sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Deus é sutil, mas não é malicioso (22/12)

Você sabe que na hierarquia deste blog, e na vida, é a realidade que subordina a coerência das idéias -e não o contrário. Então, apesar de ter dito que não voltaria ao assunto dos salários dos secretários estaduais de São Paulo, dou meia volta e retorno a ele. Não resisti. Não resisto a um debate, a uma polêmica, especialmente quando a lógica é a bola do jogo. Você bem sabe que o noticiário sobre a tentativa frustrada de equiparar o salário dos deputados e senadores ao dos juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) pariu duas expressões: "superaumentos" e "super-salários". A primeira denominação fez mais sucesso do que a segunda, e acabou se impondo. Talvez porque alguns formuladores de expressões de sucesso tenham lembrado de seus próprios contracheques. Tem gente para quem, definitivamente, não cai bem chamar R$ 24 mil de super-salário. Como é que ficaria na hora de pedir aquela promoção? O sujeito entra na sala do chefe para a conversa sempre difícil:

- Chefe, vim aqui pedir um aumento. As coisas foram bem neste ano, e eu ficaria muito feliz se a empresa considerasse a possibilidade de me dar uma promoção.
- Por quê? Você já ganha tão bem... O seu salário já é um super-salário. Quatro anos de moleza na faculdade, só matando aula, e você já ganha quase como ministro do STF. Já pensou quantas cestas básicas daria para comprar com o que você está pedindo de aumento?
- Mas, chefe, juiz do Supremo tem estabilidade, o cargo é vitalício. Na nossa profissão é bem diferente.
- Pois sabe que você acabou de me dar uma boa idéia?

Aí o super-salário virou superaumento, todos ficaram mais confortáveis e o escândalo ganhou nitidez. O argumento é, aparentemente, demolidor. Em tese, é insuportável para o cidadão comum ver deputados e senadores terem 90% de reajuste nos seus vencimentos quando a inflação está em 3% ao ano, uma das menores da História do Brasil. A falta de uma contestação minimamente estruturada a essa idéia, nascida do senso comum, levou o Congresso a ter que recuar e terminar a legislatura sem aprovar nenhum aumento de salário. Só que aí apareceu o assunto do reajuste dos secretários estaduais em São Paulo. Seus proventos, por uma bonita coincidência, vão subir exatamente (ou aproximadamente) aqueles tais 90% , tão execrados na crise. E ainda tem gente que acha que Deus não existe. Ele não só existe como escreve certo por linhas tortas. O sujeito acaba de sair do meio da turba que está linchando o deputado federal (que também queria para si um aumento de 90%). O linchador esfrega na roupa as suas mãos ensangüentadas, dá uma respirada e explica:

- É diferente. O secretário em São Paulo ganha muito pouco. Só R$ 6 mil. Eles estão sem aumento desde 1995. É razoável que, pela importância do cargo, eles passem a ganhar R$ 11 mil. Agora me dá licença, que eu preciso ir ali chutar a cara daquele deputado de Tocantins.

Quando li esse argumento pela primeira vez eu me senti como acho que Isaac Newton se sentiu quando a maçã despencou da árvore. Ou Arquimedes, quando a banheira transbordou. Eureka! Esse exemplo simples (e fictício) nos leva a concluir que, até para os autoproclamados sacerdotes da austeridade, o aumento de 90% talvez se justifique, sim, em determinadas circunstâncias! Em outras palavras, o número de 90%, em si, não significa nada. Sozinho, não permite formar um juízo. E que, portanto, é necessário analisar caso a caso. Einstein estava certo quando afirmou que Deus é sutil, porém não malicioso. Se você não percebeu, a lógica acaba de enfiar uma estaca no coração da palavra superaumento. A luta política é um xadrez. Você não pode mexer as peças à vontade, existem regras. Só faz sentido usar "superaumento" se os 90% forem uma grandeza absoluta, como a velocidade da luz no vácuo (sempre ele, Einstein), ou como a inflação. Ou se se tratar, pelo menos, de uma grandeza estudada em um intervalo razoável. Pois sempre haverá, é claro, alguém que argumente assim:

- Essa sua última afirmação, sobre a tal grandeza absoluta, não faz sentido. Seria mais do que justo, por exemplo, dar um aumento de 90% para o salário-mínimo, se isso não arrebentasse os estados, os municípios e a previdência, e se não atingisse em cheio a classe média que tem empregada doméstica.

