domingo, 25 de fevereiro de 2007

A demolição da "menoridade social" (25/02)

A professora Olgária Matos, titular do Departamento de Filosofia da USP, intervém hoje, em artigo na Folha de S.Paulo, no debate desencadeado pela morte do menino João Hélio Fernandes Vieites. Coloquei o texto dela, Antinomias do Brasil, na seção Textos de outros, logo abaixo, na coluna direita deste blog. Ela escreve no âmbito da polêmica suscitada pelo seu colega Renato Janine Ribeiro, que alguns dias atrás publicou artigo no jonal fazendo referência à pena de morte. Para ler o texto de Janine, clique aqui. Vamos ao pensamento de Olgária. Ela começa assim:

"Em recente entrevista, o governador do Rio de Janeiro afirmou que a violência no Brasil é inteiramente contornável, pois nosso 'processo civilizatório' é 'irreversível'. Para fundamentar seu ponto de vista -diariamente desmentido-, se voltou para o 'desenvolvimento econômico' anunciado. É em um quadro em que o econômico justifica a violência, o 'social' a explica e o bovarismo vê civilização onde não há projeto civilizatório que deveria ser entendido o artigo do professor Renato Janine Ribeiro (Mais!, 18/2). Ninguém defende pena de morte e tortura. Fazê-lo seria gravíssimo. Mas também preocupante seria se, ante a procissão de horrores em que vive o país, um indivíduo respondesse a eles com neutralidade e impessoalidade. Adorno anotou em 'A Educação após Auschwitz' que um dos traços da sociedade totalitária é a perda da capacidade de identificação com a dor do outro, o desaparecimento da compaixão -tristeza mimética que faz de quem sofre outro nós-mesmos."

Ninguém respondeu à minha pergunta, repetida várias vezes aqui neste blog, sobre até que idade alguém poderá matar outra pessoa sem receber a punição devida pelo seu crime. À luz dos argumentos "sociais" dos defensores da intocabilidade do artigo 228 da Constituição Federal, fiz até uma provocação intelectual, perguntei se não deveríamos, então, estabelecer também uma "menoridade social". Ou seja, se o adolescente tem o direito de matar porque é pobre, por que não estender esse direito também ao pobre que já deixou de ser adolescente? Essa é mais uma pergunta para vocês. Atrevo-me a colocar esse ponto como um corolário das idéias desenvolvidas pela professora Olgária. Que segue:

"Um crime cruel é, em si, irreversível, não tem perdão. Pois, assim como o perdão só pode ser pedido por quem cometeu um crime ou uma ofensa, o ato de perdoar só pode ser concedido diretamente pela vítima. O que Renato Janine escreveu é que, justamente por não haver procuração dada por quem foi silenciado, cada um de nós não tem o direito de perdoar e, por isso, o crime permanece, no âmbito moral, irreparável. No artigo, ele não perdoa. Não tendo sido a vítima imediata dessa violência, perdoar, para ele, seria imoral. Apesar de concebida em âmbito religioso por Jesus Cristo, a faculdade de perdoar foi enunciada em um sentido secular: 'Deus perdoa nossas dívidas assim como nós perdoamos nossos devedores'. A Igreja Católica, ao defender, com razão e humanidade, a dignidade de toda pessoa, põe em ação as palavras de Cristo: 'Perdoai, Senhor, eles não sabem o que fazem'. Restaria saber até que ponto os assassinos de hoje são inocentes. E quem o arbitra é o Estado."

Leia, se lhe interessar, O direito divino de interditar indefinidamente um debate. E o trabalhador que não existe, post desta semana. Mas continuemos com Olgária, no seu trecho mais importante:

"Quanto a isso, surpreendem as declarações oficiais. Na segunda-feira, o presidente da República disse que qualquer um poderia ser levado a cometer um crime como o que atingiu a criança no Rio de Janeiro. A psicanalista professora titular do Instituto de Psicologia da USP Maria Inês Assumpção Fernandes observou a estranheza dessa afirmação. A impossibilidade de discernir quem é a vítima e quem é o agressor, diz ela, ocorre em situações de terror, seja o promovido pelo Estado, seja o vivido pela sociedade. O artigo em questão [de Janine] nos leva a perguntar se não são as atitudes dos poderes públicos que trazem de volta a lei do sangue."

Eis o problema. Se "todos nós" somos "responsáveis" pela "pobreza" no Brasil , e se a "pobreza" é a causa última de crimes hediondos cometidos por quem não está exatamente no topo da pirâmide social, os verdadeiros assassinos do João Hélio somos "todos nós", especialmente quem, por alguma razão, ganha acima de uma certa faixa de renda [De volta à minha questão sobre a "menoridade social": qual é a renda familiar máxima a partir da qual o indivíduo deixa de ter o direito de matar fria e cruelmente o semelhante e não receber a punição prevista em lei?]. Então, se formos punidos, se tivemos filhos mortos com requintes de crueldade por bandidos, deveríamos receber isso como um castigo justo. Se formos pobres e tivermos filhas estupradas e mortas na volta para casa numa rua sem iluminação, deveríamos nos orgulhar de elas terem sido imoladas no combate por uma sociedade mais justa [daí para os homens-bomba, faltam só os explosivos]. Mas, se, apesar de tudo, tivermos a sorte de escapar, de criar nossos filhos, de chegar à velhice embalando nossos netos, agradeçamos à clemência do imperador. Que adquiriu poderes divinos ao incorporar o espírito das vítimas, para poder decidir, soberanamente, quem deve ser perdoado e quem não. De volta à professora Olgária:

"Entenderam mal o pensamento de Renato Janine tanto os que o elogiaram, pretendendo que o professor defende o direito de matar do Estado, quanto os que o atacaram pela mesma razão. Não é porque o capitalismo contemporâneo é pulsional e infantilizante, porque produz uma educação e uma cultura para a qual a atividade do pensamento é próxima a zero que o
Estado teria direito ao assassinato frio -que é a pena de morte-, e o criminoso, à indulgência da lei. O que o ensaio de Renato Janine dá a pensar é, entre outras coisas, se, ao dar-se preferência ao aspecto educativo da lei, suprimindo, na prática, seu caráter punitivo, e se, na comedida e prudente atitude dos representantes da lei e instituições humanitárias, não se expressa a idéia de que as condições materiais de existência explicam o crime e as condições sociais e penitenciárias o justificam."


