terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Das convicções e das conveniências (02/01)

Dois posts para recordar: 31 de março, há 42 anos e O antipopulismo é o disfarce do político antipopular. Recorro a eles para abordar um trecho de Luiz Inácio Lula da Silva em suas falas de (re)posse. Disse o presidente reeleito que seu governo não é populista, mas popular. Talvez Lula devesse ter chamado algum sociólogo amigo para discursar depois. Para explicar às pessoas em geral o que o presidente quis dizer com isso. Desculpem a imodéstia, mas eu não preciso que me expliquem. Eu conheço essa conversa, e de outros carnavais. A história oficial do petismo conta que antes da fundação do partido, há um quarto de século, os trabalhadores não tinham uma legenda que os representasse e organizasse de forma autônoma em relação aos interesses das elites. O que havia antes do PT, segundo o PT, era a ligação direta entre as massas trabalhadoras e caudilhos eventuais. Que distribuíam algumas migalhas para manter o domínio das classes ricas sobre o populacho. Na história oficial do PT, o trabalhismo getulista, por exemplo, foi uma modalidade desse "domínio burguês atenuado" sobre os trabalhadores. Mas se você está disposto a comprar essa versão do PT para a História do Brasil, sugiro que antes peça um bom desconto. Afinal, na hora do aperto nem os petistas acreditam muito na sua própria história oficial. Durante os dois anos da crise que ameaçou incinerá-lo politicamente, Lula fez questão de se apoiar nas figuras de Juscelino Kubitschek, João Goulart e, principalmente, Getúlio Vargas. Para enfrentar a pressão política da elite, Lula teve que buscar refúgio no legado dos "populistas" que agora critica. Alguém deveria perguntar ao presidente se suas referências a esses personagens durante a crise foram fruto da convicção ou apenas da conveniência. Esse debate é um bom debate, e acredito que deve ser feito de maneira objetiva. Eu proponho um critério. Vamos comparar o que Luiz Inácio Lula da Silva e Getúlio Vargas fizeram pelos direitos dos trabalhadores. Vamos comparar as contribuições do PT e do PTB à legislação social e trabalhista no Brasil. Quem você acha que vai sair ganhando? Eu tenho cá o meu palpite. Aliás, a história oficial do petismo gosta de chamar de pelegos os dirigentes sindicais que davam sustentação a Getúlio Vargas e ao PTB (na foto, um desfile de Primeiro de Maio na Era Vargas). Seria só cômico, se hoje o sindicalismo petista não estivesse flertando com a eliminação de direitos trabalhistas que os trabalhadores devem, por uma bela coincidência, ao "peleguismo" getulista.

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8 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

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terça-feira, 2 de janeiro de 2007 18:31:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

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terça-feira, 2 de janeiro de 2007 20:45:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Muito lúcido Alon, mas os tempos são outros, eu, anti-petista de carteirinha, tenho que reconhecer que não é só o sindicalismo brasileiro que perde, mas a globalização - fenômeno irreversível que tem que ser aproveitado- impede que Lula tome medidas "petistas". Ou vai na onda ou contra a onda, e aí é "vaca".

terça-feira, 2 de janeiro de 2007 21:26:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O que Lula conhece de História do Brasil? Nada. Nesse sentido, sua crítica é injusta ou deslocada do contexto.

Em seus inúmeros discursos, Lula, quando improvisa, fala sempre o que a platéia quer ouvir. Esse é o pragmatismo (chamam isso de
“intuição" do Chefe. Pois sim) no qual ele se agarra e pratica desde os primórdios lá no ABC.

Mas no "discurso enfadonho" Lula não escreveu nem mesmo o ponto final. Quem escreveu? Foi o Dulci? Foi Dulci que escreveu "populistas são os outros. Nós somos populares"?

Enfim, não dá pra confundir a construção social-histórica do personagem Lula pela esquerda egressa da AP (essa sim tem um discurso muito bem elaborado de crítica ao populismo e que reverberou no discurso da posse) com o jovem Lula sindicalista em busca de uma oportunidade de ascensão social. Este último Lula, vestiu a máscara esquerdista pois esta era a única (olha ai o seu pragmatismo) que lhe restava disponível nos anos 70/80.

