quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Uma aliança em que ninguém perde nada. Só perdem o discurso (11/01)

Pronto. Cheguei finalmente na frente da maquininha e vou escrever sobre o assunto. Nunca recebi tantos emails pedindo para opinar sobre um tema. Vamos a essa aliança PT-PSDB para disputar a presidência da Câmara dos Deputados. Antes de tudo, quero registrar a minha satisfação. Eu tinha a certeza de que aquelas coisas ruins que os tucanos diziam sobre os petistas antes da eleição de outubro não vinham do coração. Assim como os ataques dirigidos pelo PT contra o PSDB. Era só mais uma dessas coisas corriqueiras da política. Os partidos e facções se aliam e se combatem, se elogiam e se xingam conforme as conveniências deles. Só lamento por você, que está envolvido emocionalmente nessa refrega faz um ano e meio e agora fica aí, inconsolável. Quer um conselho? Aproveite para tentar mudar o padrão do seu comportamento. Controle a sua mágoa. Engula o seu ressentimento. Da próxima vez, pense com a cabeça e não com o fígado. Mas agora acabou. O PSDB é um partido de gente comprometida com o bem do Brasil. Um partido de patriotas. Portanto, o PSDB não admitiria entregar a presidência da Câmara dos Deputados a um partido do mal, a uma quadrilha, a uma organização política interessada apenas em aparelhar o Estado, a um agrupamento que não tivesse compromisso com a democracia. Nunca admitiria isso, mesmo em nome da tal proporcionalidade. Então, logicamente, todas as acusações desse tipo feitas pelos tucanos ao PT desde a eclosão da crise política, em junho de 2005, vão para o arquivo morto, para o fichário das coisas inservíveis. A mesma lógica vale para os ataques do PT contra as administrações tucanas em São Paulo. Se os doze anos de Mario Covas e Geraldo Alckmin no Palácio dos Bandeirantes tivessem sido um desastre para a Saúde e a Educação, se as gestões do PSDB em São Paulo tivessem mesmo vendido as empresas públicas a preço de banana, se o PSDB fosse mesmo um partido neoliberal, um representante da globalização selvagem, antinacional e antipopular, se o tucanato fosse a legítima expressão da direita oligárquica que só pensa nos ricos, duvido que o PT abriria mão de disputar a importante trincheira da presidência da Assembléia Legislativa de São Paulo. Para organizar a resistência. Com candidato seu ou alguém que assumisse compromissos com o PT . Para impedir a continuidade das supostamente ruinosas políticas públicas do PSDB em São Paulo. O PT não faria isso com a população paulista, especialmente com o povo mais pobre. Finalmente, entramos numa nova era. Vamos poder debater as questões politicamente, sem mistificações. O acordo é ótimo para o PSDB de São Paulo e para o PT nacional, é bom para o PT de São Paulo, é razoável para o PSDB de Minas Gerais e muda muito pouco para o PSDB nacional. É ótimo para o PSDB paulista, que vai controlar o Executivo e o Legislativo no estado. Isso significará, na prática, quase a supressão da oposição petista, sempre uma fonte de preocupação para qualquer governante. Restarão ao PT-SP as suas prefeituras, que poderão perfeitamente ser abastecidas pelo orçamento federal. E por que não acreditar que, nesse ambiente de entendimento, poderá haver uma boa convivência entre o Executivo paulista e os municípios petistas? Claro que vem aí a eleição municipal, mas o PT está tão enfraquecido no estado de São Paulo que não chega a se constituir numa ameaça à hegemonia do PSDB-PFL. O acordo é ótimo para o PT nacional, que busca tenazmente uma posição a partir da qual possa defender seus espaços na máquina federal e seu protagonismo no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O PT de São Paulo ganha, como disse, um pouco de paz política com o poder local e sempre poderá contar com o orçamento e os cargos federais. O PSDB de Minas Gerais ganha uma posição na Mesa da Câmara dos Deputados. O PSDB nacional não ganha nem perde nada. Pode até levar alguma vantagem, com o estreitamento dos laços entre os tucanos e o poder federal petista. A única coisa que todo mundo perde é o discurso. Mas como a próxima eleição é só daqui a quatro anos, trata-se de um problema menor. Há bons marqueteiros no mercado para esse tipo de serviço. Apenas uma ressalva: o acordo precisa funcionar, especialmente no plenário da Câmara dos Deputados. Eu não vou dar palpites, porque não pratico futurologia. Vamos esperar pelos desdobramentos. De todo modo, já me sinto vitorioso. Tinha gente que não entendia como posso ter boas relações com petistas e tucanos ao mesmo tempo. Entenderam agora? Vanguarda é isso aí. Só temo por uma coisa. Talvez ambos estejam subestimando o meu amigo Aldo Rebelo, cuja capacidade de luta é maior que pode parecer à primeira vista. É fogo ter tantos amigos. E em posições políticas tão diversas. Falando sério, é algo de que me orgulho. Para terminar, minha sincera homenagem ao PCdoB, ao PSB e ao PFL, pela tenacidade e firmeza. Não vão me fazer queimar a língua, certo? A vida é assim mesmo. Todo começo de subida é complicado. Mas antevejo um belo futuro para os três partidos, se perseverarem. Ainda podem dar muito trabalho para o PT e o PSDB. Quem sabe não estejamos assistindo, qualquer que seja o resultado dessa pendenga, ao início do fim de um duopólio de poder que já dura mais de uma década?