Vê-se que a professora é contra a pena de morte. É um direito dela pensar assim. O que não se deve interditar é o direito de pensar diferente. A sociedade brasileira vai fazer mais esse debate. Entretanto, o mais importante é responder à pergunta colocada nas últimas linhas desse trecho. Sim, professora Olgária, a "comedida e prudente atitude dos representantes da lei e instituições humanitárias" (humanitárias?) expressa exatamente "a idéia de que as condições materiais de existência explicam o crime e as condições sociais e penitenciárias o justificam". Lamentavelmente, o establishment político brasileiro, que se considera progressista, não concorda com a senhora, não acha que "é tão infamante jovens e adultos serem trucidados em favelas e queimados em pneus quanto o é qualquer ser humano sê-lo em ônibus ou nas ruas da cidade, independentemente de sua extração social". Sabe por quê, professora? Porque uma parte da esquerda brasileira parece ter dado seu adeus definitivo ao humanismo. Uma parte do progressismo nacional aceita (gostosamente) andar de mãos dadas com a barbárie, se isso lhes for politicamente útil. Estamos numa daquelas situações em que os caminhos se separam, professora. Um daqueles momentos na História em que companheiros ocasionais de viagem se despedem. Por isso, receba minha sincera admiração. Por arriscar-se, assim como o seu colega Janine, a desafiar os ideólogos da barbárie "libertadora". E a senhora conclui:

"Trauma após trauma, pode-se opinar o que se quiser sobre delinqüentes e seus crimes, só não há como dizer que se trata de "crime famélico". Esses jovens estão cheios de mensagens, e uma delas é a de não quererem só comida. Assim como é falta de pudor a mídia brasileira freqüentemente operar com presunção de culpa, também deveria ser rechaçada indulgência com criminosos. Afinal, é só no Brasil que delinqüentes são tratados não por seus nomes próprios, mas por diminutivos e com linguagem afetiva. É cedo que se adquire consciência do que é assassinar, do que é permitido e do que é interdito, sem o que uma sociedade não é uma sociedade."

Eis uma bela defesa da família e da escola. Não como pretextos para a impunidade, mas como vetores da civilização. Texto paradigmático, esse de Olgária Chain Féres Matos, professora titular de Filosofia da USP. Está demolido o mito da "menoridade social". E vocês, que sapatearam sobre as angústias intelectuais e emocionais do Renato Janine Ribeiro, têm agora a oportunidade de lutar como homens. Respondam ao que escreveu essa mulher.

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20 Comentários:

Anonymous mariodamatta@gmail.com disse...

Tirei meu dia de descanso para ler blogs. Li todos do IG, Josias, do Terra. Mas o seu (que confesso não o conhecer) me chama de modo particular a atenção. Percebi pelo que li que o senhor defende com unhas e dentes o Estado de Israel, ainda que esse Estado destrua uma nação como a do Líbano porque um soldado, sim senhor, UM soldado israelense foi seqüestrado pelo inimigo. Imagino que o senhor faça parte da lista dos jornalistas que chamam os territórios palestinos OCUPADOS de DISPUTADOS, como quer a imprensa americana. Sigamos: vejo também que o senhor é favor da pena de morte. E por último, que defende o Exército no combate às drogas nos morros fluminenses, ainda que isto custo a vida de inocentes trabalhadores, já que se trata de um território longe do entendimento e conhecimento de nossos soldados. E por fim vejo que o senhor quer a pena de morte inclusive para crianças, já que pergunta, de forma irônica: "qual a idade mínima que podemos dar a um cidadão o direito de matar"?
Por favor, permita-me, diante de tanta brutalidade de suas questões, perguntar: diga-me onde o Estado de Israel erra? Aponte-me os erros, assim lhe dou a oportunidade de mostrar a seus eleitores que o senhor escreve com isenção. Claro, a não ser que o Estado de Israel, segundo seu ponto-de-vista seja um Estado santo, no melhor sentido da palavra Depois, diga: essa violência toda no Brasil tem a ver com falta de educação? Afinal, já tivemos excelente nível educacional, até os anos 70, onde a violência maior eram crianças batendo carteira. Se o senhor concordar, diga, por que não vincula esse tema a seus comentários quando pede a pena de morte até para crianças? E por fim, seguindo o roteiro, por que o senhor defende o exército nas favelas cariocas para combater as drogas e não fala da verdadeira razão dessa violência toda que é o consumo da droga, por pessoas do seu nível social? Corporativismo de classe social? Não quero crer. Bem, estou lhe dando a oportunidade de defesa, digamos assim. Caso contrário, fico com a opinião de um amigo que, ao lê-lo, disse: “Putz!! Tem um cara no IG que tem tudo a ver com a direita mais reacionária do Brasil. Com certeza vota no (deputado) Conte Lopes”.
Sds
Mário Da Matta

domingo, 25 de fevereiro de 2007 12:24:00 BRT  
Anonymous Fernando Silva disse...

Alon,
Mais uma vez, escrevo para elogiá-lo, por sua integridade como pensador das questões nacionais.
São cada vez mais raras inteligências do seu quilate entre nossos pensadores ditos de esquerda. O sr. Mario da Matta acaba de dizer que você pensa como "a Direita mais reacionária" do Brasil. Logo você, Alon.... Veja o tamanho do estrago que esses anos de pensamento politicamente correto tem causado nas pessoas, inclusive em gente bem informada e de nível intelectual./
Você sintetizou o drama da esquerda democrática desse País: tem gente, de esquerda, que aceita a barbárie, se ela for politicamente útil. Vou mais longe: setores da nossa esquerda aceitam QUALQUER COISA se for para obter dividendos políticos.

domingo, 25 de fevereiro de 2007 13:38:00 BRT  
Anonymous Lucas disse...

Eu acompanho esse blog de quando em vez, e tento ler tudo que posso. Sobre essa questão do garoto classe média do Rio, coisa mais horrível o fato, li os textos, os textos dos outros e todos os comentários feitos.
Minha questão na verdade é simples, e me daria mais calma ao ler tudo que se escreveu: é que tudo quanto se fala me parece incompleto, ou por falta de tempo, ou por falta de saco, ou porque não é hora.., mas enfim, o que digo é o seguinte: pego dois exemplos clichês, o da queima por "brincadeira" do índio de Brasília feita por dois playboys protegidos e o da patricinha Richtofen que junto com outros dois amassou seus próprio pais até a morte. E bueno, não vi a Fátima Bernardes chorando no JN como fez no caso carioca de agora. Os três casos que cito são horripilantes mas para mim, horripilante é saber que a "cultura alta" tambem faz das suas, e daí, sabemos, estão protegidos pela mídia, pelos papais, pelo Itaú Personalitte... Enfim...
Me pareceu tambem que muito pouca importância foi dada ao fator econômico e social que circunscreve a vida dos que vivem nas favelas. Ora, é muita hipocrisia achar que negros, pardos, feios e fedorentos e pustulentos das favelas tem as mesmas chances numa sociedade desigual como a nossa. Não defendo a crueldade do que foi feito, mas pautar a discussão da maioridade penal a partir desse fato é demais fascista.
A mim parece algo claríssimo, quando morre um branco com grana, uáá, comoção nacional encabeçada pela mídia. Quando 600 jovens morrem dolosamente por mês no RJ, nada de repercussão (fonte dessa info: última Caros Amigos, entrevista com Ana Paula Miranda, diretora-presidente do Instituto de Segurança Pública do Estado. Importa aqui somente esse dado, e não toda a entrevista).
Enfim, enxergar uma discussão produtiva começando pelo fato este do garotinho do Rio é pobre, bem pobre. A discussão é em teia, ou se pensa sobre tudo ou ficamos a ver dona Fatima chorando uma questão que, nem de longe, a toca no coração. Pura cena típica duma mãe de trigêmeos milinários que crescerão com essa ameaça iminente da sociedade que a Globo protege.
(Fico por aqui, mas ainda teríamos políticas publicas de segurança, de inclusão, de reabilitação, dos terríveis presídios-escola e, com tudo isso, ainda tenho a compreensão de que tem uns que são bandidos mesmo, não tem correção, mas daí esses estão por todos os lugares, empresas, jurídico, parlamento, favelas, classe medonha-média...).

domingo, 25 de fevereiro de 2007 13:57:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Sr Mário:

Obrigado por visitar meu blog e pelas suas questões. O senhor está errado em vários pontos.

