sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Menos palácio e mais Maracanã, presidente - ATUALIZADO (16/02)

O período em que mais o Brasil cresceu no último meio século foi com o general-presidente Emilio Garrastazú Médici (1969-74). Vivíamos uma ditadura feroz, mas a economia navegava de vento em popa. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala de vez em quando sobre sua admiração pela dinâmica econômica do período militar. Ainda que tenha, naturalmente, críticas à concentração de renda do modelo vigente na época. O presidente Médici tinha um marketing pessoal eficiente. De vez em quando, ia ao Maracanã e assistia aos jogos com um radinho de pilha colado ao ouvido. Era, sem dúvida, um presidente popular. Nem me lembro mais de quando foi a última vez em que um presidente brasileiro foi ao estádio para ver um jogo de futebol. Lula, por exemplo, adora futebol mas não vai ao estádio. Deveria ir. Se tivesse comparecido no último domingo ao Mário Filho, teria visto um lindo Flamengo e Botafogo. O jogo foi 3 a 3, fora as outras emoções. Antes da partida, os dois times homenagearam o menino João Hélio Fernandes, 6, brutalmente assassinado, arrastado preso ao carro de sua mãe no Rio de Janeiro por bandidos que haviam roubado o veículo. Se estivesse no estádio, Lula teria percebido que a arquibancada não falou em "vingança". Pediu justiça. Está no globoesporte.com: "Fla e Bota homenageiam menino morto no Rio - Jogadores se reúnem no centro do gramado e fazem minuto de silêncio no Maracanã". A reportagem fecha assim:

"Além disso, os rubro-negros entraram em campo com uma faixa com o nome do garoto e pedindo paz no Rio de Janeiro. A faixa foi entregue na concentração do Flamengo (...). Na arquibancada, os torcedores gritaram o nome de João Hélio e pediram justiça."

[Se você, como Lula, não pôde ir ao Maracanã naquele dia, clique aqui para ver o vídeo com a homenagem a João Hélio Fernandes antes de Flamengo e Botafogo]

Vejam o trabalho que eu estou tendo para organizar essas informações, um serviço que deveria ter sido realizado pelos assessores do presidente. Eles talvez tivessem evitado que Lula enveredasse pela extraordinária grosseria que cometeu hoje em São Paulo, quando discursou sobre o caso do menino morto. Disse o presidente:

"Muita gente queria vingança a curto prazo, mas eu digo que o Estado não pode agir emocionalmente."

Eu não me lembro de ninguém que tenha falado em vingança. "Muita gente" falou em justiça, inclusive a arquibancada do Maracanã, que Lula não freqüenta faz tempo. E, desde que João Hélio morreu, voltou ao debate o conceito de maioridade penal, já que um dos assassinos tem menos de dezoito anos. O presidente acha que é uma forma de vingança debater a redução da idade em que o sujeito se torna penalmente responsável pelos seus atos. Lula tem o direito de pensar assim. Mas ele não deveria posto as coisas dessa maneira. Por respeito aos pais do João Hélio. Foram eles que levantaram o debate, foram eles que recolocaram o tema da redução da maioridade penal na agenda do país. Eu não me lembro de uma palavra ou de um único gesto de amargura vindos do pai ou da mãe do menino. Eles até já aceitaram as desculpas dos pais de um dos criminosos que trucidaram o João. Mas Lula não deve estar informado sobre esses detalhes, e até imagino por quê. Nenhum funcionário do governo federal visitou a família destroçada. Os pais do João Hélio não receberam sequer um telefonema do ministro da Justiça ou de um representante dele. Ninguém representou Lula no enterro, nem na missa de sétimo dia. Se algum burocrata de Brasília tivesse ido pelo menos à missa, provavelmente teria sido recebido com o mesmo respeito que a família e os amigos do Joãozinho dedicaram ao governador fluminense, Sérgio Cabral. Sobre o mérito do que Lula disse hoje em São Paulo, talvez eu fale depois. Não tem tanta importância assim. Fica, por enquanto, o registro da inacreditável falta de sensibilidade de um político que nunca teve a insensibilidade entre os seus defeitos. O senhor talvez esteja precisando de menos palácio e de mais Maracanã, presidente.

