terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

O Estadão e os bancos (28/02)

O Estado de S.Paulo trouxe durante o Carnaval um editorial com o título Bolsa-Banco. Naturalmente, tratava do escândalo dos megalucros dos bancos, que já foi objeto de nota neste blog. É sempre um prazer ler os editoriais bem escritos do Estadão, mas dessa vez os colegas escorregaram na lógica.
Num certo momento, como era previsível, o jornal aponta a dívida pública como a grande vilã desse seqüestro de riqueza. Diz o editorial que "o recorde de enriquecimento das instituições financeiras sob a gestão pública de seus maiores detratores é a prova definitiva de que ele não resulta da ganância doentia dos banqueiros, vilões da indignação populista. É o resultado natural de um sistema perverso mantido pelo Estado estróina para garantir sua capacidade de se financiar, absorvendo os recursos produzidos pela sociedade, apoderando-se da parte do leão e lhe jogando as migalhas de banquetes em que os banqueiros são convidados de honra da 'companheirada'."
Errado. Dois pontos colocam em xeque a tese "estatófoba" do jornal. Primeiro, os diversos bancos tiveram taxas bem diferentes de crescimento do lucro. Segundo, o lucro dos bancos cresceu bem mais do que a taxa de juros ou a dívida pública. Minha hipótese é que a altíssima lucratividade dos bancos decorre principalmente de "spreads" e tarifas escorchantes, decorrentes do oligopólio do crédito no Brasil. De todo modo, segue o debate.
O editorial do Estadão nem resvala na questão do oligopólio. Esse é o liberalismo brasileiro. Em vez de usar sua independência editorial para defender a democratização do sistema financeiro, o jornal prefere dar cascudos na esquerda. Fala da "execrada especulação financeira, monstro preferencial a ser imolado na fogueira socialista". Ora, essa discussão nada tem a ver com o socialismo. É uma polêmica sobre o capitalismo, colegas.

Adendo postado em 01/03 às 8h10: Transcrevo um trecho da coluna de 01/03 de Elio Gaspari n'O Globo e na Folha de S.Paulo. "(...)[os bancos] Preferem também que o secretário do Tesouro, doutor Joaquim Levy, pare de falar em abrir uma licitação para a prestação dos serviços bancários à rede do INSS. Hoje a Viúva paga aos bancos para que atendam à turma da Previdência. Levy achou que o negócio é tão bom que, se ele abrir uma licitação, haverá bancos querendo pagar para fazer negócios com aposentados. (...)."

Precisa falar mais?

Leia também:

O antiliberalismo é de esquerda? (17/02)

Blog consertado (28/02)

Felizmente, consegui consertar o blog antes do fim do Carnaval. Agora, mesmo quem usa Microsoft Internet Explorer vê a barra lateral direita normalmente. Tive que reduzir o tempo de exposição das notas na home page para 7 dias (era 15 dias). Para ter acesso a notas anteriores, o mais fácil é procurar nos arquivos (clique aqui) ou na busca que fica no alto desta página.

Notas relacionadas neste blog:

Problemas na navegação com Internet Explorer, o PIB e folga no Carnaval (24/02)

domingo, 26 de fevereiro de 2006

Cúpula tucana escolhe Serra (26/02)

Este blogueiro está de folga no Carnaval. Excepcionalmente, reproduzo aqui reportagem deste jornalista publicada no Correio Braziliense domingo (26).

***

Alon Feuerwerker

Publicado no Correio Braziliense, em 26 de fevereiro de 2006 - Depois do carnaval, enfim, o prefeito de São Paulo, José Serra, terá o que estabeleceu como a condição para ser candidato à Presidência da República. Vai receber do presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), a informação de que a consulta promovida entre os deputados, senadores e governadores tucanos chegou por ampla maioria ao nome dele, Serra, como o mais competitivo para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Tasso dirá também a Serra que mesmo os partidários do outro pré-candidato, o governador paulista Geraldo Alckmin, comprometeram-se a trabalhar pela vitória, se o prefeito for o escolhido. O senador também garantirá que o partido dará toda a sustentação a ele ao longo de uma campanha que promete ser duríssima.

Com base nessas premissas, Tasso fará então o “chamamento” que o prefeito tanto pediu, para que assuma a candidatura, comece a costurar as alianças e estanque a sangria que acomete o PSDB desde o começo do ano, quando alckministas e serristas entraram em guerra pela vaga de principal adversário de Lula na corrida presidencial.

Tasso e os outros dois membros do triunvirato tucano, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Aécio Neves (MG), acreditam que a resposta de Serra será “sim”. Já Alckmin tem a convicção de que o prefeito não abrirá mão de dois anos e nove meses de mandato no comando do terceiro cargo mais cobiçado da República para se aventurar numa empreitada de risco total — uma nova derrota para Lula nessas condições poderia representar, para Serra, o fim das esperanças de chegar um dia ao Palácio do Planalto.

Fôlego
De todo modo, os tucanos têm pressa. Acham que podem aproveitar a nova onda de notícias negativas para Lula — as acusações de uso da máquina pelo presidente, as relações duvidosas dele com a Telemar, o baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e os megalucros dos bancos — para retomar uma iniciativa política que perderam desde que a crise do chamado mensalão começou a dar sinais de pouco fôlego, no final de 2005. O PFL observa à distância e concorda. “Teremos uma caminhada difícil pela frente, mas todas as chances de concluí-la bem. Quanto mais cedo nos resolvermos internamente e nos organizarmos, melhor”, diz o líder da minoria na Câmara, José Carlos Aleluia (PFL-BA).

Foi para acelerar esse processo que, silenciosamente, os principais articuladores tucanos entraram em campo na semana pré-carnaval.

Deputados, senadores e governadores foram procurados para saber quem consideravam o melhor nome para enfrentar Lula e que atitude o consultado adotaria caso o escolhido não fosse o da sua preferência. Estiveram na linha de frente dessa operação os líderes no Congresso, deputado Jutahy Magalhães (BA) e senador Arthur Virgílio (AM), e os governadores Aécio Neves e Marconi Perillo (GO), com a participação de FHC nos bastidores. O resultado foi o previsto: deu Serra, apesar do intenso trabalho de Alckmin com as bases do PSDB.

Bom humor
A bola volta agora aos pés do prefeito de São Paulo. Os que convivem com ele relatam que nos últimos dias seu humor tem estado surpreendentemente bom, “como alguém que tivesse tirado um peso das costas”, diz um amigo de Serra. Em seu círculo mais íntimo de conhecidos e colaboradores, o Correio não conseguiu encontrar alguém que apostasse na desistência de Serra da corrida presidencial. “A história não registra a biografia do general que se recusou a cruzar o Rubicão”, diz reservadamente um secretário dele na prefeitura, fazendo referência ao famoso episódio com o romano Júlio César.

Mas os problemas do prefeito não são pequenos no cenário em que ele sai do cargo para entrar na corrida ao Palácio do Planalto. Na campanha de 2004 ele garantiu por mais de uma vez que, caso eleito, permaneceria na prefeitura até o fim. Além disso, a guerra em São Paulo com Alckmin pode prejudicar o desempenho tucano no estado-chave da eleição. Nas contas de especialistas do PT que analisam a situação eleitoral, se Lula perder no segundo turno em São Paulo por menos de 10 pontos de diferença estará eleito. Hoje, as pesquisas dão entre 15 e 20 pontos de vantagem a um tucano contra Lula num segundo turno no estado.

Além disso, o PSDB não tem nome forte para enfrentar Orestes Quércia (PMDB) e Marta Suplicy ou Aloizio Mercadante (PT) na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. E o vice de Serra na prefeitura é do PFL, Gilberto Kassab. Escolher mal agora pode ser ruinoso para os tucanos, especialmente os paulistas. Hoje, o partido tem o governo de São Paulo, a prefeitura da capital e chances reais de ganhar a Presidência da República. O PSDB pode terminar o ano no paraíso. Mas também pode ir ao inferno: pode acabar 2006 fora dessas três posições-chave de poder. Na prática, os tucanos seriam rebaixados a uma espécie de segunda divisão da política, voltariam a ser o partido médio e sem capacidade hegemônica que eram antes de o Plano Real levar FHC à glória em 1994.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Um enigma para o Carnaval (24/02)

O PIB cresceu só 2,3% em 2005. Pelo menos uma coisa já é certeza. A oposição vai descer a ripa na "incompetência" de Lula e o PT vai dizer que a culpa é do governo Fernando Henrique Cardoso. Para tentar fugir desse instigante e sofisticado bate-boca entre petistas e tucanos (quem ainda agüenta isso?), deixo aqui uma questão para esses dias de Carnaval:

Como levar o crescimento brasileiro a pelo menos 5,0%-6,0% ao ano sem:

1) mexer no modelo de metas de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante;

2) aumentar a dívida pública;

3) alongar compulsoriamente a dívida pública;

4) reduzir o superávit primário;

4) reduzir (desengessar) investimentos sociais dos governos;

5) aumentar a carga tributária;

6) abrandar a legislação trabalhista ou

7) afrouxar a legislação ambiental.

Com certeza, até a quarta-feira de Cinzas alguém terá a resposta.

Divirtam-se. No Carnaval, é claro.

***

Por problemas técnicos, a coluna da direita na home page deste blog aparece deslocada para o extremo inferior da página em alguns "browsers-carroça" (Microsoft Internet Explorer). Se você usa outro browser (programa de navegação) que não o MSIE e vê o mesmo problema, coloque uma mensagem para me avisar, por gentileza. Se tiver o browser Firefox, use-o, pois a navegação está normal. Coloquei no alto da coluna da direita um link para fazer o download do browser Firefox. Clique aqui, baixe e instale. É ótimo e grátis.

Problemas na navegação com Internet Explorer, o PIB e folga no Carnaval (24/02)

Por problemas técnicos, a coluna da direita na home page deste blog aparece deslocada para o extremo inferior da página em alguns browsers (Microsoft Internet Explorer). Se você usa outro browser (programa de navegação) e vê o mesmo problema, poste uma mensagem para me avisar, por gentileza. Se tiver o browser Firefox, use-o, pois a navegação está normal. Coloquei no alto da coluna da direita um link para fazer o download do browser Firefox. Clique aqui, baixe e instale. É ótimo (tão bom ou melhor que o IE) e grátis. Se souber HTML, ajude-me a compreender o porquê da diferença. Um mistério é que na página individual de cada post o problema não existe e a visualização com o IE é normal. Para (tentar) solucionar esse problema e poder descansar um pouco, só retomarei as postagens na quarta-feira. Provisoriamente, removi o post anterior sobre o PIB, pois continha uma imagem excessivamente grande e que pode estar na origem do transtorno. Aliás, o PIB de 2005 cresceu fraquinhos 2,3%. Clique aqui para ler mais.

