segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

O brincalhão da Febraban e o vale-barracão pós-moderno (19/02)

A extorsão praticada pelos bancos nas tarifas bancárias que cobram de pessoas como eu e você ajudou esses mesmos bancos a comprar, com ágio, outras instituições financeiras. Portanto, ajudou-os a ficarem mais fortes (a força que nasce do oligopólio). Mais fortes para poderem nos extorquir ainda mais. Diante desse fato, notem como miam fraco, como gatinhos, os leões que rugem a cada reunião do Copom pela queda mais acelerada dos juros básicos (Selic). Veja o que está em reportagem de Ney Hayashi da Cruz hoje na Folha de S.Paulo:

"O faturamento dos cinco maiores bancos privados do país com a cobrança de tarifas chegou a R$ 27,545 bilhões em 2006, um crescimento de 19% em relação ao resultado de 2005. Os dados foram levantados pela consultoria Austin Ratings a partir dos balanços das instituições financeiras. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal não foram incluídos porque ainda não divulgaram os resultados do ano. Quem mais arrecadou com a cobrança de tarifas foi o Itaú, que no ano passado faturou R$ 9,097 bilhões com a prestação de serviços a seus clientes. O maior crescimento foi alcançado pelo Santander Banespa, cuja receita de tarifas aumentou 23% entre 2005 e 2006. Esse faturamento ajudou a compensar efeitos contábeis que algumas operações tiveram sobre o lucro dos bancos no ano passado. Bradesco, Unibanco e Itaú optaram por descontar de seus resultados o ágio pago na aquisição de outras instituições financeiras. Ágio é a diferença entre o preço pago na aquisição de uma empresa e o valor efetivo do seu patrimônio. A lei permite que esse ágio seja descontado do lucro líquido do comprador, que consegue, assim, um abatimento nos impostos a pagar. (continua...)"

Sacou? Aquela tarifa abusiva que você paga quando passa um doc pela internet serve para o banco comprar outros bancos, abater o ágio do lucro e, assim, pagar menos imposto. Algum plantonista no Guarujá, onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passa o Carnaval, poderia perguntar a Lula se o governo dele pretende fazer algo em relação ao assunto. Mas o inacreditável mesmo está no outro texto do Ney, da mesma reportagem:

"De um ano para cá, mais que dobrou a tarifa cobrada pelos bancos dos clientes que queiram pagar antecipadamente suas dívidas. Segundo pesquisa feita na semana passada pelo Banco Central, as instituições financeiras cobram, em média, R$ 1.118,05 das pessoas físicas que queiram quitar seus empréstimos antes do vencimento, 135% a mais do que em março de 2006. Nas operações com empresas, o aumento foi semelhante: no mesmo período, a tarifa média passou de R$ 484,29 para R$ 978,30, com aumento de 102%. A cobrança desse tipo de tarifa tem ganhado força à medida que a procura por empréstimos cresce no país. Institutos de defesa do consumidor criticam a medida, alegando que ela acaba reduzindo -ou mesmo anulando- os ganhos que uma pessoa ou uma empresa pode ter ao quitar antecipadamente suas dívidas. O Código de Defesa do Consumidor determina que, caso essa antecipação aconteça, o devedor se livra da obrigação de pagar os juros que incidiriam sobre a dívida caso os pagamentos continuassem a ser feitos conforme o cronograma original. Segundo os bancos, a cobrança de tarifa, nesses casos, serve para preservar seu equilíbrio financeiro."

Equilíbrio financeiro? O texto continua, com as explicações do senhor Máximo Gonzalez, diretor da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos):

"'É uma prática comum no mundo inteiro', afirma Máximo González, diretor da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos). De acordo com ele, a cobrança da tarifa é necessária para que se preserve o 'casamento entre ativos e passivos'. Isso acontece porque os bancos trabalham como intermediários, tomando empréstimos no mercado e repassando esses recursos a seus clientes, na forma de financiamentos. O ganho está na diferença entre as taxas de juros das duas transações. González afirma que, quando ocorre uma quitação antecipada, o banco fica em desequilíbrio, pois deixa de receber os juros de seu cliente, mas continua obrigado a arcar com os encargos da captação feita no mercado -daí a cobrança da tarifa. 'Em cada empréstimo existe um risco desse 'descasamento', e a tarifa é calculada com base nesse risco', diz." (Clique aqui para baixar o texto)

O senhor González é mesmo um brincalhão. Os bancos dão um jeito de prender o devedor que deseja liquidar sua dívida e se livrar da escravidão, e o diretor da Febraban vem falar em "descasamento"? Que descasamento, se o banco remunera o poupador a 1% ao mês, enquanto cobra 12% ao mês do tomador no cheque especial? Que conversa é essa, quando sabemos que o Brasil é o campeão mundial do spread bancário? Isso é trabalho escravo, senhor González. É o vale-barracão da pós-modernidade. Se houvesse no país um governo preocupado em garantir alguma concorrência na atividade bancária (e os direitos do trabalhador que tem conta em banco), os senhores estariam em sérios apuros.

