quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Esquerdismo, a doença infantil do petismo (13/12)

Teve gente que ficou brava com Luiz Inácio Lula da Silva por ele ter dito que não pega bem o sujeito ser esquerdista depois de uma certa idade. Alguns dos que se incomodaram com essa fala manifestaram publicamente o seu desagrado. Lula afirmou mais: disse que tampouco é razoável um jovem ser de direita. Não vi muitas reclamações contra essa parte do discurso do presidente. Acho que sei por quê. Os muito jovens, pela idade, ainda não têm o prestígio dos "velhos" -e por isso suas coisas não repercutem tanto. Tem muito garoto de direita. É só navegar pela Internet e conferir. Eu me considero de esquerda e não fiquei chateado com o que o presidente disse, ainda que compreenda a chateação de vários amigos e pessoas de quem gosto. Eu não me incomodei com o que Lula falou porque faço uma leitura mais, digamos, condescendente das suas palavras. Essa é uma crítica que recebo com freqüência: reclamam da minha condescendência com Lula. Somos condescendentes, eu e 60% da população brasileira. Não me incomodei porque ser de esquerda e ser esquerdista são duas coisas bem diferentes. Aliás, essa distinção que faço é um sinal de que talvez esteja ficando mesmo velho. É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha (e que o autor me desculpe o plágio) do que achar hoje em dia quem saiba distinguir esquerda e esquerdismo. Está em Vladimir Lênin, em Esquerdismo, doença infantil do comunismo. Um texto do revolucionário russo (no retrato) para reler. O PT foi um partido esquerdista durante a maior parte da sua história. Esse esquerdismo inoculou no tecido petista a energia necessária para alcançar o poder, ainda que cavalgando idéias duvidosas. O esquerdismo petista deixou pelo caminho muitas vítimas na esquerda, muita mágoa e ressentimento. Sentimentos inúteis e prejudiciais. Porque atrapalham a análise fria dos fatos. Mas, depois que chegou lá, o PT e Lula cuidaram de refazer as idéias e as teses. Ser esquerdista no governo é algo muito perigoso. Em geral você é posto para fora, rapidinho. Lula não cometeu esse erro, e também por isso não foi impichado neste primeiro mandato. Tivesse descuidado da inflação e a história teria sido outra. Lula pode, sim, ter sido inábil na sua colocação. Mas talvez ele tenha desejado apenas festejar o seu próprio pragmatismo. O que irritou muita gente. Inclusive quem o incensou durante duas décadas, por nele enxergar uma esquerda "pura" (incapaz de fazer alianças e concessões) o suficiente para compor o cenário sem ameaçar o condomínio tradicional do poder no Brasil. Divirto-me intimamente toda vez que pedem "coerência" a Lula e ao PT. Regozijo-me em silêncio toda vez que se lamentam pela perda da "pureza" do presidente e de seu partido. Portanto, não me convidem para chorar nesse muro de lamentações.

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15 Comentários:

Blogger Incendiário disse...

Feuerwerker,

Entendo que você seja condescendente. Mas Lula não quis fazer uma distinção entre "Esquerda" e "Esquerdismo". Invocar Lênin para justificar o discurso descabido do presidente foi pra lá de descabido.

Com a palavra o senhor presidente:

"Quem é mais de direita vai ficando mais de centro, e quem é mais de esquerda vai ficando social-democrata, menos à esquerda. As coisas vão confluindo de acordo com a quantidade de cabelos brancos, e de acordo com a responsabilidade que você tem. Não tem outro jeito".

O presidente não disse menos "esquerdista". Ele disse "esquerda" mesmo. E mais:

"Quem é mais de direita vai ficando mais de centro, e quem é mais de esquerda vai ficando social-democrata, menos à esquerda. As coisas vão confluindo de acordo com a quantidade de cabelos brancos, e de acordo com a responsabilidade que você tem. Não tem outro jeito"

Ou seja, ele acha mesmo que ser de esquerda é coisa de menino. Os adultos responsáveis ao chegar aos 60 anos vão para o centro.

Saudações incendiárias de esquerda

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006 21:41:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Tovaritch Feuerwerker,tergiversas. Sabes muito bem que o "esquerdismo" referido por S. Excia. é a versão em castrense do que nós, leitores de Ulianov, sempre chamamos de "esquerda". Tanto que o contraponto estabelecido é com "centro" e não com "sinistra". Por mais boa vontade que tenhamos com o Primeiro Mandatário, sabemos que passam longe de seu léxico filigranas bolcheviques desse jaez, não é mesmo?
Isso dito para nem comentar a "correlação gerontológica", já devidamente enquadrada por Plínio, o Velho, com enorme bom humor.

Artur Araújo

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006 22:48:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Calma Alon, você ainda chegará aos 60, e aí quero ver sua
"esquerdidade"...duvido que dure

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006 23:01:00 BRST  
Blogger Cid disse...

