sábado, 24 de fevereiro de 2007

Quando não mais é possível obedecer (24/02)

Reportagem d'O Estado de S.Paulo:

Onda de suicídios na Renault

Três mortes em uma fábrica provocam discussão na França sobre excesso de pressão no trabalho

Andrei Netto, ESPECIAL PARA O ESTADO, PARIS

Máquinas e funcionários da maior montadora de automóveis da França, a Renault, fizeram uma paralisação ontem, por um minuto, em três das maiores fábricas e escritórios da empresa. Em silêncio, cerca de três mil trabalhadores, de todos os setores, fizeram uma discreta homenagem a um futuro executivo, morto há quatro dias. A comoção se explica porque o técnico de 38 anos, que era casado, tinha filhos e seria promovido, se suicidou, deixando uma carta na qual explicou a razão do ato mais extremo. “O trabalho é duro demais para suportar”, justificou na carta. Chocante o suficiente para abalar seus colegas, o caso do executivo foi além e estremeceu a opinião pública francesa. Trata-se do terceiro suicídio de um funcionário em quatro meses na sede de Guyancourt, na cidade de Yvelines, nos arredores de Paris. Pior: é o quarto em dois anos. O pesadelo das mortes de trabalhadores começou em 2004, com um suicídio que, mesmo trágico, parecia isolado. Em 20 de outubro passado, porém, o problema se agravou. Um engenheiro de 39 anos, um dos responsáveis pelo projeto Logan, atirou-se do quinto andar do prédio envidraçado de Guyancourt. No meio da manhã, em frente a dezenas de testemunhas, o caso terrificou colegas, mas seguia desconhecido do grande público francês. (Continua ...)


Ainda segundo a reportagem, as pressões por desempenho na Renault aumentaram muito

(...) desde a criação do Contrato 2009, um plano de desenvolvimento implantado na empresa há um ano pelo presidente do grupo Renault-Nissan, o brasileiro Carlos Ghosn. Baseado em metas e resultados, a política visa a aprimorar os resultados financeiros da montadora até 2009, período no qual 27 novos veículos serão lançados, com a missão de reverter a perda de mercado na França.

Isso é o capitalismo, meus caros. Como escrevi em A histeria midiática contra Chávez,

O capitalismo não é o reino do mercado e da liberdade. O capitalismo é o império do capital. E nós somos súditos do imperador. O que caracteriza o capitalismo e o distingue é a separação radical entre o trabalho e a propriedade. Uns têm, enquanto outros trabalham e obedecem.


Ou suicidam-se quando não mais suportam obedecer, faltou escrever.

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7 Comentários:

Anonymous José Augusto disse...

Desde os anos 80, com o advento da geração "Yupie", eu sabia que essa hiper-competitividade não ia acabar bem. O ser humano normal simplesmente não nasceu para isso. Há casos semelhantes em outras organizações mais próximas da gente (da Revista Època Edição 256 de 10/04/2003):

"Policial honesto não tem valor em São Paulo", desabafou o soldado Reinaldo Antônio Domingues, 33 anos, no dia 10/04/2003, em frente ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Casado e pai de três filhos, vestido com o colete da PM, pôs fim na própria vida ao apertar o gatilho do revólver amarrado à sua mão direita. Na carta que segurava pouco antes de morrer, o soldado aponta casos de corrupção em seu batalhão, mas não cita nomes.A cena dramática foi levada ao ar sem o desfecho fatal pela Rede Record no programa Cidade Alerta.
Cometeu o 51º suicídio da corporação nos 3 anos anteriores (a 2003) - um índice altíssimo para qualquer padrão.