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11 Comentários:

Blogger Mi disse...

Adorei o artigo! De fato não sabia de nada disso e creio que realmente pouca gente se interesse pelo assunto. Uma pena, é verdade. Se o governo não cobra é por que também a população mal sabe e pouco se informa, nem por culpa própria, eu diria. Pisa-se em ovos ainda muito quando se fala em política e tornou-se um tema tratado de forma quase sempra intangível.

Abraços.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 13:37:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon

Tenho duas decepções com o governo atual:
1) a taxa de juros.
2) as tarifas bancárias. Os bancos agem como se nós clientes fossemos boçais idiotas.

Solução: trocar toda a diretoria do BC e colocar pessoas mais arejadas com a realidade brasileira, e principalmente comprometidas com o crescimento e desenvolvimento economico social.

AT

Paulo Guzzo

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 13:54:00 BRST  
Anonymous paulo lotufo disse...

Alon, por isso continuo na luta pela privatização do Banco do Brasil, Caixa Economica, Bradesco, Itaú, Santander e demais.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 13:57:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Sou anonimo por falta d saco de fazer cadastro.nome Fabio Torres Filho

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 14:01:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Alon,
Endosso sua críticas quanto à parcimônia com que os bancos são tratados pelo BC, CADE e demais órgãos de governo (inclusive o legislativo), pois Bancos conseguem até fugir do código de defesa do consumidor, alegando terem regulamentação própria no BC, CVM, etc.
Justiça seja feita, o Governo Lula fez um esforço para aumentar a concorrência na oferta de crédito através das Cooperativas de Crédito Mútuo (ou Bancos Cooperativados). Em 2003 elas respondiam 2,14% nas operações de crédito de todo o Sistema Financeiro Nacional. Essas cooperativas funcionam melhor onde a sociedade é mais organizada (entre funcionários públicos e metalúrgicos de SP, por exemplo). A meta do governo Lula é que a participação destas instituições no crédito atinja 5% (não sei como anda, não tenho os números depois de 2003). Quando Lula disse que "o problema do brasileiro era que não levantava o traseiro da cadeira para procurar instituições com juros mais baixos", acredito (pelo que li) que estava se referindo à essas cooperativas de crédito (novamente ele se comunicou mal ao não citá-las explicitamente, provocando mal estar com mais uma declaração atravessada).
Já que não existe cultura da sociedade se organizar coletivamente fora de sindicatos. Já que a imprensa não divulga, talvez falte ao governo ajudar a dar maior visibilidade à essas cooperativas de crédito, para que elas se tornem alternativa ao grande público (como foi o crédito consignado), e incomodem mais os bancos, submetendo-os à concorrência. Um bom começo seria fomentar um Banco Cooperativado Nacional de aposentados.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 15:10:00 BRST  
Blogger ggattolini disse...

Excelente artigo. Na verdade, os orgãos de defesa do consumidor se omitem permitindo que a tal tarifa sobre liquidação de empréstimos exista. O Código de Defesa do Consumidor obriga as instituições financeiras a abater os juros e tarifas calculadas sobre o montante emprestado no ato da liquidação ou amortização da operação. Sou bancário e operador com crédito e vejo esses absurdos acontecerem e os empregados dessas instituições cada vez mais contrariado com essa realidade. Nossos patrões também mentem quando dizem que as tarifas sobem porque o spread cai. A realidade é bem outra como sabemos. O governo se omite pois precisa do dinheiro desses banqueiros para se sustentar, por isso o BC sempre autoriza a criação de novas tarifas e a grande imprensa não faz a crítica correta, pois dependem dos anuciantes. O povo, coitado, obrigado a se bancarizar (temos uma das maiores taxas do mundo em bancarização), paga a conta e não tem onde reclamar, pois a justiça está atolada em processos e não consegue mais dar conta do serviço. É ultrajante.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 15:44:00 BRST  
Blogger Miguel disse...

