quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Resistência de Obrador aumenta apoio a Calderón (31/08)

O liberal Felipe Calderón ganhou as eleições no México mas seu principal adversário, Andrés Manuel López Obrador (esquerda), não aceita o resultado, alegando fraudes. Obrador tem mobilizado seus correligionários contra o veredicto das urnas e ameaça com a desobediência civil. Pelo menos no curto prazo, o resultado é o aumento da popularidade de Calderón. Pesquisa do instituto GEA-ISA aponta que hoje 48% dos eleitores escolheriam Calderón, contra 35% que votariam em Obrador. Roberto Madrazo, do tradicional PRI (Partido Revolucionário Institucional), teria 13%. O que aconteceu? Votos dados a Madrazo na eleição hoje migrariam para Calderón. Em 2 de julho, nas urnas, Calderón teve with 35,9% e López Obrador teve 35,3%. Clique aqui para ler mais.

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Um browser para concorrer com o Firefox (31/08)

A Microsoft acaba de colocar na praça o beta do Internet Explorer 7. Coloquei um link no alto da página, à direita. Acabou a era das carroças. Nada como a concorrência. O IE7 é ótimo. Na imagem acima (clique para ampliar), reproduzo uma função bem legal. Numa única página, você enxerga miniaturas de todas as páginas abertas e pode navegar entre elas com um clique.

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Um assunto que não será discutido na eleição (31/08)

Um assunto que não será discutido na eleição -e que está na raiz do debate sobre a capacidade financeira de investimento do Estado brasileiro e, portanto, do crescimento da economia- é a qualidade dos gastos sociais no Brasil. Clique aqui para ler um estudo do Ministério do Planejamento sob o título Comparação Internacional de Gastos Governamentais em Saúde, Educação e Previdência. O trabalho se dispõe a discutir afirmações como:

i) O Brasil gasta três vezes mais que a China per capita na área de saúde, mas tem indicadores semelhantes de mortalidade infantil e expectativa de vida;
ii) o Brasil gasta mais do que a Coréia do Sul em ensino universitário, no entanto a proporção de jovens brasileiros matriculados na universidade é de 18%, enquanto que a de sul-coreanos é de 82%;
iii) os gastos previdenciários equivalem a 11% do PIB no Brasil e a 6% do PIB nos Estados Unidos, sendo que a proporção da população norte-americana acima dos 60 anos (16% da população total) é o dobro da brasileira (8% da população total).

Por que o tema não será discutido na eleição? Porque Luiz Inácio Lula da Silva não quer bulir com sua base social e política, enquanto a base social e política de Geraldo Alckmin aceita que ele diga qualquer coisa (até que vai estatizar os bancos e tabelar os juros) se isso contribuir para derrotar Lula e o PT.

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Abu Mazen luta para formar um governo de união nacional com base no documento dos prisioneiros palestinos (31/08)

O presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas (Abu Mazen), batalha para formar um governo de coligação entre a Fatah e o Hamas, e para credenciar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) como único interlocutor em eventuais negociações de paz com Israel e a comunidade internacional. Clique aqui para ler a reportagem do Jerusalem Post. O acordo entre as facções palestinas seria baseado no chamado Documento dos prisioneiros, elaborado por líderes encarcerados em Israel. O texto foi subscrito por Marwan Barghouti (Fatah), Abdel Khalek al-Natsheh (Hamas), Abdel Rahim Malouh (Frente Popular para a Libertação da Palestina), Mustafa Badarneh (Frente Democrática para a Libertação da Palestina) e o xeque Bassam al-Sa'di (Jihad Islâmica). Em resumo, propõe uma solução política baseada em dois estados, Israel e Palestina. Naturalmente, tem a oposição do Hezbollah, do Irã e de alguns líderes palestinos abrigados sob as asas da Síria. Na mesma reportagem do Jerusalem Post (que cita o jornal Al-Ayam, da AP), Abbas critica duramente o seqüestro de soldados israelenses e o lançamento de mísseis em territórios do Estado Judeu contidos nas fronteiras pré-1967. Outra notícia: o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, não vai aparecer em público no dia do seu aniversário (hoje), por razões de segurança. Confesso que estou tendo algumas dificuldades para encaixar esses fatos na análise corrente de que Nasrallah, o Hezbollah, a Síria e o Irã teriam sido os grandes vencedores da recente guerra entre Israel e a milícia xiita. Mas, certamente, não faltará quem encontre uma explicação. Principalmente entre o pessoal que se entusiasmou e elegeu Nasrallah como o "novo líder" do mundo árabe. Sobre a Síria, aliás, andaram escrevendo que a resistência militar do Hezbollah contra Israel teria "demonstrado" a impossibilidade de minimizar o papel de Damasco na construção de um novo statu quo libanês e regional. Bem, a realidade indica o contrário. O Líbano pode receber nas próximas semanas milhares de tropas européias em seu território. Responda rápido: você acha que esse contingente é para proteger o Líbano de quem? Vai acertar quem disser que é do Hezbollah e da Síria. O próprio presidente sírio, Bashar Assad, já admitiu isso, ao dizer que uma eventual presença das forças internacionais na fronteira sírio-libanesa representaria um ato hostil contra o seu país.

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O baile de Lula, a piada judaica e a corrupção (31/08)

Luiz Inácio Lula da Silva tirou de letra mais uma entrevista na Globo (clique na imagem para ampliar). Desta vez, foi no Jornal da Globo (JG). Geraldo Alckmin tinha ido na segunda-feira e Cristovam Buarque, na terça. Hoje é Heloísa Helena. Quando Lula foi ao Jornal Nacional e passou liso, as pesquisas mostraram isso depois. Agora, acho que não vai ter influência.

A entrevista foi ao ar de madrugada e pouca gente deve ter visto. Aliás, a Globo poderia explicar por que não suspendeu nesta semana a reprise de A Casa das Sete Mulheres e puxou o Jornal de William Waack e Christiane Pelajo para um pouco mais cedo. Talvez seja a tal da grade. Pode ser, mas qual é o sentido de enfiar uma minissérie requentada tarde da noite e jogar os presidenciáveis para a madrugada?

Bem, mas se você não viu pode ler clicando aqui, e se for assinante do Globo.com pode assistir clicando aqui. O William e a Christiane foram bem, mas Lula foi melhor. Vou cortar agora para uma velha piada judaica. No judaísmo, o sujeito que faz a circuncisão nos recém-nascidos chama-se moel (pronuncia-se mo-êl). Jacó, o moel, abriu uma nova "clínica" de circuncisão. Na fachada, colocou a réplica de uma grande orelha. Iossi, o vizinho, olhou e não entendeu.
- Mas, Jacó, por que uma orelha? - pergunta Iossi.
A resposta de Jacó:
- E você queria que eu colocasse o quê?

Fora a velha mania judaica de responder a uma pergunta com outra pergunta, a piada conta um pouco sobre a situação da oposição. Ela tem que passar o tempo todo falando sobre corrupção, pois na economia e no social Lula ganha o debate. Pouco importa se por nocaute ou por pontos, já que o petista está na frente das pesquisas. Duvido que Alckmin ou outro candidato seja mais competente do que o William Waack nos temas abordados ontem no JG.

Vamos ver como a coisa anda. A campanha vai esquentar. O tom da imprensa hoje é sintomático. Vai ficar divertido. Vamos ver se Lula tem couro e gordura para enfrentar, quase sozinho, todo o estado-maior que se reúne contra ele.

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quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Zuenir, um "reforçador de opinião" (30/08)

Meus amigos de O Globo vão me desculpar, mas tive que partir para a apelação: usei meus (parcos) conhecimentos de informática e produzi um .pdf com o texto que o Zuenir Ventura publicou hoje no jornal. Foi o jeito que achei para poder me referir ao artigo, já que entrar na atual formatação de O Globo na Internet é mais difícil do que ingressar na Academia Brasileira de Letras. Linkar, então, é impossível. Não conheço nada parecido. O técnico que bolou o sistema deveria trabalhar como consultor para o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). No dia em que sair das cadeias de São Paulo for uma coisa tão difícil quanto entrar atualmente no site de O Globo, o crime organizado terá sofrido um importante revés. Mas voltemos ao Zuenir, cujo texto pode ser acessado clicando aqui. Sob o título Os reforçadores de opinião, ele entra no debate sobre a relevância da imprensa. Vale a pena ler. Um trecho:

"Em matéria de preferências políticas, há mais livre arbítrio do que se pensa. Nada mais impróprio do que nos chamarem de 'formadores de opinião' (de minha parte, não formo nem na minha casa), quando não somos nem 'reformadores'. No máximo 'reforçadores'. Nunca soube de alguém dizendo: 'Penso assim, mas estou querendo mudar de idéia.' Com exceção dos indecisos, os que nos procuram é para confirmar uma convicção, não para mudá-la."

Leia também: Cobertura dos jornais não acompanha tendência do eleitorado (Reuters)

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Onde está a notícia? O NYT responde (30/08)

O jornalismo convencional diria que numa entrevista coletiva a notícia deve estar em algo que o entrevistado diz. É o que afirma também o bom senso. Aliás, bom senso é aquela coisa que nos ajuda a resolver 99% dos problemas. Ficam faltando poucos, apenas os mais importantes. Mas voltemos ao tema deste post. Querem uma lição de jornalismo, num texto simples e rotineiro? O The New York Times foi cobrir uma coletiva do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e percebeu que a notícia estava menos no que foi dito e mais na coletiva em si. A leitura é um prazer, pela técnica e pela elegância. Clique aqui para ler o texto de Michael Slackman.

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O medo da contaminação (30/08)

Acabo de ter uma boa conversa com um importante parlamentar do PSDB, que transita bem na turma de Geraldo Alckmin e também na cúpula do partido. Ele me diz que a campanha da aliança PSDB-PFL não tem alternativa que não seja ir para o confronto com Lula. Reconhece que a chance de vencer a eleição é remota, porém acredita que há uma possibilidade de haver segundo turno. Mas, independentemente dos resultados da corrida presidencial, ele me diz que Alckmin precisa evitar uma degringolada que possa interferir negativamente nas campanhas estaduais. Ou seja, precisa ajudar os candidatos a governador, senador e deputado a impedir que Lula "puxe" para cima no primeiro turno os adversários de tucanos e pefelistas nos estados. Nessa mesma linha, diz ele, seria fundamental para o PSDB e o PFL evitar um segundo turno "solteiro" nas eleições de governador. Em miúdos, a oposição teme um Lula eleito no primeiro turno e fazendo campanha no segundo turno para os candidatos aos executivos estaduais.

