quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Pais, filhos, Zeus, Moisés e Jesus (18/01)

Foi instigante a primeira manifestação pública de Luiz Inácio Lula da Silva sobre a sucessão na Câmara dos Deputados. O presidente disse que não vai interferir no processo porque os dois contendores do campo governista são como seus "filhos". Eis a frase de Lula:

Quando você tem dois companheiros que você considera como irmãos, como filhos, você não toma partido, você espera que eles resolvam.

Não vou debater aqui a adequação institucional das palavras do presidente. Sobre esse aspecto, considero-me contemplado com o que disse o candidato do PSDB: "a gente não pode tratar a Câmara como filhos que estão na disputa, temos que tratar com respeito". Dito isso sobre a forma, vamos passar ao conteúdo. Ora, um pai que ama os filhos procura evitar que a rivalidade entre eles evolua ao ponto em que o sucesso de um signifique necessariamente a desgraça do outro. Pai não raciocina assim sobre dois filhos que querem a mesma coisa: "eles que tentem se matar, depois eu me entendo com o que sobreviver". Pai que é pai não permite que o filho coloque a mão no fogão aceso só para que a criança aprenda, pela própria experiência, que o fogo queima. Pai cuida, pai educa, pai protege. Mas essa minha maneira de ver as coisas pode estar errada. Talvez ela sofra de uma inevitável contaminação cristã, ainda que eu seja judeu [bobagem minha, as raízes são comuns]. Jesus foi o primeiro pai que amou para valer todos os seus filhos. Como você vê, essa coisa de relações amorosas entre pais e filhos é recente na história do homo sapiens, tem só um par de milhares de anos. Nos dez mandamentos há um, o quinto, que manda os filhos honrarem os pais.

Honra a teu pai e a tua mãe, a fim de que os teus dias se prolonguem sobre o solo que (...), teu Deus, te dá.

Mas quando Deus entregou as tábuas da lei a Moisés no Monte Sinai não incluiu no famoso decálogo nada a respeito de os pais amarem os filhos. Mesmo assim, acho que a atitude de Lula em relação aos seus "filhos" que disputam a presidência da Câmara dos Deputados tem mais a ver com o paganismo do que com a cultura judaico-cristã. Tem mais a ver com as relações entre Zeus e Cronos. Ou com o ciúme que um Laio sente de Édipo. Afinal, há uma única Jocasta. Coisa de deuses com sentimentos humanos. E vou parar por aqui, antes que um raio vindo do Olimpo me fulmine.

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1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Boa Tarde!!

ótimo texto. Gosto muito do jeito como vc escreve. Mesmo tendo posição ideológica contrária as suas, admiro um bom texto.

Atenciosamente,
Liliane.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007 15:49:00 BRST  

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