terça-feira, 23 de janeiro de 2007

A neurose da ruptura econômica (23/01)

A esta altura você já deve estar cansado de ler sobre o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Em resumo, ele se baseia na suposição de que um sinal claro do governo federal no sentido do crescimento acelerado despertará, como gosta de dizer o ex-ministro Delfim Netto, o instinto animal dos empresários. Que vão sair à cata de dinheiro para investir e aproveitar a onda. Ponto. Quem enxergou só ironia no meu post anterior errou. Comunicação de governo é fundamental. Como é que Luiz Inácio Lula da Silva vai aprovar a prorrogação da DRU e da CPMF no Congresso se não apresentar essas medidas como parte de um esforço para o país crescer, gerar emprego e renda? Outra coisa boa do PAC é que ele não vai contra, pelo menos não muito, o que foi dito na campanha eleitoral. Tinha gente que queria de Lula reformas que nem Geraldo Alckmin teve coragem de propor. Façam-me o favor. O que será do PAC? Sei lá. Essa indexação dos salários dos servidores leva jeito de que vai enfrentar resistências fortes no Congresso. Dos dois lados. Haverá quem diga que é arrocho. Haverá quem advirta que se trata de um engessamento indesejável, para cima, dos reajustes salariais do funcionalismo. Veremos também resistência contra a contenção dos aumentos reais do salário mínimo, ainda que parte do movimento sindical esteja no colinho do governo federal. Os deputados e senadores também vão querer ampliar as renúncias fiscais, não vão deixar toda a bondade para o Executivo. As reformas microeconômicas deverão ser analisadas caso a caso pelos congressistas, mas é improvável que enfrentem grandes dificuldades. O bicho vai pegar mesmo é depois, quando o governo empurrar a CPMF e a DRU para cima do Congresso. Será a hora de os governadores apresentarem a conta e exigirem mais federalismo. Aí veremos o quanto há de verdadeiro na firmeza do governador Aécio Neves, que parece ter eleito o reequilíbrio federativo como sua principal bandeira rumo ao Palácio do Planalto em 2010. E uma observação final. Incomoda essa coisa de tudo que é continuidade no Brasil ser apresentado como ruptura. O PAC não rompe com a ortodoxia fiscal do primeiro mandato de Lula. Assim como a orientação econômica de Antonio Palocci não rompia com a obra do antecessor, Pedro Malan. Políticos têm a necessidade compulsiva de dizer que estão fazendo algo de inteiramente novo. O que é uma bobagem. Façam direito o que lhes cabe fazer, e já estarão ajudando o país.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

2 Comentários:

Anonymous José Augusto disse...

Foi justamente no final de seu texto (ausência de ruptura), que encontrei a maior defesa do PAC. É um conjunto de metas relativamente exequíveis, que poderia ser apresentada no orçamento ano a ano. A vantagem de planejar os 4 anos é reduzir a tensão política. Haverá menor conflito do que haveria nos anos eleitorais. O governo se compromete a tornar o orçamento impositivo para aquilo que está no PAC. Tranquiliza também os empresários quanto aos rumos, para ousarem investir. Sabe-se que não haverá sobressaltos nas regras, e isso favorece o ambiente de investimentos. Também assegura continuidade das políticas ministeriais quando há troca de ministros, por razões de apoio político no congresso, melhorando muito a gestão.
Quanto a ortodoxia, até hoje não consigo entender a obsessão de muitos - não sua, eu acho - pela "heterodoxia" (coisa até difícil de se definir exatamente o que seja). Seria como querer duas leis da gravidade: uma ortodoxa que atende aos modelos matemáticos que reproduzem a natureza e mantém edifícios em pé e aviões no ar, e outra que atenderia aos vôos de Peter Pan). Se querem pensar diferente, os economistas deveriam apresentar uma nova ortodoxia consistente.
Ah... Faltou combinar com a iniciativa privada o que é esperado dela no PAC, não é? Ok, mas sabemos que a iniciativa privada no Brasil é governo-dependente. É difícil uma empresa privada no Brasil construir uma usina elétrica, metrô, conjunto habitacional ou rodovia sem o governo, Petrobrás, Eletrobrás ou CEF entrar com uma boa participação. Então, pelo menos, o governo está fazendo a sua parte, e é isso que se espera de um governo.
Será que vai dar certo? Não sei, mas o governo quando foi na TV, apresentou mapas do Brasil com rodovias, hidrovias, portos, usinas elétricas, linhas de transmissão, assinou um contrato com a sociedade, se comprometendo a entregar aquilo com aquela parte do dinheiro que pagamos de impostos. Gostaria que cada candidato apresentasse isso antes de eleito, e cada cidadão "comprasse" o pacote que melhor lhe agradasse. Mas antes tarde (depois das eleições) do que nunca. Fiquei satisfeito por ora, e o governo Lula surpreendeu-me novamente, para melhor.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007 16:19:00 BRST  
Anonymous Maurício Galinkin disse...

Alon,
está havendo alguma confusão com a limitação em 1,5% ao ano do crescimento da folha de pagamentos do governo Federal. O limite não é para salários, pois algumas categorias poderão ter até 10% de aumento salarial por ano (Juízes, por ex.), pois seu impacto no total da massa salarial é reduzido.
O que esse limite vai afetar é a urgente necessidade de dotar o Estado de mais professsores, pesquisadores, técnicos, controladores de vôo, etc. Aí que a coisa vai pegar nesses 1,5%...
Quanto ao PAC, foi a mesma receita de sempre, dos últimos trinta, quarenta anos: pega-se projetos já em andamento, inclui-se alguns mais que poderão ou não ocorrer, tempera-se com wishful thinking de muitos projetos que a iniciativa privada poderia realizar (sem consultar ninguém, é claro), guarda-se "segredo" enquanto a imprensa sofre um "teasing", chama-se altas autoridades civis, militares e eclesiásticas para o lançamento formal no Palácio, e tem-se um sucesso de marketing.
O problema, já exaustivamente demonstrado, é que isso não basta para fazer as ações de governo acontecerem...

terça-feira, 23 de janeiro de 2007 21:57:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home