domingo, 30 de abril de 2006

Quem vem depois, leva vantagem (30/04)

Postei na seção Textos de outros um artigo do empresário e economista Luiz Carlos Mendonça de Barros ("Um olhar mais profundo"), disponível no site tucano e-agora. Só o fato de ser as duas coisas, economista e empresário, já credencia o autor. Economistas costumam preferir as abstrações em vez de trabalhar a realidade. Muitos deles têm aversão a números, por incrível que pareça. Já empresários precisam remunerar os empregados, pagar os impostos e ainda dar um jeito de sobrar dinheiro no fim do mês. E sempre de olho na concorrência, pois não podem perder mercado. Para o empresário, dar as costas à realidade e cair em divagações é exercício perigosíssimo.
O texto de Mendonça de Barros é expressão dessa dualidade.
Nele fala o empresário: "Vivemos um momento virtuoso, com a inflação controlada, um crescimento econômico elevado para os padrões históricos brasileiros, embora bem menor do que o de outros países emergentes, e uma melhora acentuada na renda dos segmentos mais pobres da sociedade brasileira. Podemos criticar, e meu leitor sabe que tenho feito isso neste espaço, a ausência de muitos ajustes que deveriam estar sendo feitos para aumentar ainda mais essa dinâmica. O desempenho do Brasil está muito aquém do potencial, mas o país está no caminho certo".
Mas fala também o economista tucano: "O valor do novo salário mínimo, medido em termos de relação com o valor da cesta básica, é hoje cerca de 60% maior do que o que vigorava há 12 meses. Isso ocorre apesar de um aumento nominal de apenas 17% neste mesmo período. A diferença corresponde aos efeitos da valorização do real. Ora, a queda da cotação do dólar ocorreu porque o Brasil gera hoje um excesso próximo a US$ 30 bilhões anuais em sua balança de pagamentos. E essa sobra é fruto da expansão expressiva de nossas exportações gerada por uma política de abertura comercial iniciada de forma sistemática nos anos FHC".
Reparem no "apenas". Um aumento nominal de "apenas 17%", quando a inflação vai pela casa dos 5% corresponde a um aumento real de 12%.
Mas o melhor está no final, quando Mendonça de Barros protesta contra Luiz Inácio Lula da Silva. Não pelo presidente errar na política econômica, mas por acertar: "E para mostrar que o discurso atual do presidente Lula é ainda mais leviano, basta dizer que durante décadas ele e seu partido político defenderam a idéia que exportar era uma forma de diminuir a renda dos brasileiros. No caso dos alimentos, isso até era considerado por eles um crime de lesa-pátria. Temos em nossa língua uma palavra que expressa bem o que está sendo praticado pelo presidente: oportunismo".
O texto é a síntese quase perfeita do maior problema comunicacional do PSDB nesta campanha para presidente. Lula não pode estar tão errado assim, se adota e reforça uma política iniciada por FHC. No máximo, pode-se acusá-lo de "oportunismo". Mas, então, por que mudar?
Os tucanos usaram a âncora cambial entre 1994 e 1998, mas promoveram simultaneamente uma farra fiscal. Quebraram a espinha da inflação, mas alimentaram o monstro feroz da dívida pública. A conta veio em 1999, quando tiveram que desvalorizar a moeda e foram impelidos a uma política de austeridade, com superávits primários crescentes.
Lula beneficia-se dos acertos e também dos erros do PSDB na condução da economia. A vida é assim mesmo. Quem vem depois leva a vantagem de alguém já ter trilhado o caminho. Lula aplica simultaneamente as âncoras cambial (monetária) e fiscal, e colhe por isso resultados excelentes na economia. Sim, crescemos menos do que nossos vizinhos, mas até Luiz Carlos Mendonça de Barros sabe que isso acontece porque eles não investem o que nós investimos na área social.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Os meus independentes e os seus (30/04)

O Globo traz hoje reportagem de Ilimar Franco sobre os sindicalistas levados ao governo por Lula. A Folha Online traz reportagem de Marta Salomon e Rogério Pagnan sobre o aumento das verbas oficiais destinadas a entidades como o MST, a CUT e a UNE. São duas ótimas matérias, que nos tranqüilizam. É bom saber que a democracia está em funcionamento no Brasil e que os grupos políticos e sociais (e eventualmente empresariais) de fato começam a revezar-se no poder.
Pois a democracia é isso mesmo. De tempos em tempos, a população escolhe quem vai comandar o Estado. Há uma parte do orçamento e dos cargos que não é influenciada pela mudança, mas há verbas e postos que só existem para atender às demandas trazidas pela turma que ganhou as eleições. Se alguém conhece uma fórmula melhor, que apresente. Aposto que não conseguirá. Churchill já disse que não existe e não foi desmentido, mesmo tendo passado tanto tempo.
Quem um dia negociou formação de chapa em centro acadêmico ou sindicato certamente conhece a piada.
Dois grupos se encontram para discutir a composição da diretoria:
- Nós temos que ter a maioria, pois somos mais fortes - diz o chefe do Partido A.
- Não, a maioria tem que ser nossa, pois nós temos mais apoio na base - retruca o chefe do Partido B.
- Pois então fazemos o seguinte: 40% para nós, 40% para vocês e o resto de independentes - propõe A.
- Está bem - diz B -, amanhã você me diz quem são os seus independentes para entrar na chapa que eu lhe digo quem são os meus.
A piada é velha, mas é boa. A camada tradicionalmente dominante na sociedade brasileira apresenta sua ojeriza à alternância no poder como se fosse a defesa de um suposto "republicanismo". Como se fosse a defesa dos "quadros técnicos" do Estado, contra a "invasão" dos "indicados pelos políticos". É de fazer rir, essa maneira "nobre" de não querer largar o osso, essa resistência a que os novos governantes exerçam democraticamente o poder conseguido nas urnas.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Publique-se! (30/04)

A Folha Online publica hoje entrevista de Sérgio Dávila com Edward Wasserman, do departamento de jornalismo e comunicação de massa da universidade Washington and Lee, em Lexington, na Virgínia (EUA). Diz o repórter que, segundo o especialista em ética jornalística, "a imprensa tem a obrigação de conseguir e publicar informações que são relevantes para o público. Tribunais e autoridades que cuidem melhor de sigilos protegidos pela lei: a função e os interesses da imprensa são outros".
O assunto já havia sido tratado aqui neste blog em O jornalismo de torcida e A Revolução dos Bichos, em 18 de março, sobre o mesmo acontecimento abordado por Dávila com Wasserman: o fato de a revista Época ter publicado os dados bancários de Francenildo Costa. A revista foi atacada por outros veículos como se tivesse algo a ver com a quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro.
Um bom assunto para a avaliação do trabalho da imprensa na crise.
Como diz o ditado, padaria só deve vender fiado no dia em que banco fizer pãozinho. Imprensa é para publicar. Eventuais crimes relacionados à obtenção da informação devem ser investigados pela polícia. Jornalista e policial são duas profissões distintas. De vez em quando as pessoas se esquecem disso.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

sábado, 29 de abril de 2006

Cresce a adesão a sindicatos na América do Sul (29/04)

O site de comunicação alternativa IPS (Inter Press Service) traz extensa reportagem sobre o movimento sindical no Brasil, Argentina, Uruguai e Chile, países com governos de esquerda e nacionalistas. Vale a pena ler o texto de Gustavo González, que mostra o crescimento da sindicalização entre os trabalhadores desses países.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

A lendária sorte de Itamar (29/04)

Alon Feuerwerker
(Publicado no Correio Braziliense em 30 de abril de 2006)

