sábado, 20 de janeiro de 2007

A histeria midiática contra Chávez (20/01)

Um certo pseudomarxismo rastaqüera associa mecanicamente mercado e liberdade econômica a capitalismo. Por oposição, o socialismo seria, então, o reino do Estado (antagonista do mercado) e da relativização da liberdade individual. Do meu modesto ângulo de visão, esse debate precisa ser urgentemente rearrumado. Já se sabe (sempre se soube, desde Marx) que absorver a sociedade no Estado não soluciona estruturalmente o desafio de levar o homem (e a mulher) a uma situação perene de bem-estar. Então - oh, fatalismo!- só nos restaria adorar a divindade do capital. E esperar, rezando, que ela nos leve ao paraíso. Fique à vontade, se esse for o seu caso. Mas eu prefiro raciocinar, em vez de bater palmas ou de vaiar. Dizer que capitalismo e mercado são sinônimos é uma falsificação histórica. Grosseira. O mercado existe desde o dia em que o homem percebeu que produzia mais do que precisava para consumir e, num passo lógico, achou que seria boa idéia trocar o seu excedente com quem fazia coisas de que ele precisava mas não produzia.

- Tudo bem. Mas e a liberdade? Não existe liberdade individual verdadeira se não houver liberdade econômica. E só existe liberdade econômica no capitalismo.

Não me venha dizer que o capitalismo é o reinado da liberdade econômica. Acho que nem você acredita nisso. Eu, por exemplo, fiquei revoltado diante do descaso da TAM com os seus passageiros no fim do ano passado. Aí decidi tomar uma atitude firme. Decidi abrir uma nova companhia aérea para atrair todo o excedente da demanda. Só que apareceu um problema: e o capital? Cadê o capital disponível no mercado para que eu exerça a minha liberdade econômica e contribua para satisfazer a necessidade do sujeito que comprou um bilhete da TAM e espera há horas para embarcar? Sacou? Vamos a outro exemplo. O chefe chama o subordinado e diz que ele será demitido.

- Infelizmente, tomamos essa decisão porque a empresa está com dificuldades operacionais e vai fazer um downsizing.
- Mas, por que me demitir? Eu acho que o problema da empresa não sou eu. É a gestão ineficiente. Não estamos conseguindo inovar e incrementar a produtividade no mesmo ritmo que a concorrência. Em vez de cortar na operação, o certo seria eliminar atividades-meio, enxugar níveis desnecessários de gerência e pensar estrategicamente sobre o que devemos fazer agora para sobreviver e crescer nos próximos vinte anos. E quer saber de uma coisa? Se você não compreende isso, está na cara que eu sou mais útil à empresa do que você. Portanto, vamos esquecer dessa sua proposta. E licença que eu vou voltar agora para o meu computador, pois tenho muita coisa para fazer.

Vejam de que maneira altiva esse trabalhador exercitou a sua liberdade, o seu livre arbítrio no capitalismo. Mas é improvável que ele tenha êxito na argumentação. Mais certo é que ele seja mandado embora assim mesmo. E que ainda deixe para trás uma certa imagem de, digamos, exotismo. O capitalismo não é o reino do mercado e da liberdade. O capitalismo é o império do capital. E nós somos súditos do imperador. O que caracteriza o capitalismo e o distingue é a separação radical entre o trabalho e a propriedade. Uns têm, enquanto outros trabalham e obedecem. E estes são escravos daqueles. Pareço-lhe radical? Pense no pavor do assalariado toda vez que tem o desejo de fazer algo contra a vontade do patrão. Especialmente se esse trabalhador é do ramo das idéias, do trabalho espiritual. Acho que você me entende, não é? Então relaxe. E perceba que a tese do socialismo, mesmo abstrata, atrai intelectualmente porque faz o sujeito se sentir capaz de romper os grilhões, de deixar a escravidão para trás. Se o capitalismo não resolve o problema da distância entre o trabalho e a propriedade, que venha o socialismo!

- Ah, mas o socialismo, quando foi tentado, apresentou muitas deformações, muitos problemas.

Isso é como chegar no vestiário de um time de futebol e dizer que ele não deve entrar em campo porque foi mal na partida anterior. Simplesmente não cola. Mas voltemos ao estudo da separação entre trabalho e propriedade. Você já se deu conta de que a organização mais radicalmente anticapitalista da sociedade brasileira, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), é um movimento que pede apenas a democratização do capital terra? Incrível, não é? Eu, por exemplo, fico espantado toda vez que alguém acusa o MST de ser contra a propriedade privada. Eles são tão a favor da propriedade privada que a querem para todo mundo. O problema é saber se o capitalismo, como sistema, vai conduzir a uma sociedade em que todo mundo seja proprietário. Esse é um bom debate. Tem gente que acha que a redução radical do custo do capital, decorrente da explosão digital, vai munir o capitalismo dos instrumentos necessários para fazer essa transição. Veremos. Eu penso que ajuda, mas não resolve. Tem também gente que vê na universalização do mercado de capitais a ferramenta ideal para superar a contradição entre o trabalho e a propriedade. Notam que nos países capitalistas mais avançados quase todas as empresas relevantes são públicas, negociam suas ações nas bolsas e já deixaram há muito tempo de pertencer a um único capitalista. De fato, a Europa e os Estados Unidos são assim. E é preciso saber por quê. Também porque nos séculos 18 e 19 promoveram revoluções democráticas com forte caráter nacional, revoluções voltadas principalmente para a democratização da propriedade territorial. Alguns, como a Alemanha e o Japão, só fizeram isso no século 20, depois de grandes derrotas militares e quando potências democráticas de ocupação enquadraram suas elites agrário-industriais [lembre-se de que o expansionismo belicista do Japão e da Alemanha era estimulado pela busca de mercados e áreas de influência, mas só conseguiu base popular expressiva por apontar uma solução, a conquista territorial, para o desequilíbrio entre a pressão demográfica e a disponibilidade de terras para cultivo das famílias]. Mas todos acabaram fazendo a reforma agrária, de um jeito ou de outro. As conseqüências (sempre o velho Acácio) vieram depois. Toda essa conversa é para marcar aqui uma posição a respeito da histeria midiática contra o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Não sei bem como vai ser esse socialismo do século 21 de que ele tanto fala. Deste meu humilde posto de observação, vou torcer para que ele consiga transformar a Venezuela numa sociedade menos injusta (se você já viajou do aeroporto de Caracas até o centro da capital você sabe do que estou falando). E vou ficar muito vigilante para que as liberdades públicas não sejam atingidas.

