domingo, 7 de janeiro de 2007

O lulismo, o Monstro do Lago Ness e o Abominável Homem das Neves (07/01)

Alguns intelectuais estão perplexos. Anos (em alguns casos décadas) de aplicação acadêmica não lhes têm sido suficientes para arrancar da cachola uma explicação verossímil para o que se passa no mundo e no país em que vivem. Mergulhados numa escuridão (pelo visto) apavorante, regridem à busca de uma nova divindade. Lançam mão do irracionalismo para ver se acham um protetor e guia que os livre da dúvida e da perplexidade. Antigamente era mais fácil. O sujeito ficava encastelado até a poeira baixar e, então, deitava falação sobre o já sabido. Mas hoje, com a informação trafegando na velocidade da luz, a coisa mudou. É preciso ter explicações rápidas para os fenômenos. Pronto, está criado o ambiente para que intelectuais escrevam e digam tantas bobagens quanto os jornalistas. Sim, nós jornalistas escrevemos e dizemos muitas bobagens. Não poderia ser diferente. Somos um pouco como os soldados que estão na linha de frente. Tomamos os tiros e morremos para que os nossos oficiais possam testar as suas estratégias. Não é prudente pôr a soldadesca no estado-maior. Soldados estão mais treinados para atirar do que para pensar. Nem é sábio colocar os oficiais-generais na linha de frente, pelo mesmo motivo, ainda que visto no espelho. Hoje o caderno Mais! da Folha de S.Paulo publica um artigo do professor Fábio Wanderley Reis sobre o segundo mandato de Luiz Inácio da Silva. É o retrato dessa confusão. Tanto que, noves fora, só resta ao autor escapulir para uma explicação mística:

Mas, com a crise do PT (que juntava a especial atração eleitoral de Lula ao esforço aparentemente sério de construção institucional) e, de cambulhada, a de seu adversário nas refregas recentes e parceiro no processo institucional que se esboçava, o PSDB, o que resta é o lulismo, que se mostra forte como nunca. Cabe reconhecer que, com o que tem de inédita a figura política de Lula, o lulismo pode ser visto como ao menos potencialmente positivo do ponto de vista institucional. Afinal, jamais a desigualdade social do país se projetou com tal clareza sobre a disputa da Presidência da República e é notável que -com as limitações que se queira apontar, de uma perspectiva "técnica" mais exigente, na política social do primeiro governo Lula- mesmo Geraldo Alckmin, favorecido pelo voto hostil a essa política, não tenha podido deixar de dar-lhe acolhida.

O "lulismo" é o novo deus, a nova entidade mística posta a circular como fonte de todas as explicações para as coisas não terem andado como alguns previram. Pois eu tenho uma má notícia para os crentes no lulismo. O lulismo não existe. Ele é como o Monstro do Lago Ness (foto) ou o Abominável Homem das Neves. Fala-se dele, teoriza-se sobre ele. Ele serve até para aterrorizar crianças mal-comportadas. Mas o fato é que ele não existe. Não existe como categoria histórica. Não existe como categoria sociológica. Não existe como categoria ideológica. Simplesmente não existe.

- É arrogância sua dizer isso. Você não tem nenhuma prova de que o lulismo não exista de fato.

Errado. Não sou eu quem tem que provar nada. São os divulgadores da nova fé que precisam trazer evidências de que a divindade existe. Não basta falar do milagre. Mesmo na esfera da religião, onde a fé deveria ser suficiente para tudo, a razão tem o seu valor. Até a Igreja Católica, que enfrentou um gravíssimo cisma por causa dos seus santos, tem certas regras para a canonização. Pois eu reafirmo: o lulismo não existe.

- Existe sim. A prova é que Lula teve muito mais votos do que o PT.

Essa é, de fato, a única "evidência" apresentada pelos propagandistas da nova crença. Mas, para infelicidade deles, o argumento não resiste a um sopro. Lula teve mesmo muito mais votos do que o PT. Assim como Fernando Henrique Cardoso teve muito mais votos do que o PSDB nas duas vezes em que se elegeu presidente. Por analogia, então, se há mesmo um lulismo deve ter havido um "fernandismo" em algum momento recente da História do Brasil. Claro que nunca houve fernandismo nenhum. Arrumem outro argumento. Luiz Inácio Lula da Silva ganhou as eleições de outubro porque seu governo proporcionou bem-estar à maioria dos eleitores brasileiros e a suas famílias. Numa construção lógica e racional, não pareceu razoável aos pobres e à classe média baixa trocar o governo do PT por um do PSDB-PFL. Mas alguns não suportam essa explicação simples, pois ela seria a admissão de sua própria incompetência. Resta-lhes lamentar o "lulismo" e apelar por uma reforma política, como faz o professor Reis em seu artigo na Folha:

Quanto à reforma política, por exemplo, e à reforma partidária como parte importante dela, a teoria dos partidos fala da função "representativa" de vocalização dos interesses e identidades e da função que envolve sua agregação eficiente e viabilização real: favoreceremos esta última, criando obstáculos à proliferação de partidos amorfos e no limite falsos, ou vamos privilegiar a vocalização supostamente "autêntica" de interesses dispersos, que até o Supremo Tribunal Federal, unânime mas confundido quanto ao equilíbrio necessário, vê em termos de direitos ameaçados das minorias?