Bom feriado a todos e obrigado.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Fukuyama e o pós-neoconservadorismo americano (23/02)

O historiador Francis Fukuyama publicou artigo no The New York Times com duros ataques à Doutrina Bush e ao neoconservadorismo americano. Vale a pena ler, principalmente se você gosta de política e vai passar o feriado agarrado ao seu desktop ou notebook (sim, existe gente assim). Um trecho interessante fala das origens de esquerda (trotsquista) desse importante ramo do pensamento político nos Estados Unidos. Clique aqui para ler. Você precisa estar cadastrado no site do NYT, mas é grátis.

Jarbas vai mesmo de Mendoncinha (23/02)

O governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos (PMDB), anuncia oficialmente que seu candidato à sucessão é o vice-governador Mendonça Filho (PFL). Clique aqui para ler mais. O vice será Evandro Avelar.

Cai a confiança do consumidor, que caminha paralelamente à avaliação de governos (23/02)

Caiu a confiança do consumidor em fevereiro, na comparação com janeiro. A taxa medida pela Fundação Getúlio Vargas recuou 2,1%. Em janeiro, havia subido 6,7%. O índice costuma ter forte correlação com a avaliação dos governos. O pior resultado foi verificado no item "situação financeira da família". Segundo a Agência Estado, a parcela dos consumidores que classificam a situação nesse tópico como boa caiu de 22,7% para 18,7%; no mesmo período, a parcela dos entrevistados que consideram a situação como ruim passou de 16,3% para 17,5%. Clique aqui para ler mais.

Constrangimento à cúpula (23/02)

O governador de São Paulo vai se voltar às bases do PSDB e tentar impedir que FHC, Tasso e Aécio construam um consenso em torno do nome de José Serra como candidato tucano ao Planalto

Alon Feuerwerker (em São Paulo)


Publicado no Correio Braziliense em 23 de fevereiro de 2006 - O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, aposta no ataque às bases do PSDB como estratégia para impedir que o triunvirato dos cardeais do partido costure o consenso em torno do nome do prefeito de São Paulo, José Serra, como o concorrente tucano à vaga de candidato à Presidência da República. Ontem, em Sorocaba (SP), Alckmin defendeu publicamente o trio, ao dizer que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o presidente da legenda, Tasso Jereissati, e o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, “não estão centralizando a decisão, mas ouvindo o partido”. Nos bastidores, porém, Alckmin aumenta a pressão sobre os três, enquanto faz o possível para que a resposta partidária aos cardeais seja o nome dele próprio. Na pior das hipóteses, trabalha para que o equilíbrio de forças dentro da legenda deixe a cúpula de mãos amarradas e a impeça de construir o consenso em torno de Serra.
Depois de jantar na terça-feira com a bancada federal em Brasília, Alckmin agendou para 7 de março uma reunião na Paraíba com os deputados estaduais do Nordeste. O anfitrião, governador Cássio Cunha Lima, é seu cabo eleitoral. Ontem à noite, Alckmin viajou para Washington, onde assina dois convênios no total de US$ 25 milhões com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, para estimular o ecoturismo e a economia. Deixou orientação para que o núcleo operacional de sua pré-campanha continue o trabalho de mapeamento do colégio eleitoral a ser consultado pela cúpula para decisão sobre o nome. Devem ser ouvidos os governadores, as bancadas de deputados e senadores e a direção partidária. Os alckministas querem incluir na consulta lideranças locais “sem mandato, mas com expressão política”, nas palavras do deputado federal Júlio Semeghini (SP). Ou seja, quanto mais gente, melhor.

Decisão coletiva
Antes de viajar, Alckmin insistiu nessa ampliação, ainda que sutilmente. Em Sorocaba, onde foi lançar mais um de seus restaurantes populares e comeu até chuchu, para mais uma vez brincar com o apelido de Picolé de Chuchu, disse que “candidatura majoritária deve ser resultado de decisão coletiva”, além de repetir que “política é conversa, não tem correria”. Reunidos com o governador na terça-feira em almoço no Palácio dos Bandeirantes, FHC, Tasso e Aécio decidiram que o martelo estará batido até 12 de março, um domingo. A pesquisa Datafolha divulgada ontem, que confirmou a tendência do levantamento CNT-Sensus da semana anterior e mostrou vantagem de cinco pontos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre Serra num hipotético segundo turno, aumentou o sentimento de urgência entre os tucanos.

Na prática, o senador Tasso Jereissati (CE) tem menos de três semanas — com o carnaval no meio — para construir um “chamamento partidário” a Serra. O prefeito precisa dessa quase convocação para aliviar o ônus político que terá se decidir deixar o cargo com dois anos e nove meses de mandato a cumprir. Alckmin minimizou os resultados do Datafolha, que apontou uma oscilação negativa de três pontos do governador (20% para 17%). “Ao que estamos assistindo agora é um monólogo”, afirmou. “O presidente Lula está tendo uma grande exposição na mídia, sozinho. Quando a campanha começar, isso muda.”

Os alckministas receberam a pesquisa sem espanto. Consideram que entrar no horário eleitoral com uma intenção de voto no patamar de 20% é bom ponto de partida. Em todos os cenários em que é colocado no Datafolha, Alckmin aparece isolado no segundo lugar. Seus aliados acreditam que, se for ao segundo turno, irá disputar a rodada decisiva com Lula enfraquecido por uma campanha em que o presidente será o alvo de todos os demais candidatos. É isso que Alckmin quer: chegar ao segundo turno como o anti-Lula. Nessa condição, pensa, pode ganhar a eleição atraindo os eleitores que não querem dar mais quatro anos ao petista. Um contingente que Alckmin imagina vá ser a maioria em outubro. “Eu acho muito difícil o PT ter mais um mandato”, disse ele ontem.

O retrato do oligopólio no paraíso dos bancos (23/02)

A soma das colunas vermelhas (o gráfico é da Folha Online) dá R$ 20,47 bilhões. Foi quanto lucraram os seis maiores bancos brasileiros ano passado. O dinheiro corresponde, se não me engano nesta hora da madrugada, à soma do que o governo federal investe em média por ano mais todos os recursos que vão anualmente para o Bolsa Família. De manhã eu faço a conta. O presidente Lula diz que comanda um governo que tira dos ricos para dar aos pobres. O gráfico acima mostra que isso não corresponde à realidade. E não me venham com discussões sobre Selic e ortodoxia econômica. A palavra que explica essa barbaridade é "oligopólio".

Muito tempo. E muito barato (23/02)

Internautas que passam por aqui mandam emails pedindo minha opinião sobre blogs, internet, ampliação do universo de usuários da rede e assuntos correlatos. Decidi então reproduzir aqui texto publicado no anuário da Faculdade Cásper Líbero, edição de 2000. É mais ou menos o que penso.

"Muito tempo. E muito barato.

Alon Feuerwerker

Qual é a base das ilusões despertadas pela Internet?

Digitalização + computação distribuída + disseminação das telecomunicações + transporte em pacotes de informação digitalizada. Estamos no mundo novo. Nova economia, novas tecnologias. Novo trabalho. Novo ensino, à distância. A palavra-chave é distância.

O fundamento das miragens e sonhos desencadeados pela internet está na suposição de que um dia tudo poderá ser feito de longe. Tudo poderá ser transformado em zeros e uns. Tudo poderá ser quebrado em pequenos pacotes e enviado a qualquer lugar. Tudo poderá ser feito em servidores, os depósitos de documentos e programas que atendem aos pedidos dos clientes. Se tudo se faz à distância, então o homem pode estar simultaneamente em todo lugar. Onipresença. As palavras são boa fonte sobre a essência dos fenômenos. Navegador. Quem navega? Os arquivos navegam, são os objetos que vão de um lado a outro, não as pessoas. Mas isso está encoberto. Ao fazer os arquivos navegarem, o homem tem a percepção de ele próprio “navegar”.

Cinco séculos atrás, o novo (mundo) também era uma idéia associada à navegação. Só que agora o ser humano não precisa migrar, faz as coisas migrarem por ele, ainda que o símbolo mais famoso de um software “navegador” tenha sido o leme da Netscape. A sensação de onipresença reduz o tempo gasto perceptível a zero. Tempo zero para qualquer tarefa pode ser livremente traduzido como onipotência, já que processos instantâneos costumam liberar energia, e não o contrário. A ilusão da onipotência embriaga. O poder confunde, engana. Áulicos ocupam o lugar da realidade e você passa a acreditar que pode se descolar dela. Ou que você é ela. Ou a substituição do analógico pelo digital.

Uma revolução precisa radicalizar, se quiser merecer esse nome. Em toda ruptura há um momento no qual se supõe ser possível substituir toda a realidade. Depois, os vetores da mudança dobram-se à inércia. Sorte terá a revolução que conseguir inocular no genoma social alguns trechos de código cultural completamente novo.

O que vai sobrar da atual revolução?

Já há indícios, pelo menos, do que não vai sobrar. Você nada faz pela internet que já não fizesse antes. Antes do transporte digital você lia jornais e revistas, enviava e recebia correspondência, encontrava pessoas para conversar, divertia-se com produtos culturais. Afinal, para que você usa a internet? Para fazer essas mesmas coisas.

Com a internet, temos a “percepção do novo mesmo nas coisas mais antigas. Há uma tendência a confundir aspectos qualitativos com quantitativos, novidade com rapidez. Sem o balão ou o avião, o homem simplesmente não voaria. Sem a internet, o homem continuaria a poder escrever cartas, ler jornais, ir ao cinema ou ao teatro, encontrar-se com outras pessoas para conversar. Faça você mesmo o teste e tente descobrir algo inteiramente novo que você faz com a internet, e quem sem ela não poderia fazer. Não encontrará.

Aceite o fato de que o futuro tem mais chances de se parecer com Blade Runner do que com Os Jetsons. E descubra a única coisa que mudou. Pois essa mudança é central. É decisiva. Há um único produto novo disponível na internet. Melhor, há um único produto disponível na internet. Melhor ainda, a novidade está nas quantidades disponíveis desse produto, que não é tão novo assim.

