Este é um post escrito em escala de viagem. Por isso atrasado. Hoje tem pesquisa Datafolha. Dêem os seus palpites. Ontem Luiz Inácio Lula da Silva esteve no Roda Viva, da TV Cultura. Meu palpite é que o presidente foi bem. Como vem acontecendo desde a primeira entrevista da campanha, para William Bonner e Fátima Bernardes no Jornal Nacional. Foi, claro, metralhado sobre o dossiê antitucano [
a campanha de Geraldo Alckmin insiste em dizer na TV que o dossiê era contra ele, Alckmin, o que me parece uma modalidade canhestra de vitimização; tomem aulas de vitimização com o PT e Lula, que são bons nisso]. Mais importante do que as respostas foi como Lula respondeu. Aparentou sinceridade, tranqüilidade e indignação com as irregularidades [
digo “aparentou” porque há poucas coisas mais inúteis do que discutir se um político está sendo mesmo sincero; se você tem tempo para desperdiçar com polêmicas assim, faça bom proveito]. Tudo bem que a indignação foi, principalmente, com os prejuízos que o episódio do dossiê causou à campanha dele, Lula. A eleição do dia 29 não é para escolher um santo. Não é canonização. É para eleger o presidente do Brasil. Debates e entrevistas de candidatos são a versão atual do circo romano. Nos debates os gladiadores lutam entre si. Nas entrevistas são atirados aos leões. No Roda Viva foi assim. Todas as perguntas que precisavam ser feitas a Lula foram feitas. E ele soube responder, pelo menos para o meu gosto. No conteúdo e na forma. O telespectador presta atenção no que o candidato diz? Sim. Mas presta atenção também (e principalmente) em como o candidato se comporta nas situações desfavoráveis. Nunca, nunca se esqueçam do circo romano. E vamos em frente. Além do dossiê, outro assunto inevitável seriam as privatizações. Nesse ponto Lula não se saiu tão bem, talvez por ter que duelar a partir de uma posição ideológica. Políticos candidatos a cargos majoritários e que adotam viés ideológico sempre provocam algum desconforto no eleitor médio. Duvido que Lula acredite mesmo que todas as privatizações foram ruins. Se acredita, deveria propor a reestatização das empresas. Essa polêmica sobre as privatizações embute uma boa dose de hipocrisia. Um anônimo, aparentemente muito culto, comentou outro dia aqui, em francês [
matéria de que fiquei de segunda época no ginásio; se não entendi direito, corrija-me], que a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude. Nesse sentido, eu leio a hipocrisia no debate sobre as privatizações como uma homenagem que a ideologia presta à realidade. Homenagem merecida. Mas, como é que o presidente-candidato do Partido dos Trabalhadores poderia -Santo Deus!- adotar publicamente uma posição razoável sobre as privatizações, se até os políticos mais identificados com a bandeira capitularam, ao primeiro tiro? Se até os liberais extremados caíram, ao barulho da primeira bala? Alckmin diz que os doze anos dele e de Mário Covas no Palácio dos Bandeirantes foram muito bons para São Paulo. E que o amplo programa de privatizações foi um dos eixos estruturantes [
êta palavreado petista] desse sucesso. Então, por que não aplicar no Brasil inteiro o que deu certo em São Paulo? Por que não continuar fazendo em escala nacional o que já se mostrou acertado no plano estadual? O PT promove uma dura campanha negativa sobre a suposta ameaça de privatização de empresas como a Petrobrás, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Por que está colando, mesmo que parcialmente? Porque um candidato do PSDB-PFL vir a público dizer que não vai privatizar nada é como um gato que se escondeu e deixou o rabo de fora. Só haveria uma maneira de vacinar o tucano contra a campanha negativa do petismo: deveriam ter apresentado ao país um programa de privatizações, no qual estivesse claro o que seria e o que não seria vendido pela União. Eu acho razoável, por exemplo, estradas potencialmente lucrativas (sim, pedágios) serem repassadas à iniciativa privada. E os impostos recolhidos a partir da receita desses empreendimentos poderiam ser reinvestidos pelo setor público em estradas menos lucrativas. Ou em programas sociais. Ou em outra coisa qualquer. Não é um bom debate? O mesmo raciocínio aplicado às privatizações de Alckmin vale para os cortes de gastos públicos. Enquanto o tucano não disser de onde vai cortar entre 3% e 4% do PIB para zerar o déficit nominal toda especulação sobre corte nos investimentos sociais é legítima. Yoshiaki Nakano cometeu a ingenuidade de pegar esse touro a unha e, pelo visto, fizeram-no dar no pé. Pelo menos até a eleição. Ou escondam o rabo do gato ou mostrem o bichano, senhores! Mas esse tema já foi debatido aqui à exaustão. Nesta altura do campeonato, já é quase história. Tucanos e pefelistas acreditaram que poderiam ganhar as eleições sem dizer ao país como seria o governo deles. Apostaram numa comoção nacional que supostamente varreria o PT e a esquerda do mapa, dando à atual oposição carta branca para governar. Lula talvez tenha feito uma aposta semelhante quando adotou a atitude olímpica do primeiro turno. Como sabemos hoje, estavam ambos errados. O eleitor empurrou a decisão para mais adiante e deu espaço a que emergissem os projetos de país. Nesse novo debate, até agora é o PT que está em vantagem. Por uma razão simples: o ambiente ideológico (antiliberal) construído pelos adversários permite ao PT unir a convicção e a conveniência, dois poderosos elementos constitutivos da força mental, na política e na vida. É o melhor dos mundos para a esquerda. Significa que Alckmin já tenha perdido a eleição? Não. Sempre pode surgir algum “bin laden” petista portando uma grande idéia. Mas que o terreno da batalha político-ideológica na reta final está favorável a Lula, isso está.
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