Diz o senhor:

"o senhor defende com unhas e dentes o Estado de Israel, ainda que esse Estado destrua uma nação como a do Líbano porque um soldado, sim senhor, UM soldado israelense foi seqüestrado pelo inimigo."

Eu defendo com unhas e dentes, sim, o direito de Israel e Palestina existirem, lado a lado, como dois países. Não defendo, porém, que uma guerrilha hospedada num país tenha o direito de cometer um ato de deliberada agressão contra um país vizinho. É por isso, senhor Mário, que, se tivesse idade para tanto, teria condenado na época a tentativa de exilados cubanos invadirem Cuba no desembarque da Baía dos Porcos. Aliás, quanto ao Líbano, veja que o país está quase mergulhado na guerra civil porque essa mesma guerrilha deseja impor pela força seu poder sobre outros grupos sociais e religiosos.

Diz o senhor:

"Imagino que o senhor faça parte da lista dos jornalistas que chamam os territórios palestinos OCUPADOS de DISPUTADOS, como quer a imprensa americana."

O senhor está errado. Sou jornalista há um quarto de século e sempre defendi a criação de um estado palestino nos territórios ocupados por Israel. Ou seja, o senhor imagina algo que não existe.

Diz o senhor:

"Sigamos: vejo também que o senhor é favor da pena de morte."

Eu defendo que a pena de morte foi aplicada,com justiça, pelo Tribunal de Nuremberg aos carrascos nazistas. Só defendo pena de morte em crimes contra a humanidade, como por exemplo o genocídio. E, aproveitando a oportunidade: o senhor condenaria à morte os chefes nazistas julgados em Nuremberg? Ou não? Responda objetivamente, por favor.

Diz o senhor:

"E por último, que defende o Exército no combate às drogas nos morros fluminenses, ainda que isto custo a vida de inocentes trabalhadores, já que se trata de um território longe do entendimento e conhecimento de nossos soldados."

Sim, eu defendo que o exército entre no combate ao crime, especialmente no combate ao crime contra o trabalhador. Que os soldados sejam preparados para essa guerra. E o senhor, defende as mílicias que travam a guerra contra o tráfico nos morros cariocas? Parece-me que elas estão ali porque o poder público se ausentou. O senhor acha legítima e desejável a existências das milícias?

Diz o senhor:

"E por fim vejo que o senhor quer a pena de morte inclusive para crianças, já que pergunta, de forma irônica: 'qual a idade mínima que podemos dar a um cidadão o direito de matar'?"

Creio que esse assunto da pena de morte já foi respondido. Sou contra a pena de morte para crianças (elas não cometem genocídio). Sou, por exemplo, contra a pena de morte aplicada ao menino João Hélio Fernandes Vieites. Mas há pessoas que, infelizmente, são a favor de pena de morte para meninos como o João Hélio. São as mesmas pessoas que acham que os que o mataram são as vítimas dessa história toda. E acredito não ter usado de ironia. Se o senhor entendeu assim, entendeu errado. Aliás, aproveitando a oportunidade, responda-me, por favor: qual deveria ser a pena para um "filhinho de papai" milionário, de dezessete anos, que estupra e mata uma menina pobre de quinze dentro de sua BMW? O senhor acha que três anos de "ressocialização" é uma punição adequada nesse caso?

Diz o senhor:

"Por favor, permita-me, diante de tanta brutalidade de suas questões, perguntar: diga-me onde o Estado de Israel erra? Aponte-me os erros, assim lhe dou a oportunidade de mostrar a seus eleitores que o senhor escreve com isenção. Claro, a não ser que o Estado de Israel, segundo seu ponto-de-vista seja um Estado santo, no melhor sentido da palavra."

O Estado de Israel erra quando sucumbe à idéia de que a crise no Oriente Médio pode ter uma solução militar. Ou seja, quando admite a tese de que Israel pode existir em paz, segurança e prosperidade sem que haja, ao lado, um Estado Palestino vivendo nas mesmas condições. Apaz no Oriente Médio só será uma realidade quando israelenses e palestinos puderem ter cidadania plena. E, sobre escrever com isenção, nem eu nem o senhor (nem ninguém) escrevemos com isenção completa. Todos somos influenciados por nossas convicções. Por isso é que é bom quando elas são postas à prova, como o senhor fez em seu comentário.

Diz o senhor:

"essa violência toda no Brasil tem a ver com falta de educação? Afinal, já tivemos excelente nível educacional, até os anos 70, onde a violência maior eram crianças batendo carteira. Se o senhor concordar, diga, por que não vincula esse tema a seus comentários quando pede a pena de morte até para crianças?"

Bem, já disse que sou contra a pena de morte para crianças. Tanto que defendo a punição para os que aplicaram a pena de morte ao João Hélio. Quanto à educação, tenho um ponto de vista um pouco diferente do senhor. Até os anos 90 tínhamos no Brasil educação para poucos. Hoje, temos quase 100% das cianças na escola. Precisamos melhorar a qualidade do nosso ensino. Mas veja, senhor Mário, a China tem um sistema educacional muito melhor do que o nosso. Veja o que eles produzem de conhecimento científico. E, no entanto, a criminalidade juvenil é um grave problema naquele país.

Diz o senhor:

"E por fim, seguindo o roteiro, por que o senhor defende o exército nas favelas cariocas para combater as drogas e não fala da verdadeira razão dessa violência toda que é o consumo da droga, por pessoas do seu nível social? Corporativismo de classe social? Não quero crer."

Escrevi no dia 3 de janeiro um texto com o título "Os financiadores do terror". Está no endereço http://blogdoalon.blogspot.com/2007/01
/os-financiadores-do-terror-0301.html.
Vou transcrever um trecho: "Na sua configuração atual, o crime está indexado ao tráfico de drogas. E só se traficam drogas onde existe mercado. Então, para combater o crime na sua versão mais moderna (a criminalidade terrorista), o melhor a fazer é achar um jeito de travar a guerra total ao tráfico de drogas. Aí aparece um problema: não há como combater radicalmente o tráfico de drogas sem atacar o mercado de consumo da droga. O terreno para que prosperem o crime e o terrorismo no Brasil vem sendo adubado pela tolerância ao consumo das drogas. Você, que além de desfilar de branco pedindo paz também gota de consumir sua droga na intimidade, é o principal financiador da barbárie que ameaça os seus entes queridos." Ou seja, eu e o senhor estamos 100% de acordo nesse ponto.

