quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Estou pronto a apoiar (03/01)

Em primeiro lugar, uma declaração formal. Este blog, dentro de suas limitações, está pronto a apoiar toda e qualquer mudança de política econômica que faça o Brasil crescer mais. Só tem uma condição: quero a garantia prévia de que a inflação não vai subir. Lamento, mas o Brasil é um país estruturalmente viciado em inflação. Como aqueles dependentes químicos que largaram do vício mas precisam estar sempre vigilantes. Metas declinantes de inflação e a busca de taxas civilizadas têm mantido o viciado sob controle. Mas eu desconfio dessa cura. Acho que se a inflação fizer a curva para cima as pressões sindicais e empresariais para reindexar salários e preços ficarão insuportáveis. Assim como a pressão dos governos, loucos para encontrar um artifício que aumente receita e reduza despesa. E aí, se isso acontecer, todo o esforço de uma década terá sido perdido. Vocês sabem, eu sou daqueles paranóicos, como diria o ministro Tarso Genro na sua cruzada para pôr fim à Era Palocci. Deve ser por eu ter virado gente no Brasil da ditadura e da inflação. Não quero nem saber da volta de nenhuma das duas. Mas este post não é sobre ditadura. É sobre economia. Parece haver no país um consenso de que para crecer mais é preciso investir mais. Em números, investir uns 25% do PIB para crescer uns 5% ao ano. Mas o investimento hoje está uns cinco pontos abaixo, em torno de 20%. Faltam portanto R$ 100 bilhões por ano em investimentos para atingirmos os tais 5% de crescimento. Então, só o que eu quero saber, e faz tempo, é de onde vai sair esse dinheiro. Tem gente que acredita que ele vai vir do setor privado, e que, para tal, basta avançar nas reformas microeconômicas e criar um ambiente mais favorável aos investimentos. Eu tenho cá minhas dúvidas de que isso seja suficiente. Esqueçam a ideologia, vamos nos ater aos fatos. Ou o setor público recupera sua capacidade de investir, especialmente em infra-estrutura, ou eu acho que vamos ficar novamente a ver navios. Só que, como eu estabeleci antes, não vale usar a inflação para inventar esses recursos [se bem que a turma da "sociedade organizada", aquela que estava acostumada aos salários e preços indexados, adoraria]. Mas, sem inflação, sem mais impostos e sem cortes radicais nos gastos (sociais), como é que esse dinheiro vai aparecer? Eis a questão. Arquivem a retórica, senhores, e respondam objetivamente a essa pergunta. Eu tenho uma proposta. Ninguém investe e cresce de verdade sem se endividar. Fernando Henrique Cardoso usou a dívida pública para matar a inflação. Luiz Inácio Lula da Silva usou a responsabilidade fiscal para conter a dívida e assim poder baixar a taxa de juros (que ainda é alta). Hoje, nossa dívida externa foi reduzida a zero. Tem gente que acha isso ótimo. Eu prefiro ver de outro jeito, prefiro enxergar que, pouco a pouco, o Estado brasileiro vai recuperando a capacidade de se endividar. Antes que gritem, vou logo explicando. Uma coisa é fazer dívida nova para cobrir gastos correntes. Ninguém normal pode ser a favor disso. Outra coisa, bem diferente, é endividar-se para investir. Qualquer empresário sabe a diferença entre essas duas coisas.

-Mas como, Alon,você quer fazer mais dívida, se já devemos tanto?

Conversa fiada de quem deseja manter o Estado brasileiro garroteado. O setor público no Brasil deve 52% do PIB e o país cresce menos que 3%. Na India, o Estado deve quase 100% do PIB e eles crescem quase 10%. Querem ler mais sobre o assunto? Indico dois posts: O Brasil (governo) deveria se endividar mais? e Uma dúvida sobre a renúncia fiscal.

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8 Comentários:

Blogger Fernando disse...

Alon,

Realmente comparado a outros paises em desenvolvimento (claramente China e India, Russia não vale por causa do Petroleo) a divida Brasileira em relação ao PIB é baixa.

