quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

A ilegitimidade da violência, inclusive a verbal (20/12)

Está chegando ao fim, aparentemente, esse lamentável episódio do reajuste do salário dos parlamentares. A tendência de momento, como este blog informou ontem pela manhã, é uma correção de pouco menos de 30%, a inflação acumulada dos últimos quatro anos. Mas o post não é sobre a tentativa momentaneamente frustrada de deputados e senadores equipararem seus vencimentos aos dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele é sobre a violência. Escrevi aqui em junho o post A bengalada do MLST. Notei ali que os mesmos que criticavam naquele momento a violência dos liderados de Bruno Maranhão contra a Câmara dos Deputados haviam antes tratado com condescendência e bom-humor (para dizer o mínimo) as agressões físicas contra o então ainda deputado federal José Dirceu, submetido a processo de cassação. Por que volto ao assunto? Estou neste ramo, de um jeito ou de outro, na política ou no jornalismo, há quase três décadas. Nunca vi um surto de violência contra o Congresso Nacional como agora. Só faltaram pedir explicitamente que a turba invadisse a Casa e justiçasse os representantes do povo com as próprias mãos. Mas chegaram perto. Bem perto. Aliás, sempre me divirto intimamente quando os que costumam clamar contra o "chavismo", contra a "ideologia autoritária" da esquerda e contra a "conspiração para abolir a democracia" exibem eles próprios os seus caninos ditatoriais. Sedentos de sangue. Mas as coisas são assim mesmo. Lembro bem de que quando a elite venezuelana aplicou o golpe de estado no presidente Hugo Chávez em 2002 alguns se apressaram em saudar, de coração, a queda do governante eleito da Venezuela. Deram azar, pois os venezuelanos contragolpearam, reconduziram Chávez ao poder e deixaram os golpistas, inclusive os forâneos, com a brocha na mão. Mas o registro do golpismo deles ficou gravado no papel, preto no branco, indelével. Para vergonha eterna dos golpistas. Quem sabe se parte do ódio que Chávez desperta não provém desse incômodo, dessa mancha que nenhum detergente de consciências conseguirá dissolver? Mas o assunto do post tampouco é Chávez. É a violência. Só há uma posição razoável sobre a violência, do ângulo da democracia e da civilização: toda iniciativa violenta é ilegítima, por definição. Aliás, não estranha que a violência contra o Legislativo tenha atraído a simpatia de segmentos abrigados na Central Única dos Trabalhadores (CUT) e na União Nacional dos Estudantes (UNE), de grupos prontos a recorrer à violência em seu próprio benefício. É curiosa, para dizer o mínimo, essa aliança insurrecional entre gente tão distante ideologicamente. Mais do que curiosa, é reveladora. Reafirmo: toda iniciativa violenta é antidemocrática e ilegítima. Inclusive na sua forma verbal. Há poucas coisas mais repulsivas do que jornalistas explorarem preconceitos e estereótipos com a finalidade de execrar desafetos e ridicularizar adversários, pessoas de que não gostam ou com quem não concordam. Alguns visitantes de vez em quando me questionam por que reluto diante de certos assuntos. No mais das vezes, é por nojo. Nojo do abuso de poder. E escrever com nojo e ódio é perigoso. Costuma produzir mais arrependimento do que qualquer outra coisa. Vocês sabem que estou acompanhando o caso do Freud Godoy. Não sei se ele é culpado ou inocente naquela história do dossiê. A Justiça vai dizer. Mas sei que ele foi linchado pública e instantaneamente. Pagou o pato de parecer, num certo momento, o elo que levaria os inquisidores àquela ambicionada sala no terceiro andar do Palácio do Planalto. Agora, seus linchadores caçam desesperadamente qualquer coisa que justifique, a posteriori, aquela violência. Estão topando até pegar em fio desencapado. Vade retro!

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14 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

E irônico seria, se trágico não fosse, que uma vítima real do clima indiscriminado de caça às bruxas tenha sido o deputado ACM Neto.
Sempre que me vejo frente a surtos "moralistas", "apolíticos", "horizontais", principalmente anti-Parlamento, fico com os 4 pés atrás, boa e escaldada cavalgadura que sou.

Artur araújo

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006 12:36:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006 12:46:00 BRST  
Anonymous Cesar Cardoso disse...

Num país maniqueísta, com a história escrita a sangue, em guerra civil na periferia e nos campos, mas que prefere vender a auto-imagem de povo pacífico, esse tipo de coisa é absolutamente normal de acontecer. Aliás, pelo contrário, a nossa classe méRdia adora isso, se portando como quem vai a um circo romano ver os leões devorando os cristãos.

