quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Surfe noturno (21/12)

Deputados e senadores foram, política e moralmente, linchados e escorraçados pela imprensa porque pleiteavam um aumento de cerca de 90%, o que elevaria os salários deles para algo como R$ 24 mil. Hoje, os jornais trazem reportagens com a informação de que os secretários estaduais paulistas podem vir a ter um aumento de cerca de 90%, o que levaria os salários deles para quase R$ 12 mil. Isso é cerca de uma vez e meia o que ganha o presidente da República. Os deputados estaduais paulistas também discutem elevar o salário do governador para cerca de R$ 22 mil, um aumento em torno de 70%. Se aprovado, o governador de São Paulo passará a ganhar quase três vezes o que recebe o presidente da República [li também que o governador eleito não quer esse aumento]. Eu encontrei a matéria por acaso, navegando na Internet. Imediatamente, procurei uma chamada para essa notícia nas primeiras páginas dos grandes jornais, mas não achei. Tampouco vi qualquer crítica ou indignação editorial contra a movimentação para emplacar esses aumentos. Estou até curioso para saber se algum repórter foi pautado para ir atrás da UNE, da CUT e da CNBB, com a missão de ouvir as opiniões sobre o caso. Não vi até agora essas entidades dizerem nada a respeito. Deve ser a aproximação do Natal. O pessoal da sociedade civil deve estar ocupado em organizar as festas de amigo secreto. A turma do departamento de surfe noturno, aquela especializada em pegar ondas diante dos holofotes, deve estar em regime de plantão ou nos shoppings. Ou talvez fazendo compras pela Internet. Sei que haverá quem argumente que essa diversidade de critérios dos jornais poderia -quem sabe?- decorrer de eventuais simpatias ou idiossincrasias, de um viés político-ideológico na cobertura. Eu não acredito nisso. Então, como não posso supor que os jornais tenham descido a lenha em uns e estejam poupando outros devido a preferências políticas ou por facciosismo, a única saída é concluir que eles abraçam uma (ou mais de uma) das seguintes convicções:

1) Acham que é razoável um secretário de estado em São Paulo ter um aumento de 90% (quando a inflação está em 3% ao ano) e ganhar uma vez e meia o que recebe um ministro.

2) Acham que é razoável o governador de São Paulo ter um aumento de 70% e ganhar quase três vezes o que recebe o presidente da República.

3) Acham que os ministros e o presidente da República estão ganhando pouco. E que precisariam ter aumentos, respectivamente, de 50% e 200% (quando, é bom lembrar novamente, a inflação está em 3%).

4) Não acham nada disso. Acreditam que todo mundo merece o maior aumento possível. E que é razoável o Estado oferecer uma remuneração compatível com o preparo das pessoas que exercem função pública. Mas pensam que isso não se aplica a deputados e senadores. Por quê? Porque eles deveriam ter cassado um monte de colegas e não o fizeram, mesmo depois de todo o esforço investigativo da valorosa imprensa. E portanto devem ser punidos (de preferência trucidados). Para aprenderem a se comportar e a serem obedientes à opinião pública.

Pode ser também que a explicação para a assimetria de tratamento não esteja em nenhuma dessas hipóteses. De todo jeito, eu ficaria satisfeito -como leitor e admirador sincero do trabalho alheio- se obtivesse algum esclarecimento. Qualquer explicação para mim serve. E você? Acha o quê? Da minha parte, espero ter encerrado aqui minha modesta participação nesse debate, louvando o Altíssimo por me iluminar e me afastar de certas polêmicas. E agradecendo a Ele por ainda me proporcionar, depois de um quarto de século na estrada, estômago e pés para enfrentar essa dura caminhada. Não sei se mereço essa proteção e essa iluminação. Mas agradeço mesmo, e de coração, por ambas.

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10 Comentários:

Anonymous Jurandyr Passos disse...

Alon,

Acho que todos esses números não significam nada, tanto os relativos quanto os absolutos. Esses salários são apenas fictícios, representam apenas o que esses funcionários públicos recebem do erário a título de salário-base. Não computam benefícios, isenções, complementos, ajudas, verbas de representação, etc. etc, etc. Todos ganham uma miséria comparado com qualquer gerente de empresa média, jornalistas famosos e artistas de novela. Muito menos que dirigentes de multinacionais. Mas não pagam passagens, nem gasolina, nem correio e às vezes nem a comida. O Presidente paga para almoçar no Planalto? Mas nós pagamos os cozinheiros, o chef e a despensa que tem lá. Sem falar que os parlamentares mantém seus negócios - não me refiro às negociatas, pois há quem as evite -, suas emissoras de rádio e TV, suas fazendas, suas igrejas e suas praias. Que eles visitam às nossas custas, posto tratar-se de "cumprimento do mandato", nas palavras deles próprios.
Resumindo: se eles forem capazes de nos devolver uma atuação minimamente decente, acho que merecem 1.000% de aumento e 1 milhão - de dólares - por mês. Pelo que nos entregam, devem devolver o nosso troco pois já ganham demais.
O voto distrital ajudaria a reduzir as despesas deles e facilitaria a nossa avaliação do desempenho.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006 16:53:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, eu tinha comentado isso hj com uns colegas, ainda por cima comparando a notícia sobre o aumento de SP, q saiu somente nas páginas internas da Folha, com uma outra notícia que apareceu com estardalhaço na página principal sob o singelo título "Governador do PT faz aprovar lei para ganhar pensão vitalícia". No email q mandei p os amigos, eu comentei o seguinte sobre o artigo q falava da pensão do governador do MS:

sem entrar no mérito da questão da pensão "vitalícia" (que parece uma redundância), o detalhe vem no artigo seguinte, o "saiba mais", intitulado sutilmente: "Benefício vale no Acre desde 2001". E o Acre tb é governado pelo... PT!

