terça-feira, 16 de janeiro de 2007

A placa para Fruet, o marujo à procura de sobreviventes e uma eleição indefinida (16/01)

Eu sugiro que a direção do PSDB coloque uma placa em homenagem ao deputado federal Gustavo Fruet (PSDB-PR) na sede nacional do partido. Sugiro também que se pense seriamente no nome dele para presidir a agremiação depois que acabar o mandato do presidente Tasso Jereissati. Fruet é um ex-peemedebista recém-incorporado às hostes tucanas. Mas foi ele, um neófito, quem ofereceu a solução para a embrulhada em que haviam se metido os caciques históricos do tucanato na sucessão da Câmara dos Deputados. O problema não foi o PSDB ter apoiado Arlindo Chinaglia (PT-SP) para a presidência da Câmara. O problema foi ter feito isso atabalhoadamente, sem um discurso previamente construído e sem preparar a opinião pública tucana para essa possibilidade. O PSDB pretendeu resolver uma questão político-partidária complexa na base do telemarketing [na política, um dos sintomas de deformação burocrática é a substituição das discussões políticas pelos métodos administrativos]. Depois, quando a coisa apertou, ninguém quis assumir a paternidade da criança. Deixaram o líder na Câmara como o suposto único responsável pela operação. Coisa feia. "Eu ganhei, nós empatamos e vocês perderam." Nem o mais verde dos focas acredita que uma coisa dessas possa ser decidida no PSDB sem que a cúpula tenha alguma participação. Mais uma vez prevaleceu o ditado mineiro: esperteza quando é muita vira bicho e come o dono. Só que desta vez o dono deu um jeito de escapulir, graças ao deputado Fruet. Ele me lembrou hoje o oficial Harold Godfrey Lowe, do Titanic, que de dentro do bote e com uma lanterna na mão procura sobreviventes do naufrágio, bem no finzinho do filme (foto). Agora temos três candidatos para presidir a Câmara. Fruet larga com uns 80 votos, creio, vindos principalmente do PSDB e do PPS. Mas também pode puxar uma turma do PV. Além de votos esparsos. Aliás, deixei de comentar esses dias uma enquete de O Estado de S.Paulo entre os deputados, levantamento que mostrava Chinaglia ligeiramente à frente de Aldo Rebelo (PCdoB-SP), ambos num patamar em torno de cem votos. Um trecho da reportagem do jornal, no último dia 11, sobre a enquete:

Todos os 513 deputados eleitos ou reeleitos em 2006 foram procurados. Destes, 365 (71% da Casa) aceitaram revelar seus votos, sob a condição de não terem o nome publicado. Chinaglia obteve 131 votos dos entrevistados, ou 35,9%, ante os 104 votos (28,5%) do atual presidente da Casa e candidato à reeleição, Aldo Rebelo (PC do B-SP). Além da diferença de apenas 27 votos entre os adversários, outro número indica que a briga pelo comando da Câmara está longe de uma definição. O levantamento revelou que 124 deputados (34% dos entrevistados) ainda não sabem em quem vão votar na eleição, marcada para 1º de fevereiro.