Alon, vc não está se referindo a bancos, mercado financeiro, coisas serias, vitais para o funcionamento de uma economia. Você está se referindo a um bando que tomou conta do dinheiro dos brasileiros, graças a falta de concorrencia e ao apodrecimento dos executivos do setor. Fazem o que qualquer ladrãozinho faz, mas protegidos pelo governo e pela "justiça",

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 16:30:00 BRST  
Blogger Correio da Amazonia disse...

É isso. Dentre as medidas do Plano Real, que afetou os bancos com a perda das receitas inflacionárias, foram efetuadas mudanças na legislação com exigência de maior percentual para o depósito compulsório, e estímulo à redução do número de bancos com facilidades para aquisições - como esta de descontar o ágio, e o passivo a descoberto, do imposto de renda futuro. Além de drástica revisão nesta questão de taxas, dando segurança à rentabilidade dos serviços. A dose foi exagerada, já passou da hora de mudar.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 17:10:00 BRST  
Anonymous Antonio Luiz N. Ferreira disse...

Prezado Alon,
Até que enfim,alguém tocou neste assunto vergonhoso.Quando começei a trabalhar, comecei num banco, só se cobrava tarifas sobre cheque visado e ordem de pagamento, e assim mesmo o banco apresentava grande margem de rentabilidade. Já nessaÉpoca os depósitos à vista não eram remunerados.
Hoje, se cobra pela manutenção da c/c, manutençao do cartão eletrônico,taxa por depósitos tanto em cheques como em $,se você utilizar o terminal eletrônico mais que a sua cota,tb paga, só falta cobrar para entrar no banco, em troca não nos oferecem nada, só juros escrochantes pelo cheque especial, pelo CDC.
Vergonha são nossas autoridades monetárias compactuar com isto,parece coisa de sócio ou compadre e, tb permitir o abatimento do IR a pagar, do ágio pago à mais, quando
da compra de outra instituição. Isto é um desrespeito ao contribuinte e ao povo, pois com estas artimanhas, os banqueiros vão se apropriando do nosso dinheiro, deixam de pagar impostos, tranferindo para o contribuinte a carga tributária que lhes caberia pelas regalias concedidas aos banqueiros, pelo governo.
Alguém tem que tomar alguma atitude, para modificar este quadro de privilégios que os bancos têm, além de serem eles os grandes financiadores da dívida publica da união, por isso é que são contra a queda da taxa de juros.
Um abraço.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 21:37:00 BRST  
Anonymous paulo arújo disse...

Alon

Você escreveu: "Algum plantonista no Guarujá, onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passa o Carnaval, poderia perguntar a Lula se o governo dele pretende fazer algo em relação ao assunto"

As matérias citadas no post mostram que o geverno Lula já fez "algo em relação ao assunto":

IHU On-Line - Antes da eleição de Lula, o senhor afirmou em uma entrevista [4] concedida à nossa revista, durante uma visita à Unisinos, que caso Lula fosse eleito, havia a possibilidade de um golpe de Estado por parte das elites. Como o senhor reavalia essa postura com base na trajetória do governo até então?

Roberto Romano – Os mais que possíveis golpistas não precisaram tomar medidas extremas porque o governo Lula, numa traição costumeira entre demagogos, assumiu a política adequada ao capital financeiro. Assim, ele mesmo deu o golpe que, aplicado pelas famosas elites, seria um desgaste para elas. O governo Lula assumiu a tarefa de realizar o que os franceses chamam sale boulot. Quem desejar, traduza a expressão, saborosa como só os franceses conseguem fazer, do modo que julgue mais delicado.

http://www.unisinos.br/ihu_online/uploads/edicoes/1158347673.44pdf.pdf

PS: Está foi a última pergunta de uma entrevista, que está na pág 13 da revista. A entrevista é de 17/10/2005. Fala-se ali sobre, federalismo, democracia, ética, moral.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007 06:28:00 BRST  
Anonymous Beto disse...

"'É uma prática comum no mundo inteiro", afirma Máximo González, diretor da Febraban.
É verdade, é prática comum no mundo todo. A diferença deve estar "só" no valor da taxa de cancelamento.
Em um banco na Espanha, p.ex., se vc faz um empréstimo de uns 5000 euros para pagar em 18 vezes, e quiser cancelar depois de pagar metade das mensalidades, teria q pagar em torno de 90 euros de taxa de cancelamento, ou seja, uns 260 reais. Esse valor representa uns 2% do valor do empréstimo.
Quanto é o percentual de cancelamento aplicado em média no Brasil? Números absolutos enganam...
(Melhor não tocar no assunto dos juros, pois aí já é covardia: por um empréstimo desses na Espanha, pagam-se uns 9% de juros... anuais...).

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007 09:58:00 BRST  

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