O ex-presidente Itamar Franco balança entre enfrentar uma campanha presidencial ou buscar a legenda para o Senado em Minas pelo PMDB. Enquanto o mineiro não se decide, seus adversários potenciais cruzam os dedos. Os inimigos de Itamar sabem que ele pode ter vários defeitos, mas entre eles não está o azar. A trajetória desse político de Juiz de Fora é uma incrível sucessão de vitórias, geralmente obtidas em cenários desfavoráveis. Como o personagem de Tom Hanks, Itamar é um Forrest Gump da política brasileira.
Em meados dos anos 80, Tancredo Neves era o governador de Minas e trouxera para dentro do Palácio da Liberdade seu neto Aécio, então com pouco mais de 20 anos de idade. Certo dia, um jornalista perguntou ao ex-ministro de Getúlio Vargas e João Goulart por que escolhera o neto para seu sucessor político. "Em política é preciso ter estrela. O Aécio tem estrela, como o Itamar". Tancredo sabia do que falava.
Em 1974, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), único partido de oposição permitido no regime militar, não se recuperara da grande derrota na eleição de quatro anos antes, a primeira depois do AI-5. Havia quem propusesse a autodissolução da legenda e a maior parte da esquerda ainda sonhava com a via armada para chegar ao poder. As perspectivas para as eleições de novembro daquele ano não poderiam ser mais sombrias.
Pouco antes da convenção do MDB, o então prefeito de Juiz de Fora, Itamar Franco, procura o chefe político da oposição em Minas, Tancredo, e lhe pergunta se tem intenções de concorrer ao Senado. "Não vou, porque não sou burro", responde Tancredo. "Pois então eu sou candidato", diz Itamar. "Você é louco, não vai ter mais de 300 mil votos", vaticina Tancredo.
A história é conhecida. O MDB elegeu não apenas Itamar, mas 16 senadores entre os 22 possíveis e esmagou a Aliança Renovadora Nacional (Arena), o partido que apoiava o regime. A oposição conseguiu também eleger mais de um terço da Câmara dos Deputados e fechou o caminho para a institucionalização da ditadura por vias constitucionais.
Em 1980, o mandato de senador de Itamar caminhava para o fim e sua reeleição era improvável. A reforma partidária introduzida pelo general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil, dividira a oposição e fizera nascer um novo partido de centro, o Partido Popular (PP), cuja seção mais forte era a mineira. Ali, o PP juntara dois adversários históricos, Tancredo e o ex-governador de Minas Magalhães Pinto. Era a aliança do PSD com a UDN, virtualmente imbatível nas eleições para governador dois anos depois. A Itamar estava reservado o destino de concorrer a governador pelo novo PMDB e perder para Tancredo.
Mas veio a vinculação de votos, uma modalidade radical do que hoje se chama verticalização. O eleitor não poderia votar em partidos diferentes para os vários cargos em disputa em 1982, ano em que aconteceriam eleições de vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, senador e governador. O PP percebeu que caíra numa esparrela, pois não tinha bases municipais fortes. Decidiu incoporar-se (fundir-se) ao PMDB. Itamar aceitou que Tancredo fosse o candidato a governador, desde que ele concorresse novamente ao Senado. A aliança foi fechada e ambos se elegeram.
No fim da década de 80, novamente o mandato senatorial de Itamar corria contra o relógio. Ele estava aparentemente sem saída. Em 86, deixara o PMDB para disputar, pelo PL, o governo de Minas. Perdera para um ex-prefeito peemedebista de Contagem, Newton Cardoso, que lhe tomara a legenda. Então, em 89, aceitou ser vice do então governador de Alagoas, Fernando Collor. De novo a história é conhecida. Collor elegeu-se, sofreu o impeachment e Itamar virou presidente. Mesmo ridicularizado pela imprensa, especialmente a paulista, com sua "república do pão-de-queijo", Itamar acabou o mandato com alta avaliação e elegeu o sucessor, Fernando Henrique Cardoso, o ministro da Fazenda do Plano Real.
Quatro anos depois, em 98, FHC operou de todas as maneiras para impedir a candidatura de Itamar a presidente pelo PMDB. Conseguiu. O mineiro trocou então uma derrota certa para o Planalto por uma vitória na eleição de governador em Minas, onde em 2002 ainda ajudaria a eleger o sucessor, Aécio Neves, derrotando o algoz de 1986, Newton Cardoso. E onde daria uma contribuição decisiva à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, atraído para o apoio ao petista pelo então presidente do PT, José Dirceu.
Quando assumiu o cargo, no começo de 2003, o governador Aécio Neves foi muito pressionado por assessores para jogar na conta do governo Itamar as dificuldades financeiras que encontraria pela frente. O neto de Tancredo nunca aceitou esses conselhos. "Não me indisponham com o Itamar", dizia sempre aos conselheiros. À luz da biografia do ex-prefeito de Juiz de Fora, Aécio tinha suas razões para essa prudência.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

O que mudou no PT (29/04)

Carlos Alberto Parreira já disse um dia que o gol é só um detalhe no futebol. Mas é o que decide. Em geral, a verdade e a sabedoria, assim como seus antípodas, moram nos detalhes.
O PT está reunido em Sâo Paulo no seu 13º Encontro Nacional. A reunião pode ser acompanhada pelo site www.pt.org.br. O que mais vai fazer barulho é o debate sobre as alianças com partidos que não são de esquerda. Esse é um problema para o PT desde a fundação.
Mas, onde está o detalhe? Está na escassez de posições programáticas distintas dentro do partido. Até este encontro, os petistas adoravam fragmentar-se em pelo menos uma dezena de plataformas, em inesgotáveis votações para medir a situação de forças na legenda.
Quem entrar na página das propostas em debate para o 13º Encontro Nacional do PT vai encontrar só duas posições: a oficial (dividida em dois textos) e uma do grupo trotsquista O Trabalho, que na última eleição interna não reuniu nem 2% dos votos dos filiados.
Sinal dos tempos. A adversidade educa. O PT vai deixando se ser um partido de tendências, talvez assustado com a ferocidade dos adversários. Quem diria que um dia PSDB e PFL dariam essa mãozinha ao partido de Luiz Inácio Lula da Silva?

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

sexta-feira, 28 de abril de 2006

Uma promessa e tanto (28/04)

O candidato do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin, disse aos jornalistas que, se eleito, vai zerar o déficit fiscal, que gira em torno de 3% do PIB. Ou seja, o superávit primário teria que alcançar, mantidos constantes os demais fatores, cerca de 7% do PIB, no mínimo. Talvez um pouco menos, por causa da provável redução das despesas com juros.
É uma promessa e tanto. Como não faz sentido cortar nos investimentos, o ataque tem que ser ao custeio. Ou seja, na Previdência (salário-mínimo), em pessoal e nos gastos sociais, principalmente Saúde e Bolsa Família. Dá para fazer? Dá. Mas será preciso montar no Congresso uma base parlamentar disposta a matar e, principalmente, morrer pelo presidente.
Alckmin é bom nisso, governou seis anos sem oposição significativa na Assembléia. Sabiamente, enterrou todas as CPIs que o PT tentou instalar. Já disse aqui em outro texto (O que é governar no Brasil?, de 29/03) que as duas tarefas principais de qualquer presidente brasileiro, hoje em dia, são fazer superávit primário e abafar CPIs.
Por falar em Alckmin, pressinto que o estão subestimando. Dêem uma olhada em sua biografia. A coisa que o ex-governador de São Paulo mais fez na vida foi ganhar eleições. A estatística dele é bem melhor que a de Lula.
O metalúrgico petista disputou seis vezes. Perdeu quatro (presidente (3) e governador) e ganhou duas (deputado federal e presidente). O anestesista tucano disputou nove. Ganhou oito (vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal (2), vice-governador (2) e governador). Perdeu, raspando, só uma, para prefeito de São Paulo em 2000.
Vai ser uma briga boa de assistir.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

quinta-feira, 27 de abril de 2006

Dúvidas sobre o voto aberto dos parlamentares (27/04)

Inseri na seção Textos de outros (clique aqui ou role a página para baixo) artigo do cientista político Fábio Wanderley Reis, publicado na Folha de S.Paulo de 26/04. Em meio ao recente festival de certezas sobre o primado da "opinião pública" sobre o Estado de Direito, o texto ("Voto secreto, opinião pública e democracia") funciona como contraponto.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

O mercado resolveu a dúvida (27/04)

Da sinopse de imprensa de hoje da Consultoria Tendências: "O Ibovespa fechou ontem pela primeira vez acima dos 40 mil pontos (40.422), no 19º recorde do ano, em alta de 1,69% e com giro de R$ 2,929 bilhões. O resultado foi puxado pelo bom superávit primário no primeiro trimestre, pela inflação baixa e pela calma no cenário externo. O dólar pronto fechou em queda de 0,42% para R$ 2,118 (...), enquanto os juros futuros projetam queda. O risco país recuou 2,19%, para 223 pontos (...)."

Pronto, está resolvida a dúvida de ontem, exposta aqui neste blog no post Jornalismo Plural.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Somos brasileiros e sul-americanos. Conformem-se (27/04)

Não é novidade que somos um país de costas para os nossos vizinhos. E, cinco séculos depois do Descobrimento, ainda estamos concentrados no litoral. Tentaram resolver esse problema com a mudança da capital para Brasília. Melhor seria se a Independência tivesse sido acompanhada da Abolição (quase sete décadas entre ambas) e se a República tivesse trazido com ela a Reforma Agrária (mais de sete décadas, de Deodoro da Fonseca ao Estatuto da Terra do presidente Castello Branco). Mas, não adianta chorar sobre o leite derramado. Somos produto de nossa história, para o bem e para o mal.
Principalmente os paulistas (de nascimento ou adoção), identificamo-nos mais com Miami, Nova York ou Paris do que com o Nordeste. Nada a ver com a cor ou a origem européia. Pois os gaúchos, os catarinenses e os paranaenses são brancos, de sobrenomes alemães e italianos, e lideram há três décadas a ocupação da fronteira agrícola, no Centro Oeste e no Norte. Há algo que ainda não foi bem explicado nesse cosmopolitismo cético e blasé que se respira em São Paulo. Ao observar a aversão que a inteligência de São Paulo dedica ao Brasil real, quase não dá para acreditar que as terras paulistas tenham sido no passado a origem dos bandeirantes que formaram as fronteiras do Brasil moderno.
Outro dia um amigo tateou uma explicação para isso. Ele acha que São Paulo nunca se recuperou da derrota de 1932, na Revolução Constitucionalista, contra Getúlio Vargas. Nunca aceitou ter que dividir o poder federal com o “atraso”. Azar. Aqui, como na África do Sul de Nelson Mandela, a democracia foi (re) construída com base no “um homem um voto”. São Paulo tem menos de um quarto do eleitorado. Se quer mandar no Brasil, tem que liderar, e não achar que pode impor o que quiser.
Liderar em vez de impor é uma atitude sábia. É o que o Brasil tenta -muitas vezes tateando- fazer com os vizinhos. Sempre foi importante, mas agora é mais. Porque estamos cercados de países que assistem à emergência de novas forças sociais e políticas. E que desconfiam de nós. Desconfiam de que só não somos mais imperialistas por falta de oportunidade. E o pior é que estão certos. O Brasil vê os vizinhos, em especial os andinos (onde há grande populações de origem indígena), mais ou menos como São Paulo vê o Nordeste.
Só seremos líderes na América do Sul se aceitarmos que nossos vizinhos têm o direito à auto-determinação que desejamos para nós próprios. Há uma gritaria na praça desde que o presidente da Bolívia, Evo Morales, decidiu praticar lá o que já fazemos aqui: nacionalizar as reservas de petróleo e gás. Há também quem ache um absurdo as empresas brasileiras terem que respeitar a lei boliviana. E o gasoduto do venezuelano Hugo Chávez é tratado com o preconceito e a irracionalidade que mal disfarçam o ódio ao presidente do país vizinho.
Quando Angola libertou-se do domínio português, o Brasil correu a reconhecer a independência do novo país. Na época, éramos um regime militar de direita enquanto o novo governo angolano era comandado pelos comunistas do MPLA. Esse gesto ousado do Itamaraty ajudou muito a que nos tranformássemos em um parceiro ainda mais influente das ex-colônias africanas de Portugal. Ajudou a escancarar-nos as portas da África. É uma página brilhante de nossa história diplomática e uma das marcas patrióticas da passagem do general Ernesto Geisel pelo Palácio do Planalto.
Aprendam com Geisel. Deixem o interesse nacional falar mais alto que a ideologia. Respeitem Chávez, Morales e o peruano Ollanta Humala (que não é favorito contra Alan García). Atrás deles existem povos que decidiram conduzir os seus próprios destinos. Não vão querer trocar o diktat de Washington pelo da Avenida Paulista.
Resmunguem à vontade, mas conformem-se. Somos brasileiros e sul-americanos. Isso não vai mudar. O mundo é que mudou. O colonialismo morreu há mais de meio século, ainda que haja entre nós quem não tenha percebido.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Jornalismo plural (26/04)

