quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Diálogo com o Luiz Felipe: o liberalismo (21/12)

Noticiei aqui outro dia que o Luiz Felipe de Alencastro agora tem um blog. Chama-se Sequências parisienses (ele está morando na capital da França). Combinei de mandar de vez em quando perguntas para ele responder. Coisas curtas, só para trocar uma idéia. Para começar, perguntei a ele por email, dois dias atrás (os links são responsabilidade minha):

Caro Luiz Felipe,

(...) Quais são os limites do liberalismo no Brasil? Por que não existe um liberalismo popular entre nós? Por que os liberais brasileiros resvalam sistematicamente no golpismo?

A resposta :

Caro Alon,

Penso que os limites do liberalismo no Brasil são dados pela distância social que separa pobres e ricos, como também pela rigidez das instituições políticas. Basta lembrar que o voto dos analfabetos foi proibido até 1985 sem que isto tivesse criado grande comoção. A inexistência de um liberalismo popular está, no meu entendimento, ligada ao arreglo entre o poder central e as oligarquias regionais, feito nos anos 1850, depois da [Revolução] Praieira em Pernambuco (1849). Esse arreglo arrochou as liberdades individuais no nível do poder regional, limitando a possibilidade da emergência de um liberalismo popular. Ele pesa até hoje no Brasil. Mas houve momentos em que medrou um liberalismo combativo no contexto da época. Penso na campanha abolicionista a partir de 1883, quando [Joaquim] Nabuco adota a idéia de [André] Rebouças e introduz a questão da propriedade rural –e donde da reforma agrária– na plataforma do Abolicionismo. Durou pouco, mas foi uma campanha importante. Num contexto mais recente, penso na campanha de Ulysses Guimarães como anticandidato, e nas atividades de MDB a partir da vitória nas eleições senatoriais de 1974 até a campanha das Diretas já. Em 1984. Creio, enfim, que os dois mandatos presidenciais de Lula reforçam o desenvolvimento de um liberalismo popular, pela primeira em vez, em nível nacional. (...)

Abraços,

lfelipe

Interessante. Especialmente a última frase.

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9 Comentários:

Blogger Danilo disse...

Alon, não é por nada não, mas será que você explicar claramente o que é "liberalismo popular", porque:
1- Você fala dele como se soubéssemos o que é, não sei se você publicou alguma coisa antes de eu chegar aqui, mas eu não sei
2- Aliás, "liberalismo" (no sentido que meus professores de História e Filosofia do colégio costumam usar) não combina com "popular" de forma aceitável. Me parece uma contradição meio difícil de sanar.
Não vejo povo pedindo liberalismo ou liberalismo que peça povo.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 00:12:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Vale a pena transcrever o blog de Felipe de hoje,sobre Miguel Arraes.
É uma modesta sugetão.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 07:38:00 BRST  
Blogger Richard disse...

Se Lula é o liberalismo popular, prefiro ficar com o golpismo!!! Acho que o Danilo tem razão, liberalismo não rima com povo... povo pede liberdade, direitos, coisas mais práticas, certo?!

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 10:07:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon
Bom Natal! Otimo Blog! Votei em você! Espero que ano que vem continue!
Tenho ideia que o conceito de liberdade dos liberais desde Hobbes quer dizer "ausência de interferência" ou de "obstáculo". Hobbes é muito preciso ao comparar um corpo livre ao corpo em movimento, aquele corpo que se move até encontrar um obstáculo. Ser livre, políticamente, neste conceito de liberdade, define-se "negativamente", pela não-interferência do público sobre o privado. Por oposição a um conceito de liberdade, a grega, em que ser livre era ao contrário afirmar-se participativamente na vida pública. Ser livre e ser cidadão era o mesmo. Todos os liberais, do seculo XIX para cá, aceitam o conceito de liberdade "negativa", e Benjamin Constant e madame de Stael assim como o abade Sieyes, em França e Madison e os pais Fundadores americanos, difundem esta ideia de liberdade, partindo do princípio que é impossível em países de grandes dimensões e em sociedades comerciais, participar da esfera pública em tempo integral, até porque precisamos trabalhar e não temos escravos como os gregos.Os homens preferem a sua vida privada e delegam a representação a deputados e senadores. Ser livre, agora, é evitar ao máximo o despotismo e a interferência do Estado. E evitar o despotismo das maiorias, tão temido pelos Pais fundadores norte-americanos. Acredito que todos os liberais, á direita e á esquerda, preferem a institucionalidade da democracia constitucional e as Supremas Cortes - que segundo parece, foram repetições dos eforos espartanos, para controlar as manifestções populares, evitando confusões e revoluções - á democracia direta. Alguns liberais, como Ana Arendt, descrevem esse processo e defendem a participação popular e a volta a um conceito de liberdade positiva. Como sou economista e mais próxima das ideias burguesas de Constant do que das de Arendt e tenho estado muito na Baixada Fluminense em contato com ONGS e movimentos populares, acho que os pais fundadores americanos tinham razão num ponto: ainda estamos longe da Grécia. Quem vê as lideranças populares em ação, desde a Igreja a partidos políticos, movimentos de mulheres, etc, percebe que o despotismo dessas pessoas e organizações é tão grande ou maior que o das Cortes Supremas que ao menos levam mais tempo a julgar. No Brasil, e falo da Baixada Fluminense, onde um padre progressista como Don Adriano Hipólito, foi capaz de criar um grande movimento popular contra a ditadura, a desigualdade, a exclusão, o que se vê hoje são pequenos despotas, Tontons macoutes locais, alguns impulsionados até pelo PT, que está no poder em Nova Iguaçu Assim, entre as duas liberdades, meu coração balança.
abraço
Inês

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 10:38:00 BRST  
Anonymous ricardo disse...

