quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

A agência Itamaraty (07/02)

Eu não entendo direito essa história do sujeito que descobre que é contra um governo só depois de ter perdido o emprego que tinha nele. Mas não vou me estender na exploração dos escaninhos da alma humana. O nosso ex-embaixador em Washington diz que a diplomacia brasileira sofre de antiamericanismo. Qual é a novidade? O Itamaraty tem viés antiamericano há pelo menos quatro décadas, desde os governos militares. Por isso, entre outras coisas, reconhecemos Angola antes dos Estados Unidos. Outra crítica é que os diplomatas são obrigados a ler livros com os quais não concordam. E daí? É só ler o livro e continuar discordando. Engraçado, esse pessoal: parecem achar que a diplomacia, como carreira de Estado, deveria ser imune à política. À política dos outros, claro. Querem um Itamaraty blindado contra resultados eleitorais. Seria uma nova agência reguladora, só para cuidar da política externa. É a conversa de sempre. Querem um Estado só deles, comandado pela "opinião pública" e vacinado contra a plebe que comparece às urnas.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

13 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, você tem razão. Há meses, convidada pelos meus alunos militares, da pós-graduação em ciência política da UFF, fui assistir a uma palestra de um diplomata aposentado, para os alunos das Forças Armadas, todos de patentes importantes. Nessa palestra, o diplomata fez uma análise da política externa brasileira, que ele considerava pró-Chaves, completamente equivocada, e atacava Lula, Marco Aurélio Garcia e o ministro das Relações Exteriores. No final, a palestra em power point expunha as soluções. Destacava-se a seguinte proposta: para acabar com o problema sugere-se Erradicação Imediata dos Responsáveis Atuais pela política externa brasileira. Fiquei estarrecida pois Erradicar é uma palavra muito forte e ainda mais para ser usada por um diplomata diante de alunos dos altos comandos militares. Perguntei, na hora das perguntas, que têm de ser feitas por escrito, qual a opinião do diplomata sobre o papel das burocracias nas democracias? Obedecer a governos eleitos democraticamente ou mandar erradicá-los? Durante os governos militares as burocracias desses orgãos mantinham-se obedientes (se a política externa era terceiro mundista, como no período do Azeredo da Silveira eles obedeciam). Quando Costa e Silva recebeu um presidente do Banco Central que avançou para ele e disse Eu sou o guardião da moeda, Costa e Silva respondeu o Guardião da Moeda sou eu. Ninguém no mercado ou na burocracia reagiu. Agora que o governo é eleito e democrático, a política externa e a política monetária não pode ser delegada pelo povo ao Presidente da República, nem ao Congresso. Tem de ficar nas mãos de burocracias não eleitas? Não dei o meu voto ao mercado nem a nenhum embaixador e sim ao presidente da República e ao Congresso.
abraço
Inês

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007 11:42:00 BRST  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Essa entrevista é aquilo que em inglês se usa a expressão WTF? pra perguntar que diabo isso faz na vida.

Tirando a campanha anti-Lula da Veja, que já alcança níveis de comédia pastelão sem graça, e o chororô de quem perdeu o emprego e reclama do ex-chefe, não tem nada ali que não se saiba desde, ahn, 1961. A não ser, claro, que exista uma classe méRdia tão alienada do que acontece à sua volta que não saiba que a política externa brasileira é basicamente a mesma há 40 anos, mesmo com as tentativas de Celso Lafer de alinhar o Brasil aos EUA.
A única mudança visível com Lula, e que já vem sendo ensaiada desde Collor, é que o Itamaraty, liderado pelo próprio presidente, se tornou também um caixeiro-viajante brasileiro no exterior, abrindo rotas comerciais Sul-Sul.

Ou será que o sucesso do G-20, que conseguiu travar a Rodada de Doha e está forçando a discussão do protecionismo agrícola dos países centrais, começa a incomodar tanto assim? Mistério...

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007 11:46:00 BRST  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Essa entrevista é aquilo que em inglês se usa a expressão WTF? pra perguntar que diabo isso faz na vida.