- Mas, veja você, o Chávez acabou de dizer que não vai renovar a concessão de uma rede de televisão. Só porque eles participaram da tentativa de derrubá-lo no golpe de estado de 2002.

Sim, é verdade. Mas se o governo dá a concessão, talvez ele também possa ter o direito de tirá-la. Desde que dentro da lei. Ou será que concessão de tevê deve ser vitalícia, um direito adquirido? Você acha o quê? Eu acho que pau que dá em Chico deve dar em Francisco. De novo os limites da liberdade no capitalismo. A empresa de comunicação tem o direito inquestionável de mandar embora, e quando quiser, qualquer funcionário. Ela tem o poder de ameaçar o trabalhador intelectual com a demissão se ele não andar na linha. Tem a prerrogativa de tirar o ganha-pão de qualquer um que não reze pela cartilha dela. Mas, vejam só, quer para si a liberdade de pensar e fazer o que bem entender com a sua concessão. Sem ter que prestar contas a ninguém. Assim eu também quero. Entenderam por que o socialismo é uma palavra que desperta simpatia? Talvez porque desperte ceticismo a tese de que a liberdade e o bem-estar podem universalizar-se num sistema em que uns poucos têm o direito quase divino de tolher a liberdade e ameaçar o bem-estar de muitos.

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36 Comentários:

Anonymous José Augusto disse...

Alon, acrescentar o quê, depois dessa aula magna? Esse post é daqueles para recortar, guardar como referência, reler sempre e passar a usar subsidiando argumentos.

sábado, 20 de janeiro de 2007 15:01:00 BRST  
Anonymous luis fernando disse...

Alon
Mais uma vez, você não deixou nada pra gente comentar. Uma aula, realmente.
Pena que toda essa clareza ainda seja privilégio de poucos enquanto a escravidão continua, alimentada a cada segundo pela poderosa realidade virtual criada à nossa volta. Para os que conseguem se libertar do jugo do consumo, das relações humanas rasas e das correntes da ideologia liberal e ter uma visão da nossa triste humanidade a uma certa distância, está cada vez mais palpável a diferença entre capitalismo e socialismo e do quanto precisamos deste último.
Quanto ao Chavez, tirando o lado "exótico-fanfarrão", é uma grande, imensa interrogação para qualquer pensador ou curioso político. Uma autêntica esfinge andina. Vamos ver e saber com o tempo, a que veio.
abraços

sábado, 20 de janeiro de 2007 16:56:00 BRST  
Anonymous Frank disse...

Alon, vamos aos fatos: o presidente Hugo Chavez é um falastrão, bravateiro e fanfarrão. Vc não precisa recorrer a Chavez para endossar seu ponto de vista, no que tange ao capitalismo - ou vice-versa. O cancelamento da concessão à rede de televisão oposicionista não é a única - e nem a pior - medida chavista contra a liberdade. Se fosse apenas essa medida isolada, poderia concordar com vc. No entanto, Chavez vem atuando - em geral, mas não apenas - dentro de regras institucionais para se perpetuar no poder. E com isso, não se pode concordar. Não faz sentido aludir a Chavez em um texto que se pretenda, entre outras coisas, defensor da liberdade - como nos exemplos que vc dá para mostrar algumas incoerências do capitalismo.

sábado, 20 de janeiro de 2007 17:08:00 BRST  
Blogger jose roberto disse...

A histeria midiática contra Chavez só é comparável ao pouco caso (e desrespeito) com que foi tratada a reunião do Mercosul no Rio. Só faltou (será que faltou mesmo ou eu não li?) chamar os presidentes dos países-membros de palhaços.

sábado, 20 de janeiro de 2007 20:50:00 BRST  
Anonymous Bruno Pinheiro disse...

Caro Alon, sou um visitante diário do blog , mas é a primeira vez que faço um comentário. Queria parabenizá-lo pelo artigo. E gostaria de comentar sobre essa histeria da mídia quando trata do assunto da não renovação da concessão da RCTV pelo presidente Chavez. Ora, é um direito do governo renovar ou não uma concessão. Ou deveriam todos os governos ficarem à mercê de um canal de TV como o Brasil fica da Globo? Aos "baluartes defensores da liberdade de imprensa" gostaria de recomendar o documentário "The revolution will not be televised", que trata da tentativa de golpe em 2002 contra Chavez e o papel das TVs nele.Mostra com detalhes a manipulação grosseira de informações ( que inflamou a classe media contra o governo; exatamente como ocorreu em um outro país da américa latina!) e a campanha de ódio promovida pelas TVs ( até parece um país que eu conheço!) Não podem querer transformar a RCTV em vítima nessa história!

sábado, 20 de janeiro de 2007 21:37:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Mas Alon, será mesmo histeria da mídia contra contra Chavez? Não dá para concordar em histeria contrária quando, numa reunião de Chefes de Estado um deles investe contra a mídia de um País aliado e apoiador. Dentro do País anfitrião. Afinal, o Presidente do Brasil investiu contra a mídia da Venezuela? Na Venezuela? A baboseira ainda fica pior quando tem até claque no local, ajudando a vaiar. Afinal, no Brasil, todos podem ler o que bem entenderem, assinar o veículo que bem entenderem. Uma Democracia, enfim. Pela qual muitos lutaram para vê-la em plenitude, ou não? Por mais que isto incomode "os fulanos de tais que estão ai". Precisa de alguém de fora vir imiscuir-se e ditar regras? E ter apoios? Se ele, em algum momento, pedir vaias ao Presidente do Brasil, o que vai acontecer? A resposta parece óbvia, não? Ou pareceria óbvia, dado o anestesiamento quase total?
Dawran

domingo, 21 de janeiro de 2007 15:00:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Ademais, tudo resume-se a coisas mais prosaicas, tais como, os lucros com a venda de petróleo...para os EUA. Interessante.
Dawran

domingo, 21 de janeiro de 2007 15:04:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, que tristeza, não sei se você é ingenuo, meio criança ou faz de propósito.
..desafio de levar o homem e a mulher (ça va sans dire) a uma situação de perene bem-estar? Mas desde quando? Como é que alguem vai poder evitar que a humanidade pegue uma gripe de vez em quando, por exemplo? Os recursos são escassos, saímos do paraíso e o que você pretende é inexequivel.
O problema da TAM é fácil de resolver, vá de õnibus. Ou a pé. e processe a companhia por danos morais se não chegar a tempo, quero ver se no socialismo real isto é possível.
MSt quer a democratização da terra? Mas que ingenuidade, ninguem do messetê quer arar pedaço de terra nenhum, querem é arrumar um sitio para os fins de semana e se possível vender assim que possível.
No capitalismo todo mundo é proprietário, de sua roupa, de sua bicicleta, de seu carrinho, va dizer isto de Cuba.
E me diz uma coisa, foi o estado que inventou o radio e a televisão? Não, foi um individuo privado, uma empresa, e o estado fez o que? Roubou a invenção e inventou concessões.