Acima, dissemos que tempo zero é uma miragem. A abundância do tempo é ilusória, ele permanece escasso. A novidade é que a rede permite chegarmos ao limite da exploração das reservas disponíveis de tempo. E, conforme as regras de mercado, o preço do tempo cai. Quais serão, para a sociedade, os efeitos mais permanentes da queda vertiginosa de preço do tempo?

Esses efeitos podem ser mais bem medidos se olharmos para a economia. Não a economia técnica, das coisas. A economia das pessoas. A “anatomia da sociedade civil”. Ao tornar disponíveis grandes quantidades de tempo a baixo custo, a internet se transforma em potente ferramenta de inclusão social. Sim, é verdade que as tentativas de “internetizar” (ou “intranetizar”) a vida das empresas têm resultado em certa frustração.

Supõe-se, erradamente, que internet e intranet são conceitos próximos. As palavras são parecidas. A tecnologia é comum. Mas as almas são bem diferentes. Estar aberto ou fechado ao mundo faz toda a diferença. A essência da internet é estar em expansão. O princípio da intranet é não estar. Desconfio que a internet, de aparência caótica e alma distribuída, se preste pouco a processos destinados a organizar hierarquicamente as coisas.

A situação muda quando substituímos os organogramas e planilhas de uma organização formal pela teia que une os pedaços de uma estrutura informal. Como, por exemplo, a sociedade humana, essa versão macroscópica da sopa primordial.

Caótica e distribuída, a vocação da internet é entrelaçar núcleos de informação. A novidade, como afirmamos, é que isso agora pode ser feito a um custo baixo, muito baixo. Esse baixo custo acelera a convergência entre o produtor e o consumidor de informação, sua síntese numa célula única. O resultado primeiro e mais visível dessa síntese é a queda exponencial da influência dos grandes veículos e sistemas de informação na construção das idéias coletivas.

A ideologia dominante numa sociedade é a ideologia da classe dominante. Com a internet, em termos. A “força dos fracos” é sinal dessa relativização. Interligados por e-mail e web, os grupos dominados conseguem afirmar sua identidade e já não podem ser simplesmente esmagados pela força bruta. Vale para os grupos e vale para as pessoas. Do mesmo modo que o computador ligado a uma rede é uma rede ele próprio, um indivíduo em rede é uma rede em si. Eis o sentido da célula de que falei. O menor pedaço em que um organismo vivo pode ser quebrado desde que mantidas as funcionalidades básicas. O trecho essencial de código que permitiria reconstruir todos os códigos. O homem em rede pode reconstruí-la a cada momento.

Quanto menor a distância entre esse pedaço básico, esse código fundamental e o indivíduo, mais perto estaremos da liberdade. Fala-se que a rede estimula o individualismo. Não. Ela estimula a individualidade, ao fazer convergir o produtor e o consumidor da informação em um único pólo. Não saberia dizer quanto tempo vamos levar até a generalização desse cenário, cujos embriões se vêem aqui e ali. Mas sei que no jornalismo do novo tempo, de um mundo em que convergem a produção e o consumo de informação (e que, portanto, pulveriza a distribuição dela) duas palavras serão cada vez mais fundamentais. Técnica e ética.

A interligação da sociedade e a superposição dos conceitos de indivíduo e rede permitem explorar ao máximo a individualidade, mas pedem padrões. Os computadores encontraram o seu padrão no Protocolo TCP/IP, a “língua comum” das redes da rede. O jornalismo precisará encontrar seu protocolo técnico e também seu protocolo ético. O poder democrático exige um exercício mais sutil e inteligível do que o autocrático. Inteligibilidade pede técnica. Todo jornalista sabe que é mais difícil escrever de um jeito que torne a leitura mais fácil. Sutileza pede ética. Todo jornalista sabe que é mais eficaz, ainda que mais trabalhoso, sustentar uma opinião com substantivos e verbos do que com adjetivos e advérbios.

Protocolo técnico e protocolo ético. Estamos mais avançados na busca do primeiro, mas precisaremos de ambos."

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Lula tem razão sobre "fazer campanha o tempo todo" (22/02)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu hoje críticas da oposição, de que está em campanha eleitoral. "Um homem público não precisa de época de eleição para fazer campanha", afirmou. "Ele faz campanha da hora em que acorda à hora em que dorme, 365 dias por ano. Se ele não fizer, os adversários dele farão." As declarações foram dadas à Agência Estado. Lula tem razão. Comunicar é uma das funções mais importantes do líder. E no presidencialismo o presidente é o líder. Se os tucanos querem aparecer no Jornal Nacional fazendo coisa diferente de brigar, que escolham logo o candidato e vão à luta, em vez de ficarem resmungando.

Fatah concorda em participar do governo do Hamas (22/02)

O grupo derrotado nas eleições de janeiro deve integrar o novo governo da Autoridade Palestina. Clique aqui para saber mais.

Confusão entre os vizinhos, cadê Lula? (22/02)

O presidente Lula gosta de se vangloriar do protagonismo do Brasil, adora ir à África, mas está omisso na grave crise que opõe o governo de esquerda do Uruguai ao governo peronista da Argentina. Está no Valor Econômico de hoje:

"Uruguai diz que vai à OEA contra a Argentina

O Uruguai anunciou que vai recorrer à Organização dos Estados Americanos (OEA) e à ONU por causa dos prejuízos econômicos que o país vem sofrendo com os bloqueios mantidos por ambientalistas argentinos nas pontes internacionais sobre o rio Uruguai, fronteira entre os dois países.
Os protestos ocorrem há quase duas semanas contra a construção de duas usinas de celulose em Fray Bentos, uma da empresa finlandesa Botnia e outra da espanhola Ence, a cerca de 300 km da capital uruguaia, Montevidéu.
A decisão foi ratificada pelo presidente Tabaré Vázquez numa reunião no Conselho de Ministros. O presidente estudava a medida desde a semana passada.
A Argentina diz que pode levar a polêmica à Corte Internacional de Haia. A Suprema Corte do país se disse incompetente para apreciar uma ação da Província de Entre Rios contra a construção das usinas. A ação pedia a intervenção judicial sob a alegação de que as usinas tinham a "intenção de poluir".
Vázquez anunciou a seus ministros que essa semana seu governo entregará ao secretário-geral da OEA, o chileno José Miguel Insulza, uma solicitação para que o organismo intervenha no caso. Ela conterá informações técnicas e ambientais sobre as usinas de celulose, os resultados das diferentes instâncias de negociação com a Argentina e uma explicação sobre os bloqueios de estradas e os prejuízos para a economia uruguaia.
O presidente manifestou também sua indisposição com seu colega argentino, Néstor Kirchner, por não ter respondido a uma carta enviada na semana passada solicitando uma garantia de livre trânsito ao país.
A Assembléia Ambiental da cidade argentina de Gualeguaychú, na província de Entre Ríos, está bloqueando, desde o início de janeiro, as estradas de acesso às pontes internacionais General San Martín e General Artigas, que ligam Uruguai e Argentina.
O possível dano das usinas ao meio ambiente vem sendo motivo de conflito entre os dois países desde o ano passado. Os projetos representam um investimento de US$ 1,8 bilhão no Uruguai."

Clique aqui para ir a uma página especial na Wikipedia sobre o conflito.

Chávez lidera com 66% na Venezuela (22/02)

Pesquisa mostra que o presidente venezuelano, Hugo Chávez, tem, hoje, o apoio de dois terços do eleitorado. Quem pode querer enfrentá-lo nas urnas é o ex-guerrilheiro Teodoro Petkoff. Clique aqui para ler sobre a pesquisa favorável a Chávez. Clique aqui para ler sobre a possível candidatura de Petkoff.

Comentários sobre o Datafolha de hoje (22/02)

Algumas hipóteses de trabalho sobre a pesquisa Datafolha divulgada hoje (veja as notas anteriores):

1) Lula voltou a ser competitivo, mas (ainda) tem suas fragilidades. Governantes costumam perder substância eleitoral durante as campanhas, pois o governo é o alvo da crítica de todos os outros candidatos. Por enquanto, Luiz Inácio Lula da Silva tem pouca gordura eleitoral para queimar, principalmente numa disputa direta com José Serra.

2) O descasamento entre, de um lado, a avaliação do governo Lula, e, de outro, a avaliação pessoal do presidente e seu desempenho eleitoral, mostram que a superexposição presidencial está surtindo efeito. Em contrapartida, os elogios diários de Lula a seu próprio governo (ainda) não parecem estar dando resultado.

3) O PSDB precisa reduzir a diferença de Lula no Nordeste para vencer. Um problema dos tucanos: no Nordeste, o PMDB é majoritariamente lulista. Como o PSDB quase inexiste na região, a guerra vai ficar por conta do PFL. O PSDB precisa torcer para que o candidato do PMDB seja forte (Anthony Garotinho) e empolgue o partido no Nordeste no primeiro turno.

4) O PT precisa reduzir a diferença dos tucanos no Sul para melhorar suas chances. Majoritariamente, o PMDB do Sul é antipetista e mais próximo do PSDB. O PT não tem aliados de peso nessa estratégica região.

5) Muito barulho por (quase) nada. As posições de Lula, José Serra e Geraldo Alckmin são estatisticamente as mesmas do final de 2004, mais de um ano atrás. Desde que acelerou sua pré-campanha, em dezembro, Alckmin recuou cinco pontos. O mesmo aconteceu com Serra nesse período. Mas é precipitado dizer que a crise não serviu (eleitoralmente) para nada. Quando (se) o assunto voltar ao noticiário e entrar no horário gratuito, Lula deve (pode) voltar a sofrer.

Nordeste é que dá vantagem a Lula sobre Serra no segundo turno (22/02)

Lula tem 35 pontos de vantagem sobre Serra no Nordeste num eventual segundo turno. O Nordeste tem 27,6% da amostra do Datafolha. Ou seja, o Nordeste garante a Lula quase 10 pontos percentuais sobre Serra no segundo turno. Para ampliar a imagem, clique nela.

Curvas descasadas no Datafolha (22/02)



O desempenho eleitoral do presidente da República (gráficos do meio e inferior) melhorou mais que a avaliação de seu governo (gráfico superior). Uma explicação para o descasamento das curvas está na nota anterior, que mostra a boa avaliação pessoal de Lula, inclusive entre eleitores que preferem os partidos da oposição. Clique nos gráficos para ampliá-los.

