domingo, 21 de janeiro de 2007

Mais do mesmo (21/01)

Quando alguém lhe disser que a candidatura da chamada Terceira Via à presidência da Câmara dos Deputados representa uma ruptura com o statu quo, sugiro que você fique com um pé atrás. Resolvi emitir esse conselho/opinião depois de ler hoje as respostas dos três candidatos ao questionário apresentado pela Folha de S.Paulo. Aqui, um protesto. Não é aceitável que, após doze anos no ar, o site da Folha ainda não coloque à disposição dos assinantes (do jornal ou do UOL) os elementos gráficos existentes nas páginas do jornal impresso. Por causa dessa falha deles, não há como eu dar um link para o quadro com as respostas. Mas vamos à essência do que pretende dizer o título deste post. É compreensível que Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e Arlindo Chinaglia (PT-SP) tenham respondido com cautela ao questionário da Folha. Ambos têm no currículo a liderança do governo. Não dá para ficar brincando de eu vou fazer isso, eu vou fazer aquilo. Pois o jornalista sempre poderá perguntar: mas, deputado, se o senhor é a favor de todas essas coisas boas, por que não trabalhou por elas até agora?. Um xeque-mate. Situacionismo prenhe de promessas cheira a picaretagem. Mas o que mais me espantou na boa reportagem de Letícia Sander e Sílvio Navarro foi a timidez das respostas de Gustavo Fruet (PSDB-PR). Ele não assume qualquer compromisso com medidas que efetivamente possam aumentar a independência do Legislativo diante do Executivo. Não defende o fim das medidas provisórias nem a aprovação do orçamento impositivo (leia o post Neil Armstrong e o debate sobre um programa para o Brasil). E insiste na defesa da fidelidade partidária. Falta apenas a fidelidade partidária para colocar o Congresso definitivamente de joelhos diante do Palácio do Planalto. Se ela estivesse em vigor, estaria eliminada qualquer hipótese de dissidências significativas entre os deputados. Gustavo Fruet só é candidato a presidente da Câmara dos Deputados porque não existe a fidelidade partidária. Sua candidatura foi imposta ao PSDB por uma facção dissidente que não aceitou o acordo café com leite entre a cúpula tucana e o PT-governo para eleger Chinaglia. A candidatura de Fruet foi imposta de fora para dentro do partido e agora os tucanos terão que honrar o acordo com o PT num eventual segundo turno (se Fruet não chegar). Eu, pelo menos, nunca tinha visto algo semelhante. Reúnem-se os parlamentares de um grupo multipartidário e escolhem um nome para concorrer à presidência da Câmara. Só depois disso o escolhido sai atrás da chancela dos caciques de sua própria legenda. Deu até notícia de jornal. Candidato do PSDB consegue o apoio do presidente do PSDB. Incrível. O PSDB parece ter terceirizado o comando da sigla. Mas em última instância esse é um problema do PSDB, não meu. Agora, paradoxalmente, Fruet diz que defende a fidelidade partidária. Se ela estivesse em vigor, a dissidência tucana que ajudou a materializar a candidatura do bravo deputado curitibano provavelmente teria sido enquadrada debaixo de pau pelos costureiros do pacto PSDB-PT. Aliás, se estivesse valendo a fidelidade partidária, a indicação dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado seria, na prática, prerrogativa pessoal do presidente da República. Quase uma nomeação ministerial. O Palácio do Planalto fecharia um acordo com o(s) chefe(s) do(s) partido(s) da base do governo, chegaria aos nomes e caberia ao Congresso apenas chancelá-los. Do jeitinho que era na ditadura.

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4 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

Mas Alon, se o candidato da oposição fala praticamente a mesma coisa dos dois candidatos da situação... porque votar no candidato da oposição?

Será que alguém já fez essa pergunta ao Gustavo Fruet?

domingo, 21 de janeiro de 2007 20:54:00 BRST  
Anonymous Maurício Galinkin disse...

Tiro na cuca, pra lembrar a expressão do último general-presidente da Ditadura, foi o que deu Fruet ao se posicionar publicamente pela fidelidade partidária.
Acho que Gabeira & cia. deveriam ter conversado mais com ele, para instruí-lo acerca das propostas da "terceira via" e enquadrar seu comportamento de forma compatível com os princípios propostos.
Dá a impressão que escolheram alguém que não estava participando das discussões do grupo, e deu no que está dando...

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 10:52:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

"Quase uma nomeação ministerial....Do jeitinho que era na ditadura."
Desde então do jeitinho da nossa democracia, passando inclusive pelos 8 do FHC, só interrompido no governo Lula, quando com apoio da oposição, leia-se psdb, o severino foi eleito.
Américo

terça-feira, 23 de janeiro de 2007 20:52:00 BRST  
Blogger Julio Neves disse...

Medida Provisória, voto obrigatório, serviço militar obrigatório, contribuição provisória permanente... Acabar com tudo isso já é uma Revolução. É de "assustar" até o Chavez.

Mas, no Brasil tudo continuará emPACado...

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007 04:07:00 BRST  

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