JV

domingo, 21 de janeiro de 2007 20:21:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

...ia esquecendo, se o time entra em campo, e no primeiro tempo além de perder o jogo, dáum tiro no juiz, invade as arquibancadas com metralhadoras nas mãos e mata uns 3 mil pagantes, chutta o bandeirinha, sim, diria eu, ele deve ser impedido de entrar para o segundo tempo

domingo, 21 de janeiro de 2007 21:07:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

domingo, 21 de janeiro de 2007 21:12:00 BRST  
Anonymous Rodrigo disse...

Agora sei que obviamente voce é um comunistazinho genocida. Essa ideologia assassina que matou 300 milhões de pessoas, segundo o grande "Livro negro do comunisno". E não me venha me dizer que esse é quase o número de pessoas que morrearam de AIDS, malária, dengue, sarampo, guerras, violência urbana e fome depois que o muro de Berlin caiu!!!
Como voce ousa a atacar um dos pilares de nossa sociedade?!?!
Ora, vá, vá...vá morar em Cuba, seu pérfido!!!











brincadeirinha
brincadeirinha

ótimo texto Alon, também vou passar a usa-lo nas minhas argumentações, Valeu!!

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 09:03:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Que vergonha um cara com a sua inteligência e experiência profissional ainda ter essas dúvidas primárias sobre a economia de mercado e ainda ter uma queda pelas "soluções bolivarianas".

Cada vez mais me convenço que empreendedorismo não tem nada a ver com inteligência. Há pessoas inteligentes que só sabem obedecer, seja como parte de uma grande organização, ou a líderes políticos. Essa sim, é a verdadeira escravidão. Uma escravidão mental, de que você padece.

Se você queria fazer ironia com o exemplo da TAM, veja como é errada essa tentativa:

Não apenas a TAM como TODAS as empresas aéreas nacionais surgiram do esforço de indivíduos, que começaram fazendo frete aéreo, não muito diferente das novas empresas que estão expandindo agora para competir com o duopólio Gol-Tam. Empresas como a BRA, por exemplo.

É óbvio e evidente que falhas grosseiras como a feita pela TAM beneficiam todas essas competidoras.

E, se você quer realmente ter sua empresa aérea - se esse fosse o seu ramo - você sabe muito bem que o empecilho não seria apenas capital. Seria Infraero, politicagem na concessão de slots e alocação de rotas. É notório o que o estado fez com a aviação civil, e infelizmente a sombra dessa época no setor da aviação ainda é visível.

Sobre o outro infeliz exemplo do funcionário sendo demitido, saiba que muitas empresas realmente começaram assim. Não por demissão, mas por alguém que sabia fazer, via todos os problemas, e saia, vendia a casa, o carro, pegava dinheiro emprestado, e iniciava uma outra empresa. Ao menos deve ter ocorrido a você que um empregado possa economizar e acumular capital, não? Porque delegar o capitalismo para o estado então?

O que eu já conheci de empresário 'copycat' não está no gibi. Os casos são abundantes, você devia saber disso.

Na verdade não, pois você fez sua carreira na mídia. Sempre controlada, sempre vigiada. Você chega ao cúmulo de achar normal o processo de concessão de veículos de comunicação por parte do estado - no caso, um paraquedista venezuelano candidato a ditador. A um Mussolini caribenho, para quem você nutre simpatias e faz bons votos.

Quando leio comentários como esses que você fez tenho certeza que fiz a coisa mais certa do mundo quando saí do país e abandonei essa cultura estatista e falida de vocês.

Socialismo: só mesmo na América Latina, zoológico das ideologias mortas, que se encontra ainda um discurso destes.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 15:43:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Anônimo:

Pena que você tenha se mantido anônimo, pela beleza e virulência (no bom sentido) do seu comentário. Vamos por partes:

Diz você: Que vergonha um cara com a sua inteligência e experiência profissional ainda ter essas dúvidas primárias sobre a economia de mercado e ainda ter uma queda pelas "soluções bolivarianas".

Digo eu: Se minhas dúvidas são primárias, já deveriam ter sido respondidas faz tempo. Fiz uma indagação central no post. O capitalismo será capaz de socializar a propriedade? Haverá algum capitalismo em que possamos ser todos capitalistas? São dúvidas legítimas ou não? Ou será que já foram respondidas e eu não estou sabendo? Quanto às "soluções bolivarianas", não fui eu quem manifestou simpatia por elas. Foi o povo venezuelano, em sucessivas eleições. Não sei se você conhece a Venezuela. Talvez seja o paradigma mundial de como uma elite "liberal" consegue desmoralizar o liberalismo.

Diz você: Cada vez mais me convenço que empreendedorismo não tem nada a ver com inteligência. Há pessoas inteligentes que só sabem obedecer, seja como parte de uma grande organização, ou a líderes políticos. Essa sim, é a verdadeira escravidão. Uma escravidão mental, de que você padece.

Digo eu: Lamento que você tenha chegado a essa conclusão. Mas compreendo. Ela certamente seria diferente se eu tivesse escrito um texto vibrante sobre as vantagens do livre mercado, sobre a opressão do Estado empresário, sobre as maravilhas da livre iniciativa. Se eu concordasse com você, provavelmente você não me teria chamado de escravo. É um comportamento típico: para você, eu tenho a liberdade de pensar o que quiser, desde que concorde com você. Obrigado por fornecer um exemplo tão vivo, por ilustrar tão nitidamente um assunto de que tratei no post.

Diz você: E, se você quer realmente ter sua empresa aérea - se esse fosse o seu ramo - você sabe muito bem que o empecilho não seria apenas capital. Seria Infraero, politicagem na concessão de slots e alocação de rotas. É notório o que o estado fez com a aviação civil, e infelizmente a sombra dessa época no setor da aviação ainda é visível.

Digo eu: Você não respondeu minha questão central. Que vantagem Maria leva de haver um ramo da economia (aviação civil) funcionando em regime de oligopólio privado? Seja objetivo. Responda.