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terça-feira, 29 de agosto de 2006

A orfandade de uma reforma (29/08)

Resposta ontem de Geraldo Alckmin no Jornal da Globo sobre a necessidade de uma reforma da Previdência (junto vai a pergunta):

"William Waack: Passando para outra reforma igualmente crucial, importante, que é a da Previdência. Aí, há visões divergentes dentro do seu partido, candidato. Eu gostaria realmente que o senhor nos dissesse qual é a sua posição em relação a duas medidas essenciais. A primeira, eu lhe pergunto: o senhor acha que a desvinculação do salário mínimo em relação ao piso de benefícios da Previdência deveria ser alcançada? E segundo, a idade mínima: o senhor acha que ela deveria ser de 65 anos para todos os brasileiros?
Geraldo Alckmin: Olha, primeiro, sou contra desvincular do salário mínimo. A desvinculação do salário mínimo já ocorreu, já não existe vinculação ao salário mínimo. Agora, querer tirar o piso do aposentado, aí daqui a pouco o aposentado vai ganhar meio salário. Eu sou contra. Não vou fazer isso. A outra, você ter um salário mínimo para um Brasil cuja expectativa de vida média é tão diferente, mas tão diferente? Se você estabelece uma expectativa, um limite de idade, vai punir as regiões mais pobres e as pessoas mais pobres, que morrem mais cedo. Você tem regiões do Brasil em que a expectativa média de vida é menor que 65 anos de idade. Se for 65, ninguém vai aposentar. Então, o problema da Previdência, é que metade dos trabalhadores está na informalidade. Esse é o problema brasileiro: impostos muito altos empurram para a informalidade, 51% dos trabalhadores na informalidade."

Agora leia trecho do programa do PT sobre o que precisa ser feito com a Previdência:

"Manter a prioridade ao combate às fraudes e pagamentos indevidos. O censo previdenciário será concluído e institucionalizado, mantendo uma base de dados confiável, estendendo essa ação aos trabalhadores rurais em regime de economia familiar.
• Avançar na melhoria do atendimento aos segurados, intensificando a utilização de canais remotos, visando acabar com as filas e ampliar o acesso aos benefícios e serviços da Previdência Social.
• Finalizar a criação da Super Receita, que unificará todo corpo de fiscalização, simplificando procedimentos, resultando em economia de tempo e precisão nas informações para o contribuinte, tornando mais eficiente o combate à evasão fiscal e reduzindo custos operacionais.
• Continuar a ampliação do acesso dos trabalhadores ao sistema previdenciário, por meio de iniciativas de redução da informalidade, inclusive com a aprovação de projeto de lei em tramitação no Congresso, que reduz as alíquotas de contribuição para contribuintes individuais.
• Regulamentar a previdência complementar de servidores públicos, instituída pela Reforma Previdenciária de 2003."

O projeto de novas reformas na Previdência está órfão. Nenhuma força política ponderável do país abraça a tese. Voltarei ao assunto, pois a Reforma da Previdência, pelo visto, não vai sozinha ao orfanato.

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A íntegra do programa de Lula (29/08)

Coloquei para download a íntegra do programa de governo de Luiz Inácio Lula da Silva, divulgado oficialmente hoje. Está na seção Textos de outros. Se preferir, clique aqui para baixar.

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Deixem o marqueteiro em paz (29/08)

A esta altura do dia você já deve saber que a pesquisa CNT-Sensus divulgada hoje mostrou as coisas mais complicadas ainda para Geraldo Alckmin. Clique aqui para saber dos números. Mas, se o tucano apanha feio de Luiz Inácio Lula da Silva, na guerra entre os marqueteiros o do PSDB está se saindo bem. Do relatório da pesquisa:

"Dos entrevistados pela Pesquisa CNT/Sensus, 44,7% disseram que assistem aos programas eleitorais do TSE - todo ou em parte. Destes, 38,3% consideram o programa de Lula como o melhor; 30,8%, consideram como o melhor o programa de Geraldo Alckmin; 13,2%, o de Heloísa Helena, e 1,7%, o programa de Cristovam Buarque."

Ou seja, Lula bate Alckmin por 51,4% a 19,6%, mas o programa de Lula está apenas 7,5 pontos percentuais à frente do de Alckmin. Uma coisa muito difícil em eleição polarizada é o eleitor de um gostar do programa do outro. Deixem o marqueteiro de Alckmin trabalhar em paz. Se o tucano perder a eleição, não terá sido por culpa da propaganda (veja o post anterior).

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A oposição estudou, mas só as matérias que não caem na prova (29/08)

Nunca vou me esquecer daquele primeiro turno na eleição presidencial de 1989. Já era de noite, e passei pelo colega que redigia o texto no qual o jornal (Folha de S.Paulo) iria cravar a ida de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao segundo turno, em lugar do até então provável Leonel Brizola (PDT). O experiente repórter parecia bem preocupado, olhando alternadamente para o seu terminal e para os lados.

A pesquisa do Datafolha permitia dizer que Lula acabaria a apuração na frente de Brizola. Mas o jornalista estava -com razão- alarmado com a possibilidade de protagonizar uma "barriga". Sabe como é, as pesquisas têm o chamado "intervalo de confiança", para o qual quase ninguém liga. Vai que bem daquela vez o levantamento caísse nos 5% dos casos em que o resultado estoura a margem de erro. O sujeito e o jornal iriam passar o resto da vida se explicando.

A História conta que o jornal cravou (sozinho) e acertou. Saber-se-ia depois que aquele momento fora um episódio fundador na moderna democracia brasileira. O punhado de votos que levou Lula a ultrapassar Brizola e ir ao segundo turno contra Fernando Collor acabaria definindo o cenário das disputas político-eleitorais nas duas décadas seguintes. Às vezes a gente se esquece, mas, mantidas as regras do jogo, 2010 será a primeira eleição presidencial sem Lula.

Aliás, as sucessões presidenciais brasileiras desde a redemocratização só tiveram dois candidatos realmente competitivos: Lula e o anti-Lula. O segundo personagem foi interpretado por mais de um ator, enquanto o primeiro ator interpretou mais de um personagem. Começou como um radical, que recusou o apoio de Ulysses Guimarães no segundo turno de 1989, e chegou a 2002 como um moderado, da Carta aos Brasileiros e das alianças sem limites definidos.

O Lula de 2002 e dos anos seguintes (quando ficou claro que a Carta aos Brasileiros era para valer) exorcizou e liquidou o personagem anti-Lula. Acho que a oposição nunca quis compreender isso, ainda que todos os elementos a partir de 2003 tenham reforçado essa nova realidade. Diferentemente daquelas peças teatrais que ficam décadas em cartaz com o mesmo enredo e vários atores revezando-se nos papéis, agora era o enredo que tinha mudado.

Um dos problemas do PSDB e do PFL é se oferecerem como candidatos a um papel que já foi excluído do enredo da peça. Se no passado o anti-Lula era embalado e nutrido por medo do radicalismo (real ou imaginário, tanto faz) do PT e de seu principal líder, hoje o antilulismo acabou se reduzindo a uma caricatura de si mesmo. O que se apresentava antes como resistência a uma possível ditadura de esquerda, hoje não consegue escapar da armadilha de ser visto apenas como expressão de elitismo.

Caro leitor, não se zangue nem perca o seu precioso tempo discutindo a materialidade dessas idéias, sua conexão com a realidade estrita. Não é dela que trata este texto, mas do plano imaginário -que numa eleição é o que vale. A oposição brasileira está na situação do estudante que se preparou erradamente para o vestibular. Empenhou-se ao máximo, estudou bastante, mas estudou as matérias erradas. Sabe muito, mas sobre assuntos que não vão cair na prova.

A oposição achou que voltaria ao poder surfando na rejeição a um Lula ferido pelos sucessivos escândalos da crise política. Descuidou de construir um programa alternativo para o país e uma aliança política verdadeiramente nacional. No Brasil, quando se usa a palavra "nacional", ela necessariamente precisa incluir duas categorias: os pobres e o nordeste. A oposição apostou num messianismo às avessas, com base nas classes médias do sul e do sudeste. Nem aritmeticamente faz sentido.

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Este texto foi produzido para o Blog do Noblat, onde escrevo semanalmente.

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Situação de Lula mostra que a liberdade de imprensa funciona (29/08)

O repórter Fábio Zanini revelou na Folha Online trechos de um esboço de programa do PT para democratizar a comunicação num eventual segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Convivem no texto dois vetores. O primeiro pressiona por mais controle estatal (ainda que apresentado como "social") sobre os veículos. O segundo propõe multiplicar os veículos para, assim, reforçar (ou forçar) o pluralismo na produção e distribuição de conteúdo informativo. Claro que estou resumindo. O debate é (ou pretende ser) bem mais complexo que isso. Mas eu vou me dar ao luxo de simplificar. Minha sugestão: em primeiro lugar, abandone-se definitivamente toda e qualquer iniciativa "controladora" e concentremo-nos (a sociedade) em universalizar o acesso à Internet. E, se querem estimular com verbas públicas a proliferação de veículos, resta saber como eles poderão ser de fato independentes de quem os financia (no caso, o governo). Uma pergunta simples: o governo aceitaria financiar um jornal, site ou blog cuja linha editorial fosse sistematicamente crítica em relação ao governo? Ou a "independência" nesse caso seria apenas uma fachada para o governismo? Está na cara que não vai funcionar. Só vai dar confusão. O PT já fez bobagens demais nessa área. O PT precisa passar por um "aggiornamento" e se converter, definitivamente, à liberdade de imprensa. Ela funciona. A situação eleitoral de Lula é a maior prova disso.