Tirando a campanha anti-Lula da Veja, que já alcança níveis de comédia pastelão sem graça, e o chororô de quem perdeu o emprego e reclama do ex-chefe, não tem nada ali que não se saiba desde, ahn, 1961. A não ser, claro, que exista uma classe méRdia tão alienada do que acontece à sua volta que não saiba que a política externa brasileira é basicamente a mesma há 40 anos, mesmo com as tentativas de Celso Lafer de alinhar o Brasil aos EUA.
A única mudança visível com Lula, e que já vem sendo ensaiada desde Collor, é que o Itamaraty, liderado pelo próprio presidente, se tornou também um caixeiro-viajante brasileiro no exterior, abrindo rotas comerciais Sul-Sul.

Ou será que o sucesso do G-20, que conseguiu travar a Rodada de Doha e está forçando a discussão do protecionismo agrícola dos países centrais, começa a incomodar tanto assim? Mistério...

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007 11:46:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Caro,
Se me permite só teria um pequeno reparo, substituiria a expressão "opinião pública" entre aspas, entendi a intenção, por opinião publicada acho mais direto.
Quanto ao resto, bem, c.q.d. como diria meu velho professor de matemática ao demonstrar o teorema de Pitagóras.
Laércio de Araújo

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007 12:54:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Excelente nota, Alon. Houve contencioso Brasil-EUA também na extensão da fronteira marítima brasileira para 200 milhas no início dos anos 70. Os EUA pressionaram e votaram contra. Acho engraçado que os mesmos que acusam os brasileiros que defendem os interesses nacionais de antiamericanismo, não acusam os americanos de antibrasileiros, quando os EUA criam barreiras alfandegárias e fito-sanitárias a produtos brasileiros, quando divergem na OMC, na ONU, etc.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007 13:57:00 BRST  
Anonymous carcamano disse...

Mas quem falou isso: o diplomata ou a Veja? Pelo que informa o Blog do Zé Dirceu (atualmente, um texto menos marcadamente panfletário que a revista vizinha do buraco do metrô!), as palavras de Abdenur foram um tanto, digamos, exageradas na edição.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007 14:09:00 BRST  
Anonymous Fernando José disse...

O grande problema nessa questão é o fato de o PT estar no governo. Se não vejamos: Ancinav, lei da mordaça contra o Ministério Público, essa novo projeto de lei querendo levar à censura às programações de TV, o Conselho de Regulamentação da Imprensa, o caseiro Francenildo...
Esse é o problema, Alon, o Partido dos Trabalhadores. O PT é apenas um partido que venceu duas eleições presidenciais. Não é o dono do Estado, apenas o seu ocupante, mas age como se fosse o dono, entende? Tudo bem, nossa diplomacia pode ter sido assim, antiamericana desde não sei quando, mas quando isso vem do PT, partido conhecido por suas posições totalitárias e anti-democráticas, a coisa fica complicada e quem preza pelo democracia brasileira tem que ficar com as barbas de molho.
Eu, que não conheço os meandros da diplomacia brasileira, tenho todos os motivos para ficar preocupado com a notícia publicada pela Veja, pois não voto na esquerda (apesar de ser leitor assíduo do seu blog).

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007 17:08:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Não leio a Veja. Mas li na Folha de S. Paulo de 07/02 uma síntese feita por Clovis Rossi (é insuspeito porque nunca elogia qualquer ato ou fato decorrente do governo Lula) que demonstra contradições na entrevista. Há resposta totalmente ao contrário das manchetes e destaques editados pela revista, confome relata o Clovis Rossi porque a revista eu não leio.

Rosan de Sousa Amaral

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007 21:56:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O diplomata que você execra tem, se não me engano, 44 anos de serviços prestados ao Estado brasileiro. O que isso significa? Muito. Faça as contas. Procure lembrar ou pesquisar quem e o que era você era quando o diplomata ingressou no Itamaraty. E, então, pense: quem serviu mais ao Brasil? Ele ou você? Acredito que você, que é amigo da razão, haverá de concordar que o post é um grande equívoco de opinião.

Penso que neste post lhe faltou a responsabilidade do jornalista, que é o compromisso com a verdade. E o que é a verdade neste caso? Simples: a história dos 44 anos de serviços prestados ao Estado brasileiro.