PCB e PCdoB saudaram com cobras e lagartos o "novo sindicalismo". E você deve lembrar quando o Jornal Movimento literalmente rachou entre a turma do PP e a turma do PT.

Já o sindicalismo "pelego" estava fechado para jovens lideranças. Se não me engano, muitos foram cooptados pelo PTB da Ivete Vargas (obra do Golbery, não foi?).

Portanto, não por acaso (lembro do clima da Anistia. Lembro que o pessoal da AP + setores católicos logo cedo embarcaram na canoa lulista.) o pragmatismo de Lula o conduziu até a "causa" do esquerdismo dessas correntes. Lula acertou. Foi nela e com ela que o nosso presidente fez fama e fortuna.

Lula é apenas uma frase de uma letra do Raul Seixas:

EU SOU O INÍCIO, O FIM E O MEIO.

Por último, registro o que você escreveu:

“O que havia antes do PT, segundo o PT, era a ligação direta entre as massas trabalhadoras e caudilhos eventuais. Que distribuíam algumas migalhas para manter o domínio das classes ricas sobre o populacho. Na história oficial do PT, o trabalhismo getulista, por exemplo, foi uma modalidade desse ‘domínio burguês atenuado’ sobre os trabalhadores”.

Segue o link para os “São Tomé” do petismo:

http://www.pt.org.br/site/assets/cartadeprincipios.pdf

Carta de Princípios
Anterior ao Manifesto de Fundação do Partido dos Trabalhadores, a Carta de Princípios foi lançada publicamente no dia 1º de maio de 1979

A passagem do Manifesto a qual Alon fez referência:

“Repudiando toda forma de manipulação política das massas exploradas, incluindo,
sobretudo as manipulações próprias do regime pré-64, o PT recusa-se a aceitar em seu interior, representantes das classes exploradoras. Vale dizer, o Partido dos Trabalhadores é
um partido sem patrões!

As tentativas de reviver o velho PTB de Vargas, ainda que, hoje, sejam anunciadas ‘sem
erros do passado’ ou ‘de baixo para cima’, não passam de propostas de arregimentação dos
trabalhadores para defesa de interesses de setores do empresariado nacional. Se o empresariado nacional quer construir seu próprio partido político, apelando para sua própria clientela, nada temos a opor, porém denunciamos suas tentativas de iludir os trabalhadores brasileiros com seus rótulos e apelos demagógicos e de querer transformá-los em massa de
manobra para seus objetivos.

O PT não pretende criar um organismo político qualquer. O Partido dos Trabalhadores
define-se, programaticamente, como um partido que tem como objetivo acabar com a relação de exploração do homem pelo homem."

Finalmente, Alon, você também está sendo injusto com as lutas por direitos políticos e socias promovidas pelo movimento operário brasileiro e classes médias nas duas primeiras décadas do século 20. Falo dos anarco-sindicalistas e suas memoráveis greves por direitos sociais.

abs

PS: O posto ficou longo porque o assunto não é pequeno

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007 00:24:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O que Lula conhece de História do Brasil? Nada. Nesse sentido, sua crítica é injusta ou deslocada do contexto.

Em seus inúmeros discursos, Lula, quando improvisa, fala sempre o que a platéia quer ouvir. Esse é o pragmatismo (chamam isso de
“intuição" do Chefe. Pois sim) no qual ele se agarra e pratica desde os primórdios lá no ABC.

Mas no "discurso enfadonho" Lula não escreveu nem mesmo o ponto final. Quem escreveu? Foi o Dulci? Foi Dulci que escreveu "populistas são os outros. Nós somos populares"?

Enfim, não dá pra confundir a construção social-histórica do personagem Lula pela esquerda egressa da AP (essa sim tem um discurso muito bem elaborado de crítica ao populismo e que reverberou no discurso da posse) com o jovem Lula sindicalista em busca de uma oportunidade de ascensão social. Este último Lula, vestiu a máscara esquerdista pois esta era a única (olha ai o seu pragmatismo) que lhe restava disponível nos anos 70/80.

PCB e PCdoB saudaram com cobras e lagartos o "novo sindicalismo". E você deve lembrar quando o Jornal Movimento literalmente rachou entre a turma do PP e a turma do PT.