Querem saber? Contra-informação à parte, a eleição está totalmente indefinida. A única certeza é que aumentou a chance de ter segundo turno [para ganhar no primeiro, o vencedor tem que obter metade mais um dos votantes; como a eleição vai ser no mesmo dia da posse, o quórum será altíssimo entre os 513 deputados]. Vamos ver o que fará agora o PT. Eu aposto que o PT vai trabalhar por uma pressão do governo para que Aldo Rebelo desista. Luiz Inácio Lula da Silva vai entrar nessa? Veremos. Mas o Palácio do Planalto deveria abrir o olho, porque do jeito que está pode sair todo tipo de coelho da cartola. Em 2005, Luiz Eduardo Greenhalgh (SP) era o candidato do PT e Virgílio Guimarães (PT-MG) disputava como avulso. Severino Cavalcanti (PP-PE) corria por fora. O primeiro movimento do PT foi tentar fazer Virgílio retirar a candidatura. Não funcionou. Aí alguém no PT teve a brilhante idéia de esvaziar a candidatura de Virgílio, na suposição de que seria mais fácil a Greenhalgh ganhar de Severino no segundo turno. O resultado é conhecido. A manobra deu errado, porque o antipetismo acabou sendo mais forte do que o anti-severinismo. Agora, o governo e o PT podem ceder à tentação de promover uma lipo na candidatura do atual presidente da Câmara, na suposição de que será fácil para Chinaglia vencer Fruet num hipotético segundo turno, já que a base do governo tem maioria sobre a oposição. Do outro lado, os partidários de Aldo Rebelo recordarão que faz muito, muito tempo que o PT não ganha uma votação dessas na Câmara. Aliás, a última vez em que o governo impôs uma derrota à oposição em bloco foi na eleição de Aldo, com uma diferença de apenas 15 votos. Um segundo turno Aldo x Arlindo é zero a zero para o Planalto. Num segundo turno Aldo x Fruet, o comunista dividiria a oposição, já que o PFL o apóia. Num segundo turno Arlindo x Fruet, o PFL votaria em massa no tucano, sendo que os peessedebistas favoráveis a um acordo com o PT não deixariam de votar em um dos seus (Fruet) para eleger Chinaglia. Ou seja: se eu estivesse na pele do PT trataria de dar um jeito de ganhar no primeiro turno. Para isso, o ideal seria que o governo obtivesse um recuo do PCdoB ou do PSB. Mas ambos sempre poderão esgrimir a tese de que um não petista tem mais chances no mano a mano com um tucano no plenário. Já o PT dirá que Fruet não é Severino, não tem penetração na massa dos deputados e que as situações não são semelhantes. Eu incluo outra variável: metade da Câmara é de estreantes, o que confere ao processo um grau de incerteza muito grande. Enfim, se o governo e o PT queriam confusão, têm-na. Os que pariram Mateus, agora embalem-no. Eu vou comprar minha pipoca e meu refrigerante. E esperar para ver como os gênios vão matar a charada.

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6 Comentários:

Blogger alberto099 disse...

Caro Alon, seus argumentos seriam perfeitos se o que importasse fosse a lógica partidária. Mas é a total falta de disciplina partidária que torna o quadro indefinido. Permite iniciativas isoladas, ou balões de ensaio, como queira, tipo o apoio do PSDB ao candidato do PT. Não são partidos que se expressam, mas facções. Interessa à direção do PMDB o acordo com o PT, mas que acordo é esse onde nada impede que os 40 deputados (acho que o número é esse) que não votaram no acordo possam reafirmar seu voto no plenário? Perde a coalizão, recém montada pelo governo, que não é capaz de agir como coalizão, e a liderança do Presidente sobre a coalizão. A contraprova é que os candidatos continuam perseguindo o voto do baixo clero, grupo pluripartidário com real capacidade de decidir. A própria existência do baixo clero é a maior evidência da falta de consistência dos partidos políticos. Não faz falta uma reforma política que exija alguma coerência na atuação política dos excelentíssimos deputados?

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007 05:34:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, você matou a charada. Veja a matéria da Folha:

"17/01/2007 - 09h08
Emissário de Lula pressiona Aldo a desistir; deputado rejeita proposta

VALDO CRUZ
LETÍCIA SANDER
da Folha de S.Paulo, em Brasília

Um interlocutor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva procurou pessoalmente, no último fim de semana, o presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B-SP), para saber se ele "enxergava alguma alternativa para resolver o impasse" criado na disputa com o petista Arlindo Chinaglia (PT-SP).

Apesar de o interlocutor de Lula, um ministro muito próximo do presidente, não ter dito a palavra renúncia, Aldo entendeu que ela estava implícita no diálogo e respondeu que não retiraria sua candidatura e que iria "até o fim".

O atual comandante da Câmara aproveitou a visita do emissário para se queixar da suposta atuação do governo em favor de Chinaglia. Aldo disse estar ouvindo de deputados que os aliados do petista estariam oferecendo cargos no governo em troca do apoio.

O ministro garantiu ao comunista, que chegou à presidência da Câmara com o apoio do governo, que Lula não endossava nenhum acordo nesse sentido e que o ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) também não estaria participando de articulações para distribuição de cargos a fim de eleger Chinaglia.

Segundo a Folha apurou, Aldo ficou convencido, depois da conversa em sua casa, que o governo não está oferecendo ministérios a futuros apoiadores de Chinaglia, mas o mesmo não estaria acontecendo no comando da candidatura do petista.

Na avaliação do grupo de Aldo, o PT estaria fazendo a oferta de cargos e, depois, tentaria impor as negociações ao governo. Foi relatado a aliados do comunista que petistas estariam dizendo que precisavam "enquadrar" o presidente. O PT nega esse tipo de negociação.