Você já escreveu aqui, mais que uma vez, que a vaidade (essa amiga inseparável da arrogância) é um traço que marca a sua personalidade.

Contribuindo para a teoria do viés, transcrevo se o espaço reservado ao comentário permitir, matéria da revista Isto Dinheiro de 14 de abril de 2004:

Se não couber, acesse o link http://www.terra.com.br/istoedinheiro/345/economia/345_nosso_homem.htm

Ele nem teve tempo de entrar em seu novo gabinete de trabalho, na bucólica Massachusetts Avenue, Washington. Na manhã de domingo 4, o diplomata Roberto Abdenur, novo embaixador do Brasil nos Estados Unidos, já estava no centro de um furacão envolvendo as tensas relações entre os dois países. Desta vez, ele teve que conter as pressões americanas contra o programa nuclear brasileiro. Acionado pelo chanceler Celso Amorim, o embaixador Abdenur foi um dos redatores da nota oficial do governo sobre o assunto, divulgada na tarde de segunda-feira 5. Consultado a toda hora pelo chanceler, o novo embaixador acabou se tornando o principal mentor da posição brasileira de manter os inspetores internacionais longe da tecnologia da usina de Resende, no Rio de Janeiro. Até porque Abdenur é o maior especialista do Itamaraty em questões nucleares – antes de Washington, ele era embaixador em Viena e também representava o Brasil junto à Agência Internacional de Energia Atômica. Nesta semana, Abdenur pretende ir ao Departamento de Estado americano apresentar suas credenciais e pedir que marquem sua primeira audiência com o presidente George W. Bush. Só então estará oficializado no posto onde já começou a trabalhar. “Não há nenhum novo começo na relação bilateral”, disse ele à DINHEIRO. “Eles continuarão sendo um grande investidor e
nosso maior parceiro comercial, apesar das profundas diferenças de visão do mundo entre os dois governos.”
Aos 61 anos e 41 de carreira, Roberto Abdenur chega com a missão de tocar em Washington o atual discurso gauche do governo. Para chegar ao posto, superou meia dúzia de alternativas pesadas, a começar pelo empresário Mario Garnero, amigo do peito da família Bush. E quem teria sido seu padrinho? Celso Amorim em pessoa. Abdenur é homem da mais absoluta confiança do chanceler. Quando Amorim foi chanceler de Itamar Franco, Abdenur era o secretário-geral do Itamaraty, segundo homem na hierarquia da carrière. Ele também é ligado ao atual secretário-geral, o polêmico Samuel Pinheiro Guimarães. Assim como Samuel, Abdenur não simpatiza muito com o unilateralismo americano. Também tem sérias restrições à Área de Livre Comércio das Américas (Alca) – Abdenur acha que seria mais vantajoso para o Brasil fechar um acordo com a União Européia. “Espero que os Estados Unidos estejam conscientes do fato de que eles correm risco de perder terreno no Mercosul”, afirma.
Nos bastidores do Itamaraty, é dado como certo que a estada de Abdenur em Washington seria apenas um trampolim para vôos mais altos. Pelas regras da casa, ele só poderá ficar no exterior até a metade de 2005. A grande aposta é que ele ocupará a cadeira de Samuel Guimarães. O atual secretário-geral, por sua vez, estaria cobiçando Buenos Aires. Antes de desembarcar em Washington, Abdenur passou duas semanas no Brasil conversando com empresários sobre os furacões que vai enfrentar. “Conversei com mais de 150 empresários”, conta ele. Visitou a Embraer e fez reuniões com os exportadores de suco de laranja, siderurgia, algodão e têxteis. “Minha grande missão é aumentar as exportações”, diz. Em quanto? “Nos últimos 20 anos, o Brasil duplicou as exportações, passando de US$ 8 bilhões para US$ 16 bilhões; no mesmo período a China passou de US$ 4 bilhões para US$ 130 bilhões. Há nichos que ainda não exploramos.” E para quem o novo embaixador brasileiro está torcendo nas eleições presidenciais americanas: Bush ou John Kerry? “A minha impressão é que nem o Bush será tão unilateralista como muitos pensam, nem o Kerry vai acabar com o unilateralismo.”. E sobre a possibilidade de Kerry aumentar o protecionismo comercial? “Ora, ele não vai ser terrivelmente protecionista, como muitos pensam. Há coisas que se dizem em campanha e outras que se fazem em governo.”

