domingo, 7 de janeiro de 2007

O pega-trouxa (07/01)

Deveria haver uma lei determinando que qualquer nova idéia surgida em um governo só poderia entrar em vigor no governo seguinte. Algo assim como a anualidade dos impostos. Calma pessoal, seria preservado o direito de um governo colocar em prática idéias velhas com nomes novos. Esse detalhe deixaria felizes os marqueteiros e tranqüilizaria os governantes. Com uma grande vantagem: estaríamos protegidos das maluquices dos burocratas. Afinal, se um projeto velho foi desenterrado por um governo novo é porque conseguiu (o projeto) resistir à inevitável corrosão causada pela passagem do tempo. Uma espécie de seleção natural forçada.

- Mas o que seria do governo Luiz Inácio Lula da Silva sem o Bolsa Família, o Pronaf e o Prouni?

Você acabou de tirar as últimas dúvidas sobre a pertinência da minha proposta. Os dois primeiros são heranças de governos anteriores, aperfeiçoadas. O terceiro é o novo nome que se dá para a velha e boa bolsa de estudos. Alguém se dispõe a pesquisar quando foi concedida a primeira bolsa de estudos na história da humanidade? Idéias velhas, maturadas como os bons vinhos, aplicadas com base na experiência prática anterior, eis a receita do sucesso dos governos. Você me acha conservador? Paciência. Se a minha tese revolucionária estivesse em plena vigência, não teríamos que conviver com mistificações como o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), que está para nascer do governo federal. Dizem que o nome foi idéia de um marqueteiro. Batam três vezes na madeira. As últimas grandes idéias dos marqueteiros de Lula resultaram em fiasco: o Primeiro Emprego, as Farmácias Populares e o Fome Zero. O primeiro morreu de morte morrida. O segundo vaga por aí como um espectro, um estorvo, sem que se saiba qual é a vantagem que Maria leva comprando com desconto o remédio que o governo deveria lhe dar de graça. O terceiro foi salvo do naufrágio pelo Bolsa Família. Tanto que acabou por tomar afeição ao salvador. Sempre que você quiser saber por onde anda o Fome Zero, procure pelo Bolsa Família. O Fome Zero gosta tanto do Bolsa Família que não vive mais sem ele. Mas voltemos ao PAC. Lula passou o primeiro mandato inteiro malhando os planos e pacotes econômicos dos antecessores. Louvando as virtudes da administração diária da economia e da responsabilidade fiscal. Aí ele foi reeleito e teve a idéia de prometer que o segundo mandato traria um crescimento anual de pelo menos 5% à economia. Foi quando se viu a falta que faz um Antonio Palocci. Faltou alguém para matar essa bola no peito, enfatizar a necessidade de avanços na agenda chamada microeconômica e lembrar sobre as vantagens de prosseguir com a responsabilidade fiscal e monetária. E o assunto teria morrido, ao custo de apenas alguns resmungos vindos do PT e da oposição. Mas ninguém assumiu esse papel, e agora o presidente não sabe bem o que fazer com o tal PAC. No começo, prometeram que o pacote incluiria uma nova reforma da previdência, regras de aço para o controle dos gastos públicos, a desvinculação entre os dispêndios da Saúde e a evolução do PIB, mecanismos para evitar a elevação excessiva do salário mínimo e um limite para as despesas com salários de servidores públicos. Mas aí apareceu um probleminha. Como aprovar no Congresso um embrulho com medidas que ninguém teve coragem de defender ao longo da última campanha eleitoral? Como é que Lula vai dar a cara a tapa por um plano que nem Geraldo Alckmin, o queridinho do Mercado, se dispôs a bancar? Para os formadores das suas próprias opiniões, pode parecer fácil. Mas não é. Aliás, uma palavrinha sobre os nossos liberais. Mal silenciaram os canhões, ali pelo começo de novembro, os liberais que permaneceram escondidos no bunker durante toda a guerra espanaram a poeira das roupas e saíram à luz do dia com sua arrogância habitual, ditando regras sobre o que fazer aqui e ali. Alguém deveria lembrar a essa turma que eles perderam as eleições. E perderam de modo covarde, não tiveram coragem de defender as suas próprias idéias. Se fossem dotados de alguma autocrítica, evitariam passar ridículo. Mas a realidade sempre se impõe. O PAC, por exemplo, parece ter sido reduzido a algumas medidas administrativas, a alguma renúncia fiscal e à proposta de limitar os aumentos salariais dos servidores públicos a 1,5 ponto percentual além da inflação. Essa, aliás, é uma idéia nova que deveria ser engavetada pelo Congresso. Eu, por exemplo, tenho uma dúvida atroz: por que 1,5 e não 1,4? Ou 1,6? Conter a despesa na boca do caixa, saber dizer não a reivindicações, sofrer o desgaste inerente ao poder, tudo isso faz parte de ser governo. Lula e seus ministros querem ficar com o filé (comandar o orçamento) e repassar o osso (a responsabilidade por arrochar os gastos) aos deputados e senadores.

- Por mim, eu até daria esse aumento. Mas não posso, porque tem uma lei aprovada pelo Congresso que proíbe. E é lei complementar, eu não poderia nem mandar uma medida provisória sobre o assunto.

Trouxas serão os deputados e senadores se engolirem essa.

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3 Comentários:

Anonymous Rodrigo disse...

Ainda bem que um bom governo não é so ter novas idéias, mas também colocar velhas idéias em prática.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007 10:35:00 BRST  
Blogger rafael disse...

Primeira vez em um mês que você não foi condescendente, Alon. Que ótimo!

Abs,

terça-feira, 9 de janeiro de 2007 21:09:00 BRST  
Blogger Jura disse...

Quem é pior, os governantes (a otoridade) ou os marqueteiros. Está na cara que há maus marqueteiros e mais na cara ainda que os governos são fracos. Os marqueteiros são especialmente úteis para os governos fracos, que são os mais rápidos em cair na conversa deles. Nós até demoramos um pouco.
O problema maior está na confluência da avenida política com a rua propaganda. Quando uma anda, a outra pára. Para piorar, a rua propaganda precisa andar. É pra isso que as ruas servem. Explico: qual a vacina que funciona para a Aids, por exemplo? Você sabe, doutor: nenhuma. Mas o Brasil conseguiu reverter o avanço da doença melhor do que qualquer botando camisinha na ruas, até na porta das igrejas. Funcionou.
A avenida política, porém, continua congestionada, achando que um outdoor será capaz de curá-la. Para isso não há vacina também.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007 13:34:00 BRST  

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