quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Uma proposta para a Igreja (22/02)

Uma boa notícia é o tema da Campanha da Fraternidade 2007 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB): Amazônia. Clique aqui para ler a mensagem do Papa Bento 16 para a abertura da campanha, que aconteceu ontem no Pará. A Igreja Católica procura um caminho para ampliar sua influência entre nós e resistir ao avanço de outras igrejas. Não sou dos que defendem que a Igreja se limite a cuidar do espírito dos membros do seu rebanho. O que me incomoda é quando a hierarquia católica se mete a querer ditar regras de comportamento para todos nós que moramos no Brasil, sejamos ou não seguidores da sua fé. Mas a escolha do tema "Amazônia" foi especialmente feliz. Porque eu penso que a Igreja tem preferido, nesse tema, um alinhamento prejudicial aos seus próprios interesses. Observa-se nos últimos anos um apoio pouco crítico de padres e bispos a um preservacionismo fundamentalista, que não oferece às populações amazônicas perspectiva de futuro, de progresso real. O resultado é o avanço de outras crenças. Defender que a floresta amazônica permaneça como um santuário pode ser simpático em Nova York, Paris e Tóquio, mas não dá ibope em Boa Vista, Porto Velho e Rio Branco. Eu sou um otimista. Penso que a Igreja percebeu que do jeito que estão colocadas as coisas ela não vai a lugar nenhum nesse assunto. E o pior (melhor) é que a Igreja tem a proposta mais adequada para fazer da Amazônia não um problema, mas uma grande solução para um monte de problemas do Brasil: a expansão da agricultura familiar. Não é razoável supor que a Amazônia vá ser colonizada pelo latifúndio capitalista. Isso não será aceito nem aqui e nem lá fora. Nem na própria Amazônia. Nem é razoável imaginar que nós, brasileiros, iremos aceitar que nos amputem essa porção estratégica do nosso território. O avanço da agricultura familiar é o caminho intermediário que poderia unir, num pacto, a Igreja, o governo, a oposição, os movimentos sociais e os próprios movimentos ambientalistas não subordinados a uma agenda puramente externa. Seria ótimo que a atual Campanha da Fraternidade pressionasse o Palácio do Planalto para que apresente ao Brasil um projeto de colonização da Amazônia. Um projeto baseado não na lavoura ou na pecuária extensivas, mas na multiplicação dos proprietários rurais. Aqui entre nós, é a única alternativa para preservar o meio-ambiente amazônico. O meio-ambiente tem dois inimigos ferozes: 1) o capital que se expande sem controles pela floresta e 2) a miséria. Não há legislação ambiental que impeça um pai de família de desmatar, se isso for necessário para colocar comida sobre a mesa de seus filhos. Colonizar a Amazônia com projetos fundados na agricultura familiar e comprometidos com o desenvolvimento sustentável. Eis uma proposta que a Igreja poderia assumir e que lhe traria a simpatia e o apoio majoritários da sociedade brasileira.

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8 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon,
Sou simpático à tese, mas confesso desconhecer as condições climáticas e de solo, entre outras, para a viabilização de um projeto como esse. Há fontes sérias que estudam o tema?

Artur Araujo

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007 08:48:00 BRST  
Anonymous Celso Jânio Moskorz disse...

Infelizmente sou obrigado a discordar de você quando diz que 'a amazônia não será colonizada pelo latifúndio capitalista'. Não irá pois já está sendo. Só não vê quem não quer ou não lê, razão do meu espanto com você. Noves fora o interesse econômico na região, há muita gente no mundo. É ilusão imaginar que dentro de algumas décadas essas áreas não estarão ocupadas (tomara que não por favelas, mesmo cercadas por arame farpado ou cheia de padres.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007 10:28:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Artur, obrigado por voltar ao blog. Sua falta foi sentida. É viável, sim. Claro que terá de haver investimento, pesquisa da Embrapa, acompanhamento governamental, etc. Mas é totalmente viável. Como se dizia antigamente, basta um pouco de vontade política. Mas uma decisão dessas deslocaria a pressão fundiária para o Norte do país. Hoje, há uma aliança entre os movimentos sociais e o ambientalismo "apátrida", como diria um velho conhecido nosso. Invadem-se fazendas em São Paulo, em vez de pressionar o governo federal por uma reforma agrária de verdade no Norte. Os movimentos sociais dão as costas a propostas de colonizar democraticamente a Amazônia para não melindrar seus parceiros estrangeiros da luta por um "outro mundo possível".