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segunda-feira, 28 de agosto de 2006

A política é soberana. E não só no Ceará (28/09)

Como foi dito aqui neste blog algumas vezes, é possível, sim, derrotar nas urnas um governo bem avaliado. Vejam o que acontece no Ceará. Os dados são da última pesquisa Datafolha:

"Após completar três anos e oito meses no governo do estado, Lúcio Alcântara [governador do PSDB] tem seu desempenho aprovado por 50% dos eleitores cearenses. Em comparação ao levantamento do início do mês, a aprovação ao peessedebista cresceu quatro pontos percentuais, indo de 46% para 50%. Desaprovam sua administração 13% dos eleitores e 32% a consideram regular. Lúcio Alcântara é mais bem avaliado entre eleitores que pretendem reelegê-lo (79%), entre os simpatizantes do PSDB (73%), entre os que pretendem votar em Geraldo Alckmin (65%) e entre os moradores de outros municípios da região metropolitana de Fortaleza (63%). Na capital o seu desempenho é aprovado por 44%. A nota média atribuída ao desempenho de Alcântara é 6,7."

Mas, afirma a mesma pesquisa que:

"APÓS HORÁRIO ELEITORAL, CID GOMES CRESCE 15 PONTOS E ASSUME A LIDERANÇA
Cid Gomes (PSB) tem 50% das intenções de voto contra 37% de Lúcio Alcântara (PSDB)

A primeira pesquisa Datafolha de intenção de voto para governador do Ceará após o início do horário eleitoral gratuito revela que o candidato do PSB cresceu 15 pontos percentuais, passando de 35% para 50% das intenções de voto, e agora lidera a disputa ao governo do Ceará. A segunda posição é ocupada por Lúcio Alcântara, que passou de 44% para 37%. (...) Se a eleição fosse realizada hoje, Cid Gomes seria eleito no primeiro turno, com 56% dos votos válidos (...) Lúcio Alcântara teria 41% dos votos válidos. Em relação à pesquisa anterior, realizada no início do mês, Cid Gomes cresceu em quase todos os segmentos do eleitorado cearense. (...) Dos eleitores de Lula à Presidência, 58% votam em Cid Gomes e 33% em Lúcio Alcântara. Na pesquisa anterior, esses números eram 38% e 43%, respectivamente. (...) O Candidato do PSB venceria o segundo turno com 53% das intenções de voto, contra 39% de Lúcio Alcântara. Quando questionados sobre um eventual segundo turno entre Cid Gomes (PSB) e Lúcio Alcântara (PSDB), 53% dos eleitores dariam a vitória ao candidato do PSB, contra 39% de Lúcio Alcântara. Na pesquisa anterior o peessedebista tinha 50%, contra 43% de Cid Gomes."

Qual é o problema da candidatura de Lúcio Alcântara? Ele se elegeu em 2002 com o apoio dos dois principais chefes políticos cearenses: Tasso Jereissati (PSDB) e Ciro Gomes (então no PPS, hoje no PSB e irmão de Cid Gomes). Tasso e Ciro queriam agora Lúcio candidato ao Senado e Cid governador. Lúcio impôs sua candidatura ao PSDB. Em conseqüência, enfrenta nesta eleição a mais formidável coligação política da história do Ceará, que une do PCdoB ao PSDB "tassista", passando pelo PT da prefeita (ex-radical) Luizianne Lins (Fortaleza) e pelo PMDB do ex-ministro Eunício Oliveira.

Hoje, Lúcio foi a Lula. Clique aqui para ler.

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Não são só os pobres que avaliam bem o governo (28/08)

A consultoria Tendências compilou os dados sobre avaliação do governo federal na série histórica de pesquisas Datafolha e chegou a um resultado interessante: a imagem da administração Lula (ótimo + bom) vem melhorando em todas as classes de renda e essa melhora começou antes do horário eleitoral. Veja os gráficos acima (clique para ampliar). A constatação está na Carta Política, que a consultoria distribui semanalmente aos seus clientes.

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Dois textos sobre o Líbano e o Oriente Médio (28/08)

Could this war produce a Sunni-Israeli alliance?, por Chemi Shalev (Haaretz)

Líder religioso xiita diz que Hezbollah não venceu Israel (Agência Estado - EFE)

O primeiro texto é sugestão do leitor Michael Roubicek (a quem agradeço a colaboração voluntária com este blog). O segundo complementa de certa maneira o post sobre a autocrítica do xeque Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, publicado mais abaixo.

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Novidade: os políticos estão se lixando para o que acha o povo (28/08)

É o que dá para deduzir de dois fatos simultâneos:

1) As pesquisas mostram a tendência, na maioria dos casos, de o eleitorado reconduzir governantes bem-avaliados.

2) Políticos, principalmente do PT e do PSDB, movimentam-se para acabar com a reeleição.

Por que não fazem um plebiscito (ou referendo)? Era o que Fernando Henrique Cardoso deveria ter feito quando aprovou a reeleição no Congresso. Nas duas últimas consultas populares (parlamentarismo em 1993, proibição do comércio de armas em 2005), o pessoal que hoje articula nos bastidores para acabar com a reeleição perdeu.

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domingo, 27 de agosto de 2006

Nasrallah se arrepende de ter deflagrado a guerra (27/08)

O líder do Hezbollah, xeque Hassan Nasrallah, deu entrevista para uma tevê libanesa e afirmou: não teria mandado seqüestrar os militares israelenses se pudesse antever os resultados da guerra que se seguiu. As razões para esse arrependimento de Nasrallah? "Humanitárias, morais, sociais, de segurança, militares e políticas." Clique aqui para ler no site da BBC. Bem, até agora a "análise" que tentavam nos vender era que a guerra tinha transformado Nasrallah no novo grande líder do mundo árabe, por ter enfrentado Israel militarmente. Diziam que as massas libanesas teriam passado a relativizar o próprio sofrimento e a responsabilidade do Hezbollah, diante dos supostos ganhos militares e políticos decorrentes da guerra. O movimento de Nasrallah, porém, indica que a "cultura do martírio" islâmico é mais popular em certos segmentos intelectuais do Ocidente -que buscam razões supostamente ideológicas para o seu próprio anti-semitismo e antiamericanismo- do que entre os árabes. Faz sentido. Costuma ser assim mesmo: um dia a propaganda dá de cara com a realidade, e aí o bicho pega. Outra reportagem interessante para quem não está intoxicado ideologicamente é sobre um artigo do porta-voz da Autoridade Palestina, Ghazi Hamad, culpando em grande parte os próprios palestinos por terem transformado a Faixa de Gaza numa terra sem lei depois da retirada israelense.

Leia também: Nasrallah is still in charge (Zvi Bar'El, Haaretz)

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Se Lula quiser dar as costas ao PMDB, já tem apoio (27/08)

Editorial hoje de O Estado de S.Paulo:

"No entanto, o que se assistiu no governo Lula, principalmente este ano, recomenda pagar para ver se as suas ações, a se concretizar o segundo mandato que ele persegue desde que chegou ao Planalto, serão convergentes com as suas palavras em relação a um problema impossível de superestimar, tamanha a sua centralidade para que o Brasil 'encontre, definitivamente, o caminho do desenvolvimento sustentável', como afirmou. Trata-se da política do gasto público. 'Precisamos melhorar a qualidade do nosso gasto, diminuindo as despesas de custeio para investir mais em infra-estrutura e ter condições de reduzir a carga tributária', declarou. Foi o que não fez até agora, e é lícito perguntar se, nos próximos quatro anos - ainda mais se ele não conseguir atrair a oposição para o seu pacto de distensão política -, o enxugamento do custo do Estado não sucumbirá aos velhos vícios dos parceiros peemedebistas de Lula no seu propalado governo de coalizão. Terá ele meios de salvaguardar a administração da voracidade dos políticos?"

Às vezes, a ajuda para realizar os mais íntimos desejos vem de onde menos se espera.

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sábado, 26 de agosto de 2006

Este é um blog moderado. Habituem-se (26/08)

Este é um blog moderado. Em vários sentidos. Um deles: só entram comentários aprovados pelo organizador (eu). Tenho rejeitado intervenções que resvalam para a agressão e a desqualificação. A quem gosta de discutir nesse nível, lamento não oferecer o ambiente adequado. É minha opção. Um argumento que rejeito sistematicamente é o pecuniário. Algo mais ou menos na linha "fulano de tal só defende isso pois tem um emprego no -ou recebe dinheiro do- governo de sicrano". Há certos debates de que participo. De outros, não. Não entro em polêmicas que, a prevalecer a lógica, tendem a um beco sem saída. As aspas acima são um exemplo. Vamos trabalhar com a situação em que o personagem A acusa o personagem B de escrever textos (ou dar declarações) favoráveis ao governo de C porque leva algum tipo de vantagem monetária, direta ou indireta. Ora, se é razoável supor que B apoia C porque leva alguma vantagem, é também legítimo acolher a hipótese de que A só se opõe a C por não ter tido acesso aos benefícios recebidos por B. Pau que dá em Chico dá em Francisco. É como no xadrez, naquelas situações em que você não pode se mexer, do contrário será comido. Empate. Ou impasse, tanto faz. Diálogos que chegam ao impasse acabam em xingamento ou coisa pior. Eu faço este blog para me divertir. Não venham querer estragar meu divertimento.

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FHC engrossa o fogo amigo (26/08)

Tem gente que fala o que pensa e apanha. Tem gente que faz a mesma coisa e é ouvido em silêncio. Ontem, Cláudio Lembo jogou uma pá de terra no que imagina ser o caixão político do candidato do PSDB a presidente, Geraldo Alckmin. O mundo desabou no partido do governador, o PFL. Hoje, O Estado de S.Paulo (Expedito Filho) traz reportagem com Fernando Henrique Cardoso dizendo a mesma coisa. De quebra, FHC lança José Serra como candidato das oposições em 2010. Não esperem por fortes reações dos tucanos em público. Agora vou especular. Acho que o ex-presidente está se vingando de Alckmin, que o tratorou na corrida pela indicação do candidato do PSDB. E está mandando, ao mesmo tempo, um recado para Aécio Neves. Por esses dias FHC também andou falando bem de Carlos Lacerda. Disse que o Brasil precisaria de um Lacerda para combater Lula. Lacerdismo no Brasil é sinônimo de golpismo. Talvez o tucano esteja cultivando um eleitorado mais à direita, tentando impedir o surgimento de uma "heloísa helena" na outra ponta do espectro. Afinal, esses votos são cativos do PSDB há mais de uma década. E planta que não é regada pode secar. À guisa de (bonito isso, não?) conclusão: perto do fogo amigo no PSDB, a luta interna do PT é festa de São João em escola de criança.

