sábado, 10 de fevereiro de 2007

Uma espera inútil (10/02)

O caso do menino arrastado e morto pelo carro que bandidos haviam roubado da mãe dele chocou o país num grau acima. Sabem por quê? Porque cada um de nós percebeu o quanto está desprotegido diante da barbárie. Se uma criança é despedaçada simplesmente porque os ladrões não tiveram paciência para esperar que ela saísse do carro que roubaram, então nenhuma mãe e nenhum pai têm mais a segurança de que a mesma coisa não vá acontecer com o filho deles. Uma relação simples de causa e efeito. A dor e as lágrimas de cada um de nós, especialmente dos que têm filhos pequenos, nascem da chaga de se sentir sozinho e impotente diante dessa ameaça. Soube de pessoas que trocaram com os amigos, pela internet, fotos de seus filhinhos, como se tentassem estabelecer um elo -mesmo tênue- que as unisse, um elo que diminuísse o medo e a sensação de impotência. É daquelas situações nas quais você se agarra a qualquer coisa, a qualquer tábua que possa mantê-lo boiando enquanto o tsunami vai e vem. E as autoridades federais e estaduais? Estão (com a rara e honrosa exceção do governador fluminense Sérgio Cabral, do PMDB) refugiadas num lero-lero pseudo-sociológico que é um tapa na cara do país. O lero-lero cai como uma luva quando o sujeito nada tem a dizer. Claro que é preciso melhorar a Educação, oferecer mais oportunidades aos jovens, combater a pobreza. Mas será que o crime do Rio tem a ver com isso? Evidente que não. A pessoa não precisa ter ido à escola para saber que despedaçar crianças é errado. A falta de emprego não é razão que justifique alguém esquartejar o filho do outro. Nem a pobreza. Coisas assim são proibidas até pelos códigos de conduta do crime organizado, da bandidagem profissional. O que você acha que o Marcola, do PCC, mandaria fazer com alguém que cometesse um crime como esse? As reações à morte do Joãozinho medem o quanto nossa sociedade está disposta a aceitar o Mal. Pelo que disseram as autoridades, civis e eclesiásticas, parece que nos transformamos num país disposto a conviver com o Mal numa taxa alguns degraus acima. Daí o choque causado às pessoas ter também subido de patamar. Ontem, enquanto o Brasil ardia em febre, o que faziam os governantes? Luiz Inácio Lula da Silva administrava a luta interna do PT. O ministro da Justiça soltou uma nota em que nos adverte contra o erro de tomar decisões precipitadas, em momentos de forte emoção. Obrigado pelo conselho, ministro. Os bispos, quando falaram, pareceram mais preocupados em defender os algozes do que as vítimas. Todos eles mostraram que já sabem o que não devem fazer -reduzir a maioridade penal. Esperei até tarde da noite para ver se algum desses guardiães da pátria nos diria o que deve ser feito nessas situações. Ou para ver se alguém se abalaria a visitar a família destruída e oferecer algum conforto à mãe e ao pai que tiveram o filho despedaçado. Esperei para ver se algum bispo (desses que têm opinião sobre tudo) se dignaria a ir até os pais do Joãozinho, para chorarem juntos e juntos rezarem pela sua alma. Claro que esperei em vão.

Leia também:

Pacote de segurança pronto para ser votado na Câmara


Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

13 Comentários:

Anonymous Daniel disse...

Perfeito.

sábado, 10 de fevereiro de 2007 12:16:00 BRST  
Anonymous Juarez disse...

Obrigado, Alon, pelo seu blog. Que Deus te proteja.

sábado, 10 de fevereiro de 2007 12:51:00 BRST  
Anonymous dra disse...

caro Alon:

não é de hoje q "nossa sociedade está disposta a aceitar o Mal".
um país q se forma e se funda a partir da escravidão, como o nosso, já nasce com a violência e o desprezo pela vida humana inscrito em seu DNA.
a diferença é q agora não são mais os Senhores os q têm permissão pra demonstrar esse desprezo absoluto cotidianamente...

abs,

sábado, 10 de fevereiro de 2007 13:26:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A verdade, Alon, é que nossa cultura não teve sucesso em gerar seres melhores. Vai à Lua, à Marte, transmite fotos e palavras ao outro lado do planeta em segundos, mas ainda cria guetos onde pessoas são tratadas como animais sob nossas vistas estrábicas. Milhares de Bin Ladens estão pouco se importando com a morte de quem sempre os desprezou. A hipocrisia dessa sociedade com a violência que diáriamente se perpetra contra os menos favorecidos é tão grande quanto a desfaçatez que os criminosos gerados por esse estado de coisas por suas vítimas. Acender velas e pedir por paz é a mera constatação de que há uma guerra em curso, uma guerra que só tem destaque quando a vítima é do lado mais forte. A mesma hipocrisia que levou ao holocausto e que continua sob outra forma, mais hipócrita ainda, a vigir no mundo. Da qual o menino de 6 anos é apenas mais uma vítima entre milhares todos os dias.

sábado, 10 de fevereiro de 2007 13:48:00 BRST  
Anonymous Marcelo disse...