Está em O Globo de hoje, cuja manchete é "Ano eleitoral faz Lula gastar R$ 7,4 bi a mais no trimestre":
"O preço de abrir o cofre
O quadro de deterioração das contas públicas, antecipado por vários especialistas e entidades nas últimas semanas, foi confirmado ontem pelo próprio governo federal. Tesouro Nacional e Banco Central (BC) gastaram no primeiro trimestre deste ano R$ 7,4 bilhões a mais do que no mesmo período do ano passado com itens como pessoal, custeio da máquina e benefícios assistenciais, provocando uma redução no superávit primário — economia para o pagamento de juros da dívida — de 3,89% do Produto Interno Bruto (PIB) entre janeiro e março de 2005 para 3,06%.
Foram economizados para quitar encargos R$ 14,607 bilhões, ou R$ 2,432 bilhões a menos do que no mesmo período do ano passado. Também pesou na piora do indicador — o termômetro das condições fiscais do país, observado por todos os investidores internacionais — o aumento do déficit da Previdência no período (R$ 2,6 bilhões). Além disso, enquanto as despesas cresceram 14,5%, as receitas subiram apenas 9,2%.
O resultado do trimestre caiu apesar do aumento da economia do governo em março. O superávit do mês foi de R$ 7,070 bilhões, R$ 514 milhões superior ao de março de 2005 e praticamente o dobro do superávit realizado em fevereiro deste ano, que foi de R$ 3,6 bilhões. (...)"
Clique aqui para ler a reportagem completa de O Globo.
Você pode ler sobre o mesmo assunto na Folha de S.Paulo, cuja manchete é "Gasto federal cresce 14% no início do ano eleitoral":
"Gastos do governo sobem 14,5% no 1º tri -
Despesas aumentaram R$ 11,3 bi no período em comparação a 2005; dispêndio com pessoal e máquina cresce R$ 6,9 bi - Os gastos do governo federal cresceram 14,5% nos três primeiros meses de 2006, ano eleitoral, segundo dados divulgados ontem pelo Tesouro Nacional. Embora ainda não seja oficial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá ser candidato à reeleição. O aumento nas despesas poderá ajudar no seu desempenho eleitoral.
Em números, as despesas da União, da Previdência Social e do Banco Central aumentaram R$ 11,3 bilhões no trimestre e chegaram a R$ 88,879 bilhões no final de março -contra R$ 77,621 bilhões no mesmo período do ano passado. Esse desempenho foi influenciado pelos gastos com pessoal e manutenção da máquina pública, que cresceram no período R$ 6,9 bilhões.
O crescimento dos gastos classificados como outras despesas com custeio e capital, que inclui os programas sociais como Bolsa-Família e manutenção dos ministérios, foi de R$ 2,1 bilhões no primeiro trimestre deste ano, aumento de 13,8% sobre o mesmo período do ano passado. (...)"
Clique aqui para ler a reportagem completa da Folha de S.Paulo.
Ou você pode preferir ler no Valor Econômico, jornal dos grupos Folha e Globo:
"Março tem superávit superior ao de 2005 -
Depois do susto de janeiro, o governo central conseguiu em março, pela segunda vez consecutiva, fechar as contas do mês com superávit primário superior ao de março do ano passado. As receitas nãofinanceiras do Tesouro, Previdência Social e Banco Central superaram as despesas em R$ 7,07 bilhões, ante R$ 6,55 bilhões em março de 2005.
Quando se comparam valores acumulados em cada ano, o superávit de 2006 ainda é menor. Mas a diferença de resultado primário em relação a 2005, que foi de R$ 4,1 bilhões em janeiro, e recuou para R$ 3,03 bilhões em fevereiro, caiu ainda mais, para R$ 2,43 bilhões em março. Como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), o superávit primário acumulado em três meses pelo governo central caiu de 3,89% em 2005 para 3,06% em 2006.
(...) As despesas cresceram de R$ 25,51 bilhões para R$ 27,99 bilhões, principalmente por expansão de gastos obrigatórios. Dos R$ 2,48 bilhões desembolsados a mais do que em março de 2005, só os benefícios da Previdência Social e a folha de pessoal e respectivos encargos responderam por R$ 2,31 bilhões.
(...) Dentro da diferença total de R$ 11,26 bilhões, a variação de gastos efetivamente discricionários (que o governo pode cortar) respondeu por apenas R$ 1,5 bilhão aproximadamente, cerca de 13%. Ainda que pequena diante do total, o governo tentou evitar que a ampliação de despesas discricionárias se concentrasse em custeio. Preferiu privilegiar investimentos, que, sozinhos, foram responsáveis por dois terços da ampliação. Proporcionalmente ao que ocorreu no período de janeiro a março de 2005, o volume de investimentos deu um salto, passando de R$ 1,3 bilhão para cerca de 2,3 bilhões no primeiro trimestre do ano em curso (...). (...)"
Clique aqui para ler a reportagem completa do Valor Econômico.
Mas você pode ainda preferir ler o que os analistas das consultorias dizem a respeito do assunto para seus clientes. "Primário acima do esperado indica que não há aumento preocupante da despesa" afirma a consultoria Tendências. E complementa: "O resultado primário do governo central, divulgado ontem pelo Tesouro Nacional, ficou ligeiramente acima da nossa expectativa (R$ 6,5 bilhões) e registrou um superávit de R$ 7,1 bilhões. A maior parte da disparidade decorre do resultado da Previdência Social, que registrou um déficit de R$ 2,6 bilhões, cerca de R$ 400 milhões abaixo do esperado. (...)"
Ou seja, há interpretações para todos os gostos. Globo e Folha dizem que o governo gasta mais porque estamos em ano eleitoral. Valor e Tendências relativizam. Se você quiser saber quem está com a razão, acompanhe o mercado financeiro e o Risco Brasil. Se houver de fato descontrole nos gastos, os juros futuros vão subir, assim como o deságio dos títulos da dívida brasileira. Você sabe: o mercado vota com os pés.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

terça-feira, 25 de abril de 2006

Geraldo Alckmin agrada no Nordeste (25/04)

Em meio ao ceticismo que cerca sua candidatura, o tucano Geraldo Alckmin vem deixando boa impressão nos lugares onde passa. Foi assim no Rio Grande do Norte. Mesmo aliados (não petistas) de Luiz Inácio Lula da Silva admitem que Alckmin tem entrado com desenvoltura no mercado do nordeste, que o senso comum supõe ser cativo de Lula. Fica o registro.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Dormindo com o inimigo em Berlim (25/04)

Social-democratas (SPD) e democrata-cristãos (CDU-CSU) coabitam a contragosto no governo alemão, já que o eleitorado se dividiu tanto nas últimas eleições que nenhum dos dois pôde formar sozinho uma coalizão estável. Moram na mesma casa e dormem na mesma cama, mas de faca nos dentes. Cada um procura afinar o discurso para livrar-se do outro em 2009.

Clique aqui para ler no Financial Times.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Velhos adversários se aproximam de Kirchner (25/04)

O presidente da Argentina, Néstor Kirchner, navega com vento a favor. Até os inimigos ensaiam aproximar-se dele e ajudá-lo na reeleição.