Diz o senhor:

"Bem, estou lhe dando a oportunidade de defesa, digamos assim. Caso contrário, fico com a opinião de um amigo que, ao lê-lo, disse: 'Putz!! Tem um cara no IG que tem tudo a ver com a direita mais reacionária do Brasil. Com certeza vota no (deputado) Conte Lopes'."

Obrigado pela "oportunidade de defesa". O senhor é um democrata. Deu-me a oportunidade de explicar antes de o senhor fazer o seu julgamento. Acho divertido que alguém me ataque por eu supostamente ser de "direita". Já fui muito atacado por supostamente ser de "esquerda". Na verdade, isso não importa muito. O que as pessoas acham de mim ou deixam de achar não me causa um milionésimo da repulsa que sinto quando um menino como o João Hélio é morto nas circunstâncias em que foi morto. E, por fim, não, nunca votei no Conte Lopes.

Um abraço e obrigado, novamente, por freqüentar meu blog.

domingo, 25 de fevereiro de 2007 15:36:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Vou abusar do espaço.

Várias vezes citei aqui escritos do prof. Roberto Romano. Recentemente, o professor fechou o seu blog e deu suas razões. Não me estenderei expondo aqui os motivos. Não é o lugar. Após um breve período, o professor retornou à blogosfera abrindo um espaço para a leitura de textos teóricos. Neste novo blog o professor também abriu espaço para comentários. Ontem, ele retirou do blog a possibilidade de comentar. Deu, novamente, suas razões:

“Os ícones acima (o link para a charge: http://www.bruceeisner.com/photos/uncategorized/1984.png,) valem para as hostes da esquerda e da direita. Embora os dois lados se imaginem reciprocamente distantes, eles têm a mão enlaçada. Numa frase de esquerda unem-se os sujeitos, os verbos, os advérbios, na mesma linha empregada pelas falas e escritas da direita. No campo dos adjetivos, então, a identidade é espantosa. As duas facções desejam impor o ponto de vista do grupo em que foram aculturados (ou tiveram o cérebro lavado), não pensam um segundo sobre o que estão lendo ou escutando. Na verdade, não estão lendo nem escutando, apenas esperam a oportunidade para afirmar, com o caráter dogmático mais repugnante, o verdadeiro que, por definição, só está nos que operam com os mesmos paradigmas deles. É por motivos tais que tento fugir do que, no Brasil, é tido como político [na verdade, é o sectário]: insultar os adversários com argumentos ad hominem, calúnias, zombarias. Ou seja, tudo o não é polido, não tem vez numa polis...

Assim, retiro a possibilidade de fazer comentários dos que não encontram argumentos opostos aos seus sem babar e mostrar os dentes afiados. Que se mordam e reclamem de mim e dos textos que apresento aqui, meus e de meus amigos, ou de pessoas que pensam exatamente o contrário do que penso.

E para todos, minha saudação enojada,

Roberto Romano”

Num post seguinte, sob o título “ODE AO MILITANTE, O CONHECIDO "HOMEM DO POVO SIMPLES", QUE SÓ OBEDECE ORDENS...E MATA ESPÍRITOS OU CORPOS PARA APRESSAR O "PROCESSO" POLÍTICO”, o professor cita um trecho de “Escuta, Zé Ninguém” (Wilhelm Reich).

W. Reich fugiu do nazismo e do stalinismo em direção à América. Lá, foi atingido pelo “macartismo e morreu numa prisão federal em Lewisburg, Pennsylvania. Os seus livros foram queimados em 26 de junho e agosto de 1956. Em 17 de março de 1960 as restantes seis toneladas do seus livros remanescentes, diários e manuscritos, foram queimadas no Incinerador Público número 25, Nova York. Tornou-se contrário à lei imprimir seus escritos novamente.

É na prisão que ele escreveu o livro Reden an den kleinen Mann (Escuta, Zé Ninguém), no qual mostra o caráter fascista dos militantes, os que se imaginam "normais" e simples, prontos "apenas" a cumprir ordens e a estraçalhar a dignidade dos que não operam e julgam segundo os seus parâmetros. Todo partido que precisa de militantes assim, é inimigo jurado de toda e qualquer democracia, pouco importando o rótulo que usa na sua tarefa, se de esquerda ou direita.” (RR).

Obviamente, Alon, não teria sentido algum propor a você fechar os “comentários”. Cito as passagens para ilustrar a predominância de um certo clima nocivo ao debate democrático.

Penso que aqui se exercita o bom jornalismo. Nós, os comentaristas, somos apenas comentaristas e, como tais, gostamos de tagarelar nossas opiniões em confronto.

Sobre tagarelar é prudente observar o que segue: “o que fala em demasia gastou o poder do logos. Para retirá-lo de sua doença é essencial o uso do mesmo logos. Como fazê-lo ouvir a razão (na lingua grega, logos e razão identificam-se) se ele apenas fala e não ouve e, portanto, não arrazoa antes de jogar palavras ao vento ? Tal é o primeiro sintoma, diz Plutarco, do nosso adoecido : “a lingua mole torna-se impotência do ouvido”. Mas é pior: a surdez do falador é deliberada, o que o faz criticar a natureza que lhe deu apenas uma lingua e dois ouvidos.(...) A “cura” do palavrório, segundo o médico e moralista Plutarco, não pode ser conseguida de modo violento, mas criando-se outros hábitos, costumes. O autor insiste nesse ponto, essencialmente ético: o falador deve ser treinado para ficar em silêncio, prestar atenção ao dito (treinar o ouvido), e fugir das conversas que mais agradam aos faladores.(...) Outra cura: fazer o linguarudo frequentar pessoas diferentes dele e deixar o círculo dos seus iguais. O respeito de opiniões ponderadas lhes fornecerá o hábito de calar.” (R. Romano)

Faço, Alon, distinção entre tagarelas. Sobretudo, distingo aqueles que estão sempre
“prontos ‘apenas’ a cumprir ordens e estraçalhar a dignidade dos que não operam e julgam segundo os seus parâmetros”. Com esses também não quero conversa.

