sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Homenagem a um amigo (09/02)

Relutei um pouco antes de escrever este post sobre meu colega e amigo Paulo Mendes de Carvalho. Escarafunchei em casa, mas não achei nenhuma foto dele para ilustrar este post [achei uma hoje, 31 de outubro de 2007]. Se você tiver uma e puder me mandar, eu agradeço a gentileza. O Paulinho (como o chamávamos) morreu em 1993, quando servia como diplomata brasileiro no Haiti. Resolvi escrever sobre o Paulinho por causa do debate sobre o "partidarismo" no Itamaraty. Paulinho e eu entramos juntos na Faculdade de Medicina da USP, em 1974. Tinha bastante gente inteligente ali, mas o Paulinho brilhava acima dos demais. Ele achou tempo durante o curso para partir do zero e se tornar fluente em russo (falado e escrito). Politicamente, pensávamos bastante diferente. Ele era um petista doutrinário, antes mesmo de existir o PT. Quando se graduou (1979), exerceu a Medicina durante um tempinho e logo abandonou a profissão. Entrou no Instituto Rio Branco e se formou na turma de 1982-83. Seus dois primeiros postos no exterior foram Moscou e Viena, o que dá uma medida da sua capacidade. Em 1989, ainda na Áustria, o Paulinho formou um comitê pela eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Sabe-se que Lula perdeu a disputa para Fernando Collor. O Paulinho, que estava engatilhado para ir trabalhar na embaixada de Pequim, foi mandado "de castigo" para o Haiti. Em Porto Príncipe, ele acabou encarregado da embaixada quando um golpe de estado levou o Brasil a retirar o seu embaixador. Um dia, em 1993, recebemos a notícia de que o Paulinho tinha morrido no Haiti. Nunca me interessei em saber do que ele morreu -pois isso não o traria de volta. Mas é razoável supor que ele não recebeu a ajuda médica que teria recebido em qualquer outro lugar do mundo. Recebemos o caixão com o corpo do Paulinho e o enterramos em Santos (SP), sua cidade natal. Na minha cabeça, o Paulinho será para sempre um símbolo de como o partidarismo no Itamaraty pode fazer vítimas fatais. Quando ouço ou leio alguns protestos sobre uma suposta partidarização da diplomacia brasileira no governo Lula, minha reação imediata é achar graça. Mas aí eu me lembro do Paulinho, e o único sentimento que me vem é o desprezo pelos que o desterraram só pelo fato de ele ser petista.

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8 Comentários:

Anonymous Jura disse...

O Itamaraty, a Petrobrás, a Anvisa e o Ibama, a Fundação Osvaldo Cruz, o Seade, o Ibama, a USP, o Metrô, a Prefeitura de Salvador, Manaus e Curitiba, bem como todas as demais e os governos de seus respectivos Estados pululam de Paulinhos, de gente talentosa castigada e medíocres protegidos sem nenhum motivo para ambos os casos.
Consequência da República ainda inédita e de nossa eterna mania de só fazer política nos gabinetes, e não nas ruas. De disputar o poder a tapa sem saber pra que. E das relações incestuosas entre o executivo e o legislativo.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007 18:29:00 BRST  
Blogger Luca Sarmento disse...

Vejo esta discução de viés político no Itamarati, atual ou do passado, perder o foco.
Na minha maneira de ver os fatos, é lamentavel que o Brasil perca participação no mercado Americano por questões ideológicas. Não temos riqueza suficiente para bancar este "luxo" político.
No mais, tanto faz a orientação política de quem dirige a nossa diplomacia, desde que o faça com bom senso.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007 20:07:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Concordo plenamente com o Luca.
E também não consigo estabelecer nexo entre o episódio que culuminou na morte do diplomata Paulo Mendes de Carvalho com a entrevista do diplomata Roberto Abdenur.

Se houve perseguição ideológica ao
Paulo Mendes de Carvalho o que temos que fazer é denunciar e lamentar.