Clique aqui para ler no Buenos Aires Herald.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Alan García lidera, apertado, no segundo turno contra Ollanta Humala (25/04)

A primeira pesquisa de segundo turno no Peru mostra vantagem de Alan García (APRA, centro-esquerda) contra Ollanta Humala (nacionalista): 54% a 46% dos votos válidos. O levantamento é do instituto Datum.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Uma tirinha para os ministros de Lula. Clique na imagem para ampliar (25/04)

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

segunda-feira, 24 de abril de 2006

Há dez anos, o Brasil OnLine ajudava a fundar a Internet verde-amarela (24/04)

Vai ser dia 6 de maio, em São Paulo, o reencontro desse bravo grupo de fundadores da Internet brasileira. O velho Brasil OnLine vai reviver num restaurante da Freguesia do Ó. Aquele mesmo onde almoçávamos. A foto acima (clique para ampliar) foi tirada dias antes de o Grupo Abril encerrar a operação, em setembro de 1996, e transferir os ativos para o Grupo Folha. O Brasil OnLine acabou absorvido pelo Universo Online (UOL). Mas o que aprendemos ali naqueles poucos meses garantiu a muitos de nós o ganha-pão de lá para cá, além de nos vacinar contra a obsolescência profissional. Caros amigos, é um orgulho estar com vocês na foto e será lindo reencontrá-los.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Uma dúvida sobre a candidatura do PMDB (24/04)

O senso comum diz que uma candidatura presidencial do PMDB interessaria mais a Geraldo Alckmin do que a Luiz Inácio Lula da Silva, pois aumentaria as chances de a eleição ser decidida só no segundo turno. É isso que leva os governistas a olharem de lado para as pretensões de Anthony Garotinho e, agora, Itamar Franco. Mas há gente do governo que pensa diferente. Nos estados, o PMDB tende mais a alianças com o PSDB do que com o PT. Por esse ângulo, uma candidatura peemedebista ao Planalto inibiria a aproximação regional com os tucanos. Melhor ainda se o candidato fosse Itamar, aliança certa com Lula num eventual segundo turno contra Alckmin. Mas há um risco: Itamar ir ele próprio ao segundo turno e unir em torno de si todas as forças políticas antipetistas. Garotinho teria mais dificuldades para conseguir essa união. O cenário de Itamar na reta final consegue assustar gente importante dos dois lados, do governo e da oposição.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

domingo, 23 de abril de 2006

O eleitor flutuante e decisivo (23/04)

Qual é a relação que o eleitor estabelece com os candidatos? Uma parte do eleitorado vota por paixão, por torcida. O Fluminense lotava estádios mesmo quando estava na Terceira Divisão. Assim é o eleitor dito engajado. Nesse nicho, Luiz Inácio Lula da Silva e o PT levam vantagem. As pesquisas mostram que o partido, mesmo varado pelas flechadas da crise, tem um piso de cerca de 20%. Os outros estão longe. Já o colchão do presidente repousa na parte de cima do beliche. Não há levantamento que dê a Lula menos de um terço do eleitorado, firme.

Não deveria haver supresa nisso. Essa fatia era o que Lula tinha quando propunha romper com o FMI, não pagar a dívida externa e desapropriar terras produtivas. O petista caminhou para o centro e levou junto a sua turma. A razão? Não apareceu, até agora, outro líder popular no Brasil que possa contrastar o magnetismo do ex-metalúrgico. Quem está na frente dessa corrida para desafiar Lula é Heloísa Helena. Mas a senadora tem uma desvantagem importante: construiu sua carreira política num estado pequeno, Alagoas, enquanto Lula é o mais paulista dos políticos nordestinos. Se neste ano ela fizer uma campanha inteligente, nacional, e chegar perto dos 10%, vai dar trabalho ao PT no futuro, quando a luz de Lula começar a se apagar.

Mas se Lula tem um terço do bolo, outro grupo do mesmo tamanho vota até num poste, desde que não seja Lula. É o que, à falta de palavra melhor, chamaríamos de elite. Ela inclui quem pensa como os bem postos na vida, ainda que sociologicamente não pertença ao topo da pirâmide. Há gente de direita entre os "pobres", assim como há pessoas de esquerda entre os "ricos".

No meio desse sanduíche sócio-político repousa o que os americanos classificam como o swing vote, o voto flutuante. Na década de 80, o republicano Ronald Reagan virou presidente, governou os Estados Unidos por oito anos, fez o sucessor (George Bush, pai), consolidou o liberalismo na economia e acelerou a corrida armamentista que quebrou a espinha da União Soviética. Fez tudo isso com o apoio dos "democratas de Reagan".

Já o Partido Democrata, desde a morte de John Kennedy em 1963, elegeu três presidentes, todos do Sul conservador: Lyndon Johnson (Texas), Jimmy Carter (Georgia) e Bill Clinton (Arkansas). E, assim como havia os democratas de Reagan, Clinton também contou com a ajuda de eleitores republicanos para ser o único democrata reeleito desde os anos 60.

Lula está na frente das pesquisas porque tem com ele a maioria do voto pragmático. No Brasil, como nos Estados Unidos, quem decide a eleição não é quem se apaixona pelo candidato, vai a seus comícios, chora nos seus discursos e tenta convencer os outros a votarem nele. É o sujeito que poderia votar tanto em um como no outro, e que decide única ou principalmente por suas conveniências.

O eleitor vota como o acionista de uma empresa contrata o principal executivo para dirigi-la: sabe do que precisa e escolhe quem mais parece se encaixar no papel. Ou vota como o cliente em dúvida sobre duas redes de varejo para comprar seu televisor novo. É um mix de fatores: preço, garantia, assistência técnica e confiabilidade -do produto e de quem o vende. Assim funciona a cabeça do eleitor. Nós, profissionais do mercado das idéias, até podemos ficar horrorizados, mas a política democrática é isso mesmo: varejo. E não adianta reclamar, porque as tentativas de substituir o varejo pela paixão são a estrada para as ditaduras.

Lula está na frente das pesquisas porque o brasileiro médio vive hoje melhor do que vivia no governo de Fernando Henrique Cardoso. Os tucanos argumentam que o petista só conseguiu os resultados que alardeia porque os alicerces foram construídos nos dois governos do PSDB. Em grande parte é verdade. Mas, do ponto de vista eleitoral, esse argumento tem pouco efeito. Serve mais como arma para munir de razões quem já vai votar em Geraldo Alckmin. Ajuda pouco na tarefa de minar o voto do presidente.

De novo, é como numa empresa. Um certo executivo a comandou durante oito anos. Pegou o bastão com prejuízo operacional, gordura de todo tipo e descontrole administrativo. Fez um baita downsizing, o prejuízo virou lucro operacional, a empresa era um hipopótamo e se transformou num tigre. Por fadiga de material, os acionistas decidiram substituí-lo. O novo comandante avançou: a empresa agora gera caixa e está tão bem que distribui mais dividendos e oferece aos empregados melhores benefícios do que toda a concorrência.

O executivo da fase heróica tem o "agradecimento pelos serviços prestados" e o desejo de "boa sorte em seus novos desafios", mas dificilmente será chamado a substituir o atual. Ou os tucanos conseguem provar ao Brasil que seu governo será (notem o verbo no futuro) melhor que o de Lula, ou se arriscam a ficar fora até de um eventual segundo turno, se o PMDB tiver mesmo candidato, como parece que vai.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

sábado, 22 de abril de 2006

Uma revolução de manual, no Nepal (22/04)

A receita é clássica. Uma monarquia absolutista, restaurada após breve período de democracia constitucional. Uma guerrilha comunista que promove a guerra popular e mobiliza os camponeses sedentos por terra. Uma insurreição urbana que, na falta de operários, leva os jovens à rua para enfrentar o aparato repressivo. O rei tenta uma solução intermediária, mas o movimento se radicaliza e pede o fim da monarquia.

O Nepal está ardendo. Clique aqui para ler.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Oposição recorre a ex-guerrilheiro contra Chávez (22/04)

Um ex-guerrilheiro e ex-comunista, Teodoro Petkoff (foto), é a esperança do antichavismo na Venezuela nas próximas eleições presidenciais. Leia reportagem da Reuters, de Greg Brosnan. A direita venezuelana não tem um líder que a unifique. Os quadros políticos da elite naquele país entraram em colapso com o fracassado golpe de 2002 e com a derrota no plebiscito para decidir a permanência ou não de Hugo Chávez no poder. A oposição espera que as origens de esquerda de Petkoff ajudem-no a conquistar votos entre os mais pobres.

Clique aqui para uma biografia de Petkoff.

Clique aqui para uma biografia de Hugo Chávez.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

quinta-feira, 20 de abril de 2006

O antipetismo à PT e a bomba de nêutrons na política (20/04)

A Bomba de Nêutrons é uma arma que mata as pessoas mas não destrói as coisas, a infra-estrutura. Nos negócios, quem acabou ganhando o apelido de Neutron Jack foi o ex-CEO (Chief Executive Officer, o executivo principal) da General Electric, Jack Welch. Ele adorava demitir gente como solução para todo tipo de problema. Tem empresas que são assim. O plano deu errado? Cortes no pessoal.

Depois os liberais se lamentam quando os assalariados saem às ruas contra a flexibilização das leis trabalhistas. Sempre que volta a conversa sobre mudar a lei para facilitar contratações, as pessoas que vivem de salário vão logo tirando a faca (quando têm faca). Desconfiam que é conversa mole para facilitar não contratações, mas demissões. Em geral têm razão.

O método da bomba de nêutrons aplicado à política foi largamente empregado pelo Partido dos Trabalhadores em sua infância e adolescência. Durante duas décadas, o PT viveu e engordou à custa de atacar indiscriminadamente os adversários. Não apenas com o objetivo de derrotá-los, mas também de destruí-los. Em geral, pregava-lhes na testa o carimbo da corrupção e os acusava de não se preocuparem com os pobres.

Alguns dos alvos mereciam, outros não. Mas a coisa acabou funcionando. A mensagem emplacou. Diziam os petistas: as instituições são o de menos, troquem os governantes por outros políticos, petistas, e os problemas do Brasil estarão resolvidos. Muita gente acreditou e hoje está triste, por perceber que os do PT são mortais, comuns. Reclamações com Jean-Jacques Rousseau. Foi ele quem começou essa história de que o homem é bom até que a sociedade o estrague. Se você comprou a tese do petista "bom selvagem" e não quer culpar a si mesmo, culpe Rousseau.

Lembro de um adesivo que circulava em carros no começo dos anos 80, quando o PT foi fundado. "Queremos o poder", dizia. Tinha outra turma, que preferia o "queremos a democracia". Eu gostava mais dessa última mas ela não fez muito sucesso. Acho que a mensagem do PT era mais direta. Democracia é uma palavra que só adquire valor para nós, brasileiros, quando a perdemos. Mais ou menos como respirar. Você só percebe como é importante quanto falta o oxigênio. No dia-a-dia você nem nota que está respirando.