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

16 Comentários:

Anonymous Fernando José disse...

Alon,
Belo texto e perfeita análise. Porém, não servirá para acalmar os ânimos de 40 milhões de eleitores tucanos ou de oposição, que se sentem traídos - o termo exato seria "corneados" - por esse acordo, que só revela os intestinos fétidos da nossa política,a nossa ausência de ideologias, o balcão de negócios em que nossos democratas transformaram a política brasileira. Petistas e tucanos não passam de uma mesma corja imunda.
Desculpe o desabafo, mas saiba que é assim que milhares de eleitores estão se sentindo hoje. Terrível,sem comentários, essa cambada que emergiu do pós-Ditadura. Lamentável.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007 08:16:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A Eliane Cantanhêde teve um faniquito com esta história, hehehe, eu me divirto com estes jornalistas.

"Sem demérito nenhum a Arlindo Chinaglia, deputado experiente e de um partido importante, qual o sentido de o PSDB apoiar o PT para a presidência da Câmara, a terceira posição da República?"

Essa jornalista ainda não percebeu que já acabou a eleição?

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007 08:29:00 BRST  
Anonymous patrickgleber disse...

Alon te admiro! Você faz, muito bem, o que Nélson Rodrigues recomendava, exergar o óbvio.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007 09:42:00 BRST  
Anonymous Vera disse...

Fina ironia. Parabéns!

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007 10:20:00 BRST  
Anonymous Richard disse...

Como disse o Fernando José, tem gente que perde: nós.
Nós não ganhamos cargos, espaço político, escolhemos quem vai administrar a coisa pública com base nas propostas e na capacidade administrativa da pessoa. Não me interessa muito se a pessoa vai ou não ter um relacinamento com outros partidos... principalmente com o derrotado! Creio que esta não seja a condição "sine qua non" para ocupar um cargo público.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007 11:09:00 BRST  
Blogger Francisco disse...

Chinaglia tocou em um ponto caro não só aos tucanos. Aliás, em 91 pontos percentuais de aumento a ser discutido no início da legislatura.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007 11:12:00 BRST  
Anonymous valtinho disse...

Alon, já que a ideologia foi para o espaço e o espaço disponível é o do pragmatismo responsável, me diz uma coisa vc que já esteve de alguma forma "lá dentro": como é possível avançar?

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007 20:23:00 BRST  
Anonymous Luis Hamilton disse...

