sábado, 3 de fevereiro de 2007

Culpa coletiva, cidadão planetário e um partido emparedado (03/02)

Estou sentado, observando e aprendendo com a máquina de propaganda que opera em torno do tema do aquecimento global. Não que não seja um assunto importante. Não que não tenha gravidade. O que me impressiona (no bom sentido) é o aparato comunicacional que empurra goela abaixo da humanidade os conceitos de "culpa coletiva" e de "cidadão planetário". Tratei disso há menos de um mês, em Nós, o aquecimento global e as falhas do Relatório Stern. Culpa coletiva e cidadão planetário não existem, são peças de ficção. Mas hoje eu estou numa linha construtiva. Em vez de criticar, vou apresentar propostas para o problema do aquecimento global. Sugiro, em primeiro lugar, que a Organização das Nações Unidas (ONU) defina metas decrescentes de consumo de energia nos países ricos. O objetivo é que em algum tempo o consumo de energia per capita das áreas desenvolvidas do planeta se iguale ao das áreas subdesenvolvidas. E como fazer? Uma idéia é sobretaxar fortemente (o quanto seja necessário) o consumo de combustíveis fósseis nos países ricos. Com o dinheiro, subsidiar o uso de energias alternativas nos países pobres. Sempre me dizem que o planeta não suportaria a universalização dos níveis europeu e americano de consumo. Muito bem. Então, que americanos e europeus consumam casa vez menos, para que africanos, asiáticos e latino-americanos possam atingir níveis razoáveis de consumo. Não é uma boa idéia? Outra proposta a ser implementada pela ONU: transferir diretamente aos países pobres, na forma de créditos de carbono, todos os recursos que os ricos destinam a subsídios agrícolas. Essa ação traria diversas vantagens. A área destinada à agricultura na Europa e nos Estados Unidos cairia dramaticamente, acelerando o reflorestamento (no caso dos ricos, esse créditos de carbono teriam, claro, um desconto). E haveria como brecar a expansão da fronteira agrícola no mundo subdesenvolvido sem comprometer o crescimento. Os pobres poderiam praticar uma agricultura capital-intensiva para vender mais alimentos aos ricos (cuja produção, naturalmente, cairia). Vejam que propostas boas. Boas e malucas. Propostas é que não faltam. Falta quem tenha têmpera para enfrentar a mistificação. Mas estou curioso mesmo é para saber o que vai fazer o PT-governo nesse assunto. Se vai assumir a sua responsabilidade como partido nacional, partido dirigente e governamental do nosso país, ou se vai continuar (como faz há mais de duas décadas) flertando com a submissão aos desígnios e projetos dos que, depois de nos terem excluído da riqueza, querem nos impor o conformismo com a pobreza. Como escrevi em O ambientalismo num só país, em dezembro:

É fácil identificar a ação do ambientalismo global entre nós. Ele é contra tudo. É contra usinas nucleares (por causa do lixo atômico), é contra usinas termoelétricas (por causa da poluição e da emissão de gases), é contra usinas hidroelétricas (por causa das inundações), é contra a construção de rodovias e ferrovias que possam potencializar a expansão da fronteira agrícola (porque é contra expandir a fronteira agrícola), é contra o uso de organismos geneticamente modificados (por causa da ameaça à biodiversidade), é contra o controle soberano do país sobre as reservas minerais localizadas em áreas indígenas (por causa dos direitos dos povos originais), é contra o reequipamento das Forças Armadas e sua capacitação efetiva para defender o território nacional (pois isso seria um desperdício), é contra a integração sul-americana (por quê, não se sabe bem). É contra até o Rodoanel em São Paulo. Durante duas longas décadas, o Partido dos Trabalhadores adulou e açulou esse pessoal. Era o "internacionalismo" de mãos dadas com o imperialismo, rodopiando numa valsa maluca. Agora, o PT chegou ao governo e descobriu que sem utilizar soberanamente os recursos naturais do Brasil não haverá desenvolvimento no país que preste. E o projeto de poder do PT não sobreviverá sem mais crescimento e desenvolvimento. Sem os dois não há política distributivista que se sustente no tempo -ao menos na democracia. A cizânia está instalada. A aliança do petismo com o ambientalismo global é como o cruzamento de duas espécies distintas: coabitam há muitos anos mas não são capazes de gerar descendência fértil. Ou o PT inventa um ambientalismo nacional, voltado para o desenvolvimento verdadeiramente sustentável (sustentabilidade sim, mas com progresso), ou vai perceber que o chão começa a ceder sob os seus pés. Por enquanto, o PT está com sorte. Não há no Brasil nenhum partido de esquerda com uma plataforma essencialmente nacional. Por enquanto, o PT pode se dar ao luxo, na questão ambiental, de acender uma vela a Deus e outra ao diabo. Por enquanto.

Agora me responda: o que a eleição da Câmara dos Deputados tem a ver com o combate ao aquecimento global?

Entenda o que é o "efeito estufa" e como ele provoca o aquecimento global (Agência Brasil)

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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

A única resposta, desaforada é claro, para as pessoas que acham que no mundo há humanos demais, é a seguinte:
Suicide-se!!!!!!
Lógico que esta lenga-lenga não passa de política, com fins de dominação e controle.
JV

sábado, 3 de fevereiro de 2007 16:10:00 BRST  
Anonymous Letras disse...

olá, interessantíssimo o blog, textos muito bem escritos, adorei, abração

sábado, 3 de fevereiro de 2007 19:06:00 BRST  
Anonymous Celso Jânio Moskorz disse...

Você andou lendo Aldous Huxley recentemente...

domingo, 4 de fevereiro de 2007 15:40:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Li de novo o Ambientalismo em Um Só País e achei muito bom.
JV

domingo, 4 de fevereiro de 2007 15:56:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

presentinho
http://www.crichton-official.com/speeches/speeches_quote04.html

domingo, 4 de fevereiro de 2007 16:51:00 BRST  
Blogger cid disse...

alon

É claro que a questão do aquecimento do planeta é uma questão política, como tudo, aliás. Suas propostas vão ao ponto porque desmascaram os verdadeiros responsáveis pelo problema: os países hegemônicos, que se utilizam intensamente da energia dos combustíveis fósseis, responsáveis pelo efeio estufa.

Como a maior parte da água potável do planeta se encontra nos chamados países emergentes, boa parte deles com grande extensão de terras agricultáveis, o fornecimento de alimentos para os países centrais embute o fornecimento de considerável quantidade de água utilizada em sua produção. Logo, a importância estratégica dos produtores de alimentos num futuro próximo pode ser utilizada para a obtenção de recursos para pesquisas em energias alternativas.

Moral da história: se os produtores de petróleo têm seus trunfos (por enquanto), e o mundo desenvolvido detém a hegemonia do conhecimento atual, os países com grandes reservas de água e terras para a agricultura podem se constituir num terceiro pólo para rediscutir novas relações de poder. Somente assim, entendo, suas ótimas propostas teriam chances de vingar. Mais: teriam chances de escapar da armadilha engendrada pelas atuais discussões sobre o aquecimento global.

cid cancer
mogi das cruzes - sp

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007 11:25:00 BRST  

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