segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Estatal ou pública ? (04/12)

Escrevi há um mês (Eu não quero visitar a cozinha) que a Radiobrás é uma empresa de comunicação cuja linha editorial eu topo discutir. Porque é estatal. Eu topo discutir a Radiobrás porque o dinheiro para sustentá-la vem dos impostos. Se eu não gosto de um veículo qualquer, deixo de consumi-lo. Se muitos deixam de consumir determinado veículo de comunicação, exercem uma pressão democrática sobre os proprietários. Mexa no lucro do capitalista e você sensibilizará o coração dele. O coração e o bolso dos capitalistas recebem uma inervação originária do mesmo tronco. No caso da Radiobrás não funciona assim. Eles podem escrever o que quiserem, veicular o que quiserem, e eu não tenho nada a fazer. Mesmo que eu esteja em completo desacordo, só me resta esperar a próxima eleição e votar contra quem nomeou a direção da estatal. Ou então mandar uma cartinha e torcer pela generosidade deles para com a minha crítica. Mesmo que eu odeie a cobertura da Radiobrás sobre determinado assunto, continuarei contribuindo compulsoriamente para pagar os salários dos jornalistas da estatal. Mas, de quatro em quatro anos, eu vou à urna para escolher o presidente, o sujeito que nomeia o presidente da Radiobrás (e da Petrobrás, da Caixa Econômica Federal etc). Assim é a democracia. Por isso é que desconfio quando vem alguém atacar a "ingerência política" nas estatais. Ora, a interferência política nas empresas estatais é o único meio de o eleitor influenciar -um pouco que seja- na condução dessas empresas. Por isso eu acho que a Radiobrás tem de obedecer ao governo de plantão. Tenho acompanhado o debate sobre o assunto, que começou como uma polêmica entre o presidente da Radiobrás e pessoas que criticam a condução da empresa no governo Luiz Inácio Lula da Silva. Eu acho que a Radiobrás vem fazendo tecnicamente um bom trabalho, mas não concordo que se tente vaciná-la contra a política. Seria antidemocrático. Tenho arrepios toda vez que alguém trata "público" como sinônimo de estatal. Tratei rapidamente desse assunto em fevereiro, no post O antiliberalismo é de esquerda?. Um trecho:

Nunca entendi completamente por que o liberalismo entre nós é classificado na coluna da direita e nos Estados Unidos "liberal" é um xingamento dirigido à esquerda. Desconfio que deve ter a mesma raiz de outra diferença nas palavras. Enquanto aqui empresa pública é sinônimo de estatal, lá significa uma companhia cujas ações são negociadas com o público, na Bolsa. Cada um que interprete como quiser.

Público ser sinônimo de estatal no Brasil é um dos sinais de nossa miséria intelectual e social. Ajuda a explicar muitos dos nossos problemas. Querem transformar a Radiobrás numa empresa pública? Pulverizem-na no mercado de capitais. Mas quem propuser isso será certamente crucificado. Bom, mas se não querem que a empresa seja controlada pelo mercado nem pelo governo, vai ser controlada por quem? Pela "sociedade"? Mas como é que a sociedade faria isso? De que outros mecanismos (a não ser o governo e o mercado) disporia a sociedade para fazer valer sua autoridade sobre a Radiobrás?

Só não me venham falar em "conselhos" e outras modalidades de pseudoparticipacionismo. Poupem-me disso, por favor.

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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, se governo eleito é uma maneira do povo interferir no andamento de uma grande empresa, estatal, este é um dos maiores argumentos que já li para que simplesmente não existam empresas estatais.
Aliás, a empresa é do estado ou do governo que venceu as últimas eleições, são estatais ou governamentais. As empresas são do estado ou do PT, como foram do PSDB?
JV

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006 21:23:00 BRST  
Anonymous M. Bernardo disse...

Alon, também sempre me intrigou essa coisa de "liberal" entre nós ter assumido uma imagem de direita, ainda mais quando lembro que no Império (e sou monarquista) havia dois partidos (que pouco se diferenciavam, na verdade): o Liberal e o Conservador (e, obviamente, o Conservador era o de direita).

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006 22:25:00 BRST  
Blogger jose roberto disse...

Há, já há tempos, uma polêmica local a respeito das nomeações políticas para a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp). A imprensa regional, ostensivamente hostil ao governo federal, dá voz a políticos da oposição que defendem uma "direção técnica" para a gestão do porto, como se isso fosse possível de acontecer em qualquer empresa, até mesmo nas familiares...

terça-feira, 5 de dezembro de 2006 15:37:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Empresas familiares pertencem a uma familia, que pode até provocar sua falência, ninguem tem nada com isto.
Empresa estatal em tese pertence ao povo, não a políticos ou partidos.
JV

terça-feira, 5 de dezembro de 2006 20:28:00 BRST  
Anonymous Jurandyr Passos disse...

Concordo com quase tudo, mas faço as seguintes ressalvas:
A distinção entre o público e privado virou um "imbroglio" no Brasil de hoje, e nãos só por questões semânticas ou lingüísticas que, aliás, são muito sintomáticas (não vou distingüir o público do estatal porque se o Estado não for público não será nada). Nós simplesmente perdemos a noção do limite entre o público e o privado. O Big Brother é um bom exemplo.
Como o país ainda não se tornou uma democracia, fazemos política nos gabinetes, ao invés da polis, das ruas. Política feita a quatro paredes favorece a burocracia. E é ai que a Radiobrás, por exemplo, se esbalda.
Se riscarmos a grama com cal, traçando a linha de meio campo que separa o público do privado, vamos distinguir o que é de César do que é do povo. A propaganda oficial - mesmo que travestida de informação a que os chamados "cidadãos" têm direito - não pertence ao povo, pertence a César. E não pode ser paga com a grana do outro lado da grama.
Acima de tudo, porém, já se sabe há muito tempo que esse gasto não ajuda a César nem ao povo. Se o intuito é democratizar a imprensa -ou melhor, a informação - como pretende por exemplo o Bernardo Kucinski, eu ainda acredito mais no papel deste blog e em todos os outros juntos, mais os podcasts, a literatura de cordel, as passeatas e atos públicos, a música popular e os pasquins. Política se faz nas ruas, de asfalto ou de pixels.
(Um abraço, Alon. Fomos colegas de turma na ECA, mas nunca nos encontramos. Coisas de jornalista: convivem lado a lado mas nunca se conhecem, a não ser o que publicam. Parabéns por esta bela avenida de pixels)

terça-feira, 12 de dezembro de 2006 09:10:00 BRST  

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