terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Uma correspondência do professor Fábio Wanderley Reis (09/01)

Recebi o seguinte email do professor Fábio Wanderley Reis, a propósito do post anterior. Retirei apenas trechos que não comprometem a compreensão da resposta:

Alon,

Sou o autor do artigo na Folha de S. Paulo que você comenta no seu último post (...). Costumo espiar com interesse o seu blog, e hoje tive a surpresa das críticas azedas ao meu texto. Naturalmente, se me disponho a escrever e publicar, aceito de bom grado que haja críticas. Mas gostaria de comentar por minha vez alguns traços salientes do seu comentário, à parte o tom azedo (...).

1. Atribuição de ânimo oposicionista ao meu texto. Sou muito cioso, ao escrever, de que minha identidade profissional como sociólogo e analista prevaleça sobre as simpatias ou antipatias políticas que naturalmente tenho como cidadão. Tratando de política, acho natural que esse empenho me exponha a ser lido de maneira enviesada e a levar cascudos de um lado e de outro (...). Mas fico me indagando onde estará a evidência de oposicionismo no artigo comentado, ou o que será que autoriza a minha inclusão entre os que "não têm votos" e por isso escrevem besteiras.

2. Lulismo. Não vejo a razão de não poder falar de lulismo para indicar o voto baseado na identificação com a liderança pessoal de Lula, independentemente do PT: para que a mitificação que identificaria "lulismo" com uma espécie de religião? É claro que os ganhos trazidos pela política social do governo são um componente disso, como eu mesmo tenho ressaltado (por exemplo, em artigo de setembro na mesma Folha de S.Paulo). Mas não vejo como negar que no caso de Lula há também o simbolismo popular difuso associado com a figura dele, que permite associar o voto nele com certo padrão de percepção política do eleitorado popular que simplesmente contrapõe o popular e o elitista, os pobres e os ricos, como as pesquisas acadêmicas mostram há tempos. Por outro lado, onde é que meu artigo "lamenta" o lulismo? Ao contrário, tenho insistido em que a experiência Lula-PT teria de positivo precisamente a combinação do potencial de penetração eleitoral de Lula com o ineditismo do esforço de construção institucional em torno de idéias e princípios, esforço que (lamentavelmente...) agora se vê comprometido com a crise do PT.

3. Partidos. Acho bem claras as dificuldades da ênfase exclusiva ou excessiva na representatividade ou vocalização de identidades/interesses. Por que não representar as "tendências" dentro de cada partido, pequeno que seja? Ou, no limite, por que não "representar" cada indivíduo, o que acaba liquidando com a própria idéia de representação? Partido que não agregue ou some simplesmente não é partido. E não vejo por que, mesmo de um ponto de vista apegado ao ideal democrático, a situação em que proliferam partidinhos sem chances reais de eficácia governativa seria preferível ao caso do partido popular que, agregando interesses variados, consiga dar-lhes conseqüência no plano governamental.

(...)
Fábio W. Reis

Atualização, às 18h01: Honra-me que o professor tenha se dado ao trabalho de responder a um texto deste blogueiro. Sobre o tom azedo, deve-se mais ao estilo do blog do que a qualquer outra coisa. De todo modo, agradeço pelas observações. E os argumentos do professor são interessantes, vão merecer outro post.

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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Sou leitor do seu blog e me considero uma pessoa de ideologia à esquerda. Mas lendo o artigo do professor Reis, chego à seguinte conclusão (e eu já te disse isso num post anterior): mais do que ser esquerda, nossos intelectuais marxistas hoje são anti-tucanos,antes de qualquer outra coisa. São conceitos diferentes, mas que atualmente tornaram-se sinônimos. Utilizando as metáforas tão caras ao nosso presidente, existem diferenças entre ser palmeirense, santista ou sãopaulinoe ser anti-corintiano, embora pareça
a mesma coisa. Infelizmente, o ranço anti-tucano está deturbando a visão dos nossos intelectuais e jornalistas.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007 15:57:00 BRST  
Blogger Correio da Amazonia disse...

O Professor confirma que sua explicação é mistica, entendendo que o voto tenha se baseado na identificação com a liderança pessoal de Lula, desprezando outras razões que não o PT. Há mais coisas, dentre as quais o efeito do governo na vida do cidadão, ao qual somam diferentes vetores - não apenas o presidente e seu partido -, inclusive os partidos ideológicos que não apresentam condição de chegar ao poder. É pobre resumir governo à pessoa do governante ou ao partido ao qual esteja filiado, ainda que, no caso, o raciocínio sirva para defenestrar o PT.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007 16:47:00 BRST  
Blogger Paulo Lotufo disse...

A pergunta é para Fábio Wanderley: (1)o que é eleitorado popular?
(2) o que é a contraposição entre o popular e o elitista??
(3)O conceito de "lulismo" inclui a submissão dos intelectuais de extração marxista ao pragmatismo de Luiz Inácio Lula da Silva???

terça-feira, 9 de janeiro de 2007 20:31:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

o que mais me espanta é que os ditos de esquerda, proresistas, defendam políticas baseadas em tirar dinheiro da massa através de impostos ocultos, e distribuí-los a grupos especiais de interesses, que conseguem se organizar....amazing, onde está o progresso?

terça-feira, 9 de janeiro de 2007 22:46:00 BRST  
Anonymous Frank disse...

Rapaz, o professo Reis deu a resposta - no que tange ao "lulismo" - que eu teria dado se tivesse tido tempo e, vá lá, talento...

O Alon insiste em negar - ou negligenciar - a influência do carisma messiânico de Lula na equação do voto das massas. Não dá para acreditar que o pobre votou (e vota) em Lula apenas porque reconheça, objetiva e racionalmente, que sua vida melhorou e porque atribua, objetiva e racionalmente, essa melhora ao desempenho de Lula.

A meu ver, há 2 problemas aí:

1) Imaginar que o eleitor humilde sempre consiga identificar com clareza o responsável pela melhora em suas condições de vida - a disputa pelo posto de benfeitor é bastante acirrada (há prefeitos, vereadores, coronéis, pastores, etc. disputando ardentemente esses postos pelos rincões do país). É certo que o Bolsa Família ajudou o presidente Lula e eliminou muitos intermediários da disputa, mas a votação em Lula também foi muito expressiva mesmo nas famílias pobres desassistidas pelo Bolsa Família – ou seja, mesmo sem uma associação direta entre “grana no bolso” e a figura do presidente (ou ao Executivo Federal), a adesão à Lula foi maciça.

2) Onde está o componente emocional? Se houvesse um Bolsa Família tão alardeado e largamente reconhecido como o que existe atualmente, mas se os papéis da última disputa eleitoral estivessem invertidos – Alckmin fosse o presidente criador do Bolsa Família e Lula o postulante ao cargo, com tudo o mais constante -, vc acha que o povão iria de Dr. Alckmin, com seu jeito de mauricinho paulista, ou de Lula-lá, que tem a “cara” e a “fala” de nosso povo?

Em resumo: ao eleitor de classe baixa, não basta que sua vida melhore e que ele reconheça (ou imagine reconhecer) o responsável por essa melhora. Ele precisa, em alguma medida, se identificar com o candidato. Pergunta: ora bolas, como FHC e elegeu 2 vezes? Modestamente, penso que Lula, à época, ainda não incorporava o “Pai dos Pobres” como faz hoje. Tinha um traço de radicalismo revolucionário que incomodava até o eleitor mais humilde. Portanto, a comparação não é válida. Esse Lula que agora conhecemos só passa a existir na segunda metade de 2002.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007 14:16:00 BRST  

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