Mas voltemos ao PT. Ele chegou finalmente ao poder em 2002 e as pessoas começam a perceber que o problema do Brasil não é, nem nunca foi, colocar as "pessoas certas" (no caso os petistas) nos lugares certos. Até porque não existem as tais "pessoas certas". O que existe (ou não) são instituições que funcionam (ou não). Tem gente e países que entenderam isso há mais de dois séculos (clique na imagem para ampliar as esculturas de George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln no Monte Rushmore). Esses países deram certo. Ainda estaria em tempo de imitá-los.

Mas não deve haver otimismo excessivo a respeito. Depois do strip-tease do PT pós-Roberto Jefferson, o que está na moda é o antipetismo à moda do PT. Ou seja, dizer que todos os problemas do Brasil estarão resolvidos se o partido for removido do poder e substituído por tucanos e/ou pefelistas, os novos (velhos) candidatos a salvadores da pátria. É a volta não do cipó de aroeira, mas da bomba de nêutrons no lombo de quem mandou dar. O eleitor, com razão, parece estar desconfiado de já ter visto esse filme e anda ressabiado. É o que mostram as pesquisas. O voto está parado no ar.

Construir instituições nunca esteve, nem está, com nada entre os nossos políticos. Já vai um ano da "mais grave crise política da História do Brasil" [reparem que a mais recente é sempre a mais grave; e depois ainda dizem que o Brasil sai melhor de cada crise; como, se a última é sempre a pior?] e a montanha só pariu um rato aleijado (desculpem o politicamente incorreto). É a tal minirreforma política de autoria do Senado. Sobre ela, vale o que tem dito o jornalista e blogueiro Fernando Rodrigues. Para ele, no Brasil o mais sábio é não fazer reforma política nenhuma, porque quando se faz é para pior.

O próximo presidente vai assumir com apoio, firme, de no máximo um terço da Câmara dos Deputados. É o que deve eleger a coligação vencedora. Seja Luiz Inácio Lula da Silva, Geraldo Alckmin ou Anthony Garotinho (Itamar Franco). O próximo presidente vai ser refém do Senado, que sentiu o gosto de sangue com a CPI dos Bingos e não vai querer largar do osso. O caixa 2 terá corrido solto na campanha eleitoral, o que fará dos políticos eleitos seres débeis, completamente vulneráveis a denúncias. O novo (velho) presidente vai chegar prometendo reformas, mas vai perder velocidade rapidamente e atolar-se em negociações infindáveis com um Congresso insaciável. Se for Lula, será um lame duck em janeiro de 2007. Se for um outro, será candidato à pasmaceira ou ao impeachment.

Mas você sempre pode torcer para que eu esteja errado. Quero estar certo, mas é só por vaidade (lembrem-se: sou jornalista). Por patriotismo, vou rezar para que no ano que vem você volte aqui e tire um sarro da minha cara.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Supervalorização da moeda, o primeiro grande desafio de Bachelet (20/04)

O Chile é o maior produtor mundial de cobre. A China suga o mercado mundial do metal, faz os preços subirem e inunda o mercado chileno de dólares. Por causa disso, o peso ganha valor, estimulando as importações e desestimulando as exportações. Para os consumidores, ótimo. Para os produtores (exportadores) de vinho, uvas, salmão e outros produtos, a ameaça de crise. Problema para a presidente do Chile, Michelle Bachelet, resolver. Clique aqui para ler a reportagem completa, da Reuters, no Washington Post.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

O que pensa quem faz o programa econômico de Alckmin (20/04)

Postei na seção "Textos de Outros" (abaixo) o trabalho mais recente do economista Samuel Pessoa, indicado pelo presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), para fazer o programa econômico de Geraldo Alckmin. Transcrevo um trecho das conclusões:

"O próximo ponto da agenda de pesquisa é tentar entender melhor o fenômeno da forte e persistente queda de produtividade dos países da América Latina e em especial do Brasil. Há evidência de que a queda da produtividade ocorreu simultaneamente a um processo de sofisticação da matriz produtiva e de pressão sobre o gasto público resultante de políticas de transferência de renda para grupos promovida após a redemocratização da economia. A maior sofisticação da economia requereu um processo simultâneo de evolução institucional que nossa sociedade não foi capaz de arbitrar. A elevação da arrecadação do setor público para fazer frente a gastos de transferência elevou o peso morto da tributação sem elevar o benefício de uma melhor oferta de infra-estrutura e bens públicos em geral. Ambos os efeitos – elevação da carga tributária sem contrapartida de serviços e forte defasagem no desenvolvimento institucional – produziram forte elevação do custo de transação (...)."

Clique aqui para ler na íntegra o texto Perspectivas de Crescimento no Longo Prazo para o Brasil: Questões em Aberto.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Desinformação, ignorância e a popularidade de Lula (20/04)

Na Carta Política que a consultoria Tendências enviou esta semana aos seus clientes, há uma análise do economista José Márcio Camargo sobre a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre os mais pobres, com o título acima. Transcrevo um trecho:

"(...) em nossa opinião, a popularidade dos presidente entre os grupos mais pobres da população decorre, fundamentalmente, do forte crescimento da renda real e do padrão de consumo deste grupo social. E (...) este crescimento não depende apenas dos programas de transferência de renda, mas tambvém do aumento do emprego e dos salários reais. Entre 2002 e 2004, os 20% mais pobres da população tiveram um aumento de renda de 33%, ou seja, cerca de 10% ao ano. Deste total, 22% é explicado por programas de transferência de renda e 8% pelo aumento real do salário mínimo. (...) 70% se refere ao aumento do nível de emprego e dos salários reais. Se acrescentarmos a estes ganhos de renda o aumento do crédito e a queda da taxa de juros para pessoas físicas, não parece surpreendente que o presidente seja tão popular nos grupos mais pobres da população."

Há uma teoria corrente entre jornalistas, marqueteiros e analistas políticos. Ela é conhecida como "pedra no lago". Diz que a sociedade adota suas opiniões em ondas, como as formadas no lago quando uma pedra cai na água. Tradução: as opiniões políticas propagam-se dos mais ricos para os mais pobres, dos mais bem informados para os menos bem informados, das pessoas com mais instrução formal para as com menos instrução formal. Assim, quando alguém quiser tornar hegemônica certa tese, bastará convencer os assim chamados formadores de opinião e esperar que o rolo compressor dos veículos de comunicação faça o serviço.

Por que a teoria não está funcionando tão bem como funcionava antes? O texto de Camargo, acima, é uma explicação possível. Os pobres parecem preferir um governo que faz algo por eles do que uma oposição que lhes promete o paraíso. Outra possibilidade é a pulverização de meios para se informar, acelerada pela internet. Os pobres acessam a rede bem menos do que os não pobres, mas é possível que a internet esteja criando formadores de opinião dentro dos grupos que estão na base da sociedade. Assim, ficam menos dependentes da opinião que vem "de fora". Uma terceira explicação é não haver unanimidade entre os formadores tradicionais de opinião. E a diversidade de opiniões dificulta o "efeito manada" no jornalismo. Este último aspecto tem incomodado muita gente.

Talvez seja uma mistura de todas essas coisas. É um bom debate.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

quarta-feira, 19 de abril de 2006

A Constituição golpista e o erro que Lula não corrige (19/04)

Não sei se Luiz Inácio Lula da Silva joga pôquer. Sei que joga truco. Não conheço nada de truco, a não ser que o pessoal grita e levanta da mesa. Não lembro de outro jogo de cartas em que as pessoas berrem. Se o sujeito gritasse numa mesa de pôquer do Velho Oeste, provavelmente tomava um tiro.

Conheço razoavelmente as regras do pôquer. O suficiente para jogar e perder. Sou teimoso demais para ser um jogador pelo menos razoável. Algumas vezes, está na cara que não vai dar e, mesmo assim, pago para ver, só de vergonha de admitir a derrota antes dela consumada.

Mas, em matéria de teimosia o campeão é Luiz Inácio Lula da Silva. Não é campeão, é hors concours.

Ontem Lula recebeu o presidente da OAB, Roberto Busato. Segundo os repórteres Eduardo Scolese e Adriano Ceolin, o presidente reclamou das CPIs. Ele “disse que, em alguns casos, as comissões extrapolaram suas funções e que, por conta disso, é preciso criar normas para regulá-las”. Também “disse que, ao abrir os leques de suas investigações, as CPIs criadas para investigar os Correios, o esquema do mensalão e as casas de jogos acabaram não sendo 'justas' com ele”.

Lula dizer coisas assim só pode ser teimosia, ou dissimulação de jogador de pôquer (ou de truco). A alternativa seria apavorante. Precisaríamos admitir que, a menos de nove meses do fim do mandato, Lula ainda acredita que CPIs existem para investigar e pedir o indiciamento de supostos criminosos. Não, CPIs são instrumentos constitucionais de que os legisladores se valem para emparedar, e se preciso derrubar, governantes que perdem o apoio da maioria do Legislativo.

Nossa Constituição é presidencialista, mas tem alma parlamentarista. Estimula o ímpeto ditatorial dos presidentes e os instintos golpistas do Congresso. O presidente da República tem as medidas provisórias e o orçamento de execução parcialmente discricionária (não impositivo). Não fossem esses dois instrumentos, não governaria, pois o sistema eleitoral praticamente impõe a fragmentação partidária e impede que o chefe do Executivo se eleja com uma maioria favorável de deputados e senadores. Como o presidente não pode dissolver o Congresso e convocar novas eleições, uma hora vem a crise.