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sexta-feira, 25 de agosto de 2006

O Brasil precisa saber o que o espera (25/08)

O Brasil é um país eternamente em busca do atalho. Especialmente quando o suposto atalho nos promete contornar algum conflito político. Somos uma sociedade à beira da guerra civil, mas temos horror ao conflito político. Aceitamos conviver com o crime organizado, mas qualquer declaração mais dura de algum político acaba censurada, por supostamente ajudar a promover a radicalização. É o mêdo pânico de que o ambiente da senzala contamine a casa grande. Eu penso exatamente o contrário. Sou a favor de que os políticos se agridam verbalmente sem limites, mas que responda a processo alguém que se atreva a xingar o outro no trânsito. A democracia não é a supressão dos conflitos, mas a realização deles no âmbito de regras consensualmente aceitas. Agora, volta à pauta esse assunto do pacto. É um fantasma que insiste em não morrer. Eu tento acompanhar a política desde o presidente Castello Branco e não conheci governo que não tivesse flertado com a idéia. Como das outras vezes, não vai dar certo. Ainda bem. Governo é para governar. Oposição é para fazer oposição. A mais dura possível, dentro das regras do jogo. É o necessário mecanismo de freios e contrapesos. O governo é um bicho muito forte, tem dentes e garras cortantes, e muitos músculos. Tem que apanhar o tempo todo para não sair dos limites. Nas democracias, onde funciona um parlamento, o governo precisa montar maiorias parlamentares para não ser derrubado, ou inviabilizado. Luiz Inácio Lula da Silva acredita que vai ser reeleito e começa a falar em pacto. Em vez de perder tempo com isso, deveria falar sobre como vai montar um amplo governo de coalizão para dar ao país estabilidade política nos próximos quatro anos. A não ser que Lula esteja pensando em governar com minoria no Congresso. Se for, deve dizer isso claramente (como, aliás, Heloísa Helena já fez), para que o país saiba o que o espera e possa fazer a sua escolha.

Leia também: Lula faz um bom governo, de Kennedy Alencar, na Folha Online

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Quatro boas leituras (25/08)

Dois textos para a pessoa se deter no Valor Econômico de hoje:

Venceu o Hezbollah?, de Edward N. Luttwak

Por onde se cruzam Lula e Aécio, de Maria Cristina Fernandes

Dois textos para a pessoa se deter na Folha de S.Paulo de hoje:

Do cacete à eletrônica, de José Sarney

A margem de Alckmin, de Renata Lo Prete

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quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Lula fala em pacto, a oposição reage e a eleição segue (24/08)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou hoje em conciliação política. A oposição, naturalmente, reagiu. Em outro front, o programa da noite de Geraldo Alckmin foi todo sobre Saúde e aumentou o tom da agressividade contra o presidente. Que, por sua vez, dedicou-se inteiramente à educação -o que o tucano havia feito à tarde. E segue o baile. A referência de Lula à necessidade de reduzir as tensões políticas é retórica, ou reside no plano dos desejos: a oposição só vai sossegar no dia em que Lula deixar o Planalto.

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Maior participação francesa garante comando europeu nas forças internacionais no Líbano (24/08)

A França decidiu ampliar sua presença nas forças militares que vão compor o contingente da ONU na zona-tampão entre Israel e Líbano. Os franceses também devem comandar a tropa. Assim, vai sendo consolidado o perfil europeu da missão. A Síria agora resiste a que a força internacional se instale na fronteira com o Líbano. O objetivo desse movimento seria impedir o reabastecimento do Hezbollah com armamento proveniente do governo de Damasco e do Irã. Nessa guerra que não terminou (continua nas mesas de negociação em em escaramuças eventuais), o movimento da diplomacia continua embalado por uma melodia desfavorável aos sírios e iranianos.

Um post anterior:
A medida do resultado da guerra e Sykes-Picot (04/08)

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Alckmin pega (bem) o bonde da educação (24/08)

O candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, aproveitou a bola levantada por Cristovam Buarque e cortou. Ele tem muito tempo na tevê e foi governador: teve hoje um programa todinho dedicado a dizer o que fez em São Paulo e o que (promete que) vai fazer na educação se for eleito presidente. O marketing do tucano vai bem, vai contruindo uma visão de futuro, com otimismo. O eleitor gosta disso. Gosta também de propostas. O programa esteve cheio delas. E voltou a falar no "plano nacional de desenvolvimento". A expressão deve estar indo bem nas pesquisas qualitativas. Ninguém sabe direito do que se trata, mas não dá para ser contra um plano nacional de desenvolvimento, não é? O último Datafolha mostrou um dado interessante. A avaliação do programa de Alckmin está quase empatada com a de Lula. Mas Lula tem quase o dobro de votos de Alckmin. Isso significa que o programa de Alckmin é muito bem avaliado por quem não vota nele. É um dos primeiros passos para tentar atrair o eleitor.

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Tempos sombrios (24/08)

Do Blog do Reinaldo Azevedo (ex-Primeira Leitura):

" Perdão se não sou óbvio e errado

Tá bom... Vocês querem que eu entre no 'pega-pra-capar'? Não entro. E vou avisando: está errado. Não se fazem instituições assim. Menos ainda democracia. Relutei em entrar neste caso de tão irritado que fiquei. Nada pior do que viver dias de transe autoritário, como estes, apimentados por um moralismo tão estridente como inconstitucional. Que ainda acaba contando com o apoio de setores da mídia. William Waack aplaudiu no Jornal da Globo e ainda expressou o desejo de que a moda pegue. Mas do que estou falando? O Tribunal Regional Eleitoral do Rio proibiu os deputados federais Paulo Baltazar (PSB-RJ), Reinaldo Gripp (PL-RJ), Fernando Gonçalves (PTBG-RJ) e Elaine Costa (PTB-RJ) de concorrer à reeleição. Eles são acusados de participar do chamado esquema dos sanguessugas. Com a devida vênia, os juízes estão jogando para a torcida. Têm de jogar para o Estado de Direito. Como é que se pode determinar isso antes da condenação transitada em julgado? É inconstitucional. Eles vão recorrer e vão ganhar. E aí se cria aquela onda contra quem decidiu segundo a lei, cumprindo o seu papel. Os partidos podem lhes tirar a legenda; os eleitores podem cassar o seu mandato. Uma reforma política pode vir a mudar as regras de sorte que não possam concorrer. Mas não se pode jogar no lixo a Constituição e as leis porque queremos fazer justiça. Por estranho que possa parecer, o Estado de Direito também protege bandidos. E, no dia em que não o fizer, o cidadão de bem também estará sob risco, acreditem. Mas, claro, é preciso que, protegendo a ambos, também saiba fazer as distinções. Essa decisão foi puro espetáculo de exibicionismo. Nada além."


Nada a acrescentar. Nada a retificar. Isso lembra aquela história do tempo do AI-5. O maior problema nas ditaduras não é exatamente o poder dado ao ditador. É o poder dado ao delegado de polícia.

Consultar a Constituição de vez em quando não faria mal a ninguém.

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Windows em Quechua, um gesto da Microsoft para Morales (24/08)

Os executivos do ramo boliviano da Microsoft reúnem-se amanhã, em Sucre, com o presidente Evo Morales. Vão lançar as versões do Windows e do Office em Quechua, a língua dos indígenas andinos. Clique aqui para ler. Por que o pessoal da Petrobrás (e do Itamaraty) não dá uma passadinha lá, para aprender com a turma do Bill Gates?

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Ninguém é idiota por ser pobre (24/08)

Carlos Alberto Sardenberg escreve um artigo interessante em O Globo de hoje. Não coloco o link porque navegar no site do jornal virou uma coisa muito complicada, um martírio. Parece que decidiram dificultar o acesso ao conteúdo de O Globo na Internet para, quem sabe, proteger o negócio jornal. Acho duvidoso como estratégia, mas o problema é dos acionistas da companhia, não meu. Só é pena terem deixado para trás um modelo de navegação que estava entre os melhores da rede. Voltemos ao Sardenberg. Ele diz mais ou menos o seguinte: se as condicionalidades é que são importantes no Bolsa Família, por que não investir mais na educação? O programa recebe R$ 11 bilhões [Esse número está no texto do Sardenberg, mas acho que o dado mais preciso é cerca de R$ 9 bilhões] do Orçamento. A educação federal recebe cerca de um terço disso, sem falar que o grosso vai para as universidades. É mais ou menos o que diz o Cristovam Buarque, candidato à Presidência pelo PDT, quando faz da sua campanha uma cruzada pelo avanço na qualidade do ensino no Brasil. Pego o gancho do texto do Sardenberg para dizer aqui algo que queria dizer faz tempo. O Bolsa Família precisa de uma fiscalização rigorosa para evitar que recursos sejam repassados para quem não necessita. Ponto. Qualquer outro tipo de "condicionalidade" é inútil e, pior, preconceituosa. No começo do governo (lembram?) havia a proposta de o Fome Zero implantar comitês para, entre outras coisas, fiscalizar como o beneficiário do programa gastaria o dinheiro. Queriam controlar o gasto por meio das notas fiscais. Em português claro (aquele usado na conversas reservadas), algo como "temos que cuidar para que esses vagabundos não gastem em cachaça o dinheiro que generosamente lhes damos para comprar a comida das crianças". Essa idéia foi, felizmente, trucidada no nascedouro e acho que ninguém mais fala nisso. Mas ela tem uma versão mais sofisticada e politicamente correta. A família só recebe o benefício se as crianças forem à escola e se forem vacinadas. A premissa é a mesma: acham que o pobre é um idiota e precisa ser coagido a ingressar na civilização. Acham que, se não houver a "obrigação" de mandar as crianças à escola e de vaciná-las, a mãe pobre (que é quem recebe o dinheiro) vai preferir colocar os filhos para trabalhar em vez de estudar e vai deixar de levá-los para tomar vacina. Além do mais, duvido que na prática esteja funcionando assim. Duvido que tenham cortado o Bolsa Família de gente cujos filhos não vão sempre à escola ou não sejam regularmente vacinados. O Brasil será um país melhor no dia em que forem eliminadas as burocracias inúteis, dinheiro que poderia ser mais bem empregado em outras coisas. Ou então economizado. Para não dizerem que só critico, vai aí uma proposta: cortar toda despesa relacionada à (pretensa) fiscalização das condicionalidades do Bolsa Família. Muito ou pouco, tanto faz. Nem que fosse uma coisa só simbólica, melhor seria lançar esses recursos (gastos com a burocracia) no superávit primário, ajudar a controlar a inflação e, assim, permitir ao beneficiário do Bolsa Família comprar um pouco mais com o dinheiro recebido. Mas isso não será feito. O governo (qualquer governo) precisa ter argumentos para explicar ao contribuinte que o dinheiro dado aos pobres não está sendo "desperdiçado". Isso num país em que cada dois reais em crédito rendem a quem empresta (os bancos) quase um real em juros. Pobres de nós.