Mas o problema é que temos uma divida de curto prazo, o que coloca o Tesouro encurralado às taxas oferecidas pelo tal "Mercado". Uns dizem que é por isso que nossa SELIC é alta (ver livro do povo da Casas das Garças • MERCADO DE CAPITAIS E DIVIDA PUBLICA: Tributação, indexação e alongamento" - Edmar Lisboa Bacha e Luiz Chrysostomo de Oliveiro Filho)

Outro dizem que há espaço para redução, marginalmente, como dizem os economistas. É bem provavel que houve um erro na dosagem, pois a inflaçao deve cair lentamente (0,5 ao ano tá bom pra mim) se mantiver um crescimento tb gradativo (ver a curva de crescimento da India nos anos 90). Não foi o que aconteceu, o crescimento estagnou e a inflação caiu (demais ?? nenhum economista decente diria uma heresia dessas).

Enfim, de qualquer forma, a redução , na margem da SELIC, não vai mudar muita coisa.

Então pra mim, vai ser uma confluencia de fatores, uma triade de açoes, cito:

- Melhoria do ambiente institucional de investimento privado (agencias, legislacão fiscalização). Isso nao tem nada a ver com o "matra" das "reformas necessarias" (arghh !!)

- Redução (na margem do possivel) da SELIC, a fim de oxigenar, nem que seja minimamente o Governo para investir em Infra.

- Alongamento da Divida Publica (como ?? alguma heterodoxa vai ser necesaria, pois se for "via mercado" vamos gastar uns 30 anos). Que ai, sim, permitiria elevar o endividamento publico a niveis como o de paises similares, e aumentaria a capacidade de investimento do Governo.

É isso.

PS.: Esqueça os 5% do Lula e as bobagens que os pseudo-analistas economicos estao dizendo. Ele está, intuitivamente, mirando nos 5 pra acertar 4 (que é possivel sem se fazer nada disso). Assim fica melhor que o passado, e politicamente é o bastante. É como um tiro de longa distancia, tem que mirar um pouco mais alto, pra ver se acerta.

Asta,

Magrello

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007 12:07:00 BRST  
Anonymous Jura disse...

Sem falar que o dinheiro lá fora está muito mais barato do que aqui.
Mas me assusta a nossa baixa capacidade de planejamento e fiscalização do investimento público, sem falar na corrupção. Qualquer deslize pode ser fatal. E ai ficamos com a dívida e sem o investimento...

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007 13:02:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Concordo que o Brasil está recuperando sua capacidade de endividamento e a dívida não é tão grande em relação ao PIB.
O problema, é que, se a dívida aumenta, o Mercado (com letra maiúscula) puxa a taxa de juros pra cima, drenando o dinheiro que iria para investimento.
Equalizar esse problema é o desafio.
Outra coisa que me encafifa. Se são algumas dezenas de milhares de famílias rentistas que financiam a dívida através dos fundos de renda fixa, não são elas que pressionam tanto os juros, e o sim oligopólio dos bancos, que ganham spread.
Como não sou autoridade monetária capaz de provocar uma crise sistêmica com uma declaração destas, eu acredito que uma estatização do sistema financeiro, via intervençaõ do BC em todos os os fundos de renda fixa por um período determinado (depois voltaria à seus controladores) resolveria o problema (poderia até criar outros, estou aberto a sugestões).
Observem que quando Collor retirou de circulação 80% do dinheiro, na verdade ele estatizou os ativos monetários pelo período de retenção.
Não sugiro reter nada para retirar de circulação, como fez Collor, apenas transferir da gestão privada para o BC, os valores relativos aos fundos de renda fixas e investidos em títulos do tesouro.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007 14:19:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Outra coisa que me encafifa, e se você, Alon, ou algum comentarista puder esclarecer minha ignorância, eu agradeço: Qual é valor real da taxa de Juros?
A taxa Selic anual está em 13,19%. Mas quem aplica em renda fixa ou em títulos do tesouro, quando resgata a aplicação, paga 20% de IRRF ao Tesouro Nacional. Então na verdade o governo está pagando de juros 10,55%. Ele paga 13,19% com uma mão e retira 2,64% com a outra (eu nem considerei a CPMF porque nem todas as operações são tributadas, como no caso das contas de investimento).
Como a taxa de inflação em 2006 foi 2,06 (IPC-S da FGV), estamos com juros reais de 8,55%.
Será que estou errado?

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007 14:27:00 BRST  
Blogger Fernando disse...