As CPIs e o impeachment são os instrumentos constitucionais de que dispomos para remover presidentes que perdem a maioria no Congresso e não conseguem recompô-la. Fernando Henrique Cardoso conhecia bem (e viveu) a História do Brasil. Deixava o gerenciamento do dia-a-dia para os outros e cuidava de manter azeitada sua ampla base parlamentar. Governou oito anos em relativa paz, pois abafou todas as CPIs que precisavam ser abafadas quando o PT queria desestabilizar seu governo. Como já escrevi aqui algumas vezes, o Brasil tem essa dívida com FHC.

Se Lula ainda não entendeu que o problema dele não está nas “normas para regular” o trabalho das CPIs, mas no estado permanentemente gelatinoso de sua base de apoio (apoio?) político, talvez estivesse na hora de pedir o boné e mudar de ramo. Como o presidente não vai fazer isso e, ao contrário, quer mais quatro anos no recém-reformado Palácio da Alvorada, quem sabe fosse o caso de alguém explicar, de novo, essa coisa a Lula. Pena que José Dirceu tenha sido cassado, pois ele já estava habituado a cumprir essa frustrante -e, como se viu, perigosa- missão.


Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Não dá para não rir (19/04)

A oposição passou o dia esbravejando contra o artigo proposto pelo governo para a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) nos casos em que o Congresso não vota o orçamento até 31 de dezembro. Pela proposta, enquanto não for votado algum texto, vale o enviado pelo Executivo. O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), não economizou:

- A idéia é grotesca, um delírio. A pessoa que escreveu isso não estava em seu juízo perfeito.

À noite, ao chegar em Brasília vindo do Mato Grosso, o candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, não apenas disse ser favorável à proposta do governo, mas, pasmem!, afirmou que ela já vigora em São Paulo. Transcrevo despacho da Agência O Globo:

"Política - 18/04/2006 10:50:38 PM

Regra de LDO criticada por PSDB era adotada em SP, diz Alckmin

Adriana Vasconcelos

BRASÍLIA - Apesar da indignação da maior parte dos líderes do Congresso, inclusive os do PSDB, com o dispositivo da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que garante que a proposta de Orçamento de 2007 a ser encaminhada pelo Executivo ao Congresso este ano seja executada sem qualquer alteração, caso os parlamentares não aprovem o projeto até 31 de dezembro, o candidato tucano à Presidência da República, Geraldo Alckmin, admitiu nesta terça-feira que essa era a regra que prevalecia em São Paulo.


- Esta medida nós tínhamos em São Paulo. Se não tinha orçamento aprovado, valia a proposta encaminhada pelo governo. Por isso não posso criticar. Se o Orçamento não é aprovado, é preciso ter uma regra - disse Alckmin."

Vão acabar tirando o emprego do Bussunda.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

terça-feira, 18 de abril de 2006

Mudança de tática no PMDB (18/04)

Ala do partido contrária ao lançamento de um nome para disputar o Palácio do Planalto resolve adiar enfrentamento com oposicionistas e esperar que candidatos a governador derrubem a tese da candidatura própria

Alon Feuerwerker
(Publicado no Correio Braziliense em 18 de abril de 2006)

A ala do PMDB que vê com ceticismo a opção de o partido ter candidato próprio à Presidência da República decidiu não mais bater de frente com a tese, mas esperar que a necessidade de alianças regionais fale mais alto do que os projetos dos pré-candidatos ao Palácio do Planalto. Os governistas avaliam que as coligações estaduais montadas pelos candidatos a governador do PMDB acabarão colocando a legenda diante de um impasse na convenção nacional de junho: lançar um nome para concorrer contra Lula ou ampliar a possibilidade de alianças nos estados. Os governistas, claro, apostam que vai prevalecer a segunda opção.

"O PMDB não pode fingir que a verticalização não existe", afirma o senador Romero Jucá (PMDB-RR). "É como alguém que vestiu uma fantasia para a festa, a festa foi adiada, mas o sujeito se recusa a tirar a fantasia." A verticalização proíbe coligações estaduais entre legendas que tenham candidatos diferentes à Presidência da República. Em vários estados, os peemedebistas negociam alianças com o PSDB, o PFL ou o PT. Se o PMDB tiver candidato a presidente, essas negociações serão abortadas. Os governistas avaliam que já sofreram desgaste excessivo ao defender abertamente que o partido não tenha candidato, pois permitiram que sua posição fosse apresentada pelos adversários como o desejo de apoiar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Encontro
Amanhã, os dois pré-candidatos peemedebistas, Anthony Garotinho e Itamar Franco, devem reunir-se em Brasília com os candidatos a governador para discutir o assunto. A reunião é considerada decisiva pelos aliados de Garotinho, pois um sinal verde dos chefes políticos locais do PMDB tornaria a candidatura própria praticamente irreversível. Garotinho deve concentrar sua argumentação em dois pontos: dirá que sua candidatura pode alavancar as campanhas nos estados e que tem condições de ir ao segundo turno, diante das fragilidades que enxerga na candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB). Nas últimas pesquisas, a diferença entre os dois é de apenas cinco pontos.

Os dois lados acreditam ter a maioria dos diretórios. Tanto os defensores da candidatura própria como os que são contra dizem ter o apoio de 14 seções regionais do partido. Há alguns dias, os governistas chegaram a articular um abaixo-assinado de diretórios para convocar rapidamente a convenção e enterrar a tese da candidatura, mas a iniciativa esfriou diante da nova estratégia: deixar que as realidades estaduais se imponham naturalmente. Já os apoiadores de Garotinho e Itamar argumentam que a disputa entre dois nomes cria praticamente um fato consumado na convenção, deixando sem espaço os defensores de não haver candidato.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

A emergência de dois estados terroristas (18/04)

Há situações em que as coisas precisam ser ditas como são. Em 6 de fevereiro escrevi aqui sobre "Como o tratamento ao Irã e ao Hamas lembra o Pacto de Munique", a propósito de uma análise feita pela agência de notícias russa Novosti. Nada tenho a acrescentar à análise de fevereiro, mas infelizmente os fatos no Irã e na Palestina vão confirmando o triste vaticínio.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Reconhecimento das centrais sindicais pode vir por MP (18/04)

Luiz Inácio Lula da Silva vai tirando suas cartas da manga. Está na edição de hoje do jornal Valor Econômico:

"Maio terá pacote sindical e trabalhista

Maria Cristina Fernandes

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai propor ao Congresso Nacional um pacote de projetos de lei nas áreas trabalhista e sindical. O pacote deverá ser anunciado pelo presidente em solenidade no Palácio do Planalto em maio. Dois projetos de lei deste pacote já estão concluídos: a criação do Conselho Nacional das Relações de Trabalho (CNRT) e o reconhecimento das centrais sindicais. O primeiro substitui o Conselho Nacional do Trabalho, criado por decreto em 2003. Tornado permanente, o CNRT, que terá composição tripartite de 15 trabalhadores, empregadores e representantes do governo, passa a ser o principal formulador das propostas de mudança sindical e trabalhista.
Com o reconhecimento das centrais, ficarão estabelecidos os critérios de participação da representação sindical nos fóruns deliberativos do Estado. Um terceiro projeto visando a regulamentação do trabalho aos domingos está sendo concluído. Atualmente, leis municipais permitem o funcionamento do comércio aos domingos, mas ainda não há regulamentação sobre o trabalho. Originalmente, essas propostas estão previstas em projeto de lei, mas há pressões para que se transformem em medidas provisórias."

Para ler o texto completo, clique aqui.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

segunda-feira, 17 de abril de 2006

Dois palanques para Lula em São Paulo? (17/04)

Hoje pela manhã, Fernando Rodrigues postou nota em seu blog sobre a possibilidade de Aldo Rebelo (PCdoB) ser candidato ao Palácio dos Bandeirantes. Ao longo do dia este blog correu atrás e ouviu que o Palácio do Planalto trabalha com a hipótese de dois palanques para Luiz Inácio Lula da Silva em São Paulo. Um seria o do PT, com Aloizio Mercadante ou Marta Suplicy para o governo estadual e Eduardo Suplicy para o Senado. O segundo se comporia com Orestes Quércia (PMDB) e Aldo. O ex-governador já sondou o presidente da Câmara para concorrer ao Senado numa chapa em que ele, Quércia, disputaria o Bandeirantes. Aldo reiterou ao peemedebista que pretende buscar um novo mandato de deputado federal, mas não fechou as portas para a continuação da conversa. A interlocutores, Aldo disse que se tiver que disputar um cargo majoritário prefere concorrer ao governo e não ao Senado. São Paulo é um problema para Lula, que perde no estado para Geraldo Alckmin e vê a grande vantagem de outro tucano, José Serra, na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes. A tática de dois palanques poderia criar um fato novo e impedir que o PMDB paulista fosse atraído para uma aliança, ainda que informal, com os tucanos, em que estes não lançariam nome ao Senado e apoiariam o peemedebista. Há meses, Quércia vem sendo um dos interlocutores de Serra nos movimentos deste que culminaram na candidatura ao governo estadual.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Uma tirinha sobre a sinceridade (17/04)


Do Houaiss, sobre o significado de "lêmure":
Datação
1716 cf. RB
Acepções
substantivo masculino
Rubrica: mastozoologia.
1 design. comum a diversos primatas africanos, da fam. dos lemurídeos, noturnos ou diurnos e esp. arborícolas, encontrados em Madagascar e nas ilhas Comores, de corpo e membros esguios, pelagem densa e macia, cauda longa e não preênsil e focinho longo [Acredita-se que sejam semelhantes aos ancestrais dos macacos.]
Obs.: f. não pref.: lêmur
lêmures
substantivo masculino plural
2 na Antigüidade romana, espectros de pessoas mortas que vinham atormentar os vivos
3 Derivação: por extensão de sentido.
assombrações, espectros, fantasmas
Etimologia
lat. lemùres,um 'espectros, almas do outro mundo'; ver lemur(i)-; 1716 é a data para o s.m.pl., e 1815 é a data para a acp. de mastzoo
Sinônimos
como subst.pl.: ver sinonímia de fantasma

Clique aqui para ir ao site do Dilbert.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Blue Bus: Reuters vai fornecer comentários de blogs junto com matérias (17/04)

Deu hoje no site de notícias Blue Bus (especializado em mídia, publicidade e internet):

Reuters vai fornecer comentarios de blogs junto com materias 10:28 A Reuters vai passar a fornecer comentarios postados em blogs junto com suas materias. Formou parceria com a Global Voices Online, rede internacional de blogs coordenada pela Harvard University. Vai utilizar o conteudo dos blogs na cobertura de eventos de grande interesse publico, como eleiçoes, por exemplo.