Nota às 22h32: Governo bloqueia Bolsa Família a 112 usuários e adverte 157 mil

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quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Bom ou bem avaliado? (23/08)

Uma questão muito pertinente levantada por alguém que comentou o post anterior é por que misturei os conceitos de "governo bom" e "governo bem avaliado". Foi de propósito. O Brasil é uma democracia, uma das maiores do mundo. Há liberdade de imprensa, liberdade de expressão, liberdade de reunião, liberdade de organização (para fins pacíficos, claro). Assim, é razoável supor que o eleitorado dispõe das informações necessárias para formar sua opinião com base na realidade. Bem, a avaliação do governo é positiva. Um recorde, segundo o Datafolha. E, então, o que se deve concluir? Que o governo é ruim mas que o povo está sendo enganado? Como, se a imprensa exerce duramente seu papel fiscalizador? Como, se a crítica ao governo ampliou-se nos últimos anos para o telejornalismo (o que é muito bom)?
Quanto à qualidade intrínseca do governo (existe isso?), vou aqui propor um método. Em janeiro deste ano, a Secretaria do Tesouro Nacional colocou na Internet uma apresentação com o seguinte título: "O Brasil virando onça - Os avanços recentes na economia brasileira". Clique neste link para fazer o download. Sugiro uma olhada, como ponto de partida para o debate. Se você tiver estudos que contestem os dados da apresentação, ou se quiser dar apenas uma opinião, ou se entender que o debate deve estar apontado para outras direções, este blog está aqui para isso mesmo. Abaixo a burrice, viva a inteligência!

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Isenção ou desinformação? (23/08)

Saiu o novo Datafolha:

Primeiro Turno:
Lula 49% (+2), Alckmin 25% (+1), Heloísa Helena 11% (-1)
Segundo Turno:
Lula 56% (+2), Alckmin 35% (-2)

Pouco mudou, e mudou a favor de Lula, especialmente na simulação de segundo turno. Bem, mas o dado mais significativo da pesquisa é a avaliação do governo. Do relatório do Datafolha:

"Quanto à avaliação do governo Federal, a taxa dos que consideram o desempenho do petista [Lula] ótimo ou bom, que já havia crescido sete pontos percentuais entre julho e o início de agosto, tendo passado de 38% para 45%, voltou a subir, e é hoje de 52%. A taxa dos que classificam o governo Lula como regular caiu de 36% para 31% e a dos que acham que ele vem sendo ruim ou péssimo passou de 18% para 16%. O antecessor de Lula, Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), atingiu sua melhor marca em dezembro de 1996, quando estava prestes a completar dois anos de governo, e era aprovado por 47%. Itamar Franco (1992-1994) obteve 41% ao deixar o governo, em dezembro de 1994. A melhor marca de Fernando Collor de Mello (1990-1992) foi registrada após três meses de governo, em junho de 1990, quando 36% aprovavam seu desempenho à frente do governo. A nota média atribuída ao presidente, em uma escala de zero a dez, é 6,7. Na pesquisa anterior ela era 6,3. Cerca de um quinto (19%) atribui nota dez ao presidente. Percentual idêntico acha que ele merece nota oito."

Tem gente que costuma reclamar quando escrevo (e já escrevi algumas vezes) que a liderança de Lula nas pesquisas se deve à boa avaliação de seu governo. Há uma cultura da "isenção" no jornalismo que acaba causando prejuízo ao leitor (ou telespectador, ou ouvinte). Se um governo é bom, dizer sistematicamente ao consumidor de informações que o governo é uma droga não é praticar isenção, é cultivar a desinformação. Aí sai uma pesquisa como essa do Datafolha e cai como raio em céu azul. Azar de quem confundiu a realidade com seus próprios desejos.

Tenho escrito aqui que o principal problema da oposição é que ela não se preparou para enfrentar um governo bem avaliado. Bater de frente, apostar na rejeição de um adversário que faz um bom governo, isso é tática arriscadíssima. O recomendável é ir pelas beiradas, dizer que vai manter as coisas boas e melhorar o que não funciona, tentar construir o sonho de um governo ainda melhor, trabalhar a idéia do progresso baseado na convergência, na união. O marqueteiro de Alckmin está tentando fazer isso, mas é uma gota no desastroso oceano de "free media" produzido por tucanos e pefelistas. Foram meses de escárnio em relação aos pobres ("esmolão"), de ataques indiscriminados contra Lula e o PT, de cultivo do ódio. Agora vêm as conseqüências: entre outras coisas, a rejeição de Alckmin já empata com a de Lula. Também do relatório do Datafolha:

"A pesquisa traz mais um dado positivo para Lula: a taxa de eleitores que não votariam nele no primeiro turno, de jeito nenhum, caiu pela segunda vez consecutiva, e hoje, o petista empata com Geraldo Alckmin nesse aspecto. Por outro lado, a taxa de rejeição ao candidato peessedebista vem em curva ascendente. Pesquisa realizada no final de junho mostrava que 31% não votariam em Lula de jeito nenhum no primeiro turno da eleição para presidente. Essa taxa oscilou para 32% em julho, caiu para 29% no início de agosto e é hoje de 26%. A taxa de rejeição a Alckmin era de 19% em junho, subiu para 22% em julho, oscilou para 23% no início de agosto e chega a 24% hoje. Ou seja, se em junho, a taxa de rejeição a Alckmin era 12 pontos inferior à obtida por Lula, hoje, a diferença entre os dois, de dois pontos percentuais, está dentro da margem de erro. A rejeição a Heloísa Helena era de 21% nas pesquisas de junho e julho, oscilou para 23% no início de agosto e é hoje de 24%."

Alckmin está morto? Difícil dizer, eleição é sempre um espaço probabilístico. Vamos ver o que fazem agora os seus estrategistas. E, por falar em estratégia, se um dia você for o comandante de uma campanha presidencial e decidir dividir o país como tática para tentar ganhar a eleição, cuide, pelo menos, para que nessa divisão a maioria fique do seu lado.

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terça-feira, 22 de agosto de 2006

A coragem que sobra para algumas coisas escasseia em outras (22/08)

Trecho do artigo Cartel, juros e 'spreads' bancários, do economista Marcos Cintra, na Folha de S.Paulo de ontem:

"É inadmissível que o setor [bancário] continue captando recursos a 15% ao ano e cobrando juros que na média chegam a 38% no desconto de duplicatas, 51% no 'hot money', 32% no capital de giro, 62% no crédito pessoal e 145% no cheque especial. Aplicando os maiores 'spreads' do planeta e cobrando tarifas exorbitantes que cobrem 130% de suas folhas de pagamentos, os bancos no Brasil registram, de acordo com o consultor financeiro Carlos Coradi, lucratividade média de 24,7%, um pouco menos que os 26,9% dos eficientes bancos suíços. Vale lembrar que os dois maiores bancos privados brasileiros tiveram no ano passado rentabilidade superior a 30%."

E os candidatos a presidente? O que dizem? Cadê a coragem? Gastaram tudo em outros temas? Vão tratar do assunto? O que vai fazer o CADE se eles forem eleitos? Como vão quebrar o oligopólio bancário? Vão abrir o mercado (de verdade) para bancos estrangeiros? Ou vão confirmar a tese de que certo liberalismo vale só para os outros?

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Há uma lacuna na valentia do sr. Ioschpe (22/08)

O economista e mestre por Yale (EUA) Gustavo Ioschpe desanca a oposição em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo. Ele retoma a tese de que PSDB e PFL são culpados por não terem tentado o impeachment de Luiz Inácio Lula da Silva. O texto do sr. Ioschpe tem pelo menos dois problemas. Em primeiro lugar, ele se baseia na denúncia do Procurador Geral da República, mas apenas no que lhe interessa. Por que? O procurador fez diversas acusações -o que o sr. Ioschpe acha bom, a ponto de tratá-las como se já tivessem transitado em julgado-, mas não acusou o presidente da República -o que o sr. Ioschpe, convenientemente, desconsidera. Esse talvez seja o conceito de "isonomia" a que o economista de Yale se refere quando diz, no artigo, que "a essência da democracia (...) é a criação de um arranjo institucional que garanta liberdade e isonomia perante a lei a todos". Pelo jeito, esse "todos" expressaria melhor o ponto de vista do sr. Ioschpe se viesse com complemento: "todos os que pensam como eu". Em segundo lugar, a lei brasileira permite a qualquer cidadão pedir o impeachment do presidente da República. Se o sr. Ioschpe tem tanta convicção de que Lula deve ser impedido, ele mesmo pode ir à Câmara dos Deputados e entrar com a ação. Por que não o faz? Talvez ele explique em sua próxima coluna. Por enquanto, falta algo na valentia do sr. Ioschpe.

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A falta que faz um almoço grátis (22/08)

Quem se lembra das críticas do PT à política econômica do seu próprio governo? Pelo menos no PT, parece que ninguém. Na medida que foi dando certo, deixou de ser a orientação econômica de Antonio Palocci e virou a política de Lula, primeiro, e do PT, depois. Quem se lembra das críticas do PT ao superávit primário, base do sucesso da economia sob Lula? No PT, parece que ninguém. Assim é a vida na política, um ramo da atividade humana em que o erro não existe. Ou nunca é admitido -o que, afinal, dá na mesma.

