quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Sua excelência, o boato (18/01)

Ulysses Guimarães tanto valorizava o fato político que o chamava de Sua Excelência. Vou cometer aqui uma pequena trangressão e dizer o mesmo do boato. Sua Excelência, o boato político. Tem gente que despreza o boato. Eu não. O boato e o fato mantêm entre si a mesma relação que a bola e a criança. Quando estiver dirigindo e vir uma bola, breque. Atrás de uma bola pode vir sempre uma criança. Por analogia, quando ouvir um boato, pare e reflita. Atrás de um boato está invariavelmente alguém disposto a transformá-lo em fato. A mobilizar mundos e fundos para satisfazer um desejo e converter idéias em força material. Então, por causa disso, resolvi fazer este post só para escrever, em código, sobre alguns boatos que circulam pela capital em torno da sucessão na presidência da Câmara dos Deputados. O primeiro boato é que o PSDB de São Paulo está fulo da vida com o PSDB de Minas Gerais. Pelo acordo fechado entre o PT e o PSDB, um deputado de Minas aliado do governador mineiro será o vice-presidente da Câmara na chapa do PT. Mas os tucanos bandeirantes acham que estão pagando sozinhos a conta do pacto com o PT. Ou seja, enquanto o tucanato mineiro se dá bem com o pacto, o paulista fica com cara de pato. Será que isso pode ameaçar a aliança PT-PSDB na Câmara? Eu duvido. Alguém ajuizado vai acabar enquadrando os tucanos brigões e mostrando que ambos terão lugar na fila de agrados ao PT, já que o acordo poderá ser cumprido num eventual segundo turno. O PSDB ajuda o PT a vencer e este confirma um tucano na vice. Problema resolvido. A vida segue e não se fala mais nisso. O segundo boato é que o PSDB está pressionando o PFL a mudar de lado e apoiar o candidato tucano à presidência da Câmara. Não que os tucanos queiram ganhar a eleição. Se o PFL retirar o apoio ao atual presidente, deixa sozinhos na empreitada o PSB e o PCdoB. Com uma eleição polarizada entre o PT e o PSDB, o governo teria mais liberdade para agir com desenvoltura a favor do PT na corrida sucessória. E, teoricamente, um cenário polarizado entre governo e oposição ajuda o candidato do PT, já que o situacionismo tem maioria na Casa. O boato complementar a esse dá conta de que o presidente da República anda algo receoso de uma polarização aberta entre um petista e um oposicionista no plenário da Câmara dos Deputados. Teme perder. O terceiro boato que corre em Brasília é que senadores do PT estão dispostos a votar no candidato do PFL contra o do PMDB à presidência do Senado, desde que o PFL dê um jeito de ajudar o PT na Câmara. Boatos. De todos os tipos e contraditórios entre si. É a cara de Brasília.

-Ah, mas esses são só boatos. Não me venha com boatos, eu quero os fatos.

Ah, sim, você é um idiota da objetividade, como dizia o Nélson Rodrigues. Então estacione cuidadosamente o veículo no meio-fio e aguarde. Para saber qual bola traz junto uma criança e qual não traz.

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5 Comentários:

Anonymous Luis Fernando disse...

Caro Alon
Você sempre dá "uma clareada" em seus posts. Mas tá difícil qualquer prognóstico - são tantas manobras e peripécias de nossos bravos deputados e senadores que acho que o próprio Maquiavel ficaria meio atrapalhado...

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007 13:28:00 BRST  
Anonymous Carta Política disse...

Boatos são importantes, já que a grande política sempre é definida na pequena política do corredor estreito.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007 13:34:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Usando a lógica, o boato que faz mais sentido é o segundo, aquele que aponta para defecção do PFL da candidatura Aldo. Seguindo o post, faz muito sentido apostar na preferência pela polarização FruetXChinaglia para o governo. O governo já emitiu sinais ao pedir ao Aldo que desista.

Mas como tem mesmo muita bola rolando, também fica difícil saber quando e qual(s) criança aparecerá correndo atrás dela.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007 16:26:00 BRST  
Blogger Jura disse...

Não precisa ofender... E se meu carro levar uma bolada eu já sei quem chutou!

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007 16:35:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Por outro lado, e também seguindo a lógica, não faz o menor sentido um partido que se nomeia liberal apoiar um candidato assumidamente marxista-leninista.

Tenho que dar razão ao comentário do Luis Fernando e fazer aqui um justo reconhecimento a você, Alon: jornalismo político no Brasil é mesmo um trabalho muito complicado.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007 18:10:00 BRST  

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