Datafolha: A avaliação pessoal de Lula, por partido de preferência do eleitor (22/02)

Em algum momento da crise, PSDB e PFL decidiram poupar Lula. Hoje, quase um terço dos eleitores tucanos acha o desempenho pessoal do presidente ótimo ou bom. Entre os pefelistas, os que gostam da atuação de Lula são mais da metade. Clique na imagem para ampliar.

Os cenários do Datafolha (22/02)

Serra disputa em qualquer ringue (22/02)

Aliados do prefeito de São Paulo garantem que o político enfrentará todos os eventuais fóruns do PSDB para escolha do candidato à Presidência da República

Alon Feuerwerker (em São Paulo)

Publicado no Correio Braziliense em 22 de fevereiro de 2006 - O nome do prefeito José Serra estará colocado em qualquer processo de consulta que o PSDB faça internamente para definir quem vai ser o candidato do partido à Presidência da República. Até ontem, a posição oficial dos serristas era que ele só entraria na disputa se recebesse um chamamento unânime dos tucanos. Ainda que sutilmente, o discurso mudou. “É claro que a possível candidatura vai ser posta na mesa para a manifestação do partido”, confirma o deputado federal Alberto Goldman (SP), vice-presidente do PSDB e aliado de Serra. Outros adeptos do prefeito reforçaram reservadamente ao Correio: mesmo que ele não se coloque por iniciativa própria, seus correligionários lutarão dentro do PSDB para que Serra tenha maioria nas instâncias partidárias que deverão ser ouvidas pela Executiva Nacional. Obtida a maioria, acreditam que estará configurado o “chamamento”.

O novo movimento dos serristas coloca um obstáculo inesperado diante do outro pré-candidato, o governador paulista, Geraldo Alckmin, cujos aliados sonham com uma vitória pela ausência de oponente. O raciocínio dos alckministas é simples: se Serra diz que só será candidato por unanimidade, basta não haver a unanimidade para que ele não seja candidato. Em outras palavras, o destino político de uma candidatura Serra estaria nas mãos de Geraldo Alckmin, que na prática ficaria com poder de veto dentro do partido. O movimento serrista ao admitir a disputa procura desativar essa armadilha. Ontem, Alckmin realizou uma ampla ofensiva política para mostrar força. Pela manhã, ouviu o apoio unânime da bancada tucana na Assembléia Legislativa de São Paulo. Depois almoçou com o triunvirato encarregado de coordenar a escolha do nome: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o senador e presidente do PSDB Tasso Jereissati (CE) e o governador de Minas Gerais, Aécio Neves.

Entre os dois compromissos, recebeu Serra no Palácio dos Bandeirantes para a assinatura de um convênio entre governo e da prefeitura. Serra ironizou a grande presença de jornalistas, evidentemente pautados para cobrir a sucessão presidencial: “Eu queria agradecer à imprensa pelo extraordinário interesse que demonstra aqui por esta ação cultural, é comovente”. Serra e Alckmin estiveram juntos por meia hora antes do evento, mas oficialmente suas assessorias informaram que não trataram da sucessão. No almoço com os cardeais, Alckmin reafirmou sua candidatura, disse que não insistirá em prévias, mas gostaria que o partido fosse consultado. Ouviu dos três que a consulta será feita, mas que a premissa é o escolhido ter o apoio de todos. Alckmin concordou. Houve acordo no almoço para que a definição aconteça até o dia 12 de março, e também o compromisso de o candidato, se eleito, apoiar o fim do instituto da reeleição, inclusive para ele próprio.

Na saída, o senador Tasso Jereissati disse que lutará para que haja um entendimento entre os dois pré-candidatos. "Se eu não conseguir, terá sido a grande derrota política da minha vida", afirmou o ex-governador do Ceará. Tasso enfatizou que as pesquisas —que dão vantagem a Serra sobre Alckmin— serão “apenas um dos critérios” e reforçou especialmente a idéia de que cada um dos dois, Serra e Alckmin, deve pesar “as circunstâncias”. Enquanto o governador está no final do segundo mandato —foi vice de Mário Covas, mas assumiu com a morte do governador e reelegeu-se em 2002—, Serra teria que deixar a prefeitura dois anos e nove meses antes de terminar o mandato arrancado de Marta Suplicy na eleição de 2004. “Serra tem que refletir, vamos esperar pela decisão dele”, afirmou Tasso. “O processo está em boas mãos”, apoiou Alckmin, referindo-se ao trio composto por FHC, Tasso e Aécio.

Iniciativa
A decisão dos serristas de disputar, se preciso no voto, a indicação pode permitir ao prefeito a retomada da iniciativa política que nos últimos dias tinha se deslocado para o campo do governador. Ambos travam um jogo de xadrez desde pelo menos dezembro, quando as pesquisas apontavam grande fragilidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os tucanos vislumbravam a possibilidade de ganhar com qualquer candidato. De lá para cá, Lula cresceu e o PSDB está voltado para dentro em busca do consenso, já que nem Serra é a garantia de que o partido vai vencer, nem Alckmin é a certeza de que será derrotado. As pesquisas internas mostram o prefeito empatado tecnicamente com Lula num segundo turno e Alckmin mais atrás. O PSDB precisa estar unido em São Paulo para ter chances contra Lula.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Datafolha: Lula 48% x Serra 43% (21/02)

Lula bate Serra por cinco pontos no segundo turno, segundo pesquisa Datafolha que sai na edição desta quarta-feira da Folha de S.Paulo, conforme antecipado aqui. Lula tem 48%, contra 43% de Serra. Contra Alckmin é 53% a 35%. Cenário de primeiro turno com Serra: Lula 39%, Serra 31%, Garotinho 8%, Heloísa Helena 5%, Roberto Freire 2%, Cristovam Buarque 1%. Cenário de primeiro turno com Alckmin: Lula 43%, Alckmin 17%, Garotinho 11%, Heloísa Helena 6%, Roberto Freire 2%, Cristovam Buarque 1%.

Datafolha vai confirmar tendência da pesquisa CNT-Sensus nesta madrugada (21/02)

Pesquisa Datafolha sobre a sucessão presidencial vai confirmar, nesta madrugada, a tendência dos números trazidos pela CNT-Sensus, que na semana passada mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à frente do prefeito José Serra num hipotético segundo turno, se a eleição prevista para outubro acontecesse hoje. No Datafolha, a diferença de Lula para Serra no segundo turno cai aproximadamente pela metade em relação aos dez pontos registrados pela CNT-Sensus, mas o levantamento confirma a ultrapassagem do petista sobre o adversário. A pesquisa estará na internet com a edição desta quarta-feira (22) da Folha de S.Paulo, que já está fechada mas costuma ir ao ar apenas por volta das 2h30.

Eleitores do Hamas não querem a destruição de Israel (21/02)

Apenas 12% dos eleitores do Hamas dizem ter votado nos candidatos do grupo por concordar com a proposta de destruir o Estado de Israel. 43% disseram que escolheram o Hamas para combater a corrupção do governo da Fatah. Os demais votaram por razões religiosas e por acreditar que a nova administração vai melhorar a vida dos palestinos. 52% desejam que o novo governo honre os acordos com os israelenses, assinados por Yasser Arafat. Clique aqui para ler mais.

"No Massimo estava melhor" (21/02)

Enquanto os jornalistas esperavam o fim do almoço do cardinalato tucano com o governador Geraldo Alckmin, corriam as piadas. A top conta que a comida foi servida e os quatro mastigavam, silenciosamente. Depois de provar de tudo, inclusive da bebida, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vira-se para Alckmin e dispara: "A conversa está boa, Geraldo, mas a comida do Massimo estava bem melhor".

Ofensiva de Alckmin (21/02)

Governador paulista, um dos presidenciáveis do PSDB, recebe apoio hoje da bancada tucana na Assembléia e participa de jantar com os deputados federais em Brasília

Alon Feuerwerker (em São Paulo)

Publicado no Correio Braziliense em 21 de fevereiro de 2006 - O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, promove hoje uma ofensiva política com o objetivo de tentar ganhar espaço para sua candidatura à Presidência da República dentro do PSDB. Pela manhã, recebe o apoio da bancada tucana na Assembléia Legislativa de São Paulo, em um café-da-manhã na ala residencial do Palácio dos Bandeirantes. À noite, janta com os deputados federais do partido em Brasília, na residência de Eduardo Gomes (PSDB-TO).

No intervalo entre essas duas reuniões, Alckmin se encontra e almoça com os cardeais encarregados de coordenar a escolha do candidato: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o presidente do partido e senador Tasso Jereissati (CE) e o governador de Minas Gerais, Aécio Neves. A orientação que Alckmin transmitiu aos adeptos da candidatura é intensificar o trabalho. "Falei com o governador e vamos acelerar os contatos, as conversas, sempre ressaltando a necessidade de o partido ser consultado antes de qualquer decisão", diz o deputado federal Júlio Semeghini (PSDB-SP).

Todo o esforço do alckminismo é para evitar que o triunvirato de cardeais sinta-se à vontade e tome isoladamente uma posição definitiva sobre quem será o nome do PSDB para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Se os três tiverem que fazê-lo, o natural é que pendam para o prefeito de São Paulo, José Serra, apontado nas pesquisas encomendadas pelos tucanos como o candidato mais competitivo contra Lula. Os levantamentos, realizados pelo sociólogo Antônio Lavareda, mostram empate técnico entre Lula e Serra num eventual segundo turno, enquanto Alckmin seria derrotado pelo presidente por uma diferença superior a 10 pontos percentuais.

Mas Serra tem dito que só deixa a prefeitura de São Paulo para entrar na corrida presidencial se receber uma convocação do PSDB, já que teria mais dois anos e nove meses de mandato a cumprir. É essa convocação que Alckmin trabalha febrilmente para evitar. Leva a vantagem de o partido estar dividido praticamente ao meio, qualquer que seja a instância consultada. Essa divisão impede, na prática, que se construam as condições para um apelo partidário a Serra. E vai pavimentando a estrada onde Alckmin cria diariamente fatos políticos para apresentar sua candidatura como algo praticamente irreversível.

"Essa obstinação do governador dificulta muito as coisas para o prefeito", admitiu ontem o deputado federal Sebastião Madeira (PSDB-PA), ele próprio um serrista militante. Reservadamente, adeptos de Serra admitem que Alckmin parece disposto a esticar a corda a um ponto em que talvez não possa ser acompanhado pelo prefeito. Por ironia, dizem, a atitude de Alckmin lembra a obstinação do próprio Serra pela legenda tucana em 2002.