Na falta de votos, querem um sistema eleitoral e partidário que lhes permita a "agregação eficiente" e a "viabilização real" de seus interesses. Vamos traduzir: querem indicar o chefe do governo e ter a maioria dos deputados e dos senadores sem necessariamente ter obtido o apoio da maioria dos eleitores. Para mandar no país mesmo estando em minoria. Simples assim.

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12 Comentários:

Blogger Cid disse...

Alon

O descanso de fim-de-ano deve ter feito bem a você. Este seu comentário, se eu fosse invejoso, me deixaria morrendo de inveja por não tê-lo escrito.

Felizmente, fui poupado disso (mas não de inúmeros outros defeitos, paciência!), e quero parabenizá-lo pelo comentário. Na mosca. Na veia. Na testa. Se me permite, assino embaixo.

cid cancer
mogi das cruzes - sp

domingo, 7 de janeiro de 2007 17:25:00 BRST  
Anonymous Alexandre Porto disse...

Sem maiores comentários Alon. Excelente artigo. É impressionante como a oposição subestimou o Governo Lula.

domingo, 7 de janeiro de 2007 17:29:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

No alvo, Alon. E é impressionante como os oposicionistas alimentam o mito do "Lulismo". Segundo aquela ótica, Lula é onipresente culpado em tudo o que de ruim acontece no Brasil. Desde as inundações das chuvas ao vice-governador do Rio Grande do Sul ser assaltado numa esquina de Porto Alegre, como se Prefeitos e Governadores fossem cargos honorários. O fluxo migratório para metrópoles foi invertido devido ao Bolsa-família, e a culpa é de Lula, pelos migrantes "não quererem mais trabalhar" nas metrópoles, como se já não houvesse desemprego suficiente, lá. Depois reclamam da derrota nas eleições. 2008 já é ano que vem, e 4 anos passam mais rápido do que parece.
O único perigo que vejo nessa estória (com "e" mesmo), são as indefectíveis pregações golpistas, a título de combater o que chamam de "Chavismo".

domingo, 7 de janeiro de 2007 22:13:00 BRST  
Anonymous Maurício Galinkin disse...

Alon,
Acho que você tem razão quando diz que o "lulismo" não existe. Ainda. E seus argumentos sobre os votos, etc, perfeitos.
Mas creio que tem muita gente que está fazendo força para criá-lo, seja para ficar a favor, seja para se opor.
E o próprio presidente da República está entre elas (a favor, é claro). Para ele, o petismo foi ótimo e funcional, até chegar à Presidência, mas agora precisa ir além...

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007 10:05:00 BRST  
Blogger Correio da Amazonia disse...

Besteira.
Desde o plano real as pessoas votam com a barriga. Não votaram no terceiro governo do Fernando Henrique porque não foi candidato. Não existe isto de Lulismo ou Petismo. As pessoas lembram quando tinham que escolher o arroz de segunda, comparando preço, e esta lembrança fez com que ficassem amorfas às denúncias de corrupção envolvendo o PT. Mas tá mudando, agora, o que começa a prevalecer é a memória do filho desempregado, do irmão desempregado. E é isto que vai definir a próxima eleição. até lá já se acostumaram com a barriga menos vazia.
Pedro paulo

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007 11:31:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

FHC, em recente entrevista, fez uma distinção importante entre Chávez e Lula. Também na entrevista não li nada parecido com essa história do "lulismo".

Uma coisa é fato: muito antes deste artigo do prof. Wanderley, "intelequetuais" uspianos (não só estes, mas sobretudo estes) escreveram toneladas de teses e artigos
"acadêmicos" anunciando o advento do novo "Dom Sebastião". Se há um "lulismo", seguramente a história do seu surgimento remonta a um período muito anterior.

Não tenho o link da entrevista do FHC. Mas, de memória, digo que ali ele saúda a chegada de um indivíduo de origem pobre à presidência do Brasil como uma vitória da democracia brasileira. Ele enfatiza o valor simbólico desse feito para a democracia brasileira, ao mesmo tempo que lastima os episódios patrocinados pelo partido do presidente (waldomiranças, mensalão, dossiês, aparelhamento).

FHC não vê em Lula um Chávez em germe. Faz uma importante distinção. Um tem origem militar e colocou em seu currículo uma tentatativa fracassada de de golpe de estado. Lula tem, como sabemos, história muito diferente.

Em tempo, estou na oposição ao governo Lula. Expor aqui minhas razões não teria cabimento.

O que vai no PT pouco me interessa. Mas outra coisa também é fato: os grupos de origem leninista no partido apenas representam a si mesmos. Têm uma minúscula foça eleitoral. Hoje, quem comanda o PT é o Lula e a turma que emergiu com ele para a política: os sindicalistas.