Por último, uma passagem sobre imprensa e isenção jornalística:
“A imprensa serviu para atenuar o segredo de Estado e os demais sigilos (da vida privada à religiosa, sem deixar de lado a economia). Ela, no entanto, insere-se num complexo de interesses que a tornam constantemente atriz e vítima dos poderes naquelas várias esferas. Diria simplificadamente que todos aqueles setores percebem na imprensa uma aliada, quando não instrumento, se o problema é divulgar e propagar os seus intentos, procurando identificá-los ao “interesse geral”. Ela é bem vinda naquela cirscunstância. Empresas e indústrias, bancos e cúpulas eclesiásticas, gabinetes políticos ou militares, partidos e seitas, todos cortejam a imprensa na busca de popularizar a sua “mensagem”, obter lucros e favores de governos, ameaçar concorrentes. E todos a criticam acerbamente quando não conseguem efetivar, por seu intermédio, aqueles fins.” (R.Romano. “Notas para uma Filosofia do Segredo”)

abs.

domingo, 25 de fevereiro de 2007 16:41:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Alon, você erra ao dizer que ninguém respondeu sua pergunta, eu fui claro em defender a revogação do Art. 228 da CF (e vi outros responderem objetivamente, inclusive defendendo ficar como está - 18 anos - o que eu acho uma opinião legítima e objetiva também, mesmo diferente da minha).-x-x-

Excluindo a análise quanto a sociopatas, que acredito haver consenso quanto ao isolamento do convívio social, vamos às causas sociais x criminalidade:

É óbvio que a tentação ao crime é proporcional à carências sociais. Se 2 pessoas disputam 1 só bem, seja comida, seja dinheiro, é grande a possibilidade de conflito. Pode ser dentro das regras vigentes (competição, concorrência via trabalho), pode ser pela força bruta fora das regras (crime).

Em casos de guerra, quando a comida é racionada para TODOS, é natural que aquele que roubar a cota de comida do outro seja punido até com a morte ou surra (uma tortura) sumária, simplesmente porque se até comida está racionada, como conseguir recursos para prender? E se deixar o ladrão de comida racionada impune, haverá o caos, onde os mais fortes fisicamente e corrompidos moralmente irão tomar a comida dos mais fracos (até de mulheres e crianças).

Mas no Brasil, a base da pirâmide social é submetida ao racionamento de dinheiro. O topo fica com o excedente racionado na base. Isso traz um sentimento de INJUSTIÇA, que (mais do que a pobreza em si) é combustível para rebelar contra estas regras sociais. Isso contribui para EXPLICAR o aumento da criminalidade, mas não justifica.

Não justifica porque aqueles da base da pirâmide que recorrem ao crime, só estão em busca de mobilidade na pirâmide social (apenas cobiçam e idolatram o modo de vida do topo), não estão nem aí para demolí-la (a priâmide), nem "deformá-la" para ficar menos alta e mais achatada.

Portanto, acho muito positivo explicar razões da criminalidade e interferir para saná-las, mas acho muito negativo justificá-la.
Ou é mero ressentimento da esquerda, capitulando ao capitalismo, desde que criminoso; como se dissesse: - Bem feito! Viu no que deu?
Ou é estratégia de procurar miná-lo (o capitalismo) acreditando no seu apodrecimento, e na tese de que aquilo que é ruim para o inimigo seria bom para si.
Mas essa estratégia é mais desastrosa ainda (e involutiva), porque quanto mais criminosos bárbaros forem os membros do topo da pirâmide, mas atrozes e CRIMINOSOS serão seus métodos para permanecerem lá.

Rechaçar o crime é garantir o "território conquistado" de civilização até aqui, para almejar novas conquistas.
Tolerar o crime é perder "território" civilizado, retrocedendo.

A luta legítima da esquerda deve ser para achatar a pirâmide social, e não servir de catapulta para alguns individualistas alçarem o topo e tornarem-se "novos inimigos".
A frente de luta mais viável no Brasil continua sendo a boa e velha conhecida mobilização social.

domingo, 25 de fevereiro de 2007 19:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, só uma coisa. Parabens pela coragem e a lucidez, coisas raras na imprensa de nosso país.
Mas eu respondi a você a questão da responsabilidade penal, pensa que você não viu. Disse que o artigo seria assim(+-)
Art tal e tal: ninguem é inimputavel, independente de cor, credo, raça e posição social (falta aqui índios e psicopatas, ainda não tenho certeza). Os menores de 18 anos serão tratados como casos a parte, em juizados especiais, caso a caso.

JV

bom mesmo ver sua lucidez, mas convenhamos, ou é assim como você diz, ou daqui a pouco todo mundo vai arrumar uma desculpa para cometer crimes.

domingo, 25 de fevereiro de 2007 20:14:00 BRT  
Blogger Anão disse...

Caro Alon,

Escrevo agora não para comentar texto específico, mas sobre o que estou podendo depreender das suas posições – e da forma que você usa para expô-las.

Permita-me começar pela forma. Acho que é o mais importante.

Tenho a impressão que você tem alguns fantasmas lhe atormentando. Normal: todos têm os seus. Mas isso não quer dizer que não precisemos pensá-los e elaborá-los. Acho que é o mais saudável.

Obviamente que você é a melhor pessoa para dizer sobre as reações aos teus textos. Escrever publicamente nos expõe muitas vezes a situações chatas e constrangedoras – motivadas por reações irracionais. E é sempre desejável que elas ocorram o mínimo possível.

Mas eu noto que essas reações irracionais te atingem de forma que você passa a lutar contra elas nos teus textos, e com uma insistência muito agressiva. Acho que isso tira muito a qualidade do que você escreve – deixa o texto chato, maçante, cheio de fugas do assunto principal. Como se todos os leitores precisassem responder irracionalidades junto contigo.

Primeira pergunta: uma irracionalidade, uma bestialidade não mereceria uma boa ignorada? Não seria o melhor remédio? Às vezes você parece querer respondê-las de forma um tanto vingativa.

Outra pergunta: será que os leitores que não assinam embaixo das irracionalidades que você ouve precisam o tempo todo ficar cientes delas?

Vou dar alguns exemplos tirados de seus textos. Vamos lá.

Olha como você termina este último: “E vocês, que sapatearam sobre as angústias intelectuais e emocionais do Renato Janine Ribeiro, têm agora a oportunidade de lutar como homens. Respondam ao que escreveu essa mulher”.

Você chama opositores de opinião para uma luta inflamada: “Respondam como homens, e não como isso que vocês são”. Eu, sinceramente, não caio nesse tipo de provocação. Mas acho que isso empobrece não só teu texto, como também a discussão, além de abrir espaço para que você mesmo ouça irracionalidades em resposta.

Em outro momento, sua agressividade foi até dirigida a mim, em uma caixa de comentários. Após uma certa confusão (que você fez, misturando leis jurídicas e regras civilizatórias), disparou: “Você desconhece o processo civilizatório”. Lembro que engoli seco, não revidei, não faz parte dos meus princípios, ainda mais em debates escritos (ao vivo falando é sempre mais difícil). Mas também não deixei de te assinalar, no momento, a agressão. Que foi absolutamente gratuita, despropositada.

É curioso que, o tempo todo, você vem pedindo racionalidade nos debates. Com insistência. Parece que está sendo preciso ficar pedindo o tempo todo. Será que estão te atacando tanto assim? Que tipo de ataque é esse, que merece essa energia toda? Não seria muito mais produtivo concentrar-se com quem está realmente disposto a debater?

Vou passando, sem limites muito claros, das formas para os temas. Não dá pra desmisturar 100%.

Você elaborou uma pergunta totalmente sem sentido e insiste com ela, como se os que não defendem a redução da maioridade penal tivessem que respondê-la para seus argumentos terem algum resquício de validade. A pergunta é: “Qual é a renda familiar máxima a partir da qual o indivíduo deixa de ter o direito de matar fria e cruelmente o semelhante e não receber a punição prevista em lei?”.