Atualizado às 21h45 de 19/02: Pais de João Hélio pedem que Brasil não esqueça crime (Extra)

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11 Comentários:

Blogger Vera disse...

Do jeito histérico em que a questão está sendo posta por uma parcela da mídia (Globo e cia.) e alguns politicos (ACM, por exemplo) e "colunistas" (Noblat, por exemplo) mais parece vingança mesmo, ou você ainda não leu e ouviu por aí frases que lembram a "pena de talião". Eu já.

sábado, 17 de fevereiro de 2007 02:02:00 BRST  
Blogger jose roberto disse...

É isso, cara! Você está totalmente OBCECADO. Ou seria obSEDAdo!

sábado, 17 de fevereiro de 2007 09:06:00 BRST  
Anonymous George S Smith disse...

Parabéns, Alon! Não pare de falar no tema! Gente que nem o José Roberto quer que você esqueça do assunto por que eles não têm o que dizer. Veja só a quantidade industrial de besteiras que o Lula falou ontem. Não esmoreça! Pouco a pouco vamos rompendo a blindagem dessa turma "politicamente correta" que não tem nenhuma consideração pela vida humana. Como pode? Eu nunca comento mas não resisti.

sábado, 17 de fevereiro de 2007 09:43:00 BRST  
Anonymous Paula Borges disse...

O Alon tocou no item fulcral: o Lula está descolado da realidade. Virou refém dos puxa-sacos que empesteiam o palácio, como acontece em qualquer palácio. Eu já trabalhei no governo do Piauí e sei o que é isto.

sábado, 17 de fevereiro de 2007 09:46:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Hahahahaha! Essa foi demais! O Lula falou bobagens demais ontem até para o padrão dele que já não é baixo.

sábado, 17 de fevereiro de 2007 09:47:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Eu entendo o que o José Roberto diz. Deveríamos todos deixar para lá e esperar que a "justiça social" do Lula resolva todos os problemas de violência do Brasil. Só que até lá estaremos todos mortos, caro Zé Roberto. Menos o Lula, que mora num palácio e anda de carro blindado, helicóptero e avião.

sábado, 17 de fevereiro de 2007 09:49:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, penso que em momentos graves como este do assassinato de João Hélio, não pode faltar solidariedade da parte das autoridades, especialmente do nosso Presidente, é estranho que este tenha cometido está falha. Também concordo, que é sempre bom os governantes, de um modo geral, devessem ir mais aos "maracanãs", mesmo que isto lhe renda algumas váias, é ruim os governantes ficaram muito tempo longe do calor das massas.
Mas, daí fazer coro a essa onda pela redução da maioridade penal, isso eu não concordo. Não acho que o Lula foi deselegante, apenas colocou de maneira simples, mas contuntende, que é contra essa idéia.
Outra coisa, o crime de João Hélio foi gravíssimo, devemos sim exigir que o debate sobre esse tema seja feito no Congresso Nacional, é embaixo de pressão que algumas coisas andam na política, mas não devemos perder a serenidade do debate.
Há muito por se fazer na política de segurança pública, não podemos jogar todo peso da solução desse problema na redução da maioridade penal. (FÁBIO)

sábado, 17 de fevereiro de 2007 09:59:00 BRST  
Anonymous Reinaldo disse...