Diz você: Sobre o outro infeliz exemplo do funcionário sendo demitido, saiba que muitas empresas realmente começaram assim. Não por demissão, mas por alguém que sabia fazer, via todos os problemas, e saia, vendia a casa, o carro, pegava dinheiro emprestado, e iniciava uma outra empresa. Ao menos deve ter ocorrido a você que um empregado possa economizar e acumular capital, não? Porque delegar o capitalismo para o estado então?

Digo eu: É realmente uma maravilha essa nossa sociedade. O sujeito passa anos, décadas ajudando o patrão a enriquecer e, um dia, é jogado fora como um trapo velho. E ainda deve enxergar isso não como uma violência, mas como um estímulo a se tornar ele também um capitalista. Que beleza.

Diz você: (...) você fez sua carreira na mídia. Sempre controlada, sempre vigiada. Você chega ao cúmulo de achar normal o processo de concessão de veículos de comunicação por parte do estado - no caso, um paraquedista venezuelano candidato a ditador. A um Mussolini caribenho, para quem você nutre simpatias e faz bons votos.

Digo eu: Responda objetivamente se o Estado deve ter o direito de não renovar uma concessão que ele dá, ou se a concessão deve ser vitalícia.

Diz você: Quando leio comentários como esses que você fez tenho certeza que fiz a coisa mais certa do mundo quando saí do país e abandonei essa cultura estatista e falida de vocês. Socialismo: só mesmo na América Latina, zoológico das ideologias mortas, que se encontra ainda um discurso destes.

Digo eu: Esse é o problema, meu caro. Gente como você pode cair fora, mas cair fora não é uma solução para o brasileiro comum. Não dá para 200 milhões caírem fora e fecharem o Brasil. Este é o nosso país e precisamos consertá-lo. Quanto aos adjetivos que você emprega, eles dão um colorido todo especial ao que você diz, mas não ajudam a esclarecer a questão: por que o socialismo, ainda que como idéia abstrata, volta a exercer atração, depois de ser dado como morto?

Um abraço e muito obrigado pelas suas críticas.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 16:56:00 BRST  
Anonymous Caetano disse...

Claro que o Estado tem o direito de não renovar a concessão da estação de TV, mas para isso deve ter um motivo justo. E qual é o motivo? Se dizem mentiras, que sejam processados... Ou seja, só tem renovada a concessão as estações favoráveis ao governo: essa é a democracia de Chavez. Já estamos cansados de tiranetes que arruinam a América Latina.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 17:33:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, pelo amor de Deus, vá estudar economia. Vocë parece viúva do muro de Berlim.
JV

obs. você joga para a torcida, mas sua retórica é de um primarismo óbvio.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 17:39:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro JV,

Talvez não tenha estudado economia o suficiente para fazer previsões tão acertadas quanto as de nossos economistas, mas eu me esforço para superar minhas limitações. Refleti cuidadosamente sobre o termo "viúva do Muro de Berlim", mas não cheguei a uma conclusão sobre se sou ou não. Você diz que eu jogo para a torcida. Se eu jogasse para a torcida, falaria mal de Chávez para ser aplaudido, inclusive por você. Você diz que minha retórica é de um primarismo óbvio. Você tem o direito de achar isso. mas você me ajudaria mais se combatesse meus argumentos, em vez de despejar adjetivos (ainda que alguns deles estejam disfarçados de substantivos).

Um abraço.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 18:48:00 BRST  
Anonymous Tiago disse...

Bem Alon, sempre leio seu blog, embora seja liberal e não socialista, certos debates não cabem em blogs,mas respondendo a uma de suas perguntas, sim o governo pode rever uma concessão, mas para isso precisa ter criterios ja definidos, senão ficaremos apenas com os amigos do REI. Aparentemente na Venezuela não existe motivo a não ser a oposição, você acha isso correto.
Só para lembrar o próprio chaves já foi um golpista e graças ao modelo democrático vigente ele conseguiu sua anistia, beneficio que ele não quer conceder aos seus adversários, se o regime anterior fosse igual ao que ele propõe provavelmente ele estaria até hoje apodreçendo em algum porão.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 19:57:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, me parece que para você 80% da humanidade é de coitados e os outros 20% deveriam ser escravos destes 80.
Esta sua intenção de homogenizar as pessoas, seu igualitarismo, a idéia de querer um perene bem-estar do povo são de um altruismo extremamente prejudicial à real solução de problemas.
Vou pedir que leia um pequeno trecho de um livro que mostra como acabam estas aventuras:

Quem é John Galt?

http://brasil.indymedia.org/es/blue/2006/11/366972.shtml

tinha um link melhor, mas não o encontro mais.

Um abraço
JV

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 20:46:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Tiago, e a companhia telefônica tambem participou de uma campanha contra Chaves para ele ter tanto ódio assim? Isto é o mais puro facismo, o fato dos esquerdinhas festivos não se darem conta disto revela o autoritarismo que ambos praticam.
JV

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 22:32:00 BRST  
Anonymous José Pires disse...

Alon, deve ter um monte de gente que quer ser igual a você; isso é legal: quando eu crescer quero ser o Alon!

É incrível como o mundo – e não só o das idéias, até os objetos se levantam – se movimenta prontamente para construir argumentações que dão validade à sua opinião. Nem o Olavo de Carvalho faz melhor.

O fenômeno, de um modo fenomenal, digo eu, se incorpora nas filosofias do Alon sem boquejar sequer uma contradição.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007 00:40:00 BRST  
Blogger Ivo La Puma disse...

Só li hoje este texto, e sou obrigado a dizer: é excelente!

Só gostaria de dizer o mesmo dos comentários... ("indivíduo privado" doeu na vista...)

Abraços!

terça-feira, 23 de janeiro de 2007 13:56:00 BRST  
Anonymous Rodrigo disse...