Os serristas confiam que a perspectiva de uma candidatura mais competitiva contra Lula vai sensibilizar o partido na hora de decidir. Os alckministas dizem que seu candidato seria o mais natural, por estar no fim do mandato e ter, segundo eles, o apoio maciço da principal seção partidária, a paulista. No meio dessa disputa, os caciques tucanos encarregados de tomar uma decisão parecem cada vez mais distantes do ambiente ideal para fazê-lo. É possível que tomem a decisão de não decidir nada, que deixem a bola para os dois pré-candidatos.

Calendário
Tanto Serra quanto Alckmin precisam renunciar aos mandatos no começo de abril se quiserem concorrer a qualquer coisa em outubro. O governador já disse que deixa o cargo. O prefeito só poderá fazê-lo se tiver a certeza da vitória na convenção de junho e se souber que o partido caminhará razoavelmente unido em torno de sua candidatura. Em meio a tantas variáveis, é possível que a decisão tucana acabe ficando nas mãos apenas do calendário. Em abril, quem estiver preso a algum cargo estará fora da disputa. Nesse quesito, a vantagem é de Alckmin. Como o Serra de 2002, ele tem quase nada a perder.

Seis pontos de Delfim Netto (21/02)

O deputado federal e ex-ministro Delfim Netto (PMDB-SP) escreve hoje no Valor Econômico sobre a economia e a sucessão presidencial. As conclusões do artigo:

"Um ponto importante é que temos de evitar a tentação de mais uma grave "bricolage" sugerida por uma minúscula tribo de economistas que nos últimos 10 anos não aprendeu nada (e não esqueceu nada!), mas imagina poder impor ao mercado a baixa da taxa de juro "na marra" e o alongamento da dívida por alguma forma elegante de "calote"!
Novo governo deve corrigir o serviço malfeito.
Na prática o processo já começou:

1º) Pelo reconhecimento que uma política de redução monotônica da relação Dívida Líquida/PIB é essencial para a baixa consistente da taxa de juro;

2º) Pelo reconhecimento das inter-relações entre taxa de juro, crescimento econômico e superávit primário para que a condição anterior seja satisfeita;

3º) Pelo reconhecimento que podemos atrair o capital estrangeiro (sem tributação) para alongar a dívida sem valorizar ainda mais a taxa de câmbio real;

4º) Pela lenta (mas que vai acelerar-se quando ficar claro a tendência de queda da taxa de juro real) substituição do financiamento da dívida por papéis silicados, por papéis prefixados ou referidos a índices de preços;

5º) Pelo reconhecimento que a ação governamental deve ser amigável com relação ao setor privado, proporcionar-lhe paz interna e externa, além de uma razoável prestação de justiça e;

6º) Pelo clamor público contra o nível de tributação e a favor de um enxugamento do Estado com a descentralização de suas atividades fins.

O candidato que não enfrentar corajosamente esses problemas no seu programa de comunicação com o público e vier com a tradicional e desacreditada "milonga social", sem insistir no preliminar e cuidadoso arranjo produtivo para acelerar o crescimento, vai merecer o justo repúdio dos eleitores, que estão fartos de apenas "um pouco mais do que temos tido"!".

Clique aqui
para ler o artigo (Bula absolvitória preventiva), para assinantes do jornal.

O "já ganhou" mudou de lado (21/02)

Antes mesmo dos números que abriram a temporada de recuperação de Lula (Ibope/IstoÉ), escrevi aqui que Zagallo e tucanos já se sentem com a mão na taça (19/01). Que o PSDB poderia se enrolar no seu triunfalismo era só um palpite, mas depois vieram as pesquisas e o cenário que todos sabem qual é. Agora, o "já ganhou" mudou de lado, passou para as fileiras do PT. Basta percorrer o noticiário com alguma atenção. Esquecem que não há eleição vencida de véspera. Em 2002, imediatamente antes do início do horário eletoral, Ciro Gomes estava na frente de Lula (48% a 44%) nas simulações de segundo turno (veja o gráfico acima). E acelerava para passar o petista no primeiro turno (clique aqui para ver a pesquisa completa). Em pouco mais de dois meses, o hoje ministro da Integração havia tirado mais de 20 pontos da diferença que o separava do petista. No final, nem foi ao segundo turno.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Alckmin não recua (20/02)

Alon Feuerwerker

Publicado no Correio Braziliense em 20 de fevereiro de 2006 - O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, não pretende recuar ou abrir espaço para a unção do prefeito da capital paulista, José Serra, como candidato do PSDB à Presidência da República. Essa posição será transmitida aos caciques tucanos na conversa que devem ter nesta semana. Alckmin dirá que cumpriu o determinado pela cúpula partidária, que se tornou um candidato viável para ganhar a eleição e que não é necessário correr o risco de tirar Serra da prefeitura de São Paulo com dois anos e nove meses de mandato a cumprir. Ontem, no interior de São Paulo, Alkcmin, cujo apelido é "picolé de chuchu", disse que na Presidência dele "o Brasil vai crescer pra chuchu" e "nós vamos ter emprego para chuchu".
As preferências partidárias pendem hoje para Serra, mas a posição de Alckmin não deixa de sensibilizar o alto tucanato. A pelo menos um interlocutor, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso manifestou recentemente grande preocupação com o risco de derrota de Serra numa disputa contra Lula, se o PSDB não estiver completamente unido e coeso. Hoje, os tucanos têm o governo de São Paulo, a prefeitura da capital e sonham com a Presidência. Do diálogo com FHC, o interlocutor entendeu que o ex-presidente teme o pior: errar na mão e acabar o ano em tragédia, com o partido fora dessas três posições de poder.
Mesmo as pesquisas internas analisadas na semana passada pelos tucanos não são definitivas. Serra está melhor que Alckmin, mas não num patamar confortável para vencer Lula. E os números não autorizam a conclusão de que o governador estaria previamente derrotado pelo petista.

Dream team
Outro problema que atormenta o sono do PSDB são os palanques estaduais em dois lugares decisivos na eleição: São Paulo e Rio de Janeiro. "Quem tem tantos candidatos como nós em São Paulo, na verdade não tem nenhum", diz um deputado federal do PSDB-SP que prefere, por razões óbvias, não ser identificado. Disputam a indicação para suceder Alckmin o ex-ministro Paulo Renato, os deputados federais Alberto Goldman e Aloysio Nunes Ferreira e o vereador da capital José Aníbal, pelo menos. No Rio, a situação é um pouco mais grave. A aliança PSDB-PFL está ameaçada de nem ir a um hipotético segundo turno, pois até agora os nomes mais fortes são os dos senadores Sérgio Cabral (PMDB), aliado do ex-governador e presidenciável peemedebista Anthony Garotinho, e Marcelo Crivella (PMR), que vai apoiar a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
Diante desse cenário nada animador, começam a aparecer pressões para um entendimento que envolva quatro posições: a Presidência, o Palácio dos Bandeirantes, o das Laranjeiras e o da Liberdade em Minas. Se prosperarem, Lula corre o risco de ter que enfrentar em outubro não um candidato, mas um dream team (time dos sonhos). O pacto envolveria pelo menos três presidenciáveis: Geraldo Alckmin para presidente, José Serra para governador de São Paulo e a reeleição de Aécio Neves.
No Rio, os tucanos gostariam que o prefeito da capital, Cesar Maia, entrasse na luta pelo governo do estado. Mas há um problema: o vice de Maia é do PSDB, que no Rio faz oposição ao prefeito. Uma solução seria colocar na disputa o líder do PFL na Câmara dos Deputados e herdeiro político de Maia, seu filho Rodrigo Maia.
"Se conseguirmos unir o PSDB e o PFL e lançar candidatos com a força desses nomes em São Paulo, Rio e Minas vamos construir um Triângulo das Bermudas para afundar o Lula e o PT", diz um dos aliados de Alckmin na Câmara.
Falta, agora, combinar com Serra. O prefeito repetiu várias vezes nos últimos dias que só sai do cargo para entrar na corrida presidencial se Alckmin desistir e o partido lhe pedir que assuma a missão. Serra sabe que Alckmin tem força política em São Paulo e que uma divisão paulista seria quase a sentença de morte para a candidatura tucana ao Palácio do Planalto.

Fox bem avaliado, mas oposição lidera (20/02)

O presidente do México, Vicente Fox, está muito bem avaliado, mas a oposição lidera as pesquisas para a sucessão dele. Fox tem 66% de aprovação, contra apenas 30% de desaprovação. Nas intenções de voto para sucedê-lo, quem está na frente é o ex-prefeito da Cidade do México Andrés Manuel López Obrador, do Partido Revolucionário Democrático (PRD, esquerda). Obrador tem 34,2%. Apesar da vantagem numerica, Obrador está empatado tecnicamente com Felipe Calderón, do Partido de Ação Nacional (PAN, liberal), de Fox. Calderón tem 29,6%. O candidato do PRI (Partido Revolucionário Institucional, centro-esquerda), Roberto Madrazo, tem 24,2%. A margem de erro é 3,1 pontos percentuais. A pesquisa presidencial foi feita pelo Centro de Estudios de Mercadotecnia y Opinión (CEMO).

domingo, 19 de fevereiro de 2006

Alckmin, Serra, Aécio e um Maia contra Lula? (19/02)

Diante da determinação feroz do governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin, começam a aparecer movimentos para um pacto que envolva quatro posições: o Palácio do Planalto, o dos Bandeirantes, o da Liberdade e o das Laranjeiras. Se prosperarem, Lula corre o risco de enfrentar em outubro não um candidato, mas quase um "dream team". O acordo envolveria pelo menos três e talvez até quatro presidenciáveis. A chapa teria Geraldo Alckmin para presidente, José Serra para governador de São Paulo e, naturalmente, Aécio Neves em Minas. No Rio, os tucanos gostariam que o prefeito da capital, Cesar Maia (PFL), entrasse na luta pelo governo estadual. Mas há um problema: o vice de Maia é do PSDB, que no Rio faz oposição ao prefeito. Uma solução seria colocar na disputa o líder do PFL na Câmara dos Deputados e herdeiro político de Maia, seu filho Rodrigo. "Se conseguirmos unir o PSDB e o PFL e lançar candidatos com a força desses nomes em São Paulo, Rio e Minas, vamos construir um Triângulo das Bermudas para afundar o Lula e o PT", diz um tucano.