Veja a gravidade dessa sua posição no debate, ainda mais quando você é o mediador da discussão. Pelo menos de tudo o que li no blog, ninguém defendeu que qualquer indivíduo tem o direito de matar fria e cruelmente alguém e não receber a punição prevista em lei. Ninguém defendeu que alguém pobre tem legitimidade para assassinar alguém de outra classe social.

Parece que você recebeu zilhões de comentários com esse tipo de argumento. Se recebeu, não publicou – o que seria a medida correta. Mas toma uma medida incorreta para o debate ficar rico, que soa meio desesperada, que é a de ficar o tempo todo se debatendo contra esses “argumentos”.

Ou então, se não recebeu esses milhões de comentários incômodos, está tentando imputar esse tipo de argumento no boca de quem é contra a maioridade penal. Às vezes me soa assim. Fico muito triste com isso. Acho que se trata de uma agressão, definitivamente, injusta.

Continuando a agressividade: teve um post recente em que você “previu” que responderia uma resposta de “petistas”, que a tirariam de uma “cartilha”. Isso no meio do texto. Soa como se sua caixa de comentários fosse invadida constantemente por “petistas” que lhe xingam, ofendem ou digitam a cartilha.

Existe uma importante questão para um blogueiro, ainda mais quando é muito acessado. Você optou pela opção de moderar os comentários. Essa é uma opção, ao meu ver, bastante válida. O blog é teu e você publica os comentários de quem quiser. Parece que você usa o critério de publicar os comentários de quem tenta fazer um debate civilizado. Ótimo. Concordo plenamente. A moderação de comentários, entendo eu, pode ser uma forma eficaz de selecionar os leitores e pessoas para o debate – e melhorar o nível de quem lê e escreve no blog. A moderação, portanto, é o instrumento para você dar qualidade ao debate. Mas os possíveis muitos comentários agressivos que você recebe parecem te tirar do controle e comprometem a qualidade dos teus textos e da tua argumentação. Só pude construir este relato a partir de uma sensação que se repetiu diversas vezes.

Aproveito um último momento para fazer um questionamento sobre um erro que considero um de seus mais graves na sua análise social dos temas que se propõe a debater. É a confusão entre leis jurídicas e regras civilizatórias.

Você vem tratando uma questão civilizatória única e exclusivamente sob a batuta do que se chama de “Estado de Direito”. A norma jurídica seria a base de soluções por excelência para problemas da civilização. Isso, para mim, está muitíssimo claro. É uma posição muito comum, ainda mais para os que estão por demais envolvidos com questões legislativas. Isso explica, em grande parte, a base do teu pensamento, que é estruturada pelos seguintes conceitos: direito, dever, sanção.

Mas regras civilizatórias e leis jurídicas são de natureza totalmente diversas. Você, no entanto, trata as da civilização como se elas fossem simplesmente jurídicas. Um exemplo? Volto a pergunta que você elaborou antes, e que me soa absurda. Nem preciso de uma pergunta, mas de parte dela: “Que direito tem uma pessoa de matar...?”.

Matar é, antes de tudo, uma questão civilizatória. E nem toda civilização tem leis e códigos jurídicos – apesar de todas terem lá suas formas de justiça. Sei que estou dizendo o óbvio.

Vou propor uma definição de civilização: é a mania dos homens de viverem juntos, e todas as produções que resultam dessa convivência. É uma definição meio grosso modo da definição freudiana – que também é uma definição bastante simples.

Ora, se civilização é a convivência entre seres humanos, a erradicação dos homicídios seria um requisito para essa existência coletiva. E não só um requisito: a erradicação dos homicídios seria também um dos seus mais perseguidos objetivos.

Mas o que acontece? Um sujeito vai lá e mata outro. Por quê? Uma pessoa mata alguém, antes de qualquer coisa, por levar até o fim um impulso agressivo. A pessoa tem o impulso e o executa sem controle. Veja que são dois momentos: o da erupção do impulso e sua realização. Ninguém mata ninguém porque tem direito de fazê-lo. Acho que continuo falando o óbvio. Então prossigo.

Em termos civilizatórios, matar não tem nada a ver com dolo, culpa. Esses são conceitos que o direito moderno conseguiu elaborar para resolver os problemas da convivência. Mas o buraco é muito mais embaixo. Nisso, sigo propondo: vamos continuar com apego canino ao Código Penal ou pensar questões da civilização e da agressividade da cultura humana?

É por isso que não dá pra tratar um assassinato sob o prisma do direito e do dever. É claro que isso também entra na discussão, mas numa parte ínfima. O que faz uma pessoa ter o impulso de matar alguém? E o que faz ela não controlá-lo? O Direito pode responder isso? Acho que pode nos ajudar a pensar sim. O Direito pode solucionar isso? Certamente ajuda, mas muito pouco. A equação: mais punição (jurídica) = menos crimes não pode ser demonstrada. Você não chegou nem perto de fazê-lo. Por isso que quero mudar a discussão do patamar jurídico. Quem dera se uma pá de leis mudasse a cabeça dos homens nos seus porões. Já estaríamos num estágio civilizatório soberbo.

Não sou como o outro leitor do blog que quer deixar as respostas para a “verdade absoluta dos especialistas”. Ao contrário, quero convidar o máximo de pessoas que eu puder para se instrumentalizarem com o que a civilização nos dispõe para pensarmos nossa vida. Recomendo dois textos do Freud para começarmos a levar essa discussão para um debate mais frutífero, sem esquecer, obviamente, das relações do Direito com a civilização: o primeiro deles, O Futuro de Uma Ilusão; o segundo, o famoso O Mal-Estar na Civilização.

Não são tratados imensos de psicanálise. São textos curtos e chamados “culturais” na obra freudiana. Absolutamente básicos pra o pensamento moderno – e para as nossas discussões. Faço apenas uma recomendação para que sejam lidos na ordem que sugeri. O que normalmente se faz é ler isoladamente o segundo, o que compromete muito seu entendimento, já que são textos com uma certa continuidade.

Sei que muita gente deve ficar comentando teus textos com recomendações mil. Imagino que deve ser muito chato isso. E depois tem uns que ainda cobrar por isso. Espero não estar caindo neste lugar comum. Acho que não estou. Da mesma forma, venho lendo atentamente suas recomendações de texto, as quais não tenho achado muito boas.

Ah, e por fim, acho que falta também um pouco de literatura nos teus textos. Em todos os sentidos. Eles andam meio “jurídicos” demais. Não é uma ironia.

Quero também te deixar a vontade para publicar ou não este comentário. Talvez seja grande demais, talvez extrapole um pouco os temas discutidos. Abro meu e-mail para maiores diálogos: anaocorcunda@gmail.com.

Um abraço.

domingo, 25 de fevereiro de 2007 23:51:00 BRT  
Anonymous Luiz Lozer disse...