O argumento não vale, é bobinho e está fora da regra. Salários de R$ 12 mil (como o dos deputados e senadores) e de R$ 6 mil (como o dos secretários de São Paulo) são grandezas comparáveis. Estatisticamente e socialmente comparáveis. Vá ao site do IBGE e confira: não há uma diferença matematicamente significativa entre o número de brasileiros que ganham mais de R$ 6 mil e o número dos que ganham mais de R$ 12 mil. Enfiar o salário-mínimo nesse debate é trocar a lógica pela demagogia. É transgressão à regra. Cartão amarelo. Mais razoável seria recorrer ao sempre útil "está na cara":

- Está na cara que pagar R$ 6 mil a um secretário estadual em São Paulo é pouco. Pagando assim, você não vai atrair bons profissionais. R$ 11 mil é até menos do que deveria ser. Mais adequado seria pagar R$ 12 mil, ou até além disso.

Querem saber? Pois eu concordo. Plenamente. Mas aí aparece um probleminha lógico (sempre ela, a lógica, a nos assombrar). O presidente da República e os ministros ganham cerca de R$ 8 mil. O governador de São Paulo ganha em torno de R$ 14 mil. Qualquer estagiário de empresa de consultoria em Recursos Humanos concordará que é defensável o presidente do Brasil ter um salário 10% maior do que o do governador de São Paulo. Idem para os ministros, na comparação com os colegas secretários paulistas. Ou seja, como não li nenhum editorial clamando pela diminuição do salário do governador de São Paulo, concluo que o presidente deveria então ganhar uns R$ 16 mil. Os ministros, uns R$ 12 mil. Agora, me responda: o que a turma (falei turma, não turba) teria feito se, antes dessa confusão toda no Congresso, Luiz Inácio Lula da Silva tivesse proposto um "hiperaumento" (se 90% é super, 100% deve ser hiper) de 100% para si próprio e um de 50% para os ministros? Não precisa ter pressa para responder. Se quiser usar o feriado para refletir, fique à vontade. Porque eu agora vou ter que ir embora, tentar pegar um avião da TAM. Mais sofrimento. Infelizmente, este não é só o país da indignação seletiva. É também o país do caos nos aeroportos. Graças a Deus que, pelo menos, o segundo problema é mais fácil de resolver do que o primeiro.

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7 Comentários:

Anonymous José Augusto disse...

Os números do aumento e do salário dizem menos pelos seus valores absolutos e relativos de mercado, do que pelos princípios que tentaram esconder.
Acho que a questão é simples. Imagine num país pós guerra onde a comida precisa ser racionada para alimentar todos. Se autoridade responsável pela distribuição da comida, cair na tentação de desviar um pouquinho a mais para si e para os seus, mesmo que o quinhão dos demais pareça manter o mesmo, gerará uma insobordinação que destituirá a autoridade de legitimidade. É questão ética e moral. Simples assim.
Quanto aos salários do judiciário e de secretários pode haver maior tolerância porque há uma certa compreensão de meritocracia para o cargo, do conceito de seguir carreira, que confere maior legitimidade a quem atinge o topo. Tem carreiras longas e presumidamente virtuosa, ingressaram por concurso público, provaram notório saber, é carreira de Estado, e o funcionário que dedica-se à carreira de Estado, como militares e magistrados, não tem a mesma opção de trocar de emprego.
Já mandatos políticos pressupõe que sejam extratos da sociedade. Radialistas e descendentes de oligarquias políticas são eleitos ainda na faixa dos 20 a 30 anos, ambalados pela fama ou herança política, antes de terem seus talentos e sabedoria comprovadas.
Além disso, se um pipoqueiro é eleito, ao ingressar no congresso, ele torna-se um novo rico, muda seu padrão de vida completamente. Na prática, deixou de ser um representante dos eleitores que votaram no pipoqueiro, imediatamente. É um paradoxo.
Alguns, como eu, pensam que a verdadeira vocação política é um sacerdócio. Mandatos não é carreira profissional, nem pertencem a uma estrutura de cargos e salários. Tal qual a igreja católica, ninguém imagina quanto deveria ser o salário do Papa, dos Cardeais, Arcebispos, etc, comparados a executivos empresariais.
Se os mandatários quiserem profissionalizar os mandatos, que tal passarem pelo crivo de uma seleção prévia de habilidades meritocráticas, por concurso público, para credenciarem-se a serem candidatos? Tenho certeza que seriam melhor compreendidos.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 17:11:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, veja o que o Lula disse na Folha On Line de hoje:

Lula aproveitou conversa com jornalistas, no Palácio do Planalto, para defender reajustes salariais ao Executivo --que, segundo ele, não aumenta os salários de funcionários que ocupam cargos de confiança desde 1998. "Os funcionários de carreira têm reajuste, mas os de natureza especial não têm. As pessoas que estão aqui não têm salários por fora e estariam ganhando muito mais se estivessem em empresas privadas", disse.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 18:28:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Você vive em Brasília. É amigo do Aldo e conhece um monte de gente. Então te pergunto:

O acordo de líderes que aprovou o aumento fazia ou não parte das negociações sobre a o futuro da presidência da Câmara e do Senado?