Israel x Hamas: Segue a escalada (19/02)

Assim como entre os palestinos, também no lado israelense deu a lógica. Após a posse do novo parlamento da Palestina, dominado pelo Hamas, Israel disse que a Autoridade Palestina agora é uma "autoridade terrorista" e decidiu aplicar sanções, como o bloqueio de fundos e mais rigidez no controle das "fronteiras". Mas não aprovou a proibição do tráfego entre Gaza e Cisjordânia. E Ismail Haniya está indicado para ser o novo primeiro-ministro palestino. Clique aqui para ler mais.

Notas relacionadas neste blog:

Israel x Hamas: Segue a escalada (19/02)

O Hamas toma posse, Israel observa (18/02)

Duas táticas na relação com o Hamas e uma visão tardia sobre a invasão soviética no Afeganistão (10/02)

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Hamas dá sinais de moderação tática (06/02)

Hamas diz que jamais aceitará Israel (03/02)

Quarteto exige que Hamas renuncie à violência e reconheça Israel (30/01)

O papel do voto distrital na vitória do Hamas (29/01)

Palpites sobre o Oriente Médio (29/01)

EUA pedem que Hamas renuncie à violência e aceite Israel (26/01)

As conseqüências da vitória do Hamas (26/01)

Em Brasília, os pobres reprovam Lula. Mas, quem é o "pobre" nas pesquisas? (19/02)

Pesquisa Ibope fechada no final de janeiro no Distrito Federal mostra que a maioria dos eleitores desaprova a maneira como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva administra o país. Surpreendentemente (pelo contraste com outras pesquisas, nacionais), a desaprovação é maior entre os mais pobres e menos escolarizados.
No total da amostra, 47% desaprovam a maneira como o presidente vem governando, contra 42% que aprovam. A desaprovação chega a 57% na faixa dos que ganham até 2 salários-mínimos (R$ 600), onde Lula tem a aprovação de apenas 33%. Entre os que estudaram até a 4a. série do ensino fundamental, Lula é reprovado por 54% e aprovado por 34%. Nos que fizeram até entre a 5a. e a 8a. séries, esse placar é de 49% a 41%. Na faixa de até R$ 600 reais, Lula recolhe 41% de “ruim” e “péssimo”, contra apenas 26% de “ótimo” e “bom”. Esse mesmo placar é de 37% a 27% entre os que fizeram até a 4a. série, e de 36% a 25% na faixa dos que completaram da 5a. à 8a. séries. Clique aqui para baixar a pesquisa completa.
Essa avaliação se reflete nas intenções de voto. Veja na tabela acima. Lula estaria atrás de José Serra no DF já no primeiro turno entre os pobres. O tucano ganha de 37% a 19% entre quem ganha até R$ 600. Os números do Ibope no DF dão o que pensar. Ou os pobres do DF estão pensando diferentemente de seus colegas no resto do país, ou tem caroço no angu. O prefeito Cesar Maia, por exemplo, tem dito que a sustentação de Lula não repousa nos pobres, mas no Nordeste.
Talvez seja preciso os institutos definirem melhor o que chamam de “pobre”. No Datafolha, por exemplo, essa categoria cobre quem ganha até 5 salários mínimos. Ou R$ 1.500. Se fosse assim, 85% da população brasileira deveria ser considerada “pobre”. Está na cara que isso não faz nenhum sentido. Estão misturando alhos com bugalhos.

sábado, 18 de fevereiro de 2006

O que pensa a extrema-esquerda (18/02)

Recebi reclamações, na forma de comentários e emails, por ter publicado a nota PSol, PSTU e PCB juntos?. Os críticos dizem que não são partidos relevantes. Não concordo. A senadora Heloísa Helena (PSol-AL) tem hoje pelo menos o dobro das intenções de voto do governador Germano Rigotto. Na última pesquisa Datafolha, ela aparece com até 9%, no cenário em que Geraldo Alckmin é o candidato do PSDB e Rigotto o do PMDB.
Postei na seção de artigos, um pouco abaixo nesta página, à direita, um texto de Valério Arcary, que ele me manda por email. Valério é militante histórico do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). Como o freqüentador deste blog poderá verificar, ele e eu temos pontos de vista muito distintos e distantes. A leitura do texto pode ajudar a compreender, em algum grau, como o cenário é observado a partir da ponta-esquerda do espectro político.

O Hamas toma posse, Israel observa (18/02)

Israel resolveu esperar pela posse, hoje, do novo Parlamento palestino, controlado pelo Hamas, para decidir sobre possíveis sanções, como bloqueio de recursos financeiros e proibição de trânsito entre Gaza e Cisjordânia. Clique aqui para ler mais. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, pediu ao Hamas que endosse os acordos assinados por Yasser Arafat com Israel.

Informação adicionada em 18/02, às 13h30: Deu a lógica. O Hamas rejeitou o pedido de Abbas. Espera-se agora pela reação de Israel.

Notas relacionadas neste blog:

O Hamas toma posse, Israel observa (18/02)

Duas táticas na relação com o Hamas e uma visão tardia sobre a invasão soviética no Afeganistão (10/02)

Novosti: Como o tratamento ao Irã e ao Hamas lembra o Pacto de Munique (06/02)


Hamas dá sinais de moderação tática (06/02)

Hamas diz que jamais aceitará Israel (03/02)

Quarteto exige que Hamas renuncie à violência e reconheça Israel (30/01)

O papel do voto distrital na vitória do Hamas (29/01)

Palpites sobre o Oriente Médio (29/01)

Reação cuidadosa do mundo à vitória do Hamas (27/01)

EUA pedem que Hamas renuncie à violência e aceite Israel (26/01)

As conseqüências da vitória do Hamas (26/01)

Palestina: Sem maioria absoluta para Fatah ou Hamas (25/01)

O que dizem as pesquisas na Palestina (25/01)

Eleições no mundo mostram divisão Norte-Sul (23/01)

Hamas aumenta favoritismo para as eleições palestinas (22/01)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Cesar Maia suaviza o tom sobre Alckmin (17/02)

O prefeito do Rio vinha dizendo que se o candidato do PSDB fosse o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ele entraria na disputa pelo PFL. Hoje, em seu "email/blog", Cesar Maia trata com naturalidade da hipótese de o PFL indicar o vice de Alckmin. O texto:

"O VICE DO PFL : QUEM?
A cada dia amadurece mais a idéia de que o vice do PFL ,numa eventual chapa com o PSDB, deve ser escolhido depois da escolha do PSDB.
Se for o governador Alckmin - o vice do PFL deve gerar agregação eleitoral à chapa no Nordeste, devendo ser um parlamentar, um governador ou ex-governador de um Estado do Nordeste.
Se for o prefeito José Serra - o vice do PFL deve gerar agregação politica à chapa, arrumando o perfil da chapa com sinais de corte mais liberal e buscando dar mais previsibilidade futura, sem qualquer preocupação regional, na medida que o patamar de Serra não exige mais isso."

O antiliberalismo é de esquerda? (17/02)

A Folha de S.Paulo trouxe quarta-feira (15) reportagem em que um grupo de intelectuais e jornalistas supostamente de direita foi dissecado e classificado por um punhado de analistas supostamente de esquerda. Da degustação desse menu taxonômico, algo não me caiu bem. Nunca entendi completamente por que o liberalismo entre nós é classificado na coluna da direita e nos Estados Unidos "liberal" é um xingamento dirigido à esquerda.

Desconfio que deve ter a mesma raiz de outra diferença nas palavras. Enquanto aqui empresa pública é sinônimo de estatal, lá significa uma companhia cujas ações são negociadas com o público, na Bolsa. Cada um que interprete como quiser.

A reportagem procura no golpe militar de 1964 as raízes dessa alocação dos liberais na fila da direita. Tenho dúvidas. Naquele período, houve liberais e liberais. Paulo Brossard era um de carteirinha e foi símbolo da resistência à ditadura. Como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, sem falar em Teotônio Vilela. É verdade que alguns pagaram caro por ficarem identificados com o movimento que derrubou João Goulart. Mas uma parte significativa deles acabou, com o tempo, entrando na quota dos perseguidos pelo regime.

A conexão intelectual e política entre "progressismo" e antiliberalismo entre nós remonta, pelo menos, aos desdobramentos da Revolução de 30. O combustível do movimento tinha sido a pressão por eleições limpas (bem liberal, não é?). Na seqüência, os tenentes se dividiram e o país viveu anos de conflitos, até que, em 1935, os comunistas deram a Getúlio Vargas o pretexto para cancelar as eleições e decretar, em 1937, o Estado Novo. Que foi antiliberal, filofascista e, portanto, de direita.

Acho que o liberalismo brasileiro começou a morrer naquela época, num acordo tácito entre a esquerda e a direita geradas no útero do tenentismo. Depois vieram os equívocos da UDN, que passou a vida conspirando contra resultados eleitorais e imaginou ter chegado ao poder quando ajudou a derubar Jango. Apenas para descobrir, no AI-5, que mais um de seus planos, o definitivo, tinha falhado.

O debate sobre aliar-se ou não aos liberais contra a ditadura consumiu boa parte das energias intelectuais da esquerda nos anos 70. Nasceu ali a divisão que hoje se expressa na polaridade entre o PT e o PSDB. Na época, a dúvida era sobre participar do então Movimento Democrático Brasileiro (que o esquerdismo chamava de "oposição consentida") ou pregar o voto nulo. Com o tempo, quase todas as correntes socialistas não trotsquistas entraram no MDB. Na brecha das liberdades conquistadas pelo MDB vieram Lula, o PT e uma história que já é bastante conhecida.

Essa polêmica nunca ficou bem resolvida. Os galanteios que Lula faz hoje ao PMDB são unicamente tática eleitoral, sem falar que o partido é só um retrato meio desbotado dos escombros do MDB. O pacto proposto pelo PT aos peemedebistas envolve repartição de pedaços do orçamento, não projetos. Prefiro o Partido Socialista chileno, que entendeu a importância de uma aliança estratégica com o centro liberal, representado pela Democracia Cristã. Talvez porque antes tenha sofrido o que sofreu nas mãos de Augusto Pinochet. Acho que nunca mais vão cometer os erros do presidente socialista Salvador Allende.