Clique aqui para ir à nota do Blue Bus.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

domingo, 16 de abril de 2006

O terremoto de São Francisco faz cem anos (16/04)

Nesta terça-feira, completa um século o terremoto que, segundo o San Jose Mercury News, quebrou o espírito de São Francisco (EUA). Clique aqui para ler mais. (Foto: AP Photo/Bancroft Library)

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Caravelas liberais contra o vento, em mares nunca dantes navegados (16/04)

Alon Feuerwerker
(Nas Entrelinhas - Correio Braziliense, em 17 de abril de 2006)

A essência do marketing não é vender produtos. É vender necessidades. Você não sabia que precisava daquilo. De repente, fica sabendo. Picolé na praia qualquer um vende. Difícil é vender picolé no Pólo Norte. Ainda mais se for picolé de chuchu.

Geraldo Alckmin tem qualidades conhecidas: trajetória democrática, experiência administrativa e uma história política aparentemente limpa. Começam agora a aparecer acusações contra ele, mas Alckmin pode argumentar que são manobras eleitorais. Mais ou menos como a corrida desesperada de PSDB e PFL para atingir a honra de Luiz Inácio Lula da Silva, diretamente ou por meio de familiares.

Voltemos ao marketing. O desafio da oposição não é mostrar Alckmin como um bom sujeito e administrador competente. É convencer o eleitor de que o Brasil precisa do presidente Geraldo Alckmin no Palácio do Planalto. Por enquanto, tucanos e pefelistas parecem acreditar que esse objetivo pode ser alcançado por vias tortuosas e indiretas: tentando implodir a imagem do atual presidente da República com denúncias de corrupção.

A oposição tem políticos capazes e profissionais. Tem também dinheiro para pagar bons marqueteiros. Uma coisa chata é jornalista sabe-tudo, que fica atirando lições a esmo. Diz o ditado que quem sabe faz e quem não sabe ensina. Só que até agora a linha da oposição não tem dado certo. Em maio, vai fazer um ano que Lula apanha como nenhum presidente apanhou antes, mas o petista continua favorito na corrida presidencial. Pode ser que ainda não tenha apanhado o suficiente. Mas também pode ser que a estratégia dos adversários esteja errada.

A oposição parece acreditar que o brasileiro médio vai acordar bem cedo no dia da eleição, vai colocar a roupa de domingo, vai entrar na sua seção eleitoral e, em protesto contra a corrupção do governo do PT, vai votar nos candidatos do PSDB e do PFL. É uma crença e tanto.

No passado, um PT "virgem" e "ético" foi o desaguadouro do voto contra o PFL e o PSDB. Será que o eleitor vai agora percorrer o caminho de volta? Não sei. Faz pouquíssimo tempo que tucanos e pefelistas saíram do poder cravejados de denúncias de corrupção. E o eleitor pode ter ficado mais esperto depois do strip-tease político desencadeado por Roberto Jefferson.

Mas eu posso estar sendo injusto. Talvez a tática do PDSB/PFL não seja resultado apenas de uma escolha. Talvez seja fruto da necessidade.

Os dois principais partidos da oposição têm um programa para o Brasil. Geraldo Alckmin defende que o Estado contenha seus gastos, pare de sugar compulsivamente a poupança nacional e, em conseqüência, libere recursos para o setor privado investir, gerar crescimento e empregos. É um programa coerente e plenamente defensável. Se for aplicado para valer, pode dar certo.

Só que não vem dando ibope ultimamente. O vento global sopra para o outro lado. No Peru, uma candidata que defende essas idéias era favorita, mas corre o risco de ficar fora do segundo turno. No México, um ex-prefeito socialista da capital lidera a corrida pela cadeira do liberal Vicente Fox. Não preciso falar da Venezuela e da Argentina. Mesmo no Chile, Michelle Bachelet foi um ajuste, para a esquerda, na tradicional aliança entre socialistas e democrata-cristãos.

Podemos ir mais longe. O governo liberal francês foi derrotado nas ruas, quando tentou flexibilizar o mercado de trabalho. Na Alemanha, a conservadora Angela Merkel atenuou, no governo, o ímpeto reformista que exibia na oposição. Resultado: saboreia altos índices de popularidade. Na Itália, Silvio Berlusconi controlava a máquina estatal e os canais de televisão, mas mesmo assim perdeu a eleição para uma coligação liderada por ex-comunistas e comunistas.

O liberalismo anda em baixa. O público, aparentemente, quer mais Estado, e não menos. Para tentar ganhar a eleição programaticamente, os liberais brasileiros teriam que navegar contra o vento. Os portugueses fizeram isso no início dos Descobrimentos, cinco séculos atrás. Inventaram um navio (a caravela) cuja vela latina (triangular) lhes permitiu desbravar "mares nunca dantes navegados" (na foto, Luís de Camões, autor de Os Lusíadas), com ventos desconhecidos. Acabaram descobrindo o caminho marítimo para as Índias e chegaram ao Novo Mundo. Nunca deixaram de ser um pequeno país, mas transformaram-se numa nação de gigantes.

Se tiverem peito, PSDB e PFL vão construir suas caravelas liberais e lançá-las ao mar. Seria uma aposta destemida no seu próprio futuro. Mas podem também continuar confortavelmente abrigados nas denúncias contra Lula e o PT, de dedos cruzados e rezando para que, uma hora, Deus ajude e a coisa funcione. O retrospecto me diz que essa última alternativa é a mais provável. Além do mais, já está virando hábito: a cada quatro anos, debatemos animadamente ética na política até outubro e, surpresos, ganhamos em troca reformas da previdência depois de janeiro.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Um texto que não dá para não ler (16/04)

Um texto imperdível na Folha de S.Paulo de hoje é Cidades Inimigas, de Ferreira Gullar, na Ilustrada. Transcrevo um trecho:

"Houve , em certa época da história, duas cidades com características muito distintas: Xinyuan, cuja história milenar atravessava impérios e dinastias, e Newland, que praticamente não tinha história. Enquanto sobre esta o passado não pesava, Xinyuan, pelo contrário, mal conseguia seguir em frente tamanho era o peso das tradições e dos privilégios herdados pelos descendentes dos antigos imperadores.Mas, diga-se a verdade, não foi apenas por essa diferença de idade e de origem que elas se tornaram inimigas, mesmo porque isso só se deu mais recentemente em razão das drásticas mudanças ocorridas em Xinyuan e que fizeram dela um exemplo perigoso para a sua vizinha.Tudo começou quando um jovem professor de teologia, de nome Fuen Li, deu de pregar a substituição do antigo sistema de poder por um governo popular identificado com as necessidades da grande maioria do povo. As idéias de Fuen Li, propagadas inicialmente de boca em boca, depois em folhas volantes de papel de arroz, terminaram por incendiar a imaginação dos jovens de classe média e da intelectualidade, há muito inconformados com a brutal desigualdade que imperava em Xinyuan. A pregação de Li prometia a divisão igualitária das riquezas e a instituição de um regime em que os trabalhadores governariam a cidade. Com o apoio dos camponeses e dos operários, deflagrou-se a luta encarniçada que culminou com o fim das oligarquias. Iniciou-se, assim, uma nova etapa na história de Xinyuan: a troca do governo dos ricos pelo governo dos pobres. Foi a partir daí que a velha cidade se tornou uma ameaça para a sua jovem vizinha, onde os ricos sempre detiveram o poder."

Clique aqui para lê-lo na íntegra.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

sábado, 15 de abril de 2006

Canhão para cá, canhão para lá (15/04)

A bancada do PT na Câmara guardou no freezer a iniciativa explosiva de alguns deputados: criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) em Brasília para investigar o suposto uso de verbas publicitárias da Nossa Caixa Nosso Banco para fidelizar deputados da base de apoio de Geraldo Alckmin na Assembléia Legislativa de São Paulo. Na prática, seria uma CPI para expor as vísceras do governo Alckmin em plena campanha eleitoral. A CPI foi (por enquanto) para o congelador porque:

1) O PT prefere usá-la como arma de dissuasão diante da CPI dos Bingos no Senado.

2) O PT acha que ainda não é o momento de atacar Alckmin.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Berlusconi perto do fim (14/04)

"Hoje é um outro dia. Obrigado", festeja o site do Partido Democrático da Esquerda (ex-Partido Comunista Italiano, convertido à social-democracia), no dia em que ficou clara a vitória da coligação de esquerda comandada por Romano Prodi nas eleições italianas. A esperança do premiê Silvio Berlusconi (direita) eram os votos em disputa (recontagem), mas eles acabaram sendo em número bem menor do que o imaginado pelo presidente do Milan. Clique aqui para ler mais.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Como FHC ajuda Lula (14/04)

Enquanto viver, e mesmo quando se tornar apenas um capítulo da História do Brasil, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) vai receber críticas por ter patrocinado a emenda constitucional da reeleição. Mas é a própria História -e não os críticos- quem vai julgá-lo por isso. Quem vai dizer se, para o Brasil, a mudança foi boa ou ruim. Hoje, para o bem ou para o mal, os mandatos executivos têm oito anos (com um referendo no meio).