Brasil, país da hipocrisia aberta...

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006 13:14:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

BRILHANTE. zurconil

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006 14:29:00 BRST  
Anonymous Mauricio Galinkin disse...

Alon,
Não há dúvida que esse "linchamento" do Poder Legislativo, pela própria imprensa e por setores sociais que ela amplificou, ao final de uma legislatura marcada por escândalos, ajuda a aumentar a repulsa da população pela "política" e "políticos".
E isso faz muito mal à construção da Democracia, pois sem política e políticos ela nunca existirá.
A questão não é quanto os parlamentares ganham mas, sim, o que fazem pelo país. E ninguém se preocupou com isso. A maior parte deles representa lobbies e interesses de grupos, e tudo faz para defendê-los, ao invés de atuar em benefício da população como um todo. E não será um subsídio de 24 mil mensais que vai mudar isso.
O problema é que precisamos fazer com que a política e dos políticos atuem para melhorar a situação e qualidade de vida da população brasileira, como um todo, e para a próxima Legislatura aparentemente não se conseguiu fazer isso. A esperança, agora, é que os eleitos não contribuam para piorar a situação.
Não tenho dúvida de que os que estão no Poder Executivo saboreiam essa situação com prazer e buscarão com alto senso de oportunidade se aproveitar da desmoralização do Legislativo para imporem suas agendas. Nem sempre as que levarão ao aperfeiçoamento democrático do país.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006 16:42:00 BRST  
Blogger Cid disse...

Alon

Cada vez me entusiasmo mais com as possibilidades dos blogs – estas colunas eletrônicas interativas – de discutir para além das aparências dos fatos. Ao levantar a questão da violência a partir da gritaria contra o aumento dos parlamentares, você acabou desnudando a hipocrisia que marcou o último ano e meio da política nacional. Foi na veia. Eu, como um dos “colaboradores” da coluna, tive muito o que aprender. Meus cumprimentos.

cid cancer
mogi das cruzes - sp

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006 17:07:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Concordo integralmente com o que escreveu Mauricio Galinkin.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006 18:50:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A mídia atiçou o linchamento porque já há este sentimento em parcelas da população que acompanha os escândalos da política há 16 meses. Também protestei nos blogs de forma violenta verbalmente, mas ao enviar e-mail para os deputados, fugi dos xingamentos e das ofensas´pessoais, apenas externei a minha indignação, sem apelar para palavras chulas com violentas.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006 23:32:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Alon, na civilização a violência pode ser ilegítima como ação, mas não como reação.
Vamos entender que os congressistas, quando detém o poder de votarem seus próprios aumentos e procuraram tirar vantagens disso, agiram como opressores sobre seus eleitores oprimidos. Porque só eles tem o privilégio de receber aumentos muito acima dos demais servidores, dos aposentados, dos repasses do SUS, etc, cujos recursos advém do mesmo orçamento?
A reação da sociedade foi uma reação de oprimidos, um revolta que procurou medir forças do poder popular contra o poder da autoridade parlamentar de legislar em causa própria. Que negou ao eleitor a representação popular conquistada pelo voto.
Ninguém foi eleito fazendo campanha tendo como plataforma de mandato equiparar salários dos parlamentares com o STF. Nenhum eleitor votou em nenhum deputado para isso. A expectativa geral é que no regime democrático, todos tenham direitos e deveres iguais. Ninguém pediu para o salário dos parlamentares serem reduzidos. Todos pediram que compartilhem com os demais cidadãoes os mesmos direitos e deveres, os mesmos sacrifícios que o ajuste econômico impõe ao funcionalismo em geral e aos aposentados da previdência.
Lamento o dia de fúria de alguns que chegaram à lesões corporais. Mas não lamento nenhum desabafo verbal dos oprimidos contra seus opressores, pelo contrário, saudo como um conflito positivo, muito comum na democracia: se as instituições (o congresso) deve ser preservadas, o direito de manifestação popular também. Tanto mais quando há justa causa contra uma opressão.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006 00:38:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Não viaja, José Augusto. Levante dos oprimidos comandados pela Veja e pela Folha de São Paulo, com a UNE e a CUT fechando o cortejo? Por que esses "oprimidos" não se levantam contra o Judiciário e o Ministério Público?

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006 08:33:00 BRST  
Blogger alberto099 disse...

