chorosa. Eu não preciso querer ver meu filho, eu tenho meu filho. Eu estou aqui e é como se ele estivesse aqui com a gente, naquele retrato, olhando para nós. Para mim, morte não é morte.

Como foi paga a indenização?
Rosa – Eu detesto falar sobre isso. Não receberia dinheiro nenhum em troca do meu filho. Mas eu recebi o troco. Eu não recebi indenização, mas a Isaura (primeira mulher de Honestino) recebeu. Ela não é a família de Honestino. Só não se separou legalmente porque eles viviam na clandestinidade. E pediu mais, e recebeu mais. Um dia eu estava na fila de banco e um sujeito me parou e disse: "A senhora está boa? Está cheia de dinheiro, ficou rica, está bem de vida". Eu nunca vendi filho nenhum. E se a Isaura tivesse conversado comigo para pedir permissão para entrar na Justiça, eu não daria. O pedido foi feito por ela. Ela entrou com advogado. Se você me perguntar quanto foi, eu não sei. O que foi feito com o dinheiro, não sei. As pessoas tinham inveja de um dinheiro que não recebi e nem receberia. Mãe é mãe e só eu sei tudo o que passei. É muito sofrimento.

domingo, 1 de abril de 2007 11:20:00 BRT  

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