Ontem, por exemplo, deputados contaram a aliados do comunista terem ouvido de parlamentares do PTB, partido que deve anunciar hoje seu apoio a Chinaglia, que a sigla ficaria com o Ministério da Agricultura. Já estaria, inclusive, acertado o nome do novo ministro: o deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP).

Questionado ontem sobre a possibilidade de a pasta da Agricultura ficar com o partido, o líder do PTB, José Múcio (PE), disse que "isso não foi negociado, mas será solicitado".

Durante a visita, o emissário do governo informou que o presidente Lula havia sido informado por petistas da certeza da desistência de Aldo em disputar a reeleição. Em troca, o atual presidente da Câmara receberia um ministério.

O comunista disse ao ministro de Lula que jamais aceitaria uma oferta dessa e que, no início do processo, realmente não pensava em disputar a reeleição. Teria sido estimulado, porém, pelo próprio presidente a buscar um novo mandato à frente da Câmara. Agora, estava num caminho sem volta diante dos apoios já recebidos.

O interlocutor do presidente relatou a Aldo que contar com sua desistência foi "um erro de cálculo" de alguns setores do governo. Não se comprometeu, porém, com nenhuma estratégia que pudesse beneficiar o atual presidente da Casa. Ao se despedir, o ministro deixou apenas a impressão de que o teor da conversa seria informado ao presidente."

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007 10:28:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O dep. Ricardo Fruet apreesentou suas idéias. Esse é o fato novo no episódio e que merece comemoração. E deveria também merecer análise.

Outros, até agora, apenas apreesentaram promessas de cargos e prebendas.

A idéia da pipoca é boa. Esperar para ver. Também recomendo, como diz o Tambosi, um providencial saquinho de vômito.

abs.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007 12:51:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Alon. No geral, só discordo de uma frase sua: "Num segundo turno Aldo x Fruet, o comunista dividiria a oposição, já que o PFL o apóia". Neste hipotético segundo turno, fica bastante evidente que o PFL votaria em Fruet. Discordo de que a candidatura de Fruet seja tratada como "terceira via". Ela é de oposição. Representa o neo-Udenismo ressuscitado nas eleições de 2006, na formna de voto anti-Lula-seja-em-quem-for, e quer se preservar como influência política. Outra coisa que me "encafifa": porque a imprensa comprou como uma prato feito a expressão "Grupo dos 30" se no próprio noticiário cita "uns" 30 deputados, mas quando nomina-os passa pouco de 1 dezena?

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007 14:52:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Na mosca Alon. Veja o que disse o Fruet agora há pouco, no UOL News:

17/01/2007 - 14h25

Gustavo Fruet, do PSDB, espera conseguir 80 votos até semana que vem e ir para segundo turno

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007 15:11:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Segue o link com a entrevista do dep. Gustavo Fruet ao site
"Congresso em Foco". Nela, ele explicita suas idéias que fundamentam sua candidatura para a Presidência da Câmara. Os amigos do "realismo", claro, sempre preferirão destacar a
"ingenuidade" do deputado.

http://congressoemfoco.ig.com.br/Noticia.aspx?id=13992

PS: Caro José Augusto

Chamar o seu outro político de "udenista" não é solução. É uma facilidade.

Recentemente o prof.Simon Schwartzman escreveu um post muito interessante sobre o tema.

O título do post: A UDN tinha razao?

http://sschwartzman.blogspot.com/2006/12/udn-tinha-razao.html

"Nesta semana, participei de uma mesa redonda sobre este tema na UFMG, e resolvi me perguntar se não havia, afinal, algum mérito na antiga UDN e nos que, ainda hoje, acham que a ética e a moralidade da política devem ser levadas a sério. Minha resposta foi que sim, a ética e a moralidade não só são importantes, mas essenciais para a construção de uma sociedade moderna, que depende da honestidade das pessoas e da legitimidade das instituições.

Para quem se interessar, o texto preliminar da minha apresentação,
"A questão da ética na política" está aqui(link). Aproveitei também para reler e colocar na Internet um texto clássico do antigo Cardernos de Nosso Tempo, de 1954, sobre "o Moralismo e a alienação das classes médias", que é uma das primeiras tentativas, em nosso meio, de desqualificar a preocupação com a ética em nome da sociologia “realista” dos conflitos de classe."

Vá lá, José Augusto, e leia os dois textos indicados pelo professor. Não lhe indico a leitura no modo verbal imperativo para desqualificar suas opiniões. Indico porque percebo que você tem opiniões.

abs.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007 11:38:00 BRST  

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