quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Um belo ritual (24/01)

Acabo de assistir ao pronunciamento anual do presidente dos Estados Unidos sobre o estado da União (nação). É admirável o grau de civilidade que os americanos atingiram na relação entre os poderes. George W. Bush é o presidente mais impopular desde Richard Nixon. Dois em cada três americanos querem os Estados Unidos fora do Iraque. Os democratas acabam de tomar dos republicanos de Bush a maioria na Câmara de Representantes (deputados) e no Senado. Mas o ritual do discurso sobre o estado da nação foi cumprido à risca. Com solenidade. Uma solenidade que traduz não o respeito dos políticos uns pelos outros, mas o respeito dos políticos pelos eleitores. Lembrei o tantinho assim de parlamentares que se deram ao trabalho de comparecer à posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no começo deste mês. Lembrei também que segunda-feira Lula enfiou não sei por que o debate sobre a democracia no meio da discussão sobre o crescimento econômico. Seremos um país melhor no dia em que a democracia não mais pertencer à categoria dos pontos em discussão, no dia em que já estiver incorporada aos rituais que se cumprem automaticamente. E, já que estamos falando da democracia americana, qual foi a última vez em que algum grande veículo da imprensa de lá se meteu numa tentativa de golpe de estado para derrubar um presidente legitimamente eleito? Você se lembra? Então refresque a minha memória, pois eu não me lembro. Ainda sobre Bush, a História vai julgá-lo. Ele já é um lame duck, um pato manco. Mas devo aqui fazer um registro, por justiça. Nós, brasileiros, deveríamos apreciar e valorizar o modo como o presidente dos Estados Unidos vem tratando nosso país e nosso presidente. Apesar das diferenças sociais e ideológicas entre ambos, Bush tem uma admiração sincera por Lula. E (de novo, corrijam-me se eu estiver errado) não me lembro de ter visto nos últimos anos manifestações de arrogância imperial dos Estados Unidos em relação ao Brasil. Claro que eles têm os seus interesses, assim como nós temos os nossos. Mas há uma peculiaridade histórica que certo pensamento dito de esquerda se recusa a encarar. Enquanto nos mantivermos como uma região livre de armas de destruição em massa e de terrorismo, será extremamente difícil a qualquer governo americano convencer a sua opinião pública de que é necessário se meter nos nossos assuntos internos. O avanço eleitoral e político da esquerda na América do Sul é também produto de uma situação em que nosso continente não representa qualquer ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos.

Leia também Menos arrogância, mais pragmatismo e Se querem copiar os americanos, copiem nos acertos, ambos de maio de 2006

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5 Comentários:

Blogger Paulo Lotufo disse...

Alon, aprendi a assistir o State of Union lá nos EUA. O interessante é que a oposição recebe antecipadamente a fala presidencial e, logo após a cerimônia no Congresso, todas as redes de rádio e TV apresentam um "rebuttal" apresentado por um ator ou jornalista pago pelo partido oposicionista.
Deixando o Iraque de fora, há duas propostas que mostram recuo do programa histórico republicano: (1)plano de saúde e,(2) novas fontes alternativas para combustível de carros, com menor dependência do petróleo. Não quero ser chato, mas se houver aumento da importação americana do nosso álcool, o impacto econômico (sobrevalorizará o real? reduzirá área da agricultura alimentar??) e ambiental será maior que o tal PAC.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007 06:54:00 BRST  
Anonymous Rodrigo disse...

Eu não sei Alon, mas os americanos só atacaram apíses que não tinham como se defender, costumam respeitar paises que já tem armas de destruição em massa, vide o caso da Coréia. Os EUA não precisam de um fato real para defender seus interesses de forma mais drástica, inventaram pretextos para as ditaduras latino americanas, para a guerra do Vietnã e para a Guerra do Iraque. Mas talvez voce tenha razão.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007 08:45:00 BRST  
Anonymous jura disse...

Muito bem, Alon. Eu fico contente de saber que há comunistas de carteirinha - com todo o respeito, claro - que também lêem o NY Times. Já aprendi que não se trata de elitismo e sim de saber o que os nossos jornais não informam. Como a vulnerabilidade das urnas eletrônicas, por exemplo, que já estão chamando de "furo de Veja", quando da realidade é notícia engavetada há mais de dez anos por toda a imprensa. Ninguém quer se meter com Judiciário, claro, exceto os usineiros. A eles devemos essa revelação divina.

Pegando outra carona no NY Times, vale a pena conferir o que saiu dia 22 último sobre o financiamento público de campanhas eleitorais: Hillary Clinton já adiantou que o dinheiro público não dá e que não vai abrir mão do financiamento privado.
http://www.nytimes.com/2007/01/23/us/politics/23donate.html

Nessas condições, só nos resta frequentar uma escola de línguas - qualquer uma - e ler o jornal dos outros, como passageiros de ônibus.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007 13:43:00 BRST  
Blogger Fernando disse...

Cara,

Falando em coisas americanas a serem copiadas.

Nao vi ninguem repercurtir o fato que a CGU mandou pra Casa Civil um projeto parecido com a FOIA.

É preciso repercurtir e cobrar o envio ao congresso.

Nao gosto muito dos EUA, mas essa é uma das coisa que acho fantastico desse pais.

A constituiçao é outra, mas ai é outra estoria.

Asta,

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007 13:46:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon
os Estados Unidos incluiram uma espécie de PAC ou defesa do crescimento nos objetivos do Banco Central deles (o FED) - além da estabilidade, o FED deve buscar o crescimento, entre seus objetivos principais. Bernanke (presidente do FED) é partidário de metas de inflação, para evitar deflação e não inflação (ou seja, para evitar que algum delirante diretor do banco central adote uma posição radical demais contra a inflação, daí a necessidade de fixar limites mínimos para a inflação). Nenhum americano perde tempo a discutir a liberdade de mercado nem a presença ou ausência do Estado ( a não ser nos manuais de microeconomia a serem vendidos ao terceiro mundo)pois desde George Washington são as compras do Estado e as políticas de defesa do capital privado pelo Estado que asseguram lucros e crescimento ao capitalismo americano. Não há nenhum país do mundo em que haja capital sem Estado mas os Estados Unidos (antes tinha sido a Inglaterra) é paradigma de proteção. Capitalistas com espirito animal, risco capitalista, competição, conceitos naturais do capitalismo, supõe crédito, externalidades e/ou compras do Estado. Nós não podemos atirar nos nossos capitalistas como "aqueles que mamam nas tetas do Estado". Aqui o capital privado tem de aguentar a síndrome do salve-se quem puder pois a cultura é desde o Visconde de cairu a do liberalismo burro de manuais. Copiamos o que nunca existiu nos países da doutrina liberal.
abraço e obrigada mais uma vez pelo seu blog que nos dá espaços de discussão.
Inês

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007 20:37:00 BRST  

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