Mas lá no finzinho do artigo, meio escondida, pinça-se a frase "Outros Estados também têm benefício semelhante a ex-governadores".


Outro curioso detalhe: na notícia sobre o MS, foi Zeca que "fez aprovar" o aumento. Já no caso de SP, a notícia alertava que "A Folha apurou que Serra seria contra aumento no próprio salário"...

É tão engraçado q dá vontade de chorar...

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006 17:30:00 BRST  
Blogger Vitor disse...

Caro Alon,

Acho que não é por aí, o problema é que os salários do judiciário e do legislativo estão altos e os salários do executivo muito baixos. Isso acontece porque é o executivo que tem a responsabilidade de gerenciar o orçamento e acaba cortando na própria carne enquanto o legislativo e o judiciário se concedem aumentos sem se preocupar com isso.

O salário de presidente da república e principalmente de ministros de estado está muito defasado, é complicado você convencer um bom profissional (principalmente um executivo do topo de linha) a largar um emprego com super salários para assumir um ministério com o salário ridículo que tem e ficar sendo acusado e tomando processos nas costas.

O mesmo raciocínio se repete para secretários dos executivos estaduais.

Abraços.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006 17:49:00 BRST  
Anonymous Richard disse...

Não tinha pensado na opção 4. Mas isto significaria acreditar em teorias conspiratórias. Por vezes parece mesmo existir um tipo de acordo entre mídias para favorecer A, B ou C em determinados momentos, mas ainda não identifiquei os interesses, o motivo, como os policiais costumam falar.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006 17:50:00 BRST  
Anonymous Tales Viana disse...

O Serra descobriu que era contra o projeto depois que a Folha fez matéria. E ainda tem a petulância de meter o pau no jornalista.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006 20:55:00 BRST  
Anonymous Silas P. Octaviano disse...

Isso é a nossa imprensa. Parabéns ao blog!

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006 20:57:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A mobilização foi válida, mesmo o Alon insinuando que a gritaria foi estimulada pela imprensa. A proximidade das festas pode ter arrefecido a indignação dos internautas, e também a falta de informação; não li em nenhum lugar sobre os supersalários dos secretários do Serra. A imprensa que está sob suspeita desde a cobertura das eleições, outra vez pode ter "poupado" o tucanato paulista da fúria do povo. Pode ser! Mas, no futuro, saberemos que estava com a razão. Mandei e-mail para o aldo rebelo e a ideli salvatti, sem ofensas ou agressões verbais, e não me arrependi, pois continuo achando o aumento de 90,1%, para os dep., num país de escravos como Brasil, um acinte.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006 22:41:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A "pergunta de 1 milhão de reais" permanece sem resposta: o que teria levado "nossos" isentos e democratas meios de comunicação, de hábito tão atentos à moralidade no trato da res publica, a cometer esse leve deslize e não noticiar com mesmo destaque o mesmo fato? Banzo de Natal? Perda de crença em sua influência? Conjunção astral pacífica?

Artur Araújo

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 09:31:00 BRST  
Anonymous Frank disse...

O Vitor foi ao ponto: o arrocho no Executivo é que paga os salários dos membros do Legislativo e Judiciário. O caso do Judiciário é ainda pior, pois seus membros não têm que lidar com pressões da imprensa e da opinião pública, tampouco têm que disputar eleições periódicas.

É por isso que hoje, no Brasil, um juiz em início de carreira ganhar R$19.000 e o presidente da República ganha R$8.500.

Os salários dos membros de poder são estabelecidos em legislação ordinários - têm que ser votadas e aprovados no Congresso. Ocorre que juízes inspiram verdadeiro terror nos outros dois poderes. A ameaça velada é a seguinte: "ou vcs nos dão esses aumentos, ou infernizaremos suas vidas com sentenças desfavoráveis". É assim que funciona, ouvi isso em primeira mão de juízes e procuradores do MP.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 11:07:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Afinal, tentaram ou não aumentar os salários? Existem ou não caos nos aeroportos? A senhora idosa utilizando um andador no saguão de aeroporto existiu ou não? Há recursos para o mínimo ou não? O recuo nos aumentos ocorreu ou não? O lavar as mãos ocorre ou não? As pessoas que são incluídas na renda e na educação analisam melhor os fatos? Em suma, a realidade existe ou é uma criação fantasmagórica das pessoas que teimam em trabalhar, criar, cuidar de si e dos seus? E que só desejam serem deixadas em paz?
Sotho

sábado, 23 de dezembro de 2006 14:16:00 BRST  

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