Gostaria de fazer uma observação ao comentário de Maurício Galinkin. De fato houve o linchamento do Congresso no caso da tentativa de adoção do teto salarial para deputados e senadores, mas essa tentativa de passar sub-repticiamente um forte aumento dos próprios salários não poderia passar em branco. O episódio é resultado da organização “irracional” do embate político parlamentar entre nós, cuja principal característica é a irrelevância das organizações partidárias. Aplicando ao episódio: a coalizão de partidos no governo quer fazer o presidente do Congresso, mas não se reúne e delibera a respeito. Os postulantes individualmente dirigem-se ao conjunto de deputados, passando por cima das divisões partidárias ou mesmo da divisão governo/oposição. Que melhor maneira de angariar a simpatia de um grupo de pessoas sem maiores compromissos do que acenar-lhe com melhores vencimentos? Esse é um jogo viciado cujo resultado é a depreciação do Congresso e por meio dele do eleitor, que passa por não saber votar. Como o Alon, também nunca vi tamanha virulência contra o Congresso, mas é compreensível quando vemos que aqueles que sempre exploraram esse sistema viciado não conseguiram derrubar o presidente nas urnas. Concordo também com o Maurício quando diz que isso “faz mal à construção da Democracia”, mas é o resultado de defeitos da própria construção. Se culparmos a atitude dos congressistas como “pessoas” ou dos cidadões que expressaram sua indignação, estaremos fazendo o jogo de quem quer levar o premio com um golpe de mão.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006 10:15:00 BRST  
Anonymous Mauricio Galinkin disse...

Caro Alon,
Creio que ainda precisaremos batalhar muito para chegarmos a um equilíbrio entre os Poderes Republicanos. Desde a decisão militar que eliminou a Monarquia e instituiu a Repúbica, o detentor do mais alto cargo do Poder Executivo segue como Monarca, nada mudou. Apenas o título e a forma de escolha.
O Congresso Nacional, em especial a Câmara dos Deputados, deveria ser a mais legítima representacão popular, pela diversidade que permite e pela possibilidade de alí se realizarem legítimos acordos resultantes dessa variedade de tendências políticas e de interesses setoriais e regionais.
Pena que isso aparenta ser apenas teoria, e a imensa maioria dos eleitos para o Poder Legislativo não têm consciência disso e não se dão ao respeito.
Daí, dá no que vem dando. Mais uns escorregõezinhos, e vamos retroceder a um regime forte - de fato, talvez não de direito - em que prevaleçam amplamente as decisões do Poder Executivo (que nomeia a alta cúpula do Judiciário).
Essa tentação já ronda, como é público depois que ele próprio declarou a empresários paulistas, a cabeça do Presidente.
PS: agradeço os valiosos comentários sobre o que escrevi antes, mas acho que não devo usar esse espaço para debates com colegas comentaristas, apenas com o Alon (que, aparentemente, não tem a intenção de se manifestar sobre os comentários, estou certo?)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006 11:48:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Ao anônimo acima, não acho que viajei quando disse que a população se sentiu oprimida contra o opressão dos privilégios de quem decide. Porque quando o povo votou em Lula contra a Veja e Folha de São Paulo, ele foi consciente, e quando protestou contra o aumento acintoso dos congressistas, o povo foi necessariamente "orquestrado" pela Veja e pela Folha?
Acho que ainda tem muita gente superestimando o capacidade de formar opinião da grande imprensa, e subestimando o próprio pensar de cada um.
Nada me tira da cabeça, que esse aumento foi apenas a gota d'água de um desabafo, que vem de longe contra o congresso. Há anos que pesquisas de opinião pública mostra a baixa reputação de que gozam nossos parlamentares. Há anos que a população se sente lesada pela representação política, cuja imagem mais evidente é de previlégios e corrupção (injusta em alguns casos), e quando nada pode fazer e ainda é obrigada a votar, um dia o resultado não poderia ser outro.
Até numa tribo o líder, cacique, é respeitado e até tem prerrogativas de ter privilégios reconhecidos por todos, quando os liderados reconhecem sua liderança como benéfica, que vale a pena seguí-la. Do contrário ele será desafiado e destituído. O mesmo acontece na sociedades mais organizadas.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006 17:21:00 BRST  
Anonymous Frank disse...

Alon, para que se dê mais clareza ao caso venezuelano, é preciso reconhecer e levar em conta a frustrada tentativa de golpe protagonizada pelo próprio Chavez e outros colegas militares, uma década antes do golpe a que vc alude.

Do jeito que está posto, parece que o golpe que "incomoda" é o "da Direita". Aí, nesse caso, vc estaria incorrendo no deslize de coerência que vc tanto condena em outros.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 10:46:00 BRST  

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