sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

O ambientalismo num só país (15/12)

Quem já leu um pouco desconfia de que globalização é o nome novo que se dá a algo velho: o imperialismo. Neste blog, você sabe, sobrevivem as categorias da boa ciência social. Mas deixemos de lado a expressão clássica, para não ferir suscetibilidades. Usemos "globalização". Notei aqui outro dia (O muro mexicano realiza o sonho da esquerda) que as mesmas vozes que enaltecem a livre circulação dos capitais e da informação não se batem pela contrapartida: a livre circulação do trabalho. O que está em curso no planeta não é a formação de um mercado global, é a captura agressiva de mercados nacionais por capitais também nacionalmente baseados, apoiados nos respectivos Estados. Você acha meu pensamento obsoleto? Então faça a experiência você mesmo. Tente emigrar para os Estados Unidos ou para a Europa, como um trabalhador livre. Diga no controle de passaportes que você é um cidadão do mundo e vá em frente. Essa é uma discussão que já tem quase cem anos, mas volta e meia mostra sua atualidade. Você já ouviu falar de Nikolai Bukharin (o da foto)? Outro dia me disseram que o Fórum Social Mundial está num impasse: seus participantes sabem que são contra o capitalismo, mas não têm a mais remota idéia de que sociedade desejam colocar no lugar. Deve ter a ver, acho, com esse debate centenário. Parece paradoxal, mas é exatamente nos períodos de maior agressividade e atividade global do capital que a luta dos trabalhadores pelo progresso material e espiritual mais se integra (ou se confunde) com a batalha pela soberania dos países. Se o sujeito não entende isso, acaba entrando na contramão: quando olha para os lados, está aliado com gente que deveria combater. É o caso do ambientalismo. Há um ambientalismo global, bem identificado pelas suas teses e por organizações que nele militam. Do ponto de vista dos países desenvolvidos, é razoável que o Brasil, por exemplo, assuma compromissos formais com metas para evitar o aquecimento global. De um ponto de vista supostamente "planetário", é possível que também faça sentido. Mesma coisa em relação à Amazônia. Para um americano ou europeu, o certo é mantê-la intocada. E, de um ângulo supostamente "global", faz todo sentido preservar a Amazônia como uma reserva de valor para gerações futuras. É fácil identificar a ação do ambientalismo global entre nós. Ele é contra tudo. É contra usinas nucleares (por causa do lixo atômico), é contra usinas termoelétricas (por causa da poluição e da emissão de gases), é contra usinas hidroelétricas (por causa das inundações), é contra a construção de rodovias e ferrovias que possam potencializar a expansão da fronteira agrícola (porque é contra expandir a fronteira agrícola), é contra o uso de organismos geneticamente modificados (por causa da ameaça à biodiversidade), é contra o controle soberano do país sobre as reservas minerais localizadas em áreas indígenas (por causa dos direitos dos povos originais), é contra o reequipamento das Forças Armadas e sua capacitação efetiva para defender o território nacional (pois isso seria um desperdício), é contra a integração sul-americana (por quê, não se sabe bem). É contra até o Rodoanel em São Paulo. Durante duas longas décadas, o Partido dos Trabalhadores adulou e açulou esse pessoal. Era o "internacionalismo" de mãos dadas com o imperialismo, rodopiando numa valsa maluca. Agora, o PT chegou ao governo e descobriu que sem utilizar soberanamente os recursos naturais do Brasil não haverá desenvolvimento no país que preste. E o projeto de poder do PT não sobreviverá sem mais crescimento e desenvolvimento. Sem os dois não há política distributivista que se sustente no tempo -ao menos na democracia. A cizânia está instalada. A aliança do petismo com o ambientalismo global é como o cruzamento de duas espécies distintas: coabitam há muitos anos mas não são capazes de gerar descendência fértil. Ou o PT inventa um ambientalismo nacional, voltado para o desenvolvimento verdadeiramente sustentável (sustentabilidade sim, mas com progresso), ou vai perceber que o chão começa a ceder sob os seus pés [mas diga você, que lê este blog: é possível o ambientalismo num só país? O que diria Bukharin?] Por enquanto, o PT está com sorte. Não há no Brasil nenhum partido de esquerda com uma plataforma essencialmente nacional. Por enquanto, o PT pode se dar ao luxo, na questão ambiental, de acender uma vela a Deus e outra ao diabo. Por enquanto.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

7 Comentários:

Blogger alberto099 disse...