Que papo é esse de Israel? o que isso tem a ver com a conversa?

Alon, tanto a Olgária quanto o Renato Janine foram impecáveis. Demonstraram uma coragem digna de heróis no campo de batalha.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007 11:25:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Anão, sobre "dar uma ignorada",não creio ser o melhor caminho. É razoável que saibamos todos que tipo de sociedade cada um de nós defende. Quanto às demais partes de seu comentário, agradeço sinceramente. Um abraço.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007 15:27:00 BRT  
Blogger O Anão Corcunda disse...

Ignorar não é uma tarefa qualquer. Ignorar com um critério racional é muito difícil. Ainda mais quando não ignorar, no sentido em que aponto, significa retroalimentar pseudodiscussões. E empobrecer os bons momentos.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007 17:32:00 BRT  
Anonymous J Swift disse...

Salutar sua argumentação contra a vedação ao debate, caro Alonm. Mas há debates que só mascaram o essencial. Se falamos da legítima vontade de vingança contra um criminoso hediondo, cabe muito bem esse debate sobre alargar as portas das prisões, para caberem os menores pobres. Se a questão relevante é combater a criminalidade, não acredito que a solução esteja em gastar seja gastando mais com prisões que com escolas (que é o que acontecerá com essa proposta do Janine e outros "heróis em campo de batalha"). Toda essa discussão sobre maioridade penal é uma falsa resposta (e conveniente ao poder) a uma questão relevante: como deter o aumento da criminalidade.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007 17:47:00 BRT  
Anonymous Daniel Araujo disse...

Muita gente já respondeu sua pergunta, Alon, mas você ignorou as respostas, não as comentou nem levou em consideração em seus posts sobre o assunto.

Vou responder de novo, espero que agora esteja valendo.


Até que idade alguém poderá matar outra pessoa sem receber a punição devida pelo seu crime?

Nenhuma. Em qualquer idade, o cidadão deve saber que está sujeito às penalidades por assassinato. Se é menor, deve saber que pode ser emancipado pelo juiz para responder como "gente grande" por seu crime, independente do dispositivo constitucional que torna inimputáveis os menores de 18 anos. Ao ser emancipado, esse dispositivo não se aplica mais. Não é assim que funciona hoje em dia, mas este é um caminho mais produtivo para a discussão. Simplesmente baixar a maioridade penal não resolve o problema e cria outros.

Não deveríamos estabelecer também uma "menoridade social"?

Obviamente que não. Se colocam a miséria na discussão, é por causa de algo que você já falou aqui: Não é exatamente a pobreza que causa criminalidade, é a distância cada vez maior entre as camadas sociais. Tanto que quando a China, ou Cuba, deixam que haja desníveis sociais em suas sociedades igualitárias, os níveis de criminalidade sobem.

E não é a mesma coisa que você e o Lula estão falando? A miséria, ou a pobreza, quando se compara com uma camada social mais alta, se vê mais miséria, mas pobreza. Combatendo a desigualdade social, o que é o mesmo que combater a miséria e a pobreza, o crime deveria cair.

Mas nem todo crime tem origem nesse desnível social. Existem os crimes passionais, os de colarinho branco, que são exclusivos do topo da pirâmide, os que são frutos de desvios de personalidade diversos (psicose, pedofilia, cleptomania, sei lá, tem várias), e assim por diante. A lei, e sua aplicação, deveria abranger todos esses tipos de crime.

Claro que isso não é dar aos pobres e miseráveis tratamento especial na hora de aplicar a lei sobre eles. Na verdade, é o oposto que ocorre: quanto mais alto na pirâmide social está o cidadão, maior a probabilidade dele escapar da punição. Tem tantas histórias por aí: pessoas presas anos a fio por furtar shampoo, ou roubar boné, ou mesmo presas injustamente, mas cuja situação social não possibilita seu acesso a defesa competente. E na outra ponta criminosos de colarinho branco impunes, filhos de diplomatas que queimam índios ou mendigos e saem andando, garotas que matam os pais e em poucos anos sairão da cadeia, etc...

Quer dizer, já existe uma "menoridade social" às avessas.

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Os dois textos, do Renato Janine Ribeiro e da Olgária, são muito bons, e organizam em poucas linhas a argumentação que eu imagino que você queria apresentar ao longo de todos os seus posts sobre este assunto. Mas faltou – coisa inédita neste blog, no geral muito bom – clareza e foco na argumentação. Até agora não entendi, por exemplo, qual é a sua proposta para a Constituição, ou o que você acha que deveria ser feito para que crimes como o do João Hélio não voltem a ocorrer.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007 18:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não seja injusto com o Alon. Ele está sustentando essa batalha intelectual quase sozinho. Agora, depois de três semanas de troca de idéias, qualquer um pode sentar e sistematizar. Eu agradeço as provocações que ele fez, tratando esse assunto sem rodeios. As pessoas podem ter se sentido incomodadas. Eu me senti incomodado. Mas ele nos fez pensar.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007 19:16:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Daniel:

Vamos por partes. Diz você:

"Muita gente já respondeu sua pergunta, Alon, mas você ignorou as respostas, não as comentou nem levou em consideração em seus posts sobre o assunto. Vou responder de novo, espero que agora esteja valendo."

O que eu escrevo ou deixo de escrever sobre o que vocês escrevem importa pouco, pois o que vocês escrevem fica escrito e as pessoas formam as próprias opiniões. Por isso, sempre "está valendo".

Diz você:

Até que idade alguém poderá matar outra pessoa sem receber a punição devida pelo seu crime?
Nenhuma. Em qualquer idade, o cidadão deve saber que está sujeito às penalidades por assassinato. Se é menor, deve saber que pode ser emancipado pelo juiz para responder como "gente grande" por seu crime, independente do dispositivo constitucional que torna inimputáveis os menores de 18 anos. Ao ser emancipado, esse dispositivo não se aplica mais. Não é assim que funciona hoje em dia, mas este é um caminho mais produtivo para a discussão. Simplesmente baixar a maioridade penal não resolve o problema e cria outros.


Ou seja, você admite que um juiz possa revogar ele próprio a menoridade penal de alguém, mas não aceita que isso esteja em lei. Então me responda a uma pergunta: o que você acha de inverter, revogando a menoridade penal e delegando ao juiz a tarefa de decidir se alguém é inimputável ou não?

Diz você:

Não deveríamos estabelecer também uma "menoridade social"?
Obviamente que não. Se colocam a miséria na discussão, é por causa de algo que você já falou aqui: Não é exatamente a pobreza que causa criminalidade, é a distância cada vez maior entre as camadas sociais. Tanto que quando a China, ou Cuba, deixam que haja desníveis sociais em suas sociedades igualitárias, os níveis de criminalidade sobem.


