segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Pinochet. E a única cicatriz que não dói (11/12)

Morreu Augusto Pinochet. Ouvi falar dele, pela primeira vez, três dias antes de completar 18 anos, em 11 de setembro de 1973. Devo a Pinochet (e às imagens televisionadas do palácio La Moneda bombardeado pela Força Aérea chilena) ter alcançado a maioridade política com três dias de antecedência. A experiência comandada por Salvador Allende era a tentativa de uma transição ao socialismo pela via eleitoral. Fracassou. Uns concluíram a partir dali que a luta armada seria o único meio de a esquerda chegar ao poder e promover transformações sociais. Outros, como o Partido Comunista Italiano, entenderam que o problema de Allende tinha sido não governar com a maioria política da sociedade chilena, cujo centro era bem representado pela Democracia Cristã. Ainda novinho, eu me filiei a essa última corrente da esquerda, do que não me arrependo até hoje. Quem quiser entender o que foi o governo Allende e por que o derrubaram deve ler Dialética de uma Derrota, de Carlos Altamirano, dirigente histórico do socialismo chileno. Fui na biblioteca virtual do site oficial em homenagem a Allende e zipei os três PDFs para você. Clique aqui para baixar o livro de Altamirano, descompacte, imprima e tire as suas próprias conclusões. Meus respeitos a Margareth Thatcher, que teve a decência de lamentar a morte de seu aliado e amigo. Por gestos assim apelidaram-na Dama de Ferro. Meus pêsames aos pinochetistas espirituais que agora cospem sobre o prato no qual comeram durante anos. Com seus passinhos rápidos, quase saltitantes, correm para pegar um lugar no bonde da História. Levantem-se e lutem! Vocês deveriam se envergonhar por precisarem falar mal de Josef Stalin ou de Mao Tsé-Tung para se sentirem livres para criticar Augusto Pinochet. É como se pedissem permissão a seus senhores ideológicos para dar uma escapadinha. Mas façamos justiça. Não é só a direita que se esconde atrás desses fogos de barragem. Também na esquerda virou moda o sujeito usar críticas ao "stalinismo" como senha para ser tolerado em círculos hostis. É como se o cara dissesse: "gostem de mim, senhores, porque sou de uma esquerda diferente; percebam que até critico a esquerda para ser aceito por vocês". A morte de Pinochet não me traz sentimentos negativos. Já há algum tempo compreendi que odiar os adverários ou os inimigos é uma maneira de se deixar escravizar por eles. Tem gente que faz ginástica todo dia. Meu exercício diário é tentar compreender a mente e o espírito de quem me combate, para assim poder lutar melhor. Mas sempre olhando para a frente. Também por isso sou contra revisar ou reinterpretar a Lei de Anistia do presidente João Figueiredo (ampliada pelo presidente José Sarney). A História não se divide entre os bons e os maus. A ética do poder tem suas particularidades, e julgar os governantes exclusivamente à luz do Código Penal é uma modalidade de picaretagem intelectual. Útil, apenas, a quem busca, compulsivamente, ficar bem com a platéia. Augusto Pinochet comandou uma ditadura feroz. Mas a chegada dele e de sua turma ao poder foi facilitada pelos enganos e equívocos da esquerda chilena. Hoje o Chile é um país democrático, e o pedaço do socialismo chileno que entendeu a importância desse fato -e que compreendeu o caráter universal da democracia- voltou a La Moneda. Por isso é que, de um ângulo histórico, não dá para concluir que Pinochet tenha sido completamente derrotado. O Chile decidiu não lhe prestar as homenagens devidas aos chefes de Estado quando morrem. É uma decisão a respeitar. Mas Michelle Bachelet não é um clone de Salvador Allende. Também porque a herança de Pinochet está marcada a fogo no projeto político dos sucessores ideológicos do presidente deposto naquele 11 de setembro de 1973. Essa marca é uma cicatriz que ninguém jamais conseguirá remover. Sorte que, diferentemente das demais cicatrizes deixadas pelo fascismo chileno, ela não dói.

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5 Comentários:

Blogger Ulisses Adirt disse...

Não assino em baixo... mas, foi um texto interessante.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006 20:44:00 BRST  
Anonymous Carlos Simon disse...

Alon,

A Alemanha também é uma democracia, Hitler também governou por não terem seus opositores conseguido alianças que os fizessem fortes para derrotá-lo. Não devemos odiar Hitler?

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006 21:40:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A história de todo povo tem as suas contradições. Salvador Allende foi eleito prometendo estatizar o cobre, e cumpriu a promessa. Os americanos que tinham a concessão da lavra do cobre financiaram Pinochet para derrubar o presidente socialista e restituir as minas de cobre. Pinochet cumpriu a primeira parte, mas não foi bobo de cumprir a segunda parte. Hoje o Chile, que possui uma população tal qual a cidade de Sâo Paulo mantém a economia e o PIB per capita graças a produção do cobre. Noutro giro, após Pinochet ter privatizado a previdência social com "silêncio" do povo chileno, hoje a presidenta Bachelet está terminando um novo programa de previência social mínima. Em tempo, o acordo do Chile com os Estados Unidos não atenta contra a indústria chilena uma vez que só possui a linha branca (geladeiras, liquidificadores, etc) e nosso vizinho precisa de importar produtos agropecuários: além do vinho, algumas frutas, e peixes, o Chile não produz sequer arroz ou carne.

Rosan de Sousa Amaral

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006 22:03:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

E nós, imensos e quebrados.
Mas Alon, como alguns decidiram pela luta armada após a morte de Allende? No Brasil vários grupos já se haviam lançado na guerrilha desde 1962..Allende pretendia governar uma democracia liberal?

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006 23:30:00 BRST  
Anonymous Semy Ferraz disse...

Alon,
Assino em baixo do seu texto sobre Pinochet, governabilidade e os erros da esquerda e da direita. Concordo que Pinochet deva ir pro inferno. Allende, com todos os seus erros e equivocos, merece o nosso respeito!

terça-feira, 12 de dezembro de 2006 14:59:00 BRST  

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