Curioso é que o PT esteja faturando eleitoralmente em cima de uma política que tentou combater como pôde. Enquanto isso, o PSDB sofre para enfrentar nas urnas o governo que adotou, na economia, uma linha que quase qualquer tucano poderia tranqüilamente apoiar -não fosse o detalhe de precisar fazer oposição. A política é cruel. No mais das vezes, você não se alinha por concordar na tese, você acaba tendo que defender uma idéia por estar previamente alinhado. E depois ainda falam em valorizar a coerência. Quem quiser, que se engane. Ou espere sentado.

Em algum momento da campanha eleitoral, o assunto do crescimento e do emprego deverá ocupar o centro do palco. Será interessante ouvir o que os candidatos têm a dizer. Até o momento, o grande vitorioso nesse debate é o ex-ministro da Fazenda (1995-2002) Pedro Malan. Nenhum dos pretendentes à cadeira presidencial diz que vai mexer no tripé responsabilidade fiscal, meta de inflação e câmbio flutuante. A receita malanista, consolidada pelo PT, deve garantir ao Brasil nos próximos anos um crescimento em torno de 4% do PIB e uma inflação abaixo desses mesmos 4%. Aparentemente, a média das opiniões no país converge para considerar razoáveis esses objetivos, desde que sobre dinheiro suficiente para o governo fazer seus programas sociais.

Seria possível crescer mais? Claro. Só que não existe almoço grátis. Uma das alternativas é desvalorizar o câmbio e apostar na explosão das exportações como motor da aceleração. Seria também um caminho para reduzir mais rapidamente os juros. O problema é que, mantido o resto constante, o país teria que conviver com mais inflação. E haveria, no primeiro momento, redução do salário real. Quem defende a desvalorização cambial não diz, mas essa medida concentraria renda no capital em detrimento do trabalho e no setor exportador em detrimento de quem produz para o mercado interno. Mas, no Brasil, considera-se que seria uma política econômica "mais à esquerda". Vai entender.

Outro caminho para crescer mais é cortar gastos governamentais para diminuir a carga tributária e/ou reduzir mais rapidamente a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) e/ou aumentar o investimento público. Em teoria, é perfeito. Só que há um detalhe, que os candidatos não contam ao eleitor. Não há como reduzir radicalmente gastos da União sem uma ou mais de uma das seguintes medidas:

1) contenção dos reajustes dos servidores públicos;
2) redução das verbas destinadas aos programas sociais;
3) uma nova reforma da Previdência, que imponha aos trabalhadores do setor privado mais sacrifícios, inclusive o fim da aposentadoria por tempo de contribuição; e
4) redução das verbas constitucionalmente vinculadas a despesas com Saúde e/ou Educação.

Ninguém vai ser maluco de defender isso. Ah, sim: alguém sempre poderá dizer que vai reduzir os juros para sobrar mais dinheiro para manter e ampliar bondades. Só que há um problema: fixado o tripé que hoje sustenta a estabilidade econômica, um afrouxamento da política monetária exigiria necessariamente um endurecimento da política fiscal. Do contrário, teríamos mais infação. De novo: quem quer aparecer diante do eleitorado defendendo (ou sendo acusado de propor) mais inflação?

Pensando bem, talvez seja melhor a campanha eleitoral continuar voltada para outros assuntos.

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Este texto foi produzido para o Blog do Noblat, onde escrevo semanalmente.

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segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Morreu Joe Rosenthal, o da foto de Iwo Jima (21/08)

O profissional que tirou essa foto famosa, na batalha de Iwo Jima, morreu ontem aos 94 anos na Califórnia. Clique na imagem para ampliar. Clique aqui para ler mais sobre Joe Rosenthal na Reuters.

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Perigo na curva da reforma política (21/08)

É sabido que no Brasil antes de as coisas melhorarem elas podem (e costumam) piorar muito. E o risco de piora geralmente vem embalado em generalidades. Aliás, as generalidades são a salvação da lavoura no debate político. O sujeito se empertiga diante das câmeras e microfones e manda: "A crise deixou claro que precisamos de uma reforma política". De que reforma política ele está falando? Em geral, ficamos sem saber. Reforma política é que nem reforma tributária: cada um é favorável à sua. Por isso elas não saem, apesar do apoio aparentemente unânime. Pois bem, agora apareceu a idéia de votar no Congresso o projeto de reforma política aprovado na comissão especial da Câmara dos Deputados que cuidou recentemente do assunto. Ele tem coisas boas (federação de partidos, por exemplo), mas tem um detalhe muito ruim, que pode até piorar o sistema. É o voto em lista. O partido definiria a ordem das candidaturas ao Legislativo e seriam eleitos os primeiros nomes da lista, até o número de cadeiras que o partido conquistasse. Qual é o problema? É que os partidos brasileiros não estão obrigados a nenhuma democracia interna. Prevalece entre nós uma lógica bizarra: as legendas recebem dinheiro público (como fundo partidário ou como renúncia fiscal para compensação do horário eleitoral gratuito), mas quando se trata de regular seu funcionamento interno os políticos argumentam que isso seria interferência indevida sobre uma esfera privada da vida política. A tese é absurda desde o momento em que a Constituição proíbe um sujeito de concorrer a qualquer cargo público se não estiver filiado a partido. O primeiro passo de uma reforma política verdadeira no Brasil deveria obrigar os partidos a ter democracia interna. Os candidatos deveriam ser diretamente escolhidos pelos filiados, no seu nível de representação. Essas eleições primárias deveriam ser organizadas pela Justiça Eleitoral. As direções partidárias deveriam ser proibidas de intervir em diretórios eleitos. Onde o partido tivesse apenas comissão provisória, ele deveria ser impedido de concorrer às eleições. Aprovar a lista fechada (preordenada) sem impor a democracia interna significará aumentar a taxa de caciquismo e autoritarismo nos partidos. Querem tirar do eleitor uma das poucas armas que ele ainda tem: poder renovar os partidos no voto, mesmo contra a vontade dos donos das legendas.

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Que tal um abaixo-assinado para Alckmin? (21/08)

Estou pensando em propor um abaixo-assinado pedindo para o candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, bater duro em Lula no programa gratuito de tevê. Se não for por outra razão, para acabar com esse debate sobre se o tucano deve ou não bater no petista no seu programa de tevê. De todas as discussões chatíssimas que já vi em campanhas eleitorais, essa é uma das mais chatas. Quanto mais cedo acabar, melhor. E, depois, se Alckmin não descer a lenha em Lula e perder, teremos que agüentar os engenheiros de obra feita pontificando sobre como tudo teria sido diferente se o tucano tivesse "batido". Bate, Alckmin! Bem, é claro que eu não vou fazer esse abaixo-assinado, não tenho nada a ver com isso. Mas, se você concorda comigo (e se se anima com a idéia), pode ir no PetitionOnline.com e fazê-lo você mesmo. Se você quer saber o que eu acho disso, está em posts anteriores, vários deles. A oposição não vencerá Lula se não conseguir mostrar em que um Brasil comandado por PSDB e PFL seria melhor do que o comandado pelo PT, para o brasileiro comum. Não basta a oposição querer voltar ao poder, é preciso que o povo queira. Ele pode vir a querer? Eventualmente pode. Bons governos podem ser derrotados nas urnas, se a alternativa apresentar uma visão de futuro que empolgue a maioria. A oposição está perto de atingir esse objetivo? Está longe, a anos-luz. Um outro caminho seria a oposição tentar construir no imaginário coletivo a figura de um Lula populista, ignorante e corrupto, cuja reeleição faria o Brasil caminhar para o atraso e o autoritarismo. Com franqueza, e para que me cobrem depois, se esse for o caminho escolhido, é capaz de Alckmin acabar a eleição atrás de Heloísa Helena.

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domingo, 20 de agosto de 2006

Por uma "Operação Sanguessuga" nos bancos. Mas quem a fará? Leiam isso (20/08)

Trecho de reportagem da Folha Online:

"Em julho, (...) o juro mensal médio subiu para 6,24% ao mês (106,7% ao ano), o maior patamar desde setembro de 2003 -apesar de o juro básico do BC ter caído de 19,75% para 14,75% nos últimos 11 meses.
Pelo total do crédito recebido em 2005, as pessoas físicas pagaram 44% a mais só por conta dos juros. Para R$ 155,2 bilhões em crédito foram pagos R$ 67,6 bilhões de juros. 'É uma transferência de renda brutal para o setor financeiro', afirma o economista Marcel Solimeo, da ACSP."

Sem comentários.

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Formadores da opinião de si mesmos (20/08)

O jornalista e blogueiro Josias de Souza tem a coragem de abrir um debate saudável, sobre o que ele chama de irrelevância da mídia. Coloquei para download (clique aqui), para o caso de o texto já ter sido lançado no arquivo do blog dele. Em resumo, o Josias diz que a popularidade e as intenções de voto de Luiz Inácio Lula da Silva são a demonstração de que a imprensa (no sentido amplo) perdeu a relevância e não influencia a opinião das pessoas como imaginava influenciar. E você, o que acha? Para entrar nessa discussão, eu diria que a mídia não se tornou exatamente irrelevante, mas tem relevância apenas para um pedaço do público (e do eleitorado). Uma das razões é que lhe falta pluralismo. Vou usar o mesmo caso usado pelo Josias. A última pesquisa Ibope sobre a sucessão presidencial traz dois números sobre a avaliação de Lula e seu governo. Dizem que o governo é bom ou ótimo 41% dos entrevistados. O ruim e péssimo tem 21%. Ou seja, uma diferença de 20 pontos percentuais a favor. Na avaliação pessoal de Lula, 57% aprovam, contra 34% que desaprovam, uma diferença ainda maior (23 pontos). De cada dez brasileiros, quatro acham que o governo é bom e quase seis aprovam o presidente. Mas se você se põe a ler os jornais e as revistas, ou a assistir aos principais programas políticos na televisão, essa ampla fatia do eleitorado não está representada com sua opinião. O peso específico dos colunistas, articulistas e comentaristas que fazem uma avaliação positiva da administração do PT é diminuto, residual (estou sendo generoso: na verdade, o jornalista que disser "Lula está fazendo um bom governo" corre o risco de ser marcado a ferro na testa como "petista"). O público percebe isso, acho eu. Com o tempo, acaba enxergando partidarismo em toda a cobertura. E isso é péssimo para os veículos.