Talvez alguém ignore que as frequencias são recurso escasso, e portanto, imperativo o controle de estado.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007 17:15:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

No Brasil, todo mundo é de esquerda, isto é, espera que o estado resolva seus problemas. Meu falecido avô dizia que na época de sua juventude, quem acabava no serviço público tinha motivo de envergonhar-se, pois era cabal demosntração de incompetência.
Hoje, todos preferem viver de forma não emancipada, na ilusão de que o estado vai dar o abrigo e a comida....depois ainda perguntam porque o pais não vai para frente.
Boa sorte nesta desventura.
JV

terça-feira, 23 de janeiro de 2007 20:24:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,
Teu post me fez lembrar as aulas de matemática, quando ao final da demonstração de um teorema, o professor assinava C.Q.D.-como queriamos demonstrar.
E nada mais foi dito nem perguntado.
Laércio de Araújo

terça-feira, 23 de janeiro de 2007 21:01:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

...e a torcida aplaude, Alon, parabens por jogar para a torcida.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007 23:29:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

nem o mentor de Chaves aguenta mais o mala-sem-alça

http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI1365378-EI8140,00.html

Alon, quantos anos faltam para você ter 60 anos de idade, e, segundo Lula, criar juizo?
JV

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007 01:04:00 BRST  
Blogger Julio Neves disse...

Não sei porque se preocupar tanto com a Venezuela. Vamos fingir que existe a tal "soberania" das nações, e deixar os "bolivarianos" pra lá.

E o Mercosul? Por enquanto para mim é que nem a Copa América de Futebol. Os fortes são o Brasil e a Argentina. Venezuela e Bolívia ainda são "sacos de pancadas". Precisam melhorar...

Socialismo me lembra a igualdade. Mas, se tem algo que percebi na prática é que os seres humanos não são iguais. São individualistas. E possuem uma natureza que sempre é atraído pelo lado "mal da força". Você já comandou um grupo de iguais?

Que todos digam "amém". Mas, eu não estou com vontade de dizer "amém"!

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007 04:45:00 BRST  
Blogger Marcelo disse...

Alon, sem fugir à sua pergunta, primeiro gostaria de vê-lo decidir se está preocupado com o bem-estar universal ou se prefere, antes, transformar todos os assalariados em capitalistas. Bem-estar é um conceito vago; em todo caso não me parece que essas duas coisas se relacionem, obrigatoriamente. Muitos países conseguiram universalizar o bem-estar social, se o sentido que você dá à palavra coincide mais ou menos com o meu, o que é duvidoso. Nenhum deles chegou a esse resultado socializando os meios de produção. Verdade que nesses países continuam existindo capitalistas e assalariados. Logo, pergunto eu: será que para você a questão é de princípio, na realidade pouco importando o bem-estar social (uma sociedade dividida entre assalariados e capitalistas é uma sociedade injusta, independentemente do estado de relativo conforto e prosperidade em que vivam os primeiros)? Se for assim, passamos da economia para a política. Tenho certeza de que nesse caso é de política de que estamos tratando. E eu gostaria de saber como se garante o espaço da liberdade da vida particular - a vida de cada um de nós, com nossos desejos e aspirações pessoais - contra as restrições de um Estado superpoderoso, que acrescenta todo poder econômico a todo poder político. Esta, sim, é uma boa pergunta. Que vocês, socialistas de A a Z, sequer começaram a se coçar para respondê-la. Se for para ignorar o problema colocado pela equação "total poder econômico + total poder político = opressão do indíviduo", com efeito é melhor que seu time aí não entre nunca mais em campo, Alon. Pois o resultado de um tal jogo é previsível pela lógica e pelas estatísticas, e a humanidade só tem a perder com isso.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007 01:02:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Em 2011, começará o governo federal Aécio Neves ou José Serra. Com 99% do noticiário a favor, o Brasil será um país feliz e próspero, e a Venezuela se sentirá humilhada com tanto desenvolvimento na vizinhança.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007 11:12:00 BRST  
Anonymous pinheiro@oi.com.br disse...

corrigindo a anonimo que disse: "Não apenas a TAM como TODAS as empresas aéreas nacionais surgiram do esforço de indivíduos, que começaram fazendo frete aéreo, não muito diferente das novas empresas que estão expandindo agora para competir com o duopólio Gol-Tam. Empresas como a BRA, por exemplo"...com a VARIG nao foi assim. Ela nasceu?? da expropriacao de uma empresa, pelos golpe militar de 1964, algo nos moldes do que o Chavez esta fazendo com a TV de la,(so que isso e um direito constitucional dna venezuela) porem o que foi feito com a antiga Pan-Air...conforme farta informacao na internet nos infroma o site http://edairways.sites.uol.com.br/varig.htm
"A controvertida falência da Panair em 1965 foi, talvez, o ponto mais obscuro da história da Varig. A empresa criada pela PAN AM e depois vendida para empresários brasileiros, gozava o prestígio entre os passageiros mas estava em decadência nos anos 60. Os laços de seus proprietários com os ex-presidente Juscelino Kubitschek eram mal vistos pelo governo militar. Por outro lado, a Panair tinha como principais destinos a Europa e algumas capitais sul-americanas, que interessavam a Varig e a Cruzeiro do Sul. Numa manobra polêmica,as duas empresas influenciaram o governo a decretar a falência da Panair para assumir as suas rotas. A situação foi tão inusitada que poucas horas após o anuncio do seu fechamento, a Varig já estava operando as linhas da ex-concorrente." O caso da TAM, nao foi de falha grosseira, nem foi falha, pois foi deliberada, nem grosseira, pois vergonhosa atitude, como TODA E QUALQUER (PUBLICA OU PRIVADA)empresa participante de um MONOPOLIO SETORIAL, pois onde existe monopolio nao se deve falar em capitalismo, como o nosso anonimo misturando tudo, capital, social e monopolio.Solucoes como estas de recorrer ao judiciario, como sugere o anoninomo, sao indicadas a casos isolados de dano, onde cada um questiona suas perdas, mas no caso de empresas aereas, onde o dano é coletivo, perpetrado dolosamente contra parte da sociedade, deve ou deveria aver intervencao do estado diretamente na questao, como preve inclusive a constituicao, de uma maneira mais dura e incisiva, e nao atraves da ANAC, pois estas agencias estao a servicos do proprio monopolio onde deveriam combater o abuso deste contra a sociedade. Outro exemplos?? telefonia, energia, combustiveis, e logo logo na agua que bebemos, pois recursos hidricos, estes ja estao regulados, e breve estaremos como os paises Africanos, tendo que se submeter aos ditames do monopolio da agua. para o futuro, quem sabe, dada ao fenomeno da urbanizacao acelerada, nao sera possivel cobrir as cidades em bolhas plasticas (policarbonato, é mais chique!!) e taxar o oxigenio. Quem viver, verá!

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007 15:30:00 BRST  
Anonymous pinheiro@oi.com.br disse...

PARA O CAETANO...