Sempre tendi a achar essa discussão ociosa, mas acabo de mudar de idéia. Aliás, acho que a avaliação sobre a Era FHC é daquelas que vai só melhorar conforme o tempo for passando. Já escrevi aqui neste blog que o considero um dos grandes presidentes brasileiros. Por duas razões: 1) entregou ao sucessor um país estruturalmente capaz de manter a inflação baixa e 2) governou democraticamente. Parece pouco? Estudem a História do Brasil de 1930 para cá.

Mas este texto não é sobre FHC. É sobre reeleição. Sobre como ela ajuda a reprimir as manifestações do DNA golpista que o Brasil carrega em seu código genético. Já que por aqui os golpes (ou revoluções, como os participantes gostam de chamá-los) estão sempre associados a alguma sucessão presidencial.

Foi assim quando o governador de Minas, Antônio Carlos Andrada, não aceitou que Júlio Prestes sucedesse Washington Luís. O Velho Andrada acabou apoiando Getúlio Vargas e criando as condições para a Revolução de 30.

Foi assim em 1937, quando o mesmo Getúlio implantou o Estado Novo para rasgar a Constituição de 1934. Esta lhe vedava um novo mandato. O governador de São Paulo, Armando de Sales Oliveira, era candidato a presidente. Virou só nome de cidade universitária.

Foi assim em 1945, quando as pressões populares pela manutenção de Getúlio no poder (o queremismo) deflagraram um movimento militar que precipitou a redemocratização. Getúlio propusera convocar uma Assembléia Constituinte, mas a palavra de ordem "Constituinte com Getúlio" não foi aceita pela oposição, que queria o poder. Nunca chegou lá: perdeu para Eurico Gaspar Dutra em 1946, para o próprio Getúlio em 1950 e para Juscelino Kubitschek em 1955. Depois vieram Jânio Quadros e os fatos conhecidos de todos.

Foi assim em 1955, quando a União Democrática Nacional (UDN) tentou impedir a posse de Juscelino, sob a alegação de que ele não havia obtido a maioria absoluta nas eleições. Um contragolpe preventivo, do ministro da Guerra, Henrique Teixeira Lott, garantiu a posse de JK.

Foi assim em 1964, quando as ambições presidenciais de João Goulart, de Carlos Lacerda, de Leonel Brizola e do próprio Juscelino alimentaram o caldo de cultura para a tomada do poder pelos militares.

Foi assim em 1969, quando a cúpula militar decidiu que o vice-presidente Pedro Aleixo não deveria substituir o incapacitado (pela doença) Arthur Costa e Silva. No ano anterior, Aleixo havia discordado do AI-5. Quando Costa e Silva teve seu acidente vascular cerebral, Aleixo foi impedido de assumir a presidência. Sorte dele. Escapou de passar à História como um Bordaberry.

Mas voltemos aos dias atuais. A existência da reeleição dificulta muito os planos de quem deseja o impeachment de Luiz Inácio Lula da Silva.

É só olhar a História do Brasil. Presidentes brasileiros não são colocados para fora do cargo antes do tempo sem que os governadores de São Paulo e de Minas Gerais estejam de acordo. Ou pelo menos um deles. E quais são os cenários possíveis nesses dois estados para 2007? Em São Paulo, deve dar José Serra (PSDB, o mais provável) ou Aloizio Mercadante (PT). Em Minas, Aécio Neves (PSDB) é amplamente favorito.

Lula não será impichado neste ano, pois a oposição não tem força, disposição nem tempo para isso. Se Geraldo Alckmin vencer, em 2007 o assunto estará morto e enterrado. Se Lula conseguir a reeleição, derrubá-lo em meio ao segundo mandato será um péssimo negócio para os governadores de São Paulo e Minas, pois o vácuo no poder permitiria a ascensão do vice (Ciro Gomes?). Que poderia ele próprio candidatar-se em 2010 a um novo mandato, em pleno exercício do cargo e com a caneta na mão.

Os futuros governadores de São Paulo e Minas são nomes naturais a suceder Lula em caso de vitória do ex-metalúrgico em outubro. Nesse cenário, o terceiro jogador na mesa será o companheiro que Lula tiver escolhido para sua chapa. Todos estarão empenhados na corrida para 2010. Nenhum dos três vai querer entregar de mão beijada uma carta decisiva a qualquer um dos dois principais concorrentes.

Serra não renunciou a dois anos e nove meses na Prefeitura de São Paulo à toa. Também não é por acaso que o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) tenta atrair Aécio para o PMDB depois da eleição de outubro. E a briga de foice pela vice de Lula nem começou ainda, mas promete.

FHC agonizou politicamente por quatro longos anos em seu segundo mandato porque ninguém de peso queria derrubá-lo. Mesmo após a desvalorização cambial de 1999 e o colapso do apoio popular a FHC, Lula e José Dirceu lutaram ferozmente para evitar que o PT enveredasse por aí. Não vou vaticinar que um possível segundo mandato de Lula seria também uma longa agonia, até porque as condições econômicas em janeiro de 2007 prometem ser bem melhores do que as de janeiro de 1999. Mas é muito provável que os governadores, São Paulo e Minas à frente, tenham que formar um cinturão protetor em torno do presidente. Devem fazê-lo, se Lula admitir e executar as necessárias concessões políticas.

Não sei se FHC pensou que daria nisso, mas o sistema de freios e contrapesos que ele patrocinou parece funcionar. No primeiro mandato, a força do presidente impede que o derrubem. No segundo, o que inviabiliza o golpe é a fraqueza do presidente. Interessante.

Lula não vai admitir nunca, mas deve essa ao tucano.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Berlusconi, os países sérios e uma frase que De Gaulle não disse (14/04)

Definitivamente, a Itália, como o Brasil, não é um país que se deva levar muito a sério. Tudo bem que nós temos a jabuticaba e o vôo de besouro (crescimento com juros altos) na economia, mas dessa vez eles nos superaram na originalidade: o primeiro-ministro Silvio Berlusconi comanda o governo e controla boa parte da imprensa, mas acusa a oposição de ter fraudado as eleições. Como piada, foi muito boa.

Claro que a minha afirmação inicial é uma brincadeira. Todos os países são sérios, na sua especificidade. A Itália alcançou há muito anos algo que, pouco a pouco, vamos conseguindo também no Brasil. Uma democracia razoavelmente imunizada contra a dureza da luta pelo poder e uma economia que navega bem em meio às tempestades políticas.

Essa coisa de que o Brasil não seria um país sério começou com uma frase atribuída a Charles De Gaulle: Brésil c’est pas un pays serieux. Foi durante a Guerra da Lagosta, como ficou conhecido o contencioso entre Brasil e França no começo dos anos 60 do século passado por causa da pesca ilegal do crustáceo por barcos franceses na costa brasileira. Consta que o herói da luta dos gauleses contra o nazismo (clique para ampliar a foto de 1943, com Franklin Roosevelt e Winston Churchill) não disse o que dizem que ele disse. Parece que a frase, pasmem!, é da lavra do então embaixador brasileiro naquele país, Alves de Souza. Uma sabujice e tanto.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

O impasse entre o desejo do establishment e o da maioria, na Europa (14/04)

Deu no The New York Times: "Após a eleição extremamente apertada na Itália esta semana, há uma forte percepção na Europa de que governos fracos e opinião pública dividida impedem os três grandes países do continente de fazer as mudanças econômicas que a maioria dos líderes políticos consideram essenciais para a retomada do crescimento. 'Todo mundo na Europa concorda que as coisas não podem continuar como estão', diz Wolfgang Nowak, economista alemão que comanda o Forum Internacional do Deutsche Bank. Nowak se refere ao crescimento perto de zero de economias com altos déficits, às rígidas leis trabalhistas, aos níveis intoleráveis de desemprego e aos altos orçamentos sociais".

A reportagem é de Richard Bernstein, escrevendo de Berlim (Alemanha). Ela tem um problema. O "todo mundo" a que o repórter se refere não parece ser tão "todo mundo" assim, já que a maioria do eleitorado tem bloqueado reformas liberalizantes radicais na Itália (derrota de Silvio Berlusconi), na França (derrubada da Lei do Primeiro Emprego) e na Alemanha (governo de coalizão com os social-democratas levou ao recuo de Angela Merkel em relação aos compromissos reformistas assumidos na campanha eleitoral). Como na Europa não pega bem propor golpes de estado, infelizmente não resta ao establishment liberal outro caminho a não ser negociar suas propostas com a sociedade, incluídos aí os movimentos sociais. Lá, como cá, não dá para trocar o povo.

Clique aqui para ler a reportagem do NYT.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

quinta-feira, 13 de abril de 2006

Pressão pela democracia no Nepal (13/04)

A temperatura sobe no Nepal, com as manifestações pela democracia. O modelo da monarquia constitucional está em xeque. Vale a pena prestar atenção. O país está encravado entre a Índia e a China (clique no mapa para ampliar) e tem uma forte guerrilha maoísta. A guerrilha afirma que luta para libertar a população do sistema de castas, dar direitos iguais às mulheres e derrubar a monarquia. O movimento é catalogado como terrorista pelos Estados Unidos.

Clique aqui para ler mais.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.