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sábado, 19 de agosto de 2006

Um bom programa de Alckmin (19/08)

No programa de hoje (noite), Geraldo Alckmin começou a falar mais decisivamente sobre o futuro. Foi a primeira vez em que seu programa esteve melhor que o de Lula, na minha opinião, claro. Parou de querer competir com Lula no "social" e começou a falar mais diretamente para o seu público (menos impostos, mais empregos). Afirmou diversas vezes que tem um plano nacional de desenvolvimento. O eleitor gosta de planos, gosta de sonhar. Lula esteve bem, como já vinha bem antes, ainda que continue muito focado no passado. Alckmin foi que melhorou. Vamos ver como os marqueteiros de Lula fazem a ponte entre o passado e o futuro. Os fundamentos dessa ponte estão no conceito de que é melhor continuar o que está dando certo, em vez de começar de novo. Mas será preciso especificar, concretizar mais. O jogo está ficando bom.

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A dura vida da oposição (19/08)

A oposição, ou uma parte dela, passa o tempo discutindo se deve "bater ou não bater" em Luiz Inácio Lula da Silva no horário eleitoral. A última vez em que vi uma campanha negativa funcionar foi no segundo turno para governador de São Paulo em 1998, quando Mário Covas demoliu o favoritismo de Paulo Maluf e ganhou a eleição. Funcionaria contra Lula? Sei lá. O que Covas fez oito anos atrás foi lembrar às pessoas o que elas já achavam de Maluf. A dificuldade de uma campanha negativa do PSDB e do PFL contra Lula é que o eleitor não faz a conexão entre Lula e as acusações contra o governo de Lula. Vinte minutos de tevê, dia sim dia não, vão mudar esse cenário? Veremos, se Geraldo Alckmin topar o caminho que lhe propõem os seus falcões. Por falar em tevê, tempos atrás um analista de risco me disse que a tendência era Lula subir com o início do horário eleitoral, pois passaria a dispor de uma janela em horário nobre para um pouco de mídia positiva, que poderia funcionar como válvula de escape para o grande volume de mídia negativa que o governo e Lula enfrentam desde maio do ano passado, quando eclodiu a crise política. Vamos esperar para ver se isso se confirma. Da minha parte, continuo pensando que o principal problema da oposição é não ter feito a lição de casa. É não ter se preparado para tentar derrotar um governo bem avaliado e com realizações a apresentar. O primeiro passo para fracassar numa guerra é subestimar o adversário. Há um ano e tanto, a oposição enfiou na cabeça que as denúncias de corrupção contra o governo do PT criariam um ambiente político em que a maioria da população brasileira acabaria pedindo a volta do PSDB e do PFL ao poder. Não aconteceu. E a oposição não tem um "plano B". Encontrei outro dia um tucano amigo e perguntei a ele: "O que o brasileiro comum ganha se trocar nos próximos quatro anos Lula por Alckmin?". Ele ficou me olhando. E não basta ter a resposta, é preciso que as pessoas acreditem nela. A oposição pode, por exemplo, prometer um governo mais honesto. Ótimo, mas alguém sempre poderá lembrar que tucanos e pefelistas estiveram recentemente no poder e também foram alvos de acusações. Empate. A oposição pode prometer um governo que vai ajudar mais os pobres. Aí ela se choca com, talvez, o mais forte atributo de Lula. Ainda mais quando vários líderes da oposição chamam o Bolsa Família de esmola. Ponto contra. Ela pode ainda prometer mais crescimento e lembrar (como Alckmin já lembrou) que os países parecidos com o Brasil estão crescendo mais do que o Brasil. Aí Lula vai dizer (como já disse) que no governo dele o Brasil cresceu mais do que durante o governo da dobradinha PSDB-PFL. Vai dizer também que o Brasil cresce menos do que os primos porque, enquanto os primos dão ênfase no investimento estatal, o Brasil tem os maiores e mais avançados programas sociais do mundo, e que isso pesa no orçamento. Mas que vale a pena, pois é a maneira de crescer com mais justiça social. Pelo menos no capitalismo (isso já é uma contribuição minha). Aí a oposição vai responder que foi ela quem começou a implantar esse arcabouço de programas sociais. O que é verdade, mas não resolve. Eleições são apostas sobre o futuro. O passado é só eliminatório. Ganha quem desperta mais esperanças no tempo que ainda vem, não necessariamente quem tem mais a dizer sobre o tempo que já se foi. Mas, então, quer dizer que a oposição não tem saída? Claro que tem. Em 2004 a economia ia até melhor do que agora e não havia a crise política. Não havia o atual ambiente de histeria antipetista. E a oposição ganhou eleições importantes. Talvez esteja faltando esse benchmarking. Mas será que a oposição vai parar para raciocinar? Duvido.

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sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Uma escorregada do JN e a pergunta não respondida sobre o Líbano (18/08)

Hoje vi no Jornal Nacional a festa que a população do sul do Líbano faz para saudar a chegada do exército libanês, que junto com as forças internacionais vai assumir o controle da fronteira com Israel. Bem, o JN mostrou as imagens da festa mas não explicou do que se tratava. Ficou estranho, tipo foto sem legenda. Aliás, os festejos não batem com a versão predominante na cobertura jornalística sobre o estado de ânimo da população libanesa. Por que a população do sul do Líbano festeja a chegada de seu exército, se ele é sabidamente menos preparado para enfrentar Israel do que era o Hezbollah? Se o Hezbollah era (ou é) o suposto "protetor do Líbano" contra Israel, e se o Estado Judeu supostamente tem a vocação de atacar o Líbano, por que o povo saúda nas ruas a chegada de uma tropa que, acha ele, vai suprimir boa parte da presença militar de seu maior protetor? Aliás, um general libanês está preso por ter confraternizado com militares israelenses antes do cessar-fogo. Hora de acordar. Os libaneses do sul festejam nas ruas a chegada de uma tropa que vai pôr fim ao domínio absoluto do Hezbollah na região. Talvez porque os libaneses queiram ser donos de seu destino, e não reféns do fundamentalismo. É chique às vezes teorizar sobre o "papel" do fundamentalismo no combate ao neoliberalismo e à globalização. Duro mesmo deve ser viver sob o mando político absoluto de fundamentalistas armados.

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Vou falar bem de mim mesmo (18/08)

Você vai me desculpar, mas hoje vou tomar a liberdade de falar bem de mim mesmo. Vai que um dia eu dou uma escorregada feia e passo um vexame... Bem, saiu mais uma pesquisa Ibope do Jornal Nacional. Tudo parado. Se algo mudou, mudou a favor de Luiz Inácio Lula da Silva num hipotético segundo turno. Você lembra que eu opinei aqui na semana passada que Lula tinha tirado de letra a entrevista do JN. E no começo desta semana, eu opinei que todos os programas do horário eleitoral estavam bons, mas que o de Lula estava melhor. Claro que a pesquisa não comprova necessariamente que eu estava certo. Mas talvez reduza a possibilidade de eu ter estado errado. Os números do Ibope: Primeiro Turno - Lula 47% (+1%), Geraldo Alckmin 21% (0), Heloísa Helena 12% (0). Segundo Turno - Lula 53% (+2%), Alckmin 32% (-1%).

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A malandragem dos juros de Lula (18/08)

O programa eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva comemorou os juros de 2% no crédito consignado. Talvez por precaução, não disse que são 2% ao mês. Ou 27% ao ano. Ou quase o dobro da taxa Selic. Ou mais de 23% de juro anual real (descontada a inflação). Isso num empréstimo de risco zero (ou quase isso) para os bancos. O sujeito que compra uma televisão em prestações com esses juros, se pagar em três anos terá comprado um aparelho para si e outro para o banco. A oposição está atrás de um escândalo que possa abalar o favoritismo de Lula. Mas esse tipo de escândalo nossa oposição não parece interessada em explorar, não é?

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quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Abaixo a coerência (17/08)

A doença mais terrível no intelectual é a necessidade patológica de estar sempre certo. É também a que provoca mais sofrimento nele. Manifesta-se com mais gravidade no intelectual formal, o que faz carreira universitária, escreve livros, dá palestras. E que, além de tudo, precisa que o "estar certo" de hoje faça sentido à luz do que já "esteve certo" lá atrás. Os intelectuais formais são, por assim dizer, os oficiais na guerra das idéias. Já os jornalistas-intelectuais (uma redundância) são os soldados rasos. Um general pode ganhar uma batalha, e mesmo a guerra, ainda que perca muitos de seus soldados. Já estes precisam estar sempre atentos à possibilidade de a morte cruzar seu caminho. Pois correm o risco de virar um registro no monumento à vitória ou no túmulo do soldado desconhecido. E os blogueiros? Nós, blogueiros, somos os soldados das forças especiais, aquelas que antigamente eram chamadas "de deslocamento rápido". Antes de virem os tanques e os canhões, nós nos infiltramos no terreno. Tem um certo glamour, mas não deixamos de ser soldados expostos às balas adversárias. Bem, nós, blogueiros, também adoramos estar sempre certos. Mas, como conseguir isso? Uma maneira é fazendo previsões. Se você acertar muitas estará "sempre" certo, pelo menos estatisticamente. Fazer previsões é trabalho de atacante, o sujeito que não precisa acertar todos os chutes: teve um que fez uma média de um gol por jogo e virou Pelé. Outro jeito de estar sempre certo é tentando estabelecer coerência entre os fatos e um conjunto de idéias. Se você oferecer ao leitor uma maneira de ajudá-lo a compreender este insensato mundo, a encaixar a realidade na ideologia, ele certamente lhe agradecerá. Terá encontrado um cantinho quente onde sempre haverá "quem pensa como eu", para falar mal de "quem acha o contrário". Mais ou menos como gostar de sentar no meio de uma torcida organizada para poder xingar a outra e permanecer anônimo. Coerência é serviço de goleiro. Não adianta fazer dez lindas defesas por jogo e tomar um frango a cada partida. Você tem que catar todas, ou já era. É incrível como existe mercado para a coerência. Da minha parte, desconfio da coerência, tenho os dois pés atrás em relação a ela. O mundo teria sofrido menos se Adolf Hitler tivesse sido menos coerente. Coerência não tem nenhuma importância. O importante é criticar as próprias idéias à luz dos fatos e ter referências sólidas. O coerente seleciona os fatos para confirmarem sua teoria. O intelectual honesto (existe isso?) critica as próprias idéias à luz dos acontecimentos. Eu adoro futebol, ainda que não vá a um estádio faz tempo. Mas nunca me sentei no meio de uma torcida organizada. Se eu achar que foi pênalti, achei e pronto. Não quero nem nunca quis ser obrigado a soltar palavrões contra o juiz só porque ele apitou um pênalti contra o meu time. Você não está entendendo o porquê dessa conversa? Pena. Ela vale para o futebol, vale para a política, vale para a vida. Se você não está interessado em coerência, mas em pensar, você me daria muita honra se freqüentasse sempre o meu blog. Se você almeja tornar-se um sujeito bem coerente, eu compreendo que prefira freqüentar outros cantos. Mas dê-me, de vez em quando, o prazer de sua visita.

