domingo, 18 de fevereiro de 2007

Sob Lula, o capitalismo chega ao Brasil (18/02)

Num post de abril do ano passado (Back to basics para a oposição), afirmei que:

"Outro dia, amigos meus se chocaram quando lhes disse que Luiz Inácio Lula da Silva talvez represente a última oportunidade de nos transformarmos num país capitalista de verdade. Mas isso é tema para um outro post."

Bem, chegou a hora de escrever sobre isso. Guilherme Barros informa na Folha de S.Paulo de hoje que:

"O mercado de capitais no Brasil se tornou a principal fonte de financiamento de recursos de longo prazo das empresas. O total captado pelo mercado superou, pelo segundo ano consecutivo, os empréstimos do BNDES, que sempre foi considerado a principal porta de acesso ao dinheiro de longo prazo do país. Em 2006, o valor total das captações no mercado somou R$ 109,54 bilhões, mais do que o dobro dos R$ 52,3 bilhões financiados pelo BNDES. Ou seja, o mercado financiou o correspondente a 5,5% do PIB, enquanto os empréstimos do BNDES representaram 2,6% do PIB. Em 2005, o mercado captou R$ 61 bilhões. O BNDES emprestou R$ 47,1 bilhões. Os números mostram que o mercado de capitais ganha cada vez mais musculatura. O valor das empresas negociadas em Bolsa atingiu em 2006 R$ 1,5 trilhão, equivalente a 74% do PIB, recorde histórico no país. O crescimento é impressionante, se for levado em conta que, até pouco tempo atrás, a participação das Bolsas no PIB era insignificante. Em 1998, o mercado representava 22% do PIB, e, em 2002, 33% do PIB. O Brasil se aproxima dos países ricos, embora a diferença ainda seja grande. Nos principais mercados, o valor das empresas negociadas em Bolsa fica entre 120% e 150% do PIB. (continua...)"

Há um mês, escrevi em A histeria midiática contra Chávez que:

"O capitalismo não é o reino do mercado e da liberdade. O capitalismo é o império do capital. E nós somos súditos do imperador. O que caracteriza o capitalismo e o distingue é a separação radical entre o trabalho e a propriedade. Uns têm, enquanto outros trabalham e obedecem."

E acrescentei, no mesmo post:

"O problema é saber se o capitalismo, como sistema, vai conduzir a uma sociedade em que todo mundo seja proprietário. Esse é um bom debate. Tem gente que acha que a redução radical do custo do capital, decorrente da explosão digital, vai munir o capitalismo dos instrumentos necessários para fazer essa transição. Veremos. Eu penso que ajuda, mas não resolve. Tem também gente que vê na universalização do mercado de capitais a ferramenta ideal para superar a contradição entre o trabalho e a propriedade. Notam que nos países capitalistas mais avançados quase todas as empresas relevantes são públicas, negociam suas ações nas bolsas e já deixaram há muito tempo de pertencer a um único capitalista."

Não há saída para o capitalismo fora da democratização da propriedade. Os marxistas dizem que o capitalismo será incapaz de levar isso às últimas conseqüências, o que na minha opinião é uma boa aposta. De todo modo, porém, é notável a diferença entre o Brasil e, por exemplo, a Venezuela. Lá, o presidente Hugo Chávez tenta colocar de pé um capitalismo de Estado (chamado de socialismo do século 21) que rompa os impasses econômicos e sociais legados por uma elite parasitária, que sugou as riquezas do país por séculos. E a teoria social conhece bem as tensões entre capitalismo de Estado e democracia. No Brasil, o capitalismo de Estado foi uma marca dos governos militares. E Lula conduz o nosso mergulho num capitalismo mais democrático, em que a pulverização da propriedade acontece pela via do mercado, e não do Estado. Cada país com as suas peculiaridades. Chávez percorre os caminhos possíveis num contexto em que o empresariado se colocou, radicalmente, no campo político antinacional. Lula teve mais sorte. Herdou um país em que os empresários e a esquerda têm há décadas o hábito de conversar, mesmo quando guerreiam.

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8 Comentários:

Anonymous José Augusto disse...

Alon, só não entendi essa frase: "E Lula conduz o nosso mergulho num capitalismo mais democrático, em que a pulverização da propriedade acontece pela via do mercado, e não do Estado."
Você se refere ao capital em Bolsa ser pulverizado? Eu não tenho dados mas acredito que esse investimento em Bolsas ainda não é exatamente popular, e sim concentrado em investidores tradicionais (brasileiros e estrangeiros).

E receio pelos incautos quando investimentos em Bolsa se popularizam rapidamente. Costumam produzir o efeito "boiada". Quando todos começam a comprar ações, a Bolsa sobe muito, atraindo mais gente pela cobiça. É quando os profissionais de mercado vendem, realizam lucros, deixando a grande maioria de incautos que compraram na alta, com ações desvalorizadas, amargando prejuízo. Transferência de capital geralmente da classe média para mais ricos.
Isso aconteceu em 1971 no Brasil, e na "exuberância irracional" no fim dos anos 90 nos EUA.
O que vi mais no governo Lula foi distribuição de renda via Salário Mínimo, bolsa-família e alguns empréstimos de micro-crédito a fundo perdido no Nordeste, e não propriamente pulverização da propriedade.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 01:52:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Nos anos 80 era comum os petistas dizerem que o movimento operário tinha sido inventado pelo Lula. Antes do Lula, nada.
Agora, a grandiloqüência aumentou mais um pouquinho: o Lula está criando o próprio capitalismo no Brasil!
Os epígonos repetem o que diz o Chefão: nunca neste país!
O que será que vai dentro de uma cabeça petista?