Como disse em entrevista a Veja a Prof Maria Sylvia, "a ideologia emburrece". E eu acrecento: a ideologia mata. Claro, sempre em nome de uma "bela" causa.

Interpretando o que escreveu o Luca (me permita a liberdade, Luca), também desconheço ideologia que seja amiga do bom senso.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007 22:16:00 BRST  
Anonymous Marcus disse...

Hahahahaha.

Sim, ficar puxando o saco dos Estados Unidos e se recusar a fazer negócios com outros países do sul não é algo ideológico.

Me engana que eu gosto.

sábado, 10 de fevereiro de 2007 02:24:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Não concordo que o Brasil está perdendo participação no mercado Americano por questões ideológicas. O contencioso Brasil-EUA é localizado no Livre Comércio (ex-ALCA). Cada qual quer liberalização na pauta de exportações que favoreça a si. Como nenhum dos 2 abdicou de defender seus interesses, o acordo não saiu. O comércio bilateral Brasil-EUA também aumentou muito no governo Lula, apenas não foi na mesma proporção com outros países, o que é natural. O mercado dos EUA já está um pouco saturado, há limites para crescimento.
Sobre seu amigo Paulo Mendes de Carvalho, Alon, há 3 coisas a lamentar. A tragédia da fatalidade. A perseguição em si de rebaixá-lo, e ainda por cima, no governo Collor países do 3o. mundo como o Haiti foram relevados a segundo plano, o que deve ter impedido dele desenvolver um trabalho mais profícuo.

sábado, 10 de fevereiro de 2007 02:32:00 BRST  
Anonymous carcamano disse...

A única ideologia clara nas relações atuais entre o Brasil e os EUA me aprece ser o pragmatismo. Por outro laado, a história recente indica que manter relações "carnais" coms EUA nãoa juda muito. A não ser que o pessoal aí considere que a Argentina estava melhor com o Menem do que com o Kirchner. Isso sim é que seria enxergar o mundo por uma lente ideológica bem definida, para usar o termo do Huntington.

sábado, 10 de fevereiro de 2007 09:55:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Laércio disse....
Caro Alon,
É nestes momentos que vejo como é duro, sofrido ser editor de blog.
Para mim alguns comentários ao teu post demonstram que os blogueiros não entenderam nada.
Vejamos pois:
1-vem um e diz "A única ideologia clara nas relações atuais entre o Brasil e os EUA me parece ser o pragmatismo", putz que brilhante conclusão e inédita!!!!
2- vem outro e diz: "Não concordo que o Brasil está perdendo participação no mercado Americano por questões ideológicas." argh!!!;
3-vem mais um e diz "ficar puxando o saco dos Estados Unidos e se recusar a fazer negócios com outros países do sul não é algo ideológico." Eca, é um gênio, brilhante argumentação!!!
4- e mais um: "Concordo plenamente com o Luca. E também não consigo estabelecer nexo ...." sem comentários;
5- este é o campeão "Vejo esta discução de viés político no Itamarati, atual ou do passado, perder o foco." quanta sapiência, nós aqui da planície agradecemos as palavras do olimpo;
Pessoal, o post como o próprio título diz é uma HOMENAGEM, sensível e leal um amigo, ao qual, mesmo não conhecendo me solidarizo, pois vítima da mesquinharia política que assola o país.
Concluindo, faço das palavras finais do Alon as minhas, "o único sentimento que me vem é o desprezo pelos que o desterraram só pelo fato de ele ser petista" e aos posteiros insensiveis que somente se embevecem de ter seus escritos publicados no blog deixando de lado aquilo que nos torna humanos, a tristeza pela perda de um amigo.
Laércio

sábado, 10 de fevereiro de 2007 16:58:00 BRST  
Anonymous Tiago disse...

Pois é Alon, por isso a ideologização das instituições não devem ocorrer. Seja para a qualquer vies.
Como Santista fico muito grato em saber que tivemos entre meus conteraneos uma pessoa de tão grande capacidade e que certamente se junta a outras dignidades de minha terra.
abraços

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007 09:44:00 BRST  

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