Abs.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007 00:33:00 BRST  
Blogger alberto099 disse...

Caro Alon, acho que está faltando dar o devido enquadramento a essa entrevista: as questões privilegiadas pelo diplomata são questões corporativas ou briga de panelinhas do Itamaraty, tipo “isso eu não leio” como você frisou. Quando levado a se posicionar sobre a política externa do governo, o anti-americanismo é derivado de se privilegiar as relações sul-sul, mas uma coisa não deriva da outra! Tem gente bastante no Itamaraty para falar com o mundo todo. Creio que o que irrita boa parte da burocracia do Itamaraty é a desenvoltura da diplomacia do governo Lula. Logo quando da posse em 2003, o Brasil se meteu na mediação entre Hugo Chaves e a oposição na Venezuela, a grita que partiu do Itamaraty, amplificada pela mídia, foi ensurdecedora e o argumento principal era que iríamos “magoar” os americanos.

Quero ainda fazer duas observações ao comentário anterior da Inês, com o qual concordo em quase tudo. Não se trata tanto de uma reivindicação da burocracia, mas do costume de não ser importunada em seus assuntos, daí a pose de indignação. O que o governo Lula fez com o Itamaraty e em poucos outros setores do Estado, como a Polícia Federal, é o segredo para destravar a economia: botar a máquina pública para trabalhar. A outra observação diz respeito à autonomia do BC e ao assunto das agências, que você bem levanta Alon: de fato a autonomia pode se justificar em questões muito definidas e focalizadas, quando cabe o Estado dar uma garantia de que não usará de seu poder soberano em determinado assunto. No caso do Banco Central, que não usará de seu poder soberano para financiar suas atividades inflacionariamente (uma tentação fácil de compreender), portanto uma autonomia muito restrita: liberdade para operar mecanismos de política monetária tendo em vista um objetivo de inflação, objetivo de resto a ser fixado pelo governo eleito. Transformar tudo em “agência reguladora” é embarcar no corporativismo da burocracia.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007 07:26:00 BRST  
Anonymous Tiago disse...

Alon, desculpe-me, mas o problema que ele cita não é ler ou não ler, é ter de concordar.
Alem do que, se queremos o debate, tem de se ler de tudo e não apenas um lado.Também vc sabe que quando se adota uma posição oficial, caso você não a siga, vai parar na sua carreira. O que ele pede não é autonomia, mas sim que suas analises sejam levadas em conta quando algum assunto seja discutido, como exemplo cito o reconhecimento da china como economia de mercado, Infelizmente somente o governo achou isso bom, ninguem nas atividade empresarial, muitos embaixadores, analistas, etc. Bem espero que quando o governo mudar e ai trocarem os livros que não seja vc a reclamar da politização das relações.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007 09:31:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
Bastaram-lhe 17 precisas linhas para balizar à saciedade 2 debates de fundo: a ideologização falsificada provocada por Abdenur e ampliada, por maquiagem de títulos, olhos e entretítulos por "Veja" e o novo feticha da moda, a "desestatização do Estado", que não passa da reação cínica e antidemocrática à perda de poder pelo voto.

Artur Araujo

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007 13:13:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Tiago,
Em qualquer atividade coletiva, desde comandos militares, passando por empresas, até o corpo diplomático do Itamaraty, todos tem o direito de divergir e lutar para impor suas opiniões que acham as mais corretas (e idéias pertinentes e brilhantes, mesmo que antagônicas, costumam ser valorizadas, mesmo que não sejam adotadas); mas do momento em que uma opinião é voto vencido ou deve obedecer a uma estrutura hierárquica, todos tem que se empenhar e seguir o ponto de vista vitorioso. Então a questão não é ter que concordar, a questão é ter que servir com profissionalismo a política vitoriosa, delegada pelas urnas, e formulada pela cúpula do Itamaraty nomeada pelo governo vigente.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007 13:28:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home