O estado nao precisa de um "motivo Justo" para retirar uma concessao, assim como nao precisa do mesmo motivo para concede-la. O que precisa, é de previsao legal, em ambos os casos. Houve previsao legal no ato do Chavez?? atendeu a Lei? Nao?? Bem, vamos cair de pau emcima dele.... Sim??? Ponto final. A empresa que perdeu a concessao parte pra outra, muda de ramo, liquida o patrimonio, paga os tributos e tchau. Essa é a essecia do capitalismo!!! Chorar que perdeu a teta, todo o "capitalista" faz.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007 15:43:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

”Um certo pseudomarxismo rastaqüera associa mecanicamente mercado e liberdade econômica a capitalismo. Por oposição, o socialismo seria, então, o reino do Estado (antagonista do mercado) e da relativização da liberdade individual.”

Não é pseudo-marxismo que faz essa associação. É o marxismo mesmo, ao defender o fim da propriedade privada dos meios de produção, e sua apropriação pelo Estado no processo revolucionário, como se isso resolvesse algum problema.

Do meu modesto ângulo de visão, esse debate precisa ser urgentemente rearrumado. Já se sabe (sempre se soube, desde Marx) que absorver a sociedade no Estado não soluciona estruturalmente o desafio de levar o homem (e a mulher) a uma situação perene de bem-estar. Então -- oh, fatalismo! -- só nos restaria adorar a divindade do capital. E esperar, rezando, que ela nos leve ao paraíso. Fique à vontade, se esse for o seu caso. Mas eu prefiro raciocinar, em vez de bater palmas ou de vaiar.

A solução para o bem-estar humano tem a ver com educação, saúde, investimentos em tecnologia, liberdade de mercado, democracia.

”Dizer que capitalismo e mercado são sinônimos é uma falsificação histórica. Grosseira. O mercado existe desde o dia em que o homem percebeu que produzia mais do que precisava para consumir e, num passo lógico, achou que seria boa idéia trocar o seu excedente com quem fazia coisas de que ele precisava mas não produzia.”

Ninguém diz que capitalismo e mercado são sinônimos, mas capitalismo é sinônimo de economia de mercado. Economia de mercado é uma economia na qual a alocação de recursos e a definição de quê, quanto e como produzir é feita por meio dos mercados. Então, por exemplo, ao invés de você ter uma telefônica estatal, você tem uma telefônica submetida aos mercados.


“Não me venha dizer que o capitalismo é o reinado da liberdade econômica.“

Eu venho: é o reinado da liberdade econômica. Ocorre que mesmo a sua liberdade econômica é limitada pela liberdade econômica do próximo. Isso vai ficar mais claro para você no próximo comentário.

“Acho que nem você acredita nisso. Eu, por exemplo, fiquei revoltado diante do descaso da TAM com os seus passageiros no fim do ano passado. Aí decidi tomar uma atitude firme. Decidi abrir uma nova companhia aérea para atrair todo o excedente da demanda. Só que apareceu um problema: e o capital? Cadê o capital disponível no mercado para que eu exerça a minha liberdade econômica e contribua para satisfazer a necessidade do sujeito que comprou um bilhete da TAM e espera há horas para embarcar? Sacou?”
A coisa não funciona assim, caro Alon. Existem recursos disponíveis no mercado para bons projetos. Porém tais recursos tem proprietários, e têm proprietários porque tais pessoas, em determinados momentos de suas vidas, renunciaram a consumo para alocar uma parte de seus recursos a investimentos e poupança, e se tornaram proprietários de tais recursos. A liberdade que você tem de usar tais recursos é limitada pela liberdade dos proprietários dos recursos de avaliar se tais recursos serão ou não bem utilizados por você, e essa avaliação será feita em termos bem prosaicos, como se você nunca teve uma empresa de aviação ou mesmo de transporte, que garantia você inspira que sua empresa será boa para a sociedade? Que será lucrativa, e que você não desperdiçará os recursos alheios, entendeu? O dono da Gol, por exemplo, conseguiu milhões de dólares no mercado para fundar sua empresa, depois ele ainda abriu o capital na Bolsa de valores e conseguiu mais recursos ainda, mas ele já mostrou que é bom com empresas de transporte. Você pode fazer o mesmo caminho dele.


“Vamos a outro exemplo. O chefe chama o subordinado e diz que ele será demitido.

-- Infelizmente, tomamos essa decisão porque a empresa está com dificuldades operacionais e vai fazer um downsizing.

-- Mas, por que me demitir? Eu acho que o problema da empresa não sou eu. É a gestão ineficiente. Não estamos conseguindo inovar e incrementar a produtividade no mesmo ritmo que a concorrência. Em vez de cortar na operação, o certo seria eliminar atividades-meio, enxugar níveis desnecessários de gerência e pensar estrategicamente sobre o que devemos fazer agora para sobreviver e crescer nos próximos vinte anos. E quer saber de uma coisa? Se você não compreende isso, está na cara que eu sou mais útil à empresa do que você. Portanto, vamos esquecer dessa sua proposta. E licença que eu vou voltar agora para o meu computador, pois tenho muita coisa para fazer.”

Vejam de que maneira altiva esse trabalhador exercitou a sua liberdade, o seu livre arbítrio no capitalismo. Mas é improvável que ele tenha êxito na argumentação. Mais certo é que ele seja mandado embora assim mesmo. E que ainda deixe para trás uma certa imagem de, digamos, exotismo.”


Você confunde tudo, Alon. O dono da empresa tem a liberdade de contratar e demitir quem ele bem entende. O dono da empresa é responsável pelo sucesso da empresa, e tal resultado é decorrente das decisões que ele toma. A liberdade do empregado é limitada pela liberdade do empregador de não ser obrigado a mantê-lo empregado quando achar que esse empregado não é mais necessário, ou não é conveniente e etc. Da mesma forma, por mais que o empregador queira, ele não pode obrigar o empregado a manter-se empregado na empresa dele. O funcionário, pode receber uma proposta de outra empresa e pular fora, como vive acontecendo por aí.

“O capitalismo não é o reino do mercado e da liberdade. O capitalismo é o império do capital. E nós somos súditos do imperador. O que caracteriza o capitalismo e o distingue é a separação radical entre o trabalho e a propriedade. Uns têm, enquanto outros trabalham e obedecem. E estes são escravos daqueles.”

Você está desatualizado. No momento atual do capitalismo, quase nenhuma grande empresa do mundo consegue sobreviver se não tiver investimento constante em pesquisa e desenvolvimento, em redução de custos, e isso as obriga a abrir seus capitais nos mercados de capitais, onde todos podem investir e se tornarem donos de capital.