Quando releio as linhas acima, tenho a sensação de que escrevi sobre a pré-história. Nos últimos anos, temos vivido enrolados nessa mixórdia de multiculturalismo e regressismo anticapitalista que tentam nos impor como o "novo" pensamento "progressista". Vladimir Lênin fundou o socialismo revolucionário russo em oposição ao anarquismo e ao terrorismo. Ao olhar hoje para os que se dizem seus herdeiros, ele deve estar revirando lá no mausoléu da Praça Vermelha, em Moscou. Na foto acima, o produto de um bom momento nas relações entre a esquerda e os liberais: o desfile da vitória sobre o nazifascismo (Moscou, Praça Vermelha, 24 de junho de 1945).

Abaixo, links para ler a reportagem da Folha (para assinantes do jornal ou do UOL) e um texto crítico do Primeira Leitura.

1) Folha de S.Paulo (15.02.2006)

Direita, volver!

Regime militar ainda é um estigma
Direita, volver!: "O povo brasileiro é maciçamente de direita"
A esquerda prepondera, diz Rosenfield
Frases

2) Primeira Leitura (15.02.2006)

Eu, um direitista

PSol, PSTU e PCB juntos? (17/02)

Possíveis novidades à esquerda. PSTU e PCB estudam uma possível aliança já no primeiro turno com o PSol da senadora Heloísa Helena.

Um calendário de eleições (17/02)

23 de fevereiro, Uganda (Presidência)
5 de março, Benin (Presidência)
12 de março, El Salvador (Parlamento)
12 de março, Colômbia (Parlamento)
19 de março, Belarus (Presidência)
26 de março, Sao Tome & Principe (Parlamento)
26 de março, Ucrânia (Parlamento)
28 de março, Israel (Parlamento)
31 de março, Samoa (Parlamento)
9 de abril, Itália (Parlamento)
9 de abril, Peru (Presidência, Parlamento)
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

O risco país de alguns emergentes (16/02)

Na tabela da concultoria Tendências (clique na imagem para ampliar) com o risco país de alguns emergentes, só estamos na frente da Nigéria e da Argentina. E empatados tecnicamente com a Venezuela.

Meu amigo Rui e o Marechal Tito (16/02)

O jornalista Rui Nogueira, de quem gosto desde que trabalhamos juntos na Folha de S.Paulo, critica no site Primeira Leitura texto meu publicado no Correio Braziliense e reproduzido aqui neste blog com o título "O ano das trapalhadas tucanas". Vamos aos argumentos:


Diz o Rui: "a pesquisa Sensus, para além de confirmar a tendência detectada por Ibope e Datafolha, serviu para tirar do armário um bocado de gente que andava entre desnorteada e acabrunhada".

Nesse trecho, ele deve estar se referindo a alguém que não conheço.

Diz o Rui: "Que é isso, Alon?! O sal é para salgar e o doce é para adoçar. Em jornalismo, dá indigestão essa moda de juntar pedaços de melancia no prato do arroz com feijão. Só não é mais indigesto do que transformar, de maneira voraz, as incertezas em certezas. Ou, se preferir, as certezas de ocasião em certezas permanentes".

É verdade. No jornalismo, toda a pressão é para dividir o mundo em "bons" e "maus" e contar uma historinha que se encaixe com facilidade num quebra-cabeças maniqueísta. Claro que sempre de acordo com as necessidades e conveniências da ocasião.

Diz o Rui: "Quem achou Lula agonizante? Os tucanos tolos, quero crer! Tolos, não importa onde eles se aninhem, nunca são mais do que isso".

Em dezembro, as pesquisas mostraram que o PSDB tinha um candidato favorito na corrida presidencial, José Serra. Em vez de engordar esse capital, os tucanos preferiram dilapidá-lo. A tese ouvida em Brasília, e que depois se espalhou pelo país, era que estaria na hora de Serra se recolher e Alckmin tentar viabilizar a candidatura. Para que o PSDB, além de conquistar a Presidência, mantivesse também a prefeitura de São Paulo. O cenário resultante dessa estratégia está aí à vista de todos e é auto-explicativo.

Diz o Rui: "Não é menos tolice achar e dizer que Lula não comanda um governo desastroso. É só qualificar o desastre, claro! Lula manteve a base de gestão econômica – ajuste fiscal –, herdada dos tucanos, e fez mais o quê? É um desastre completo, sim, em matéria de gestão do Estado. Podemos concordar que tudo podia ter sido muito pior, mas não me diga que o debate eleitoral deve se pautar por essa mediocridade! Ou que essa é a régua dos nossos escritos!".

Quem acha que Lula comanda um governo desastroso deve prová-lo com números. Os únicos disponíveis até agora não autorizam essa conclusão. Proponho um método para resolver a polêmica no terreno da racionalidade. Há uma apresentação no site da Fazenda sobre os dados recentes da economia brasileira (O Brasil virando Onça). Vamos esperar que alguém produza um contra-documento, contestanto as informações que ali estão. Preferências políticas, cada um tem a sua. Mas em governos, como nas empresas, a gestão só pode ser medida objetivamente pelos resultados. Claro que petistas sempre tenderão a achar governos tucanos "um desastre" e os tucanos acharão o mesmo de governos do PT. Mas aí é torcida, não informação. Não penso ser pouca coisa Lula ter mantido, aprofundado e tornado estrutural o ajuste fiscal. Se o país mantiver superávits primários suficientes por um tempo também suficiente, os juros vão cair mais e vamos crescer mais. E o crescimento é o único caminho consistente para promover justiça social. Países que dão certo sustentam-se em 99% de consensos e 1% de dissensos. Se o governo Lula abandonou sua cartilha anterior e contribuiu para aumentar nossa taxa de consenso em torno de algo razoável e essencial, parabéns para ele. Não vejo sentido, como jornalista, em cobrar de Lula e do PT que persistam no erro.


Diz o Rui: "Que mixórdia de debate é esse que estamos a propor à sociedade? Eu proponho que não fique impune o uso do caixa dois, e não posso, nem como jornalista nem como cidadão, achar irrelevante que Lula diga ao país que “nada está provado” sobre mensalão e corrupção das instituições do Estado. FHC a preservar a biografia? Ora, só ele está liberado para dizer o óbvio: o PT, como você bem sabe, montou uma estrutura de assalto ao Estado. Não posa de santo e moralista político, apresenta-se como denunciante credenciado para fazê-lo."

Ao que assistimos hoje em dia? Quando a acusação é contra os inimigos, ela é verdadeira por definição. Quando é contra os amigos, é denuncismo. Escrevi sobre isso em Para os amigos, a lei; para os inimigos o vale-tudo. Estou fora dessa. Prefiro confiar nas instituições. Não subscrevo teorias medievais sobre a necessidade de "punições exemplares" a pessoas contra as quais não há provas. Pagarei o preço que tiver que pagar por essa posição, pois acredito no Estado de Direito. Há pelo menos um quarto de século, estou convencido de que a democracia é um valor universal e que não se deve transigir nesse ponto. Não há Civilização onde não há Justiça. Isso vale para uma delegacia de polícia e para o Congresso Nacional. Sobre Fernando Henrique Cardoso, caro Rui, tenho argumentado a favor do governo dele mais do que o faz a maioria dos tucanos. Veja um trecho que escrevi dias atrás em Estratégias frágeis de petistas e tucanos: "Os petistas sabem que tentam iludir o povo quando falam mal do governo FHC. Tanto sabem que não revogaram uma sequer das políticas do tucano. Em oito anos, a administração do PSDB matou uma inflação de meio século, institucionalizou a responsabilidade fiscal e os programas sociais de apoio à população mais pobre e consolidou a convivência democrática num país de história marcadamente golpista". Quem discordar, que conteste.

Diz o Rui: "Balcanização tucana para escolher o candidato? Ora, quanto apego a exageros verbais para descrever o inexistente."

Inexistente? Fala sério, Rui. Balcanização é isso mesmo, uma guerra fratricida. Pode terminar em fragmentação, como aconteceu com a ex-Iugoslávia, mas também pode resultar no diktat de algum Josip Broz (foto). Se o PSDB tiver juízo, une-se logo em torno de um Marechal Tito.

E completa o Rui: "Qual é, afinal de contas, o erro de avaliação? O governo Lula está reeleito? Está absolvido? Não há mesmo nada provado? É um bom governo? Bem, ainda que os tucanos achassem isso tudo do governo Lula, eu continuaria, como jornalista, a ter milhares de provas de que a gestão federal petista, estando à frente ou atrás nas pesquisas, é um governo desastroso. O que não quer dizer que não possa vir a ser reeleito! A competência ou incompetência dos adversários são variáveis poderosas, muito além da avaliação objetiva que eu faça do governo. O que não posso é torcer e distorcer. Quanta euforia represada!".

É verdade, mesmo um governante desastroso pode se manter no poder se a oposição for suficientemente incompetente. E bons governantes podem não se reeleger se a oposição for suficientemente competente. Não há um parâmetro universal para medir a competência política. O PT foi competente ao atacar durante anos o governo FHC por causa de diretrizes que ele, PT, felizmente manteve quando chegou ao poder. José Serra foi competente ao não bater de frente com a boa administração de Marta Suplicy e virou prefeito de São Paulo. O petista João Paulo foi competente para tirar do poder o bom prefeito do Recife Roberto Magalhães. Que tipo de competência pode prevalecer na eleição de agora, só Deus sabe. Mas isso é problema dos marqueteiros, não meu.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Dois destinos interligados (15/02)

Serra e Alckmin apostam em disputa dura contra Lula e sabem que precisam estar unidos em São Paulo para que um deles possa pensar em vencer

Alon Feuerwerker


Correio Braziliense, 16 de fevereiro de 2006 - Os quase 28 milhões de brasileiros que votam em São Paulo são o terreno da batalha final no PSDB para saber quem vai ser o candidato do partido à Presidência da República. Divididos em muitos assuntos, os tucanos coincidem no diagnóstico: uma larga vantagem em São Paulo sobre Luiz Inácio Lula da Silva será vital para as ambições do partido na corrida pelo Palácio do Planalto. O prefeito paulistano, José Serra, sabe que não pode sair do cargo e entrar na campanha sem o apoio firme do principal líder político do estado, o governador Geraldo Alckmin. Já Alckmin trabalha duro para mostrar à cúpula e às bases partidárias que é ele, e não Serra, quem pode abrir em São Paulo uma vantagem decisiva e, portanto, derrotar Lula.

Ao longo desta semana, o Correio esteve separadamente com o governador e o prefeito, por cerca de uma hora cada, e com outros líderes do PSDB. Naturalmente, todos acham que o segundo turno será disputado entre Lula e um tucano. Dessas conversas, é possível concluir que o partido trabalha com o cenário de uma corrida cabeça a cabeça até o final. Admitem que dificilmente conseguirão reverter por completo a vantagem de Lula no Nordeste, mas acreditam que ela será compensada no Sul. No resto do país, fora São Paulo, o cenário que desenham é de equilíbrio.