Caro Alon, não cabe a associação ambientalismo global e imperialismo. A busca pelo crescimento sustentável ecologicamente não é do interesse de capital nenhum, internacionalizado ou local – e as organizações ambientalistas azucrinam empresas em todas as partes do globo –, assim como devem existir organizações “contra tudo” genuinamente nacionais. Você tem razão em mostrar que a associação ao ambientalismo extremado, se foi conveniente ao PT na oposição agora é um estorvo ao governo, mas esse precisa encontrar seu caminho sem atribuir seus problemas a interesses estrangeiros. Se me permite uma observação mais ácida, acredito que um de nossos traços ideológicos que mais contribui para nosso persistente atraso (nossos do Brasil, mas também de quase toda América Latina) é o de atribuirmos a interesses estrangeiros uma responsabilidade da qual, na verdade, apenas queremos fugir. Na esfera das relações internacionais, em que o governo Lula mostrou surpreendente combatividade – desmanchando a imagem amesquinhada que muitos achavam inevitável – nossa biodiversidade, nossa contribuição à luta contra o aquecimento global, além de constituírem nosso interesse, devem servir de moeda de troca na negociação dos demais. Internamente é necessário que enfrentemos nossos (e apenas nossos) fantasmas, tais como a recorrente dificuldade em decidir (a favor ou contra) sobre a adequação dos impactos ambientais de projetos de infra-estrutura.

sábado, 16 de dezembro de 2006 09:27:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, muito original, gostei. Mas o PT e os verdes tem algo em comum, não querem o progresso. Até o Lula quer se livrar deles e por isso cai nas garras do Delfim Neto.
Quando você quer o ovo e a omolete ao mesmo tempo, acaba caindo tudo no chão e aí você fica sem nada.

sábado, 16 de dezembro de 2006 11:22:00 BRST  
Blogger Cid disse...

Alon

Este é o verdadeiro papel do titular de um blog: provocar a discussão a partir de novos ângulos, mesmo que contrariem o senso comum. Para mim, perfeita esta nota, principalmente por trazer à baila questões não resolvidas e que se arrastam ao longo das décadas: a liberdade do capital e a (falta de) liberdade do trabalho. Afinal, ao fim e ao cabo (em última instância, dizia Marx) é em torno disso que gira a História.

Pode parecer também que o movimento ambientalista global, com seu enfoque “planetário”, por vezes faça, ou aparente fazer, o jogo do capital das economias hegemônicas. Sempre haverá esse risco. Mas o planeta é um só, Alon, e, dominando quem domine o mundo, seus recursos naturais têm limites. É como a dona-de-casa e seu orçamento doméstico: pode fazer malabarismos, tirar daqui pra lá, diminuir isto, aumentar aquilo, só não pode gastar mais do que tem. Senão...

Nossa legislação ambiental é uma das mais avançadas do mundo, embora o papel aceite tudo. E esse conjunto de leis não impede o desenvolvimento do país. É preciso saber usar. E nessa hora precisamos decidir qual civilização queremos:
1.a do desperdício, com o uso indiscriminado dos recursos naturais e consumo desenfreado, tipo EUA;
2.ou a convivência mais harmônica com a natureza, em que as ações não são apenas determinadas pela rationale econômica, e na qual menos também pode ser mais.

Você fala da aliança histórica do petismo com certo ambientalismo global, que estaria hoje em rota de colisão pela necessidade de crescimento e desenvolvimento do país. Sei não, tenho cá minhas dúvidas. Até onde minha vista alcança, e salvo melhor juízo, nosso Ministério do Meio Ambiente, Marina Silva à frente, não oferece nenhum empecilho para que o país se desenvolva. Talvez se deva buscar nas alianças a qualquer preço, com