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Por uma -impossível- discussão racional sobre o RDD (17/08)

O senso comum dos nossos dias converge para a idéia de que a melhor defesa da sociedade diante do crime é dispor de instrumentos que permitam à sociedade vingar-se exemplarmente dos criminosos. Aliás, a palavra "exemplar" volta e meia habita o palavrório das autoridades diante das câmeras e microfones. Aconteceu algo condenável? "Garanto que os responsáveis serão punidos exemplarmente." E segue o baile. Entre nós, prefere-se a vingança à justiça. No que isso vai dar, não sei. Bem, a 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, por votação unânime, determinou a remoção de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola do PCC, do Regime Disciplinar Diferenciado. O defensor da tese foi o desembargador Borges Pereira. Se você estiver interessado, a íntegra do voto dele está no site Consultor Jurídico. Para ir diretamente ao voto, clique aqui. Fui buscar essa íntegra e me deparei no mesmo site com o artigo O monstro RDD - É melhor chamar de Regime Diferenciado da Desesperança, de Rômulo de Andrade Moreira. Vale a pena ler, nem que seja para pensar um pouco e continuar discordando dele. Ali se analisa a coisa de um ponto de vista legal. Os juízes julgaram o RDD pelo lado da constitucionalidade. Esse debate é para os especialistas. Para nós, cidadãos leigos, talvez o RDD devesse ser analisado pelo seguinte ângulo: no que exatamente essa modalidade de reclusão/punição ajuda a comunidade a estar e sentir-se mais segura? Ele tem de fato efeito de dissuasão ou é apenas um instrumento de vingança da sociedade contra quem a faz sofrer? Mas é claro que esse debate não vai acontecer. Hoje em dia, o sujeito que quer discutir as condições carcerárias tem logo contra ele o juízo prévio de que está do lado dos bandidos. O que eu gostaria de entender é no que exatamente a piora e a brutalização ainda maior das condições de vida nas já horríveis prisões brasileiras vai melhorar a situação de quem está do lado de fora, tentando ganhar a vida honestamente. Se você sabe, gostaria que me explicasse. Se você provar que o sofrimento adicional dos presos é apenas um efeito colateral dos grandes benefícios que a sociedade aufere com o RDD, fico a favor dele.

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Duas boas (e rápidas) leituras (17/08)

Dois textos interessantes na Folha de S.Paulo de hoje: Encontro em Teerã, de Demétrio Magnoli, e O Poder dos Bancos no Brasil, de Paulo Nogueira Batista Jr.

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quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Um texto do The Times sobre o Hezbollah no pós-guerra (16/08)

Nick Blanford, correspondente do jornal inglês no Líbano, mostra os problemas da milícia depois do cessar-fogo e diz que o Líbano pode entrar em guerra civil, pois não acredita que ela vá se desarmar. Clique aqui para ler.

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Clinton diz que a circuncisão pode ser a resposta para a Aids (16/08)

O pacto entre Abraão e o Senhor, nos tempos ancestrais, é uma arma poderosa contra a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (Aids), diz o ex-presidente americano. Nessa esfera, judeus e muçulmanos, unidos, levam vantagem. Leia no Guardian. Na imagem, o Sacrifício de Isaac (que não aconteceu), de Laurent de LaHire (1650). Os muçulmanos, naturalmente, dizem que o sacrifício seria de Ismael, ainda que isso não conste do Corão.

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terça-feira, 15 de agosto de 2006

Balanço preliminar de uma guerra que não acabou (15/08)

Um bom amigo pede para eu fazer um balanço da guerra entre Israel e o Hezbollah. Bem, eu preferiria esperar o fim dela para fazer esse balanço, mas vou me aventurar. Vou tentar usar a lição aprendida duas décadas atrás numa viagem que fiz à República Democrática e Popular da Coréia (RDPC, conhecida entre nós como Coréia do Norte). Eu trabalhava no Voz da Unidade, o então semanário do também então Partido Comunista Brasileiro (PCB), e viajei com o saudoso João Aveline e com o colega Silvano Tarantelli. Os norte-coreanos sempre foram muito ciosos de sua revolução e de seu líder, Kim Il-sung, que comandou a resistência contra o invasor japonês na Segunda Guerra Mundial. Todas as conquistas e coisas boas do país eram relacionadas ao Grande Líder Camarada Kim Il-sung. Juízos de valor à parte, era uma maneira de manter o país unido e mobilizado em torno do Partido do Trabalho, o único permitido. Bem, depois de uma semana viajando pela RDPC, nosso intérprete já se permitia uma certa intimidade. A ponto de dizer: "Nunca cometa o erro de acreditar em excesso em sua própria propaganda". Foi uma lição preciosa, que procuro seguir. No caso da guerra entre Israel e o Hezbollah, por exemplo. Israel diz que venceu porque o Hezbollah não será doravante um "Estado dentro do Estado" no Líbano e por ter conseguido impor uma zona desmilitarizada na sua fronteira norte. As duas conquistas configurariam uma nova situação no terreno, com o Hezbollah deixando de ser uma ameaça estratégica -até pelas pesadas perdas materiais da guerrilha, estimadas em 600 mortos, outro tanto de feridos e a destruição de boa parte da sua infra-estrutura militar no sul do Líbano. Já o xeque Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, diz que venceu a guerra pois enfrentou de igual para igual o exército israelense e o impediu de atingir os objetivos inicialmente definidos no conflito: a libertação dos dois soldados israelenses seqüestrados e o desarmamento da milícia. Além de ter mantido a capacidade de lançar foguetes em direção ao Estado Judeu até o final das hostilidades. Essa avaliação, naturalmente, é compartilhada pelo Irã e pela Síria, os dois principais aliados do Hezbollah. A verdade deve estar em algum ponto intermediário. Por que eu digo que a guerra ainda não acabou? Não porque vá haver necessariamente uma retomada da beligerância no curto prazo, mas porque muito do desfecho do conflito será decidido pela diplomacia. Como opinei em posts anteriores, o resultado da guerra será ditado por: a) até que ponto o Hezbollah se desarmará e se integrará ao exército libanês; b) quais serão a composição, o comando e as atribuições das forças internacionais a serem dispostas entre os dois países; e c) qual será a atitude do governo do Líbano diante de Israel daqui para frente (se penderá para a esfera de influência da Síria e do Irã ou não). Vamos esperar. Mas já dá para falar sobre algumas frustrações e surpresas nos dois lados. Israel foi obviamente supreendido pela ação do Hezbollah (o seqüestro) e estava despreparado para uma guerra contra a milícia, que levou a vantagem da iniciativa. Não se mobiliza a infantaria assim de uma hora para outra. Quando as tropas terrestres estavam, afinal, totalmente mobilizadas, já era quase tempo de terminar a guerra, diante da pressão mundial crescente em decorrência das vítimas civis causadas pelo uso extensivo do poder aéreo. A alternativa seria prolongar as ações terrestres, mas o risco dessa opção (para Israel) era o governo libanês ficar excessivamente enfraquecido, ao ponto de ser derrubado e substituído por uma coalizão pró-Síria, provavelmente encabeçada pelo Hezbollah. Aliás, a guerra terrestre quase não aconteceu. Basta comparar as perdas israelenses com as de outras guerras. Nesta morreram cerca de 100 militares de Israel. Os números das outras: 6.400 na Independência em 1948-49, 780 nos Seis Dias em 1967, 2.700 no Yom Kipur em 1973 e 700 no Líbano em 1982. A Wikipedia tem uma página com essas informações. Do lado do Hezbollah e de seu principal aliado, o Irã, também houve frustrações. A milícia tinha a convicção de que derrotaria os israelenses na luta corpo-a-corpo e que a população civil de Israel não suportaria a guerra de desgaste promovida por meio dos foguetes Katiusha (e outros). A tese clássica de Nasrallah é que a sociedade israelense seria como uma teia de aranha: bem estruturada, sofisticada, mas que desmancharia com um passar de mão. O fato é que Israel venceu as poucas batalhas de infantaria e as lutas corpo-a-corpo (o Hezbollah não fez prisioneiros) e a sustentação interna da guerra se manteve em níveis altos até o cessar-fogo. Aliás, a principal crítica interna aos líderes israelenses é não terem levado o conflito adiante. Assim, as coisas não aconteceram exatamente da maneira que supunha Nasrallah. Se é fato que a população libanesa mostrou-se resiliente, o mesmo aconteceu com a israelense. Para ganhar uma guerra é preciso, além de outras coisas, estar disposto a morrer para ganhá-la. Nesse aspecto, os dois lados se equilibraram. Os relatos são de que ambos lutaram com coragem e honra. Israel viu de novo que não conseguirá dominar o Líbano, nem que o queira. O Hezbollah viu que não bastam foguetes para inviabilizar o Estado Judeu. Bem, mas os aiatolás do Irã estão dispostos a colocar ogivas nucleares nesses foguetes. Mas aí, meus caros, já estaríamos falando da Terceira Guerra Mundial, com todas as suas conseqüências e os seus horrores. Ou vocês acham que vão ficar só assistindo, à distância e tomando uma cervejinha, a um conflito dessas proporções?

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