Dão como exemplo Minas Gerais, onde Lula teve dois terços dos votos em 2002 e hoje a situação é de empate, segundo as pesquisas. A imagem que usam é o Fla-Flu, de torcidas organizadas e polarização. Pensam que se conseguirem manter a diferença que têm hoje para Lula no eleitorado paulista, cerca de 20 pontos percentuais pelos levantamentos internos, poderão abrir algo como 5 milhões de votos e vencer a eleição. É uma massa de gente de dimensões semelhantes à que deu a George Bush a vitória contra John Kerry em 2004 nas eleições presidenciais dos Estados Unidos.

A equação paulista do PSDB se complica ainda mais pelo partido não ter, até agora, um candidato forte ao Palácio dos Bandeirantes. O cenário dos sonhos de José Serra é Geraldo Alckmin ficar no cargo até o final para tentar eleger o sucessor e desempenhar um papel decisivo na vitória dele, Serra. O cenário preferido de Geraldo Alckmin é José Serra ficar na Prefeitura, ser o comandante da campanha para manter o estado em mãos tucanas e garantir os votos necessários para colocá-lo, Alckmin, no Palácio do Planalto. Em comum, os dois nem pensam na hipótese de o partido deixar escapar a cadeira que um dia foi de Franco Montoro e Mário Covas.

Serra está preparado para dizer “sim” a um convite da cúpula partidária, mas quer ter a certeza de que vai contar com um Alckmin absolutamente engajado na campanha, como aconteceu na eleição que o levou à Prefeitura. Já os movimentos do governador indicam que ele fará o possível para não receber dos caciques tucanos uma intimação para apoiar a indicação de Serra. Um de seus principais argumentos, que as bases do partido o preferem, sofreu um baque ontem com a escolha do serrista Jutahy Magalhães (BA) para liderar a bancada na Câmara.

Num aspecto, pelo menos, a situação de Alckmin melhorou nos últimos dias, especialmente depois da pesquisa CNT-Sensus: já não há mais no PSDB a convicção de que Serra terá uma eleição tranqüila contra Lula e nenhum peessedebista arrisca dizer que o governador não tem chances de ganhar do presidente. Em pelo menos um ponto, Serra ganhou argumentos nas últimas horas: com o crescimento de Lula, não é razoável que os tucanos deixem de lançar o nome mais forte para a disputa.

Falta saber quem vai colocar o guizo no pescoço de um deles, Alckmin ou Serra. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso poderia desempenhar o papel, mas quem o conhece garante que ele fugirá dessa batida de martelo como o diabo foge da cruz, ainda que sua preferência pessoal penda para Serra. Neste momento do PSDB, entretanto, preferências pessoais contam pouco. O decisivo, avaliam os tucanos, é evitar uma divisão do partido que apareça como prenúncio da derrota. Uma candidatura extraída a fórceps nasceria praticamente morta, prevêem.

Há ainda o aspecto da desincompatibilização de Serra. Para concorrer, o prefeito precisaria renunciar ao cargo no começo de abril, dois anos e nove meses antes do fim do mandato. As mesmas pesquisas internas do PSDB mostram que cerca de um terço do eleitorado paulista desaprova essa possibilidade. Mas também revelam que, hoje, essa desaprovação não teria efeitos eleitorais. Ou seja, o eleitor de Serra, mesmo insatisfeito com a decisão, não se transformaria necessariamente num eleitor de Lula.

O problema é que o prefeito assumiu em 2004 o compromisso público de ficar na Prefeitura até 2008. Aliados do governador argumentam que, nessa condição, não haverá como os tucanos cobrarem as promessas não cumpridas de Lula. Dizem ainda que o martelar permanente do tema na campanha certamente produzirá resultados eleitorais, que hoje não aparecem nas pesquisas. Um Alckmin totalmente mobilizado a favor de Serra seria indispensável para neutralizar, ainda que parcialmente, esse potencial prejuízo.

O palpite mais comum no PSDB é que essa parada só será decidida por um dos dois, Serra ou Alckmin, o que piscar primeiro. Hoje, ambos são como irmãos siameses, o destino de um está ligado ao do outro. O prefeito é conhecido pela tenacidade, está convencido de que pode ganhar, mas tem mais a perder: uma eleição e um mandato já conseguido. O governador diz a todos que a política é destino e que a hora é dele, mas sabe que não pode correr o risco de conduzir os tucanos e a si próprio a um naufrágio eleitoral em São Paulo e no Brasil.

Um comentário sobre as colunas de Cony (15/02)

Não resisto a comentar duas colunas de Carlos Heitor Cony, na Folha de S.Paulo, sobre a polêmica desencadeada pelas charges do profeta Muhammad.

Em 7 de fevereiro, ele escreveu, sob o título "Liberdade de expressão":

"Muhammad, para os muçulmanos, é mais do que um profeta, é um pai. O cristianismo diferenciou-se do judaísmo por substituir Javé (ou Adonai) pelo Pai Nosso. Deus (que os ortodoxos judeus grafam D"us em sinal de respeito) foi substituído pela função e figura de um pai. A liberdade de expressão dá direito de ofender ou ridicularizar o pai ou a mãe de quem quer que seja? A defesa histérica e incondicional da liberdade de expressão é, no fundo, a expressão de um corporativismo da mídia, que, em alguns casos, mascara a truculência e, em outros, a burrice."

Hoje ele voltou ao assunto em "Ainda a liberdade de expressão" (peço antecipadamente desculpas a quem freqüenta este blog):

"Suponhamos que apareçam duas charges, não importa em que veículo da mídia (imprensa, rádio, TV ou internet). Na primeira, a jovem judia (Anne Frank) está de costas, ajoelhada, fazendo sexo oral em Hitler, que uiva de prazer. Eu não riria desta charge, como não achei graça na charge de Maomé com a bomba de terrorista na cabeça. Acredito que o Estado de Israel teria aquilo que o direito internacional chama de "casus belli" -um caso para qualquer país ir à guerra contra outro. Inclusive com direito a usar bomba atômica. Mudando de cenário e personagens, na segunda charge, o papa gloriosamente reinante estaria de cócoras, paramentado, sendo sodomizado por George W. Bush com uniforme do Exército que está ocupando o Iraque. Ou com o macacão de operário no ramo do petróleo ao qual pertence a sua família."

Sobre a pergunta de Cony de 7 de fevereiro, a resposta é sim. Sim, a liberdade de expressão "dá direito de ofender ou ridicularizar o pai ou a mãe de quem quer que seja". Quem se sentir ofendido, que recorra à Justiça, que peça ao país o rompimento de relações diplomáticas com o outro, que faça o que quiser, desde que pacificamente. A resposta a essa pergunta de Cony tem que ser "sim", porque o "não" obrigaria a fazer uma segunda indagação: "E quem, então, vai decidir o que pode ou não ser dito ou publicado?". Aposto que Cony não conseguirá uma resposta razoável para isso, porque até hoje ninguém conseguiu.

Sobre a coluna de hoje, e à parte os aspectos freudianos, há um ponto que Cony omite. O chamamento ao terror muçulmano muitas vezes parte de membros da hierarquia islâmica, e é apresentado como virtude de inspiração religiosa. Muhammad não tem nada a ver com isso, mas seus intérpretes entre nós dizem que explodir civis desarmados, inclusive crianças, pode ser uma coisa boa para quem deseja servir a Deus. Nunca soube de um rabino ou padre que pregassem o sexo oral com nazistas ou o sexo anal com o papa como caminhos para a salvação da alma.

Isso não significa que quem deseje publicar aberrações assim deva ser impedido de fazê-lo. Vale também aqui a resposta à primeira pergunta de Cony. Mas o paralelo que ele tenta construir hoje não tem, definitivamente, nem pé nem cabeça. É desespero de quem perdeu as razões, ainda que mais pareça ter perdido a razão.

Hillary desce nos EUA e PC sobe na Rússia (15/02)

Por falar em pesquisas, uma feita nos Estados Unidos mostra queda na intenção de voto na ex-primeira-dama Hillary Rodham Clinton na disputa pela Presidência. Outra, feita na Rússia, aponta crescimento do Partido Comunista na corrida pela Duma (Parlamento). O site da Angus-Reid Consultants traz diariamente pesquisas em todo o mundo relacionadas a temas políticos. Vale colocar nos Favoritos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Opinião: O ano das trapalhadas tucanas (15/02)

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 15 de fevereiro de 2006 (em São Paulo) - Políticos amam as pesquisas favoráveis e odeiam as desfavoráveis. É compreensível os tucanos criticarem números que os colocam atrás de Lula na corrida presidencial. Mas o levantamento CNT-Sensus apenas confirmou o que o Ibope e o Datafolha já tinham mostrado: a recuperação do presidente. Em benefício próprio, talvez o PSDB devesse acender velas em vez de amaldiçoar a escuridão. Em dezembro, tucanos avaliaram que Lula estava agonizante e que o próximo presidente da República seria indicado por um sínodo deles próprios. O que se viu em seguida foi a balcanização do partido, uma guerra fratricida pelo troféu antes mesmo da final do campeonato.
Se a sucessão de 2002 fez ruir o mito do profissionalismo do PFL, 2006 ameaça ficar marcado como o ano das trapalhadas tucanas. Trapalhadas que talvez decorram de um erro de avaliação, cuja responsabilidade pode ser em boa parte creditada à obsessão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com a própria biografia. FHC procura fazer crer que Lula comanda um governo desastroso. Como os tucanos não conseguem provar a tese com números ou argumentos, ficam reféns de sua própria retórica. Uma repetição tardia do tipo de oposição que a UDN fez a Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.
Lula, ao contrário, teve a sorte de estar, ou parecer, muito perto da derrota. A ameaça do desastre injetou coesão num PT que vinha dilacerado pela crise. Quando Wladimir Palmeira diz que aceita dividir com Marcelo Crivella o palanque de Lula no Rio, dá um sinal forte de que o partido vai se concentrar completamente na reeleição do presidente. Como o animal preso na armadilha, entrega partes do corpo para tentar salvar a vida.
Manter o poder é prioridade absoluta do PT. Há dúvidas sobre se conquistá-lo agora é mesmo uma prioridade tucana.