Alon

Eu dizia aos meus amigos petistas, quando o PT ainda era aquele PT de antigamente,que o destino do partido era ser reformista, social-democrata. O que me salvava era a nossa amizade, porque eles jamais admitiram isso. Julgavam-se revolucionários.

Passou o tempo, o partido cresceu, foi ocupando espaços e chegou à presidência. Ao poder propriamente dito, não, mas chegou lá. Lula-lá.

Analisando estes primeiros quatro anos, e considerando algumas administrações petistas, começo a achar que fui, àquela época, otimista. Tô achando que os carinhas não têm competência nem para serem reformistas. A ultrapassada tentativa de aparelhamento do Estado tem outro nome, e acabou dando com os burros n'água.

Quanto ao que o Lula disse, bem, pra mim foi só uma boutade, tipo FHC dizer que tinha um pé na cozinha. Só nhenhenhém. O que não impede que as pessoas, seja lá que idade tiverem, separarem o essencial do circunstancial, e saberem quando avançar, quando parar ou quando recuar. Já dizia o outro que, às vezes, é preciso dar uma passo atrás, para dar dois à frente depois. Se isso é ser incendiário, pode me colocar na lista.

cid cancer
mogi das cruzes - sp

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006 00:59:00 BRST  
Blogger Jura disse...

Alon, essa é do balacobaco! Você desenterra cada defunto! Coisa de médico legista!
Mas eu fui lá ver o que você mandou. Com a palavra, Vladimir I:
>>Nos parlamentos europeus é muito mais difícil que na Rússia criar uma fração parlamentar realmente revolucionária. Sem dúvida. Isso, porém, não é senão uma expressão parcial da verdade geral de que - na situação concreta de 1917, extraordinariamente original do ponto dê vista histórico - foi fácil à Rússia começar a revolução socialista; todavia, ser-lhe-á mais difícil que aos países europeus continuá-la e concluí-la. Já no começo de 1918 tive de assinalar essa circunstância, e a experiência dos dois anos decorridos desde então veio confirmar inteiramente a justeza dessa consideração. Condições específicas como: 1) a possibilidade de conjugar a revolução soviética com a cessação, graças a ela, da guerra imperialista, que havia esgotado indescritivelmente os operários e. camponeses; 2) a possibilidade de tirar proveito, durante certo tempo, da luta mortal em que estavam empenhados os dois grupos mais poderosos de tubarões imperialistas do mundo, grupos que não podiam unir-se contra o inimigo soviético; 3) a possibilidade de suportar uma guerra civil relativamente longa, em parte pela gigantesca extensão do país o pela deficiência de suas comunicações; 4) a existência entre os camponeses de um movimento revolucionário democrático-burguês tão profundo que o partido do proletariado pôde tornar suas as reivindicações do partido dos camponeses (do partido social-revoluc4onário, profundamente hostil, em sua maioria, ao bolchevismo) e realizá-las imediatamente graças à conquista do Poder político pelo proletariado - não existem hoje na Europa Ocidental. E a repetição dessas condições ou de outras semelhantes não é nada fácil. Por isso, entre outras razões, é mais difícil para a Europa Ocidental que para nós começar a Revolução socialista. Tratar de "furtar-se" a essa dificuldade "saltando" por cima do árduo problema de utilizar os parlamentos reacionários para fins revolucionários é pura infantilidade.<<<
Chamar o PT de esquerdista, portanto, é um elogio que o partido não merece. Nem o PT, nem o PSOL, nem o PCdoB. PSTU e PCO, talvez, mas até eles disputam o parlamento burguês!

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006 08:03:00 BRST  
Anonymous Arnaldo disse...

O pensamento de esquerda só faz algum sentido atualmente se tiver um norte ético muito bem definido.
Como o PT já jogou a ética fora há muito tempo qualquer discussão ideológica torna-se pura perda de tempo. O poder dissolvente do dinheiro - como dizia Marx - já diluiu qualquer impeto revolucionpario, reformista dos nossos esquerdistas...viraram peça de museu, embora ainda façam muito barulho. A frase do Lula foi só a cereja desse bolo de desilusão.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006 11:22:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Essa divisão do mundo das idéias (valores) entre esquerda e direita não serve para mais nada. Quero dizer, no campo dos valores dividir o mundo entre esquerda e direita é bobagem. Isso, no máximo, define um estado de espírito.

No campo da política essa mesma divisão também não diz mais nada.

O que Lula diz sobre esquerda e direita também não é novidade. Ele já dizia isso desde que, ainda jovem, despontava como líder operário no ABC paulista.

O Lula esquerdista foi uma construção das correntes políticas oriundas da luta armada dos anos 70 e de setores do clero identificados com a "teologia da libertação".

Lula é a mais pura expressão do "self made man". Isto é, sua história de vida conta muito mais sobre um indivíduo de origem pobre que ascendeu socialmente na profissionalização política.

Atirar pedras no Lula por isso? Farisaísmo, você sabe. Quem, que hoje pertence ao establishment político, e se reivindica de "esquerda", está hoje pior ($ e prestígio social)do que estava?