Li hoje na FSP a entrevista do Aldo. Gostei bastante do que li. Apenas não entendi porque ele está a favor do congelamento dos salários dos Ministros do Supremo.

Aldo pertence àquela estirpe de comunistas que eu respeito. Aliás, achei o máximo a frase do comunista filho de um vaqueiro, talvez devoto de Padre Cícero:
"Eu não fiquei sozinho. Eu, pelo menos, espero que tenha contado com a companhia de Deus".

Interessante, ainda comentando a indecência patrocinada pelos líderes (como o Aldo caiu nessa, Alon?), é o fato dos vencimentos complementares dos congressistas não terem aflorado no calor da discussão. O que afronta não são os 90%. Mas o que cada deputado custa ao país:

-13º salário.
-14º salário.
-15º salário.
-R$ 4,1 mil a R$ 16,5 mil para passagens aéreas.
-R$ 3 mil mensais de auxílio-moradia.
-R$ 50.8 mil por mês para gastos com pessoal.
-Até R$ 15 mil para gastos com escritório e locomoção no Estado de origem.

E afinal (esta ouvi hoje durante a apresentação do jornal matutino da TV Globo) os congressistas conseguiram os dois aviões da FAB para levá-los de volta aos seus Estados de origem?

abs

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 19:37:00 BRST  
Blogger Cid disse...

Alon

Se você continuar assim vai acabar estragando o Natal e uns e outros, bicudos e emplumados por natureza.

Nada como usar o raciocínio desses fariseus contra eles próprios: é como tirar doce da mão de criança, não tem um que pare em pé.

cid cancer
mogi das cruzes - sp

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 21:00:00 BRST  
Anonymous Fernando disse...

Alon, o salário dos deputados, de ministros e do presidente não é composto só pelo que sai no hollerith. O Lula pode ganhar 10 paus por mês, mas e as regalias do poder? Os secretário de estado, na prática, só ganham o salário e no máximo ajuda com o combustível. A sua lógica está deixando de fora os privilégios de cada cargo, o que faz toda a diferença. A grita em torno do salário dos deputados levou em conta as imensas benesses que o cargo já lhes garante.

sábado, 23 de dezembro de 2006 07:03:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Desculpe-me, Fernando, mas moradia, alimentação e transporte de um presidente da república - ou, até, de ministros de estado - não são regalia alguma, mas questão básica de segurança nacional.
O hipotético custo de mater-se o necessário aparato de segurança para um presidente que morasse em casa própria, fosse ao Planalto de ônibus e comesse em qualquer canto seria, convenhamos, provavelmente bem maior e mais ineficaz que a estrutura atual, de resto igual à de TODOS os países do mundo.
Comparações lineares de funções de Estado com empregos na iniciativa privada carecem de base lógica inicial, dadas suas naturezas completamente diversas.
E creio que o "momento Descartes" do Alon já foi suficiente para por a nú o FEHIAMICLAM (Festival de Hipocrisia que Assola a Mídia e a Classe Média, apud Stanislaw psicografado)

Artur Araújo

sábado, 23 de dezembro de 2006 10:40:00 BRST  
Anonymous Frank disse...

É interessante o esforço de uns e outros para torcer fatos em prol de seus argumentos.

A questão da equiparação dos salários de membros do Congresso com os do Supremo me parece razoável, desde que se cortem todos os outros penduricalhos de que usufruem atualmente os congressistas - já devidamente listados em outro post -, à exceção, a meu ver, das verbas para contratar equipe e para passagens.

Ah, e é evidente que os salários dos secretários paulistas, de ministros de Estado e do presidente da República estão bastante defasados.

Então, é perfeitamente possível discordar do aumento dos deputados (nos termos em está-se discutindo, ou seja, sem corte dos “penduricalhos”) e concordar com os aumentos do secretariado e do governador de São Paulo. Eu não acredito que isso seja indignação seletiva.

Agora, o problema do país - no que tange ao equilíbrio dos salários das principais funções de Estado (a qual aludi em outro tópico) - é a desproporcional apropriação de dinheiro pelo Poder Judiciário e outras instâncias exclusivas de advogados (Ministério Público, por exemplo).

Um país como o Brasil não PRECISA pagar R$19.000 para um juiz iniciante (em muitos casos, um rapaz de 27 ~ 28 anos), por mais meritório que seja o desempenho no concurso. Na "calada da noite", os magistrados conseguiram, nos últimos 3 anos, dobrar seus vencimentos e, por essa razão, quedarem-se em um patamar remuneratório BEM acima de outras funções igualmente basilares de Estado, no Poder Executivo. Não se trata de preencher cargos públicos com os melhores profissionais que a sociedade oferece (isso já ocorria quando o salário era de R$9.500), mas, tão somente, de irracionalidade no uso de dinheiro público.

sábado, 23 de dezembro de 2006 17:48:00 BRST  

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