Alon, peço-lhe permissão para discordar de sua opinião. O assassinato da criança de 6 anos não é a causa do problema. É necessário combater o problema, mas que penas duras e limitações aos poucos direitos que temos não é a solução, antes de mais, nada a melhor forma de limitar a ocorrência do delito é a certeza da punição não importa o tamanho da pena mas sim a aplicação desta. O evento comentado é resultado de uma série fatores que passa por falta de educação, falta de emprego, falta de oportunidade e falta de esperança, que geram rejeição, ódio e são o embrião da barbarirade que vivemos hoje. Não adianta matar e guerrar pelo mundo afora é necessário alterar o mundo, alterar a dogmática capitalista e repensar a forma organização da sociedade, sem isso não serão solucionadas as causas do problema e, conseqüentemente, os monstros de nosso piores pesadelos continuarão a assombrar diariamente nossas vidas.

sábado, 10 de fevereiro de 2007 14:26:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Marcelo, leia a reportagem abaixo e veja que o assunto nada tem a ver com capitalismo ou socialismo:

"É boneco de Judas", disse bandido sobre menino"- (Agência Estado - 10-02-2007) Isso é um boneco de Judas", disse Diego Nascimento Silva, de 18 anos, para uma testemunha, enquanto o menino João Hélio Fernandes, de 6, era arrastado até a morte. A frase foi dita no momento em que, após a perseguição, a testemunha emparelhou seu carro com o Corsa roubado pelo bando de Diego e perguntou o que era aquilo "quicando".

A testemunha prestou depoimento na 30ª Delegacia de Polícia (Marechal Hermes), no Rio, na sexta-feira. Ela reconheceu Diego como um dos autores do crime que chocou o País.

À polícia, Diego alegou que não sabia sobre o menino preso ao carro. Perguntado sobre as testemunhas que tentaram fazer com que a quadrilha parasse o Corsa, disse ter pensado que se tratava de perseguição por causa do roubo.

Pai

O pai de Diego, Kerginaldo Marinho da Silva, de 35 anos, ajudou a localizar o filho, depois que policiais foram até a sua casa após uma denúncia anônima. Ele entregou uma fotografia de Diego e o telefone do local onde estava escondido. Policiais militares do 9º Batalhão (Rocha Miranda) prenderam o acusado no Morro São José da Pedra, em Madureira, na zona norte.

"Ele fez isso porque gosta de mim e quer meu bem", afirmou Diego sobre o pai. Kerginaldo, que trabalha como porteiro em uma escola, disse não estar arrependido de ter entregado o filho. "Procurei ajudar a Justiça. Ninguém aceita uma coisa dessas. Nunca compactuei com crimes bárbaros", disse.

O porteiro contou que a casa da família, em Cascadura, foi apedrejada e chorou ao falar sobre as ameaças que vem sofrendo desde o dia do crime. "Só peço que deixem meus familiares em paz. Um erro não pode ser pago com outro", afirmou.

Comportamento

Segundo o pai, Diego mudou de comportamento desde o ano passado, quando rompeu o relacionamento com uma namorada e começou a usar drogas, a roubar carros e a passar dias fora de casa. "Ele perdeu peso e mudou de atitude. Os vizinhos falavam que estava fazendo besteira. Mas eu conversava e nada", disse Kerginaldo.

A mãe fugiu de casa quando Diego tinha 2 anos e nunca mais entrou em contato com a família. O pai criou o menino e teve duas filhas com a segunda mulher. Preocupado com o fato de o filho ter deixado de estudar, Kerginaldo voltou à escola. Ele se matriculou na mesma escola municipal onde Diego estudava. Pensava que, assim, estimularia o filho a estudar. Mas não conseguiu mantê-lo na escola.

sábado, 10 de fevereiro de 2007 14:35:00 BRST  
Anonymous Rita disse...