Antes que alguém pergunte, penso que o petismo de origem sindical é um fenômeno novo na política brasileira e pouco estudado (panfletos ideológicos, estes sim existem aos montes) pelos cientistas sociais. Clasificá-lo como um neopopulismo (ou mesmo com as categorias de análise do populismo varguista ou do peronismo) é um reducionismo que em nada contribui para o seu conhecimento.

abs

PS: achei o link:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u88027.shtml

Aliás, Alon, fiquei na espectativa de um post sobre a entrevista, muito mais interessante que o artigo do prof. Wanderley.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007 12:01:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Desculpe se me alongo no comentário.

Hoje saíram os resultados de uma pesquisa de profesores da UNICAMP (acho que elas também merecem um post). O que incomoda é o padoxo que ela apresenta: a maioria que declara preferir a democracia é quase a mesma que "condena" as instituições da democracia, sobretudo o Parlamento.

O Prof. Roberto Romano, que já foi amado e citado por tantos petistas e hoje é odiado por uma legião deles, escreveu na FSP, em 1986, um artigo criticando durante uma certa fala do Lula: "Não achamos que Parlamento é um fim, ele é um meio. E vamos tentar utilizá-lo até onde for possível. Na medida em que a gente perceber que pela via parlamentar, pela via puramente eleitoral, você não conseguirá o poder, eu assumo a responsabilidade de dizer à classe trabalhadora que ela tem que procurar outra via" (Lula, citado no artigo "O senhor da Razão" já nos idos de 1986).

Passados 20 anos, todos os democratas esperamos que Lula tenha tomado juízo e, finalmente, venha a dizer: "esqueçam o que falei".

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007 12:23:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Ainda abusando, envio um link para um artigo do prof. José de Souza Martins.

Um artigo que também revela como opera a construção do mito.

O BARSIL MÍSTICO E O BRASIL RACIONAL

http://www.estado.com.br/suplementos/ali/2007/01/07/ali-1.93.19.20070107.4.1.xml

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007 12:56:00 BRST  
Anonymous Fernando José disse...

Os seus argumentos para explicar a popularidade do Lula são inquestionáveis Alon. O mais interessante é que o termo "lulismo" é quase que diariamente empregado por pessoas do próprio governo petista, do quais o mais notório é o Tarso Genro. Hoje mesmo ele já disse a jornalistas que o PT terá de conformar em ceder espaços no governo a outros partidos neste segundo mandato, para também não ser vítima do "lulismo", que na visão dele, pelo que entendi, trata-se da união dos partidos em torna da figura popular do presidente Lula.
É fato curioso, pois se você diz que o lulismo não existe, é bom avisar o pessoal do governo e talvez até o próprio presidente, pois temo que eles discordem da sua tese...
Abs.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007 15:41:00 BRST  
Blogger Paulo Lotufo disse...

Interessante, no verbete "lulismo' no Dicionário de Política e Filosofia de Alon Feuerwerker, na segunda edição de 2026 (após o esgotamento da primeira de 2022) lê-se
lulismo (s.m.) termo originado da trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se de comportamento na política (institucional, partidária e sindical) onde predomina o pragmatismo sobre qualquer tipo de ideologia. No entanto, mantém a aparência de reparação social devido ao uso combinado do marketing direto para controle das massas e da submissão intelectual da elite, principalmente aquela de formação marxista.
lulismo (2) s.m, corrente majoritária no Partido do Movimento Democrático Brasileiro, constituído pelos egressos do antigo Partido dos Trabalhadores.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007 23:01:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Depois do "até tu, Tarso Genro?", e dos comentários lidos, extendo minha conclusão:
Lulismo só existe como o Monstro do Lago Ness, mas "pero que LULISTAS hay, las hay".

terça-feira, 9 de janeiro de 2007 13:12:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Caro Lotufo

Ótima lembrança.

Fiquei curioso sobre qual a definição para "tucanismo" (o tucanismo 1, mas principalmente o tucanismo 2) no Dicionário do Alon.

Alon

Aproveito o espaço para comentar que adorei o post "O pega-trouxa (07/01)"

A entrevista do Jersom Kelman também é muito interessante.
Li no blog do Tambosi um artigo do ambientalista uruguaio Luis Anastasía. Ele comenta a "guerra suja" que o irracionalismo trava contra a a implantação da indústria de celulose no seu país.

Interessante no artigo é o destaque que ele dá àquelas que são as principais vítimas dessa guerra: as crianças utilizadas nesta guerra como infantaria desse irracionalismo na sua luta suja contra o progresso e o bem estar dos uruguaios.

http://www.bitacora.com.uy/noticia_519_1.html
"Las Víctimas Inocentes de la Guerra"

"Hoy, en el mero inicio del tercer milenio, soy testigo incrédulo del uso de la irracionalidad en la educación y de la muerte del conocimiento científico.(...)

Sin duda que si se escucha reiteradamente que la gente se va a morir de cáncer, que va a suceder mutaciones y que varias enfermedades van a caer como las siete plagas sobre ellos y sus hijos, es absolutamente lógica la reacción generada."

terça-feira, 9 de janeiro de 2007 13:40:00 BRST  

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