“Pareço-lhe radical? Pense no pavor do assalariado toda vez que tem o desejo de fazer algo contra a vontade do patrão.”

O assalariado tem toda a liberdade de fazer o que bem entende, sobretudo contra a vontade do patrão, se assim o desejar. Ocorre que essa liberdade do assalariado é limitada pela liberdade do patrão. Ou seja, o patrão tem a liberdade de não deixar que o assalariado faça algo contra a vontade do patrão, desde que para fazer isso o assalariado use os recursos do patrão, percebeu? Se ele não for usar recursos do patrão, ele pode fazer o que bem entende.

“ Especialmente se esse trabalhador é do ramo das idéias, do trabalho espiritual. Acho que você me entende, não é? Então relaxe. E perceba que a tese do socialismo, mesmo abstrata, atrai intelectualmente porque faz o sujeito se sentir capaz de romper os grilhões, de deixar a escravidão para trás. Se o capitalismo não resolve o problema da distância entre o trabalho e a propriedade, que venha o socialismo!”

E desde quando o socialismo resolve esse problema? Vamos ver nos países socialistas do mundo se os trabalhadores podem fazer coisas em seus trabalhos contra a vontade do Estado. Não podem nem falar mal do Estado, quanto mais fazer algo contra a vontade do Estado.

“Você já se deu conta de que a organização mais radicalmente anticapitalista da sociedade brasileira, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), é um movimento que pede apenas a democratização do capital terra? Incrível, não é? Eu, por exemplo, fico espantado toda vez que alguém acusa o MST de ser contra a propriedade privada. Eles são tão a favor da propriedade privada que a querem para todo mundo.”

Que ótimo que eles a querem para todo mundo, entretanto, a liberdade deles a quererem para todo mundo esbarra em algumas liberdades alheias:

1. A liberdade dos atuais donos das terras de quererem ou não vende-las.

2. A liberdade de toda a sociedade de avaliar se a sociedade inteira será beneficiada ao se usar recursos públicos para comprar propriedades rurais e repassa-las aos trabalhadores do MST. A sociedade irá ganhar com isso? A saber: os preços e a qualidade dos alimentos serão diminuídos? Os recursos alocados no setor agrícola serão menores? A produção total de alimentos crescerá?



“- Mas, veja você, o Chávez acabou de dizer que não vai renovar a concessão de uma rede de televisão. Só porque eles participaram da tentativa de derrubá-lo no golpe de estado de 2002.

Sim, é verdade. Mas se o governo dá a concessão, talvez ele também possa ter o direito de tirá-la. Desde que dentro da lei. Ou será que concessão de tevê deve ser vitalícia, um direito adquirido? Você acha o quê? Eu acho que pau que dá em Chico deve dar em Francisco.”


Aqui você confunde governo com Estado. A operação de uma emissora de TV depende de concessão pública porque a transmissão das imagens e dos sons se dá por meio do espectro eletromagnético, que é um bem público. Então, o Estado, ao alocar uma faixa no espectro para uma empresa normalmente faz por meio de concorrência pública. E a empresa que detém a concessão precisa de previsibilidade de que poderá manter seu negócio no longo prazo para planejar seu investimento e etc. Enfim, as regras para cancelamento de uma concessão devem estar previamente estabelecidas e a isso se chama Estado de Direito. Nesse sentido o que está ocorrendo na Venezuela é anti-democrático pois: 1. Chavez não é o Estado. Ele é o chefe do Poder Executivo, que, no caso do Estado de Direito, deveria estar abaixo da Lei. Ocorre que como a Venezuela é uma ditadura, então Chavez se apoderou do Estado para si, e, então, faz dele o que bem entende.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007 09:51:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Eu não sou o cara que saiu do País, mas vou tomar a liberdade de responder, não por ele, mas por mim mesmo, tendo em vista que acho que o debate suscitado é pertinente.

Vamos lá:

O capitalismo será capaz de socializar a propriedade? Haverá algum capitalismo em que possamos ser todos capitalistas? São dúvidas legítimas ou não? Ou será que já foram respondidas e eu não estou sabendo? Quanto às "soluções bolivarianas", não fui eu quem manifestou simpatia por elas. Foi o povo venezuelano, em sucessivas eleições. Não sei se você conhece a Venezuela. Talvez seja o paradigma mundial de como uma elite "liberal" consegue desmoralizar o liberalismo.

Primeiro, se você vive em um país liberal, significa que você, caso queria e deseje, possa ter sua propriedade sobre o que você bem entenda. O capitalismo é o regime onde você escolhe o que deseja ser: capitalista, socialista, budista, anarquista...se você quer ser capitalista, o seja, junte dinheiro, economize, invista seu dinheiro. Se não quer ser, ótimo, não seja, torre tudo, seja consumista, se você é feliz assim , ótimo! Se você quer pegar todo seu dinheiro do doa-lo a instituições de caridade, melhor ainda! A única coisa que você tem que ter consciência é que seu futiro será afetado por suas decisões atuais, e o único responsável por sua situação futura é você mesmo, não adianta culpar os outros. Portanto, se você quer torrar toda sua renda atual em consumismo e não investir nada, problema seu, só não venha, no futuro, falar que está na pior e que o Estado deve tirar de quem investiu e poupou para dar para você, percebeu? É uma questão de responsabilidade.

Quanto a questão da Venezuela, a questão é muito simples: a simpatia do povo venezuelano por soluções “bolivarianas” é diretamente proporcional à quantidade de recursos que o Chavez direciona para tal população. Isso tem nome e é bem antigo: assistencialismo, clientelismo, coronelismo, que sempre foi combatido pela esquerda, que, agora, curiosamente, aplaude o mesmo comportamento em seu novo ídolo, apenas porque Chavez dá a isso o nome de “bolivariano”....E claro: o que a “elite” venezuelana fez na Venezuela nada tem de capitalismo, nem de liberalismo. A Venezuela é apenas uma republiqueta que extrai recursos do petróleo, e as pessoas ficam brigando para ver quem vai ficar com tais recursos. Um país sério deveria usar tais recursos para investir na educação, na saúde e no fomento de outras atividades econômicas.