Já o sindicalismo "pelego" estava fechado para jovens lideranças. Se não me engano, muitos foram cooptados pelo PTB da Ivete Vargas (obra do Golbery, não foi?).

Portanto, não por acaso (lembro do clima da Anistia. Lembro que o pessoal da AP + setores católicos logo cedo embarcaram na canoa lulista.) o pragmatismo de Lula o conduziu até a "causa" do esquerdismo dessas correntes. Lula acertou. Foi nela e com ela que o nosso presidente fez fama e fortuna.

Lula é apenas uma frase de uma letra do Raul Seixas:

EU SOU O INÍCIO, O FIM E O MEIO.

Por último, registro o que você escreveu:

“O que havia antes do PT, segundo o PT, era a ligação direta entre as massas trabalhadoras e caudilhos eventuais. Que distribuíam algumas migalhas para manter o domínio das classes ricas sobre o populacho. Na história oficial do PT, o trabalhismo getulista, por exemplo, foi uma modalidade desse ‘domínio burguês atenuado’ sobre os trabalhadores”.

Segue o link para os “São Tomé” do petismo:

http://www.pt.org.br/site/assets/cartadeprincipios.pdf

Carta de Princípios
Anterior ao Manifesto de Fundação do Partido dos Trabalhadores, a Carta de Princípios foi lançada publicamente no dia 1º de maio de 1979

A passagem do Manifesto a qual Alon fez referência:

“Repudiando toda forma de manipulação política das massas exploradas, incluindo,
sobretudo as manipulações próprias do regime pré-64, o PT recusa-se a aceitar em seu interior, representantes das classes exploradoras. Vale dizer, o Partido dos Trabalhadores é
um partido sem patrões!

As tentativas de reviver o velho PTB de Vargas, ainda que, hoje, sejam anunciadas ‘sem
erros do passado’ ou ‘de baixo para cima’, não passam de propostas de arregimentação dos
trabalhadores para defesa de interesses de setores do empresariado nacional. Se o empresariado nacional quer construir seu próprio partido político, apelando para sua própria clientela, nada temos a opor, porém denunciamos suas tentativas de iludir os trabalhadores brasileiros com seus rótulos e apelos demagógicos e de querer transformá-los em massa de
manobra para seus objetivos.

O PT não pretende criar um organismo político qualquer. O Partido dos Trabalhadores
define-se, programaticamente, como um partido que tem como objetivo acabar com a relação de exploração do homem pelo homem."

Finalmente, Alon, você também está sendo injusto com as lutas por direitos políticos e socias promovidas pelo movimento operário brasileiro e classes médias nas duas primeiras décadas do século 20. Falo dos anarco-sindicalistas e suas memoráveis greves por direitos sociais.

abs

PS: O posto ficou longo porque o assunto não é pequeno

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007 00:24:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O interessante é que nunca um partido e um presidente foram objeto de tantas especulações, tantas análises... porque seria? E sabe quando vão entender? Só quando viverem o que trabalhadores "protegidos" pela CLT e os que não conseguem essa "proteção" viveram antes dela e sob sua vigência. Tanto tempo se passou e 90% da população brasileira não tem condições dignas de vida. Será que analisar os partidos que estiveram no poder durante esse tempo todo não daria respostas mais eficientes para que exista Lula? Como puderam gerar uma sociedade que em grande parte tem premissas altamente conservadoras/ preconceituosas mantendo os objetos de seus preconceitos na sua periferia? Qual a linguagem que uma sociedade assim aceita para romper esse círculo? Vc, Alon, que é uma pessoa lúcida, tranquila e certamente alvo do preconceito dessa sociedade dissimulada em que vivemos, pode catalizar esse tipo de análise. O resto é melhor deixar por conta de blogueiros mais rasos.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007 00:55:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007 11:58:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Tema fascinante, esse do trabalhismo! Décadas de "sociologismo" sectário não dão minimamente conta nem de entender o nacional-desenvolvimentismo, nem de compreender o Brasil profundo e suas relações com a herança Vargas.
No meu singelo entender, esta é uma das principais autocríticas ainda por exercer-se à esquerda.

Artur Araújo

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007 22:37:00 BRST  

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