Liberalismo popular : um oxímoro .Desde quando a mendicância tem opção ?

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 11:51:00 BRST  
Blogger alberto099 disse...

Caro Alon, não sei se sua pergunta traz implícita a idéia de que parte de nossas elites, parte com alguma expressão, possam ser vistas como liberais. Não me parece que seja assim. O que me intriga é a dificuldade de qualquer penetração de idéias liberais no Brasil e, consequentemente, a quase inexistência de defesas enfáticas da economia de mercado. Claro, há a política econômica ortodoxa adotada desde 99, mas esse é um fenômeno mundial, resultado evidente da globalização. Ainda assim, mesmo aqueles que na imprensa defendem a política econômica em suas linhas gerais, dificilmente deixam de apontar que os juros estão altos demais, ou poderiam ter sido reduzidos mais rapidamente ou que o superávit fiscal é excessivo. O “liberalismo” que um dia fez sucesso no Brasil é aquele retratado pelo crítico Roberto Schwarz em seu ensaio “As idéias fora de lugar” (no livro “Ao vencedor as Batatas”, Duas Cidades e Editora 34, 2000), em que os conceitos liberais fazem referência a uma realidade dominada pelo clientelismo. Dando um enorme salto histórico, onde se concentra (ou se concentrava) a penetração social de nosso principal partido que se intitula liberal, senão nas regiões onde é mais forte a sobrevivência das relações sociais que receberam o nome de Coronelismo? Claro, houve Joaquim Nabuco e o abolicionismo, mas ao citar nominalmente um único líder de nossas elites, Luiz Felipe não estaria mostrando justamente a reduzida penetração do liberalismo em todos os estratos sociais? (Ulisses Guimarães e a luta pela redemocratização reuniam inúmeras tendências políticas, não creio que fossem predominantemente liberais, ainda que as principais teses, por força das circunstâncias, sim o eram). Por fim, o governo Lula possui diversas iniciativas que seriam simpáticas a um liberal autentico. A ajuda em dinheiro do Bolsa-Família seria bem vista por um Milton Fridman, o micro-crédito e o programa de eletrificação rural abrem oportunidades à iniciativa da população de baixa renda. Mas não sei se essas iniciativas favorecem a disseminação de idéias liberais. A referência feita por Inês, em comentário anterior, aos pequenos déspotas da baixada fluminense, aponta uma realidade que caminha em direção contrária.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 12:54:00 BRST  
Anonymous Fernando Trindade disse...

Gostei muito da conclusão do Prof. Luiz Felipe no sentido de que o Governo Lula reforça o desenvolvimento de um liberalismo popular no Brasil, pois é como vejo todo esse processo (e é também por isso que estou com Lula).

A Inês aí em cima fala em liberdade negativa e positiva e me faz lembrar Isaiah Berlin. E a propósito, lendo a bela biografia de Isaiah Berlin (Isaiah Berlin: Uma Vida, por Michael Ignatieff, Ed. Record) com alguma surpresa e muita satisfação tomei conhecimento de que Berlin - em regra -votava nos trabalhistas.
E para lembrar Berlin e brindar a um liberalismo (de esquerda), que defendo, transcrevo passagem do Mestre:"R.H.Tawney nos lembra com razão que a liberdade dos fortes, seja sua força física ou econômica, deve ser restringida. Essa máxima exige respeito, não como conseqüência de alguma regra apriorística, pela qual o respeito pela liberdade de um homem acarreta logicamente respeito pela liberdade dos outros; mas simplesmente porque o respeito pelos princípios de justiça, ou o opróbrio pela desigualdade grosseira de tratamento, é tão básico nos homens quanto o desejo de liberdade." (de "Dois Conceitos de Liberdade")

Atenciosamente, Fernando Trindade

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 13:04:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Liberalismo popular com bolsa familia? Mas que liberalismo clientelista é este? só se for liberal no sentido norte-americano, de esquerdista....

jv

Feliz Natal, Alon, mesmo que talvez não se aplique.

sábado, 23 de dezembro de 2006 12:48:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Liberalismo popular influenciado pelos dois mandatos presidenciais? Para que entender isto? Não seria, afinal, melhor tentar entender a sensação de que os últimos quatro anos não foram iniciados e de que o próximo quadriênio já acabou? A idéia que vem mais forte é a de uma verdadeira e gigante salada mista. Explicada, em seus componentes, por interessantes exercícios de contorcionismo mental. Tão próprios aos tempos que correm. Tomara que, ao fim de tudo, ainda sobre alguém para debruçar-se sobre estes bravos tempos bicudos.
DWN

sábado, 23 de dezembro de 2006 13:56:00 BRST  

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