Lamento que você tenha chegado a essa conclusão. Mas compreendo. Ela certamente seria diferente se eu tivesse escrito um texto vibrante sobre as vantagens do livre mercado, sobre a opressão do Estado empresário, sobre as maravilhas da livre iniciativa. Se eu concordasse com você, provavelmente você não me teria chamado de escravo. É um comportamento típico: para você, eu tenho a liberdade de pensar o que quiser, desde que concorde com você. Obrigado por fornecer um exemplo tão vivo, por ilustrar tão nitidamente um assunto de que tratei no post.

Veja bem, ninguém está querendo tolher sua liberdade de pensar o que quer que seja. Apenas está contra-argumentando com fatos, com lógica.

“Você não respondeu minha questão central. Que vantagem Maria leva de haver um ramo da economia (aviação civil) funcionando em regime de oligopólio privado? Seja objetivo. Responda.”

Caro Alon, caso você não saiba, o setor de aviação civil foi liberalizado no Brasil faz pouco mais de uma década. Antes, o Estado determinava preços e tarifas, determinava quanto as empresas poderiam lucrar, quais poderiam operar e etc. Nessa época viajar de avião era coisa de “rico”..e a pobraiada tinha que se contentar com ônibus. Hoje, depois da desregulamentação e liberalização do setor, “a vantagem que Maria leva” é poder o povão andar de avião, coisa que antes só rico fazia. A GOL é um exemplo dessa nova realidade.


É realmente uma maravilha essa nossa sociedade. O sujeito passa anos, décadas ajudando o patrão a enriquecer e, um dia, é jogado fora como um trapo velho. E ainda deve enxergar isso não como uma violência, mas como um estímulo a se tornar ele também um capitalista. Que beleza.

É tudo uma questão de educação. As pessoas tem que ser educadas, e tem que ser educadas no sentido de que tem que cuidar de seu próprio futuro, investindo uma parte de sua renda para poder usufruir disso no futuro, e não ter que depender de favores de empresários e governos. Veja que isso é bom para todo mundo, pois quanto mais as pessoas poupam, mais recursos estão disponíveis para investimentos e assim todos ganham. As pessoas tem que ser mais responsáveis por si mesmas, e deixar de achar que o Estado, os políticos ou quem quer que seja sejam reponsáveis por elas.


“Responda objetivamente se o Estado deve ter o direito de não renovar uma concessão que ele dá, ou se a concessão deve ser vitalícia.”

A regra para a concessão e para o cancelamento da concessão deve estar previamente pactuadas. E a mudança de regras não deve valer durante o prazo de vigência da concessão, para isso que existem os contratos de concessão. Uma empresa, quando obtém uma concessão de um serviço público, tem que fazer seu planejamento de longo prazo. Se ela tiver que contar com o risco de um maluco cancelar a concessão, esse risco será precificiado, e o custo repassado para os usuários do serviço, prejudicando a todos. Portanto, quanto mais estáveis as regras e mais previsíveis, melhor para todo mundo, não acha? Além do mais, estabelecer as regras antes do jogo, e não mudá-las durante o jogo parece ser uma coisa adulta. Mudar as regras no meio da partida é coisa de criança, infantilidade, não é coisa de gente séria.


Esse é o problema, meu caro. Gente como você pode cair fora, mas cair fora não é uma solução para o brasileiro comum. Não dá para 200 milhões caírem fora e fecharem o Brasil. Este é o nosso país e precisamos consertá-lo. Quanto aos adjetivos que você emprega, eles dão um colorido todo especial ao que você diz, mas não ajudam a esclarecer a questão: por que o socialismo, ainda que como idéia abstrata, volta a exercer atração, depois de ser dado como morto?

Não é esse o problema. O problema se chama EDUCAÇÃO! E EDUCAÇÃO significa que as pessoas tem que aprender a ler e entender textos, e saber a fazer conta. Educação não é proselitismo político, essas bobagens. EDUCAÇÂO é, repito, fazer as pessoas saberem fazer contas e ter a capacidade de ler e entender textos, e a escrevê-los também. O resto é consequência...as pessoas mesmo irão sozinhas por conta própria.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007 12:16:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Hei! Alon, continua polêmico como sempre...Mas vamos lá: Não é o estado de ânimo ou de humor que leva um pacote econômico a dar certo. "Pra frente Brasil" não se reedita sem medidas medidas de força, como as que tivemos num passado recente. Concordo que todos os brasileiros deveriam ter a possibilidade de comprar um Ipod ou outros badulaques eletrônicos com a mesma facilidade que os americanos, canadenses etc... e não sou nada neoliberal. Mas não seria melhor que todos comprassem esses produtos fabricados aqui mesmo? Ao invés dos produtos não seria melhor importar, se for o caso, os meios de produção( a tecnologia) e garantir um acervo tecnológico que poderia ser ampliado para a fabricação de outros produtos? Uma outra perguntinha: De quem os americanos, os mexicanos e canadenses compram essas preciosidades eletrônicas?
Abraços
Cláudio Capitão

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007 12:30:00 BRST  
Anonymous Márcio disse...

Parabéns Alon. Genial esta tua "aula magna" como disse alguem logo no início dos comentários.
Esta passagem: "Isso é como chegar no vestiário de um time de futebol e dizer que ele não deve entrar em campo porque foi mal na partida anterior. Simplesmente não cola" seria patética, se não fosse estúpida. Ou você é um perfeito alienado ou um irresponsável. E os milhões de mortos, fruto de planos previamente estabelecidos pelos governos socialistas?? Dirá que "Simplesmente não cola".
Parabéns, você usou o melhor da linguagem subliminar para propagandear o socialismo. Muda de um assunto para outro com uma rapidez descomunal, deixando tal passagem como um parenteses.
Não concordo contigo, mas respeito tua capacidade de inculcar idéias e valores.
Até mais.

domingo, 25 de fevereiro de 2007 07:59:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Márcio, obrigado pelos elogios, ainda que tenham vindo acompanhado de quatro adjetivos incômodos (patética, estúpida, perfeito alienado, irresponsável). A frase que mereceu de você esses adjetivos ("Isso é como chegar no vestiário de um time de futebol e dizer que ele não deve entrar em campo porque foi mal na partida anterior. Simplesmente não cola") foi usada por mim para explicar por que a idéia do socialismo resiste -ainda que de modo difuso e confuso. Mas a frase serviria também para o catolicismo (as Cruzadas, a conquista da América espanhola), para o islamismo, para o capitalismo. O que procurei mostrar é que o homem busca saídas com base em suas utopias e na experiência. A experiência dos erros do passado calibra as utopias, mas não as elimina. Acho que você concorda comigo, não é?

domingo, 25 de fevereiro de 2007 09:10:00 BRT  

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