Aqui como tudo o mais,é preciso que haja alguma tragédia para a sujeira,o caos absoluto,vir a tona!Pois,enquanto isso,vai-se levando "com a barriga" a situaçao,com todo o famigerado"jeitinho","malandragem" e outros absurdos do tipo!E com o caos aéreo não foi diferente,pois aqui parece haver um fingimento generalizado,dando a falsa impressão de que tudo está "em ordem" e coisas do tipo!Aliás será que não se deveria mudar os dizeres da bandeira,pois cadê a "Ordem e Progresso"?Se exstem,só se for para os mesmos de sempre!Até quando?

sábado, 10 de fevereiro de 2007 16:16:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Antes que me apedrejem, acho Diego um monstro porque poderia ter parado o carro, então não há atenuante. Mas vamos colocar as coisas no devido lugar: esse tipo de crime é exceção, é acidente. Diego queria roubar o carro e fugir sem complicações, o menino ter ficado preso ao cinto foi um estorvo para ele (o que só corrobora seu desapreço pela vida humana, ainda mais de uma criança). O ministro da Justiça disse o óbvio. Lula não foi feliz em sua fala (como em vários outros discursos de improviso), faltou liderança, mas tampouco acho que seja um insensível e esteja desinteressado (chamou para si responsabilidade no discurso da posse). Quanto à CNBB, a família do menino não era católica, era espírita (Kardecista?). Um excesso de assédio à família nestas situações me pareceria demagogia.

Meu receio é que passada a comoção, fique tudo como antes. Em 1973, no Espírito Santo foi assassinada barbaramente Araceli de 8 anos, e ninguém foi condenado por esse crime já prescrito. O legado da impunidade que estamos pagando vem de longe. No crime deste menino, pelo menos, os criminosos estão presos (ainda que sejam questionáveis as leveza das penas).

Outra observação: O pai de Diego, 18 anos, tem 35 anos, logo, foi pai aos 17. Que idade teria a mãe, que abandonou o lar quando Diego tinha 2 anos? Isso mostra raízes sociais também tão negligenciadas no Brasil desde 18 anos atrás: gravidez na adolescência, jovens de 17 anos fora da escola, desagregação familiar, convívio com homicídios com naturalidade, etc.

sábado, 10 de fevereiro de 2007 16:35:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Repito que só acredito em mobilização popular, semelhante às Diretas Já, para colocar a segurança na ordem do dia: no Congresso, nos executivos e no judiciário. Já os partidos não fazem, condeno a CNBB, OAB, UNE, ABI, etc, por não encamparem uma campanha desta envergadura.

Eu condeno as autoridades menos por essas atitudes de mostrar indignação e confortar as famílias, e mais pela falta de prioridade dada à segurança ao longos dos últimos anos. O nome certo é negligência mesmo. E envolve governos federal, estaduais, municipais, além do judiciário, e do legislativo cujos deputados (principalmente estaduais) indicam para nomeação comandantes de batalhões da PM e delegados de polícia. O que eu espero é uma verdadeira declaração de guerra ao crime. Lula não está sendo a liderança que se espera neste quesito. Da mesma forma que houve obsessão para acabar com a inflação, precisa haver para acabar com essa violência generalizada.

sábado, 10 de fevereiro de 2007 16:41:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

sábado, 10 de fevereiro de 2007 17:49:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A questão não é reduzir a idade para responsabilização penal, mas adequar penas menores para menores, em estabelecimentos que possam efetivamente tentar reformar a consciência desvirtuada, de forma que na idade madura, quando formado o cérebro e definida a personalidade(em torno dos 25 anos), voltem à liberdade de um caminho com mais respeito ao próximo, e menos violência.

domingo, 11 de fevereiro de 2007 00:25:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

domingo, 11 de fevereiro de 2007 03:02:00 BRST  
Anonymous Jura disse...

Alon,

Você mesmo respondeu a sua dúvida do post anterior sobre a pena de morte no Brasil:

>O que você acha que o Marcola, do PCC, mandaria fazer com alguém que cometesse um crime como esse?<

Se não forem assassinados por seus colegas presidiários, esses criminosos vão ser morrer de tuberculose, aids ou qualquer outra doença em breve. Ou vão tomar banho gelado todo dia se a polícia tiver mais pressa. Hipotermia de pobre não tem o glamour do Titanic, mas mata do mesmo jeito.

A pena de morte no Brasil é pre-cabralina e nunca deixou de existir. Os condenados até serviam de alimento aos carrascos. A Praça da Liberdade (!), em São Paulo, era palco de execuções, onde há até hoje a igreja dos enforcados. Nossos antepassados já sabiam que, para ter um mínimo de eficácia, a pena de morte precisa de espetáculo, como o enforcamento de Saddam, ou os fuzilamentos coletivos da China. Nosso mártir Tiradentes foi enforcado com pompa em Ouro Preto, esquartejado, salgado e os pedaços pendurados nos postes. Pra ninguém se meter a besta como ele. Só que hoje ela não é mais administrada pelo Estado. Foi privatizada também.

Pena de morte boa mesmo, só pela Globo, na hora da novela. Essa nossa ai, escondida e disfarçada, não serve pra nada. A gente somos mesmo inúteeeeeeeeel.

Pelos mesmos motivos, aquela americana, secreta, com injeção na veia e médico com hora marcada, também não serve, a não ser pros médicos.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007 11:24:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home