domingo, 25 de fevereiro de 2007 03:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Que é isso Alon, deu para cair em histeria agora? Peça demissão, vá ao médico, aposente-se por invalidez...Mas suicidio é culpa do capitalismo? Você está é doido. Ou à mercê de propaganda socialista.
JV

domingo, 25 de fevereiro de 2007 09:04:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro JV, qualquer um que decida fazer um blog com alguma dinamicidade torna-se, automaticamente, suspeito de ter um parafuso a menos. Por isso é que não me ofendo com sua afirmação. Encaro-a com naturalidade. Não sei qual é a sua formação, mas se você já passou por alguma empresa capitalista digna desse nome você sabe qual é a magnitude da pressão a que está submetido o trabalhador (e o executivo). Alguns, simplesmente, não agüentam. E, quando não têm alternativa econômica, podem muito bem pensar em dar cabo da própria vida. Não é juízo de valor, é constatação. E sobre estar sujeito aos efeitos da propaganda, ambos estamos, meu caro. Todos nós estamos. Sempre. E daí? O socialismo toma porrada todos os dias em tudo quanto é debate. Mas quando alguém atribui mazelas ao capitalismo seus fiéis reagem como se tivesse sido violado um santuário. Menos queixo de vidro, meu chapa.

domingo, 25 de fevereiro de 2007 09:22:00 BRT  
Blogger alberto099 disse...

Caro Alon, não leve a mal este comentário, como costuma dizer outro habitué de seu blog você é meu esquerdista predileto, mas há um bom tempo eu abandonei quaisquer convicções de esquerda. Acredito que a razão do perene sucesso da idéia socialista entre a intelectualidade latino-americana deve-se a capacidade que tem de desviar nossa atenção do evidente fracasso na implantação de uma civilização nos moldes ocidentais por aqui. Frustração tanto maior em função do sucesso da experiência norte-americana. O que é confirmado, segundo vejo, pela distância entre as idéias socialistas que fazem sucesso por aqui e um socialismo marxista, por exemplo. Para Marx, o capital, entendido como a relação social de trabalho, não poupa ninguém: o capitalista é chamado “funcionário” do capital, ou persegue a acumulação ou é riscado do mapa. Marx também é o primeiro a reconhecer o avanço histórico representado pelo capital, seu papel na dissolução da sociedade aristocrática, onde a supremacia social combinava-se com o parasitismo econômico. O capitalismo foi o primeiro sistema, e até aqui me parece o único, onde a busca por posições mais altas na sociedade não leva, necessariamente, ao rebaixamento de outrem, um jogo que não é de soma zero. Agora, como qualquer sistema que veio antes ou depois, o capitalismo é uma forma de organizar e disciplinar o trabalho. Marx talvez tenha sido muito otimista quanto às possibilidades de o progresso material nos libertar das imposições do trabalho, e como de fato tal liberdade não se cumpriu, a disciplina exige a divisão entre quem manda e quem obedece, alguém carrega o piano, ainda que preferisse não o fazer. Agora olhando o caso da Renout, supondo que os suicídios sejam, como parece, decorrente de uma competição desenfreada pelos postos de comando em um projeto empresarial muito ambicioso, no que isso depõe contra o capitalismo? Não estamos falando de trabalhadores frente à opção de venderem seu trabalho a Renout ou enfrentarem a miséria, são executivos que decidiram enfrentar uma competição acirrada e perderam, possivelmente outros também derrotados não chegaram a se matar, alguns mais delicados ou vaidosos o fizeram, que relevância tem? Nosso socialismo abomina, antes de qualquer coisa, aceitar que o individuo possa assumir a responsabilidade pelas conseqüências de suas escolhas.

Escrevi o texto acima antes de ler os três primeiros comentários. O que digo aqui não se aplica ao caso relatado pelo José Augusto, e não entendo porque Alon você supõe que os executivos da Renout não possuíssem alternativas, alternativas com perdas no que diz respeito a retornos materiais ou de auto-estima, claro, mas se é para escolher entre o fantástico e o excepcional, tal escolha seria irrelevante.

domingo, 25 de fevereiro de 2007 11:26:00 BRT  
Blogger Pedro disse...