Ah, Alon, como ninguém perde nada? Esse jogo de comadres não interessa a ninguém e é antidemocrático!

PT e PSDB passam um ano enganando todo mundo, dividem o país e depois saem de mãos dadas! A democracia, o instituto das eleições e o Congresso perdem muito sim.

É claro que não ajuda em nada fazer oposição só por oposição e o acordo em si poderia ser feito, desde que fosse as claras. Mas assim, meio telemarketing, meio negociata, não dá não.

Ainda torço para que seu amigo Aldo dê uma sova nestas lideranças que não conseguem realmente compreender que o momento não é de negociata!

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007 20:41:00 BRST  
Anonymous Luis Antonio Marcondes Junior disse...

Caro Alon: estou entre os que diáriamente partilham de seus conhecimentos e opiniões. Penso que colaboram muito para minha compreensão política e social.
Agora ao ponto do debate: considero que você deve analisar um aspecto essencial na definição do próximo presidente e da mesa diretora da Câmara Federal. É ou não legítimo, democrático e coerente que os cargos nas mesas diretoras dos legislativos brasileiros (câmara federal, assembléias estaduais e câmaras municipais) sejam compostas por proporcionalidade partidária? Se o princípio é respeitar a vontade das escolhas do eleitorado e permitir a representação a mais democrática possível na composição das mesas legislativas, o atual processo de composição partidária é coerente. Preocupa-me também que os apoiadores e partidos que apóiam o Governo Lula - especialmente PC do B e PT - não entrem no jogo das forças do atraso.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007 21:05:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007 21:14:00 BRST  
Anonymous amigodoblog disse...

Alon, o PT SP se danou nesse acordo. Bem feito.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007 21:30:00 BRST  
Blogger Correio da Amazonia disse...

O episódio antecipa reflexão sobre a fidelidade partidária, ao que parece, incompatível à política enquanto arte de conciliar interesses. Na democracia, não basta ocupar o lugar de controle. Posições pré-definidas, ideológicas ou programáticas, não limitam as opções da realidade, que resulta da razão dialética. É preciso acompanhar o movimento geral, buscando a direção para obter os resultados possíveis.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007 22:49:00 BRST  
Blogger rafael disse...

Claro, claro. Um acordo que significa "quase supressão" de oposições é algo positivo? Nossa, seu modelo de democracia ideal é o Chile de Pinochet, o Iraque de Saddam, a Cuba de Fidel ou é mesmo a Coréia do Norte do lamentável Jong-Il?

Tsc, tsc, Alon.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007 23:19:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Rafael. Releia o que eu escrevi. Sobre a sua primeira pergunta, eu disse que governar sem oposição será confortável para o PSDB. E ponto. Ou você acha que não será? Critique o que eu escrevi, não o que você acha que eu escrevi. De todo modo, obrigado por freqüentar o meu blog. E sobre a sua segunda pergunta, a resposta é não.

sábado, 13 de janeiro de 2007 12:43:00 BRST  
Anonymous Renato disse...

Parabéns pelo ponto de vista.... e parabéns ao eleitor que acreditou nas eleições....

domingo, 14 de janeiro de 2007 02:48:00 BRST  
Blogger rafael disse...

Ao que entendi, você elogiou o acordo no que ele encerraria as mistificações e ajudaria o debate a ficar mais politizado. Ora, este acordo consiste em dar abrigo aos partidos referidos nas mesas diretoras de cada Casa Legislativa, "quase suprimindo" a oposição cá e lá. Desculpe, Alon, mas eu não acredito num jogo de soma zero, no qual todo mundo sai ganhando. No caso, você poderia dizer que essa possível aliança PSDB-PT alienaria alguns grupos fisiológicos ou reacionários, que seriam os perdedores. Não me parece ser o caso.

Abraços, e continuo lendo o seu blog , hehe.

domingo, 14 de janeiro de 2007 14:35:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home