Quem está criticando o Alon, dê uma lida no Gabeira da Folha de hoje e tome um simancol:

FERNANDO GABEIRA

O adversário interior

CUBA FUZILOU quatro pessoas que tentavam fugir do país. A China executa, regularmente, seus prisioneiros. Diante disso, erguem-se poucas vozes no Brasil. Silencia o humanismo transbordante de bons sentimentos. Por quê?
Penas rigorosas em si mesmas dependem, para a esquerda, do contexto em que são cumpridas.
No capitalismo, o criminoso é visto como algoz e vítima. O sistema penitenciário, segundo Foucault, é apenas um longo processo de repressão e controle. Idéias que, no fundo, inibem o potencial de reformas. Fora do Brasil, os fatos são mais claros.
Ségolène Royal, no sábado, anunciou medidas duras contra a delinqüência juvenil. Diante das circunstância francesas, não tinha outra saída.
A Dinamarca prevê a maioridade penal aos 15 anos. O país tem um bom sistema educacional, e suas prisões são decentes.
A violência se resolve apenas com leis? Jamais dissemos isso. Mas é a acusação cotidiana. As leis apenas ajudam. Precisam ser trabalhadas em três dimensões. A primeira delas é a preventiva. Mudar a qualidade da polícia ajuda. A segunda delas é de ordem penal: apressar e aumentar o rigor. A terceira é intervir no sistema penitenciário, melhorando sua qualidade.
Quando você quer trabalhar, ressurge o humanismo, o mesmo que nos abandona quando a repressão é de esquerda. E há também as teses de que não se deve agir sob emoção. Com décadas de atraso, poderíamos começar a entender que não existe uma rígida dicotomia entre emoção e razão.
A realidade se moveu com rapidez. Nossas idéias estão envoltas em teias de aranha. Ainda assim há esperança. Acredito que vamos deixar de tratar do tema só em certos momentos. Há consenso sobre um trabalho permanente. De uma forma simplificada, a linha busca evitar os dois extremos do espectro: os que acreditam apenas na força da repressão e os que fazem a política do avestruz.
Quando falo em melhorar a qualidade dos presídios, por exemplo, sinto um vazio. Thoreau dizia que todos os cidadãos de bem deveriam conhecer um presídio. Assim conheceriam melhor a sociedade.
Chegou a hora de uma ação multidimensional. Quem vai coordená-la? No Congresso, posso ajudar. O governo tem um diagnóstico. Alguém precisa encarná-lo. O entrechoque de apetites políticos é um espetáculo desolador diante da imensidão das tarefas. Cadê o novo ministro?
Os que vêem no clamor popular um processo de falsa consciência, deveriam olhar para dentro de si. Saíram da órbita. Discutem cargos e verbas enquanto pedimos paz.

sábado, 17 de fevereiro de 2007 10:10:00 BRST  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Parabéns, mais um post primoroso

sábado, 17 de fevereiro de 2007 11:43:00 BRST  
Blogger O Anão Corcunda disse...

Lula não deveria ter posto a questão da vingança por "respeito aos pais de João Hélio"? Do jeito que você fala, parece que esse discurso da vingança, da lei de Talião, não existe. E parece que os pais do menino agora são criaturas intocadas que devem ter suas vontades todas satisfeitas. Você está, assim como o discurso dominante, fetichizando o evento.

Foram os pais de João Hélio que recolocaram o debate da maioridade penal na agenda do país? Ah, tá bom, esqueci que o João Hélio tem sobrenome Marinho Mesquita Civita Frias.

Alon, meu caro, pense no que você está escrevendo... a grande impressão que tenho é que você está aderindo não só à redução da maioridade penal, mas também à espetacularização dessa morte tão bárbara. Sugerir a ida do presidente àquela missa Global me parece uma idéia totalmente despropositada. Insensibilidade seria se o Lula fosse. Imagina a confusão que seria. Uma missa de sétimo dia não seria, pelo contrário, um momento para elaborar o luto?

Sensibilidade não significa sair aparecendo com soluções mágicas. Mas justamente parar pra pensar sobre o que se deve fazer. Esperar o terceiro pensamento, como diz Guimarães Rosa. Acho que você está confundindo sensibilidade com histeria. E isso é muito, muito grave.

sábado, 17 de fevereiro de 2007 11:49:00 BRST  
Anonymous Jura disse...

Estou ficando com medo, e não é dos bandidos. Quanto mais eu rezo mais aparece assombração...

Medici... vade retro!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007 17:52:00 BRST  

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