De acordo

Diz você:

E não é a mesma coisa que você e o Lula estão falando? A miséria, ou a pobreza, quando se compara com uma camada social mais alta, se vê mais miséria, mas pobreza. Combatendo a desigualdade social, o que é o mesmo que combater a miséria e a pobreza, o crime deveria cair. Mas nem todo crime tem origem nesse desnível social. Existem os crimes passionais, os de colarinho branco, que são exclusivos do topo da pirâmide, os que são frutos de desvios de personalidade diversos (psicose, pedofilia, cleptomania, sei lá, tem várias), e assim por diante. A lei, e sua aplicação, deveria abranger todos esses tipos de crime.

Você é um defensor do Estado de Direito. Defende que cada crime tenha a sua punição. É isso mesmo.

Diz você:

Claro que isso não é dar aos pobres e miseráveis tratamento especial na hora de aplicar a lei sobre eles. Na verdade, é o oposto que ocorre: quanto mais alto na pirâmide social está o cidadão, maior a probabilidade dele escapar da punição. Tem tantas histórias por aí: pessoas presas anos a fio por furtar shampoo, ou roubar boné, ou mesmo presas injustamente, mas cuja situação social não possibilita seu acesso a defesa competente. E na outra ponta criminosos de colarinho branco impunes, filhos de diplomatas que queimam índios ou mendigos e saem andando, garotas que matam os pais e em poucos anos sairão da cadeia, etc...Quer dizer, já existe uma "menoridade social" às avessas.


De acordo. E você nem falou no caso Pimenta Neves.

Diz você:

Os dois textos, do Renato Janine Ribeiro e da Olgária, são muito bons, e organizam em poucas linhas a argumentação que eu imagino que você queria apresentar ao longo de todos os seus posts sobre este assunto. Mas faltou – coisa inédita neste blog, no geral muito bom – clareza e foco na argumentação. Até agora não entendi, por exemplo, qual é a sua proposta para a Constituição, ou o que você acha que deveria ser feito para que crimes como o do João Hélio não voltem a ocorrer.

Muito obrigado mesmo pelo elogio. Você dizer que espera de mim uma reflexão filosófica no nível da Olgária supõe que eu seja capaz de fazê-lo. Isso me envaidece, ainda que, evidentemente, não seja real. E é claro que uma hora vou ter de colocar formalmente a minha posição. Mas não há pressa, o importante é que o debate prossiga.

Ah, e um reado ao Luis Hamilton: refaça seu comentário, pois é um pouco demais você querer responder ao Daniel no meu lugar. Um abraço.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007 23:32:00 BRT  
Anonymous Luis Hamilton disse...

Puxa, Alon, então eu fui censurado? Estou surpreso. Todo mundo comenta os comentários dos outros! E não respondi no seu lugar, assinei e me identifiquei normalmente.

Eu sei o que te deixou irritado com meu comentário - não foi o destinatário, mas o conteúdo. Então, este fato de ser um comentário dirigido ao Daniel me parece apenas uma desculpa.

E além disso, eu sempre entendi que a sua "moderação" era pra evitar baixarias, como as que acontecem em outros blogs, o que, sinceramente, não acho que foi o caso.

Mas, no final, aquela sua história de que os comentários apenas enriquecem o blog foi posto em dúvida, não acha? Acho que você deveria deixar claro que apenas os comentários que você goste é que serão publicados. Mesmo os que tenham críticas a você podem sê-lo desde que contribuam para a sua "imagem" de democrático ou de capaz de aceitar críticas.

É legal publicar aquelas críticas que você pode responder com um "obrigado pela crítica, mas você está equivocado", né?

Bom, vou parar por aqui. Espero que você não censure este comentário também. E quanto a refazer o outro, não tenho como, pois não fico guardando cópias dos comentários. Como não sou propenso a baixarias, nunca imagino que vou precisar recuperar cópias do que eu escrevi depois de uma censura completamente equivocada como esta.

Acho que, se ainda der, você deveria publicar o comentário. Deixe o público saber que tipo de crítica você censura aqui no blog! Mas se o problema for MESMO que você não quer que eu responda ao Daniel, então me mande de novo que eu mudo o destinatário. E aí, você publica?

Abraço.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007 09:46:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Luis Hamilton:

Você está careca de saber que este é um blog moderado. Eu corto todo comentário que possa, mesmo involuntariamente, representar uma distorção deliberada das idéias alheias com o objetivo de envenenar uma discussão. A arquitetura é conhecida: "você diz isso porque, no fundo no fundo, defende na verdade aquilo". Ninguém aqui tem salvo-conduto para "interpretar" ou "explicar" a opinião alheia. Essa é a regra do jogo. Portanto, seu comentário foi vetado. Vou tentar recuperá-lo. Para que email eu devo mandar o texto se conseguir recuperá-lo?

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007 10:37:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Sugiro ainda a leitura do post "Este é um blog moderado. Habituem-se". No endereço abaixo:

http://blogdoalon.blogspot.com/2006/
08/este-um-blog-moderado-
habituem-se-2608.html

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007 10:41:00 BRT  
Anonymous Luis Hamilton disse...

Alon,

Antes mesmo de fazer a última resposta, eu procurei este seu post sobre a moderação e não encontrei. E o link que você deu não funciona.

É claro que eu sei que o blog é moderado e que, no final, o juiz é você. Eu já fui em outros blogs em que este tipo de reclamação era respondido com um "eu faço o que quero e pronto". (A propósito, nunca fui censurado mesmo nestes blogs).

Eu só questiono porque não concordo com sua interpretação de que eu queria envenenar a discussão. Nunca quis. Pelo menos, não mais que você com as perguntinhas repetidas ad nauseam sem que nenhuma resposta divergente seja sequer qualificada como resposta.

E esta sequência "você diz isso porque, no fundo no fundo, defende na verdade aquilo" é algo que você usou comigo (e com outros) várias vezes nestes tópicos sobre o tema da criminalidade. Eu, por exemplo, nunca defendi a "minoridade social". Nunca defendi que alguém, por condição de classe ou idade, tenha o direito de matar impunemente. Apenas defendi que a pergunta é capciosa e que reduz o tema a um único aspecto que não leva a lugar algum.

Por outro lado, se eu tivesse tentado "envenenar" a discussão, tanto você quanto os demais comentaristas - em geral, pessoas muito inteligentes e capazes de análises profundas - poderiam facilmente desmascarar a tentativa. Por isso, além de considerar a censura equivocada, acho que ela foi inútil neste sentido.

Mas não se trata de ficar discutindo o seu julgamento. Prefiro aceitar que o blog é seu e você faz o que quer e pronto. Lógico que isto me faz questionar se vale a pena perder o meu tempo escrevendo.

Quanto ao texto, vou te mandar meu endereço de e-mail através da caixa constante no seu currículo.

Abraço.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007 12:03:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Luis Hamilton:

Não, não usei esse método com você, reveja os posts com calma e você mesmo verá. E minhas perguntas são as perguntas que estão colocadas no debate. Não se incomode com elas. A dificuldade em respondê-las é a sua dificuldade de definir uma posição clara no assunto.

Daniel:

Não posso editar seu post. O sistema não permite. Há umaparte dele que vc pede para não publicar. Então me mande só o que vc deseja que seja publicado.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007 15:58:00 BRT  

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