domingo, 24 de dezembro de 2006

O serviço é seu, presidente (24/12)

Não, este meu post não será influenciado pelo inferno que passei nos aeroportos de Brasília e São Paulo (Congonhas) nesta véspera de Natal. Será apenas fruto de uma reflexão serena e da minha conhecida propensão a fazer críticas 90% construtivas. Você não acha que os outros 10% são uma taxa de fraqueza plenamente aceitável? Aliás, como já foi estabelecido em post anterior, uma crítica 90% construtiva pode ser classificada na coluna das críticas superconstrutivas. Bem, agora que você conhece as circunstâncias em que escrevo (coisa útil para formar o seu próprio juízo), farei aqui uma crítica superconstrutiva ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No ápice do caos causado pelo excesso de demanda na TAM, Lula sugeriu às companhias aéreas que não vendam bilhetes acima de sua (delas) capacidade de transportar passageiros. Com essa frase, Lula conseguiu, num só lance, juntar ficção e realidade, literatura e história. Esse conselho do presidente seria recebido com mais naturalidade se tivesse saído da boca de um personagem que unisse o inventividade do Conselheiro Acácio e a sensibilidade social de Maria Antonieta. Como neste blog nosso negócio não é dar o peixe, mas ensinar a pescar, não preciso me estender sobre o contexto em que evoco essas duas figuras. Tudo bem, presidente, acho que entendi o que o senhor quis dizer. Mas fiquei com uma dúvida: e o pessoal que não conseguir encontrar passagem, nem tiver dinheiro para alugar um daqueles jatinhos em que se servem brioches, vai fazer o quê? Ficar em casa (ou não conseguir chegar em casa) de castigo? É acaciano o presidente vir a público aconselhar as companhias aéreas a não praticarem o overbooking. Viajar de avião não é a mesma coisa que ir comer num restaurante. Se um restaurante está lotado, você procura (e acha) outro. Mas não existe oferta de transporte aéreo em volume capaz de levar o mercado a suprir rapidamente um excesso de demanda. Transporte aéreo é atividade que exige planejamento e controle pelo Estado. O senhor chutou a gol mas a bola saiu pela lateral, presidente. Na rubrica "caos dos aeroportos brasileiros", a responsabilidade é 100% sua. O senhor foi eleito para cuidar do que o mercado não pode resolver sozinho, e não para dar conselhos ao mercado.

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2 Comentários:

Anonymous Léo Quintino disse...

Alon, adorei esse post. Publiquei no meu blog, com os devidos créditos, é claro. Abraços.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006 16:42:00 BRST  
Blogger Cid disse...

Alon

Esta sua nota é a prova de que neste país as práticas capitalistas são de araque, e o setor da aviação comercial o exemplo mais descarado de como arrancar o máximo do mínimo.

Aqui não temos consumidores, mas otários a serem explorados. No setor aéreo isso é evidente, penalizando os passageiros com longas esperas. E o poder público tem sua responsabilidade, sim, e somente agora - 28/12 - começa a tomar algumas providências contra a venda indiscriminada de passagens e a contratação abusiva dos vôos "charter".

Neste país, com as exceções de praxe, as empresas - e a infra-estrutura - "apitam" a qualquer aumento de demanda, pondo a nu sua fragilidade. Espera-se, como você diz, que o presidente deixe de chutar a bola para fora e assuma de vez suas responsabilidades, sem medo. Esse medo bobo de ferir a "liberdade do mercado". Mercado bom, é mercado que se funga 24 horas no cangote, trazido ali, na chincha, como diria Brisola. Se deixar solto - e é o que eles mais querem -, novos apagões aéreos vão aparecer por aí.

Esse é um abacaxi que Lula vai ter que descascar. Essa é função de presidente da República, especialmente de quem teve 61% dos votos. As contas começaram a chegar.

cid cancer
mogi das cruzes - sp

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006 15:34:00 BRST  

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