Alon, sou leitor assíduo do seu blog. gosto muito do seu latim. O q mais gostei nesse texto foi o link "a histeria midiática de chavez". concordo em gênero, número e grau com o q vc escreveu. só não sei se os exemplos sobre a suposta "liberdade econômica" são cabíveis, embora também a considere utópica.

abs
pedro

domingo, 25 de fevereiro de 2007 12:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Veja uma do Max Gehringer (comentarista da CBN e articulista da Revista Exame):a seu favor

" Foi tudo muito rápido. A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no
peito,
vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou. Quando voltou a abrir os olhos,
viu-se diante de um imenso portal. Ainda meio zonza, atravessou-o e viu uma
miríade de pessoas. Todas vestindo cândidos camisolões e caminhando
despreocupadas.
Sem entender bem o que estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou
um dos passantes:
- Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório, porque tenho
um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazida para cá por engano,
porque meu convênio médico é classe A, e isto aqui está me parecendo mais
um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?
- No céu.
- No céu?...
- É. Tipo assim, o céu. Aquele com querubins voando e coisas do
gênero.
- Certamente. Aqui todos vivemos em estado de gozo permanente.
Apesar das óbvias evidências (nenhuma poluição, todo mundo
sorrindo, ninguém usando telefone celular), a executiva bem-sucedida custou
um pouco a admitir que havia mesmo apitado na curva. Tentou então o plano
B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas de
negociação, de que aquela situação era inaceitável. Porque, ponderou, dali
a uma semana ela iria receber o bônus anual, além de estar fortemente cotada
para assumir a
posição de presidente do conselho de administração da empresa.
E foi aí que o interlocutor sugeriu:
- Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o síndico.
- É? E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?
- Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.
- Assim? (...)
- Pois não?
A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem. À sua frente,
imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio
Pedro.
Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de approach para
situações inesperadas e reagiu rapidinho:
- Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva bem-sucedida
e...
- Executiva... Que palavra estranha. De que século você veio?
- Do XXI. O distinto vai me dizer que não conhece o termo "executiva"?
- Já ouví falar. Mas não é do meu tempo.
Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima
autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas
técnicas
de gestão empresarial. Logo , com seu brilhante currículo tecnocrático, a
executiva poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica, por assim
dizer, celestial ali na organização.
- Sabe, meu caro Pedro. Se você me permite, eu gostaria de lhe fazer
uma proposta.
Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e andando à toa, para
perceber que aqui no Paraíso há enormes oportunidades para dar um upgrade
na produtividade sistêmica.
- É mesmo?
- Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia. Por exemplo, não vejo
ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz
o quê?
- Ah, não sabemos.
- Headcount, então, não deve constar em nenhum versículo, correto?
- Hã?
- Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E dispersão
gera desmotivação.
Com o tempo isto aqui vai acabar virando uma anarquia. Mas nós dois podemos
consertar tudo isso rapidinho implementando um simples programa de targets
individuais e avaliação de performance.
- Que interessante...
- Depois, mais no médio prazo, assim que os fundamentos estiverem
sólidos e o pessoal começar a reclamar da pressão e a ficar estressado, a
gente acalma a galera bolando um sistema de stock option, com uma campanha
motivacional impactante, tipo: "O melhor céu da América Latina".
- Fantástico!
- É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização de
um organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis
psicológicos não consigam resolver.
- Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir
as estratégias operacionais estabeleceríamos algumas metas
factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do investimento
do Grande Acionista...
Ele existe,certo?
- Sobre todas as coisas.
- Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo,
encontrar
sinergias high-tech, redigir manuais de procedimento, definir o marketing
mix e investir no desenvolvimento de produtos alternativos de alto valor
agregado. O mercado telestérico por exemplo, me parece extremamente
atrativo.
- Incrível!
- É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que
nomear um board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração atraente,
é claro. Coisa assim de salário de seis dígitos e todos os fringe benefits
e mordomias de praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho
certeza de que você vai concordar comigo, Pedro. O desafio que temos pela
frente vai resultar em um turnaround radical.
- Impressionante!
- Isso significa que podemos partir para a implementação?
- Não. Significa que você terá um futuro brilhante... Se for trabalhar com
o nosso concorrente. Porque você acaba de descrever, exatamente, como
funciona
o Inferno... "

domingo, 25 de fevereiro de 2007 20:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

mas poste os contra você tambem, quem sabe?
JV

domingo, 25 de fevereiro de 2007 20:42:00 BRT  

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