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 07:48:00 BRST  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Uma dúvida:

Por que foi o Lula quem fez o nosso mercado de capitais evoluir? O que ele fez? Será que esta evolução não é fruto de avanços econômicos e institucionais durante décadas, muito dos quais partiram do próprio setor privado?

Uma crítica:

Você está levando a agenda ideológica do Chávez na área econômica a sério demais

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 10:21:00 BRST  
Anonymous Antianônimo disse...

O Alon petista? Faz me rir. Leia a porrada que ele deu no Lula uns posts atrás. O que eu entendi deste post é que o Lula está sendo arrastado por uma onda que nada tem a ver com a ideologia dele.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 10:22:00 BRST  
Blogger cid disse...

alon

No tempo em que o PT podia se dar ao luxo do monopólio da ética, eu dizia a meus amigos petistas que o destino do partido era ser social-democrata. Reformista, para a linguagem da época. Eu só não apanhava porque eles eram meus amigos de verdade. Mas espumavam.

Já que os consevadores (e cabe gente aqui, hein!) não adotam verdadeiras práticas capitalistas, que sejam estimuladas ou favorecidas pelo governo do "socialista e revolucionário" Partido dos Trabalhadores. Não vejo razão para tanto espanto. Esse é o país que temos, e não brigar com os fatos ajuda a entendê-lo melhor.

cid cancer
mogi das cruzes -sp

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 16:07:00 BRST  
Blogger Correio da Amazonia disse...

Pois é. Imagine se o dinheiro aplicado no mercado financeiro com o estímulo da taxa selic, fosse aplicado no mercado de capitais, caso houvesse governo sério para fazer a política monetária certa para os indicadores macroeconômicos do Brasil e a conjuntura mundial. Até os investidores internacionais sérios, que aplicam em títulos de longo prazo, estão reclamando da elevada taxa de juros que o governo brasileiro paga no curto prazo. Querem sustentabilidade, e não ganho de risco. Mas o BC continua cego.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 17:19:00 BRST  
Blogger alberto099 disse...

Caro Alon, acredito que você chame a atenção para o fato relevante. Até há pouco tempo a Bovespa minguava, a saída para empresas de capital aberto era tentar negociar seus papeis em Nova York. Essa inversão deve-se à construção de fundamentos econômicos mais sólidos que em qualquer outro momento no período posterior à segunda guerra. E essa construção deve-se mais ao primeiro governo Lula que ao segundo de Fernando Henrique Cardoso (as pessoas atêm-se mais à forma que ao conteúdo quando comparam a política econômica dos dois períodos). Ainda é cedo para dizer, mas talvez estejamos perto de assistir à primeira fase de crescimento liderada pelo setor privado e não induzida pelo Estado. Seria a melhor comprovação de sua tese da implantação de um capitalismo de verdade. Mas deixemos um pouco de lado a rasgação de seda. Não sei até onde concordo com o restante de seu post, nem mesmo sei se o compreendo inteiramente. Acho interessantes as comparações Brasil/Venezuela e Lula/Chaves: diria que ambos os países vêm de organizações sociais que tem pouco de capitalismo e mais de dominação de um estamento parasitário (nem tudo que é empresário é capitalista como parece), ambos os presidentes têm como prioridade a distribuição de renda, mas o caminha adotado é oposto. Chaves busca via Estado, o mesmo Estado que sustenta o estamento dominante, redirecionar a renda, enquanto Lula persegue uma economia liderada pelo setor privado. Boa parte da diferença me parece residir na menor dependência que temos de setores estatizados, como a Venezuela da empresa petrolífera, e menos da convivência de nosso empresariado (que nem todo ele é o que parece) com a esquerda. O problema da opção de Chaves é que, acredito, não leva a lugar nenhum. De resto, estou menos preocupado com a democratização da propriedade, talvez seja questão relevante daqui a duas ou três gerações, mas estou falando de democratização da propriedade não da redução da desigualdade social.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007 08:05:00 BRST  
Blogger Ricardo disse...

Sua análise é um pouco torta. O mercado de capitais no Brasil não é um parâmetro adequado para se medir capitalismo - vide o fortalecimento de oligopólios neste governo (iniciado no 2o mandato de FHC, mas exponenciado neste). O MC só cresceu no Brasil porque não existe outra fonte de financiamento no país - já que banco no Brasil não empresta para empresas a menos de 60% ao ano, o que é inédito no mundo.
Além disso, as empresas em bolsa estão todas controladas por grandes grupos, sem a verdadeira divisão do bolo (onde já se viu ações preferenciais que não dão direito a nada?). Na verdade, o que Lula está fazendo é retroceder o país ao início dos anos 80, com queda de produtividade (boa medida para dinamismo econômico), fortalecimento de oligopólios e uma presença maior do Estado como intermediário na economia, especialmente em setores que não precisam de intermediação. Ou seja, para a venda de facilidades.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007 13:52:00 BRST  

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