Jose Augusto e demais,

Algumas correçoes.

1 - Não sao "algumas familias" rentistas. Eu aplico em renda fixa, não sou rico, muito pelo contrario. Não pedi para o Governo manter a taxa alta, só é uma questão de custo de oportunidade. Qdo ele baixar a taxa basica, vou pra Poupança (que é isenta) ou pra Bovespa (que é mais lucrativa, mas com um pouco de risco). Ou pro Multimercado. E ai vai.

Jogar a culpa nos investidores, é uma simplificaçao, que é repetida pela imprensa patetica desse pais.
Como dizem, o buraco é mais embaixo.


2 - É diferente NOMINAL X REAL, LIQUIDO X BRUTO.

Taxa de Juros real é a Taxa Nominal descontada a Inflaçao

Taxa Liquida é Taxa Bruta descontada dos impostos e tributos.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007 11:58:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Fernando,
Obrigado por suas explicações, me esclareceu.
Sei que milhões de pessoas, inclusive de classe média baixa, aplicam sobras de salários, poupam para dar entrada na casa própria, etc, aplicando nos Fundos de Renda Fixa. Eu mesmo compro LTN's pelo Tesouro Direto para ficar com o Spread que seriam dos bancos (rende mais que fundos de renda fixa). Mas os valores que aplico são baixos, assim como dos milhões de pessoas como eu e como você.
As dezenas de milhares de famílias rentistas que me referi são aquelas que concentram a grande massa da renda e patrimônio no Brasil. Não tenho números estatísticos, estou indo na onda do que já li.
Não coloco culpa nos investidores, mesmo no conjunto dessas famílias que concentram renda, acredito ser uma minoria que tem poder de pressionar taxas de juros (acho que as famílias controladoras dos bancos, CCVMs e DTVMs). Os outros investem simplesmente porque tem a melhor taxa com baixo risco. Se investimentos em infra-estrutura pagassem melhor e fossem de baixo risco, investiriam neles.
Por isso sugeri que o BC intervisse nos Fundos de Renda Fixa, e tirasse-os do controle da gestão dos Bancos Privados por um período de tempo, necessário a desogopolizar (desculpe o palavrão) o financiamento da dívida.
Quanto à Taxa Nominal e Líquida, quando citam os bilhões pagos de Juros por ano na imprensa, estão sendo imprecisos com o verdadeiro custo real da dívida para o Tesouro Nacional, pois referem-se apenas aos valores correspondente à Taxa Nominal.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007 14:09:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Também cresci numa época de super-inflação e de ditadura e também detestaria ver as duas coisas à tona outra vez. Quanto às ditaduras, porém, seja ela de qual matiz for ou quais princípios jure defender. Quanto à inflação, algumas medidas de indexação, notadamente a fórmula de aumento do mínimo, preocupa. Reindexação pode gerar uma corrida preços x salários e se for sancionada pelo consumidor, adeus estabilidade. Voltando à ditadura, o calor do tempos faz com que alguém creia ser possível estatizar os recursos privados depositados em fundos. Em outros tempos, alguém chamaria isto de calote. Outros poderão chamar de novo milagre econômico.
Swamoro

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007 08:38:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Swamoro
Não sugeri confiscar os recursos de ninguém. Apenas tirar a gestão (a intermediação) dos fundos de Renda Fixa da mão dos oligopólios bancários para o monopólio do BC. Os recursos continuariam com a mesma liquidez e propriedade de seus correntistas. Quem aplica no Tesouro Direto já está fazendo isso. Isso não tem nada a ver com calote.
Para dar um exemplo, o BC Central (do mundo todo) já obriga aos Bancos a recolhem um percentual (compulsório) dos depósitos a vista. É uma intervenção necessária para garantia de solidez e liquidez do sistema. Sem isso, qualquer dificuldade de um banco com empréstimos que tornam-se inadimplentes, poderia produzir uma corrida ao Banco, e efeito cascata em outros bancos. Esse dinheiro fica parado (retido), não pode ser usado pelo banco para fazer empréstimos. No entanto tem liquidez total, se o cliente quiser sacar. Uma das formas de fazer política monetária para retirar ou aumentar oferta de crédito é justamente aumentar ou diminuir este percentual.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007 14:37:00 BRST  

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