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007 18:45:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, a enormidade da Amazonia requer latifundios. Ninguem vai daqui para lá se não for para ganhar muito dinheiro, nem eu nem você.
JV

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007 23:27:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, grato e pelas boas vindas e desculpas pela insistência. Há estudos, sérios e já desenvolvidos, que avaliem as condições de sustentabilidade (argh!) agrícola na Amazônia, quais as culturas indicadas em função de solo, regime de chuvas, efeitos da redução da cobertura florestal, etc? Se os há - além de nossa vontade em comum de uma ocupação nacional e economicamente viável da Hiléia (como provavelmente falaria o velho conhecido) - gostaria de ter acesso.
abs,

Artur Araujo

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007 08:37:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Artur, há sim. Vamos falar por email. Qual é o seu email?

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007 09:05:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
sou leitor tres-vezes-ao-dia de seu blog. Achei interessante o post sobre a Amazonia mas não sei por que não consigo postar nos comentários, entao mando para este endereço. Alias adoro seu blog e suas posições são avançadas e heterodoxas nessa imprensa que nem sabe ser conservadora porque é parcial - o que não e seu caso, (conservadorismo nem parcialidade rs).
Ando muito pela Amazônia por dever de ofício - sou sociologo e há alguns anos tenho tido a graça de andar pela Amazônia profunda, aquela que poucos brasileiros conhecem. Aí gostaria de comentar algumas coisas. E por favor, não estou te fazendo reparos ok? Estou só tapando algumas lacunas no seu post sobre a Campanha da Fraternidade. Ora vc é jornalista mas não e onisciente né? Portanto não me leve a mal e debatamos.
A Igreja catolica não se aliou a setores conservacionistas radicais, muito pelo contrário Alon. Durante decadas, alguns setores da Igreja se viram premidos por questões tão explosivas como ignoradas pelo grosso da sociedade brasileira, na questão indígena por exemplo. Aí o CIMI (Consleho indigenista missonário), sempre foi radical em defesa da demarcação das terras indigenas (TIs). Bem a questão da Amzônia sempre foi ligada, para a Igreja, à questão do homem amazônida, nunca foi dissociado. Quase nunca ela defendeu o conservacionaismo, ela sempre se alinhou ao socio-ambientalismo. veja só, veja a prática de homens-bispos absolutamente heróicos nestes sertões. O mais falado ultimamente e D. Erwin Kreutler, um austriaco fantastico, mais brasileiro que eu! A luta deles é de resistencia à sanha dos madeireiros e pecuaristas e depois dos sojeiros, sobre uma região rica em bio-diversidade e mais ainda - onde moram milhares de famílias ribeirinhas, assentadas ou extrativistas - as tais populações tradicionais. Em todo lugar que eu vou eu testemunho sim e a Igreja organizando as comunidades num embate desigual contra estas. Olha Alon, ali não tem partido, não tem essa nossa democracia, impera é a lei do cão. E sempre está lá a Igreja. Olha caro amigo, vc não imagina o que são akeles sertões. E como lá está se travando aquela disputa desigual onde o poder econõmico travestido de modernidade.
Josinaldo Aleixo
Rio de Janeiro

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007 11:00:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

arturaraujo@terra.com.br

Artur

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007 12:33:00 BRST  

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