Nós, que quando jovens abraçamos a causa luta contra a ditadura, fomos movidos por um ímpeto moralmente correto. Para mim, o equívoco da juventude foi ter optado pela defesa de uma segunda causa, que teimava, e teima, em sobrepor-se a causa da democracia: o socialismo.

Discordamos na percepção de que o socilismo "evoluiu" para um conteúdo e forma democráticas. Desconheço que no passado e no presente o socialismo tenha produzido um bem para a humanidade. O que a história registra abundantemente é uma coleção de fracassos e barbaridades. O socialismo, e não importa qual a sua "coloração", nunca realizou a sua promessa.

Se me permite, o socialismo é como o messias hebraíco: uma promessa.

Enfim, optar pela defesa da causa solcialista é (como em qualquer outra) decisão do indvíduo. No Estado de Direito indivíduos podem escolher quais causas ou idéias vão defender. Para mim é o que basta. Fico no presente. Fiquem os socilalistas com os seus sonhos de futuros radiantes. Apenas não me venham dizer, porque os mandarei à merda, que a causa do socialismo é uma causa moralmente superior à minha.

abs

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006 12:27:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Camarada Alon,
Mais um comentário meu, postado ontem, que evaporou.Com pequeno prejuízo, já que o Incendiário, dirigindo-se ao Trabalhador do Fogo, disse melhor o que eu dissera. Crer que o Primeiro Mandatário domina filigranas ulianovitas é condescêndencia e tanto...

Artur Araújo

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006 18:51:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Parabéns ao Pedro Araujo pela texto bem construído, bem redigido. Mas peço licença para discordar de alguns pontos. Socialismo não é uma promessa. Talvez uma revolução seja uma promessa, mas socialismo é mais um princípio de comportamento político, um modo de caminhar. Neste sentido está a definição no Dicionários Ouassis: 1 conjunto de doutrinas de fundo humanitário que visam reformar a
sociedade capitalista para diminuir um pouco de suas desigualdades
2 conjunto dos partidos de esquerda não comunistas e não liberais. Ouso sugerir um exemplo prático: pequenos passos no século XXI podem caracterizar atitude socialista tais como os projetos de pequenas modificações que a presidenta Michelle Bachelet do Chile têm proposto; o aumento de escala do bolsa família e os reflexos demonstrado na pesquisa do PNAD; na linha liberal ortodóxica, "os cabeças de planilhas" e as idéias de privatizar a Previdência Social ao arrepio da Constituição Federal que determinou que houvesse aposentadoria para trabalhadores rurais, idosos que nunca contribuiram, etc. Desculpem pelo texto longo.

Rosan de Sousa Amaral

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006 22:12:00 BRST  
Anonymous Fernando Trindade disse...

Deixem o homem "blaguear"!
Atenciosamente, Fernando Trindade

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006 22:14:00 BRST  
Anonymous Fernando Trindade disse...

Deixem o homem "blaguear"!

Atenciosamente, Fernando Trindade

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006 22:15:00 BRST  
Anonymous Fernando Trindade disse...

Deixem o homem "blaguear"!
At. Fernando Trindade

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006 22:16:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O Lula jamais foi um esquerdista como seu irmão Frei chico, sim comunista do partidão. O Lula foi e é um conciador. Um conservador que foi tábua de salvação para a esquerda armada, destruída pela repressão, mas jamais uma pessoa capaz de rompantes. A esquerda armada, trotskistas, stalinistas e outros precisavam de um abrigo depois da derrota para a direita. Este abrigo foi a fundação do PT e seu líder o Lula.
Sua frase só reafirma um sentimento interno: é um pragmático que fez o necessário para chegar ao poder e vai continuar a fazê-lo para se manter nele.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006 22:37:00 BRST  
Anonymous marilia disse...

Para mim Lula representa sim a classe trabalhadora, no sistema brasileiro, que não é o russo.
Deixa o homem trabalhar,

Sim, já deu o passo atrás,
será que vêm dois à frente?

Enquanto isso não custa lembrar: todos que estão à minha esquerda considero esquerdistas, enquanto eu sou a minha esquerda correta. Sempre fui assim, desde que li o "Esquerdismo" em 67....
mesmo me vendo fazendo o caminho citado pelo Lula.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006 17:03:00 BRST  
Anonymous Radamés disse...

Segundo a Grande Enciclopédia Larousse Cultural, temos: “ ESQUERDISMO s.m. 1. Teoria política daqueles que preferem a ação revolucionária em contraposição ao papel dos partidos ou dos sindicatos da esquerda tradicional. – 2. Posição política daqueles que são contrários ao sistema capitalista ou burguês”. Já a definição política de ESQUERDA trás um breve histórico e... “depois, o termo tomou um conteúdo cultural e político, gravitando em torno das idéias de progresso e igualdade social”. Portanto, Alon, você tem razão, poucos sabem da diferença, eu não sabia e acho que Lula também, ele até pode ter usado a palavra “esquerda” no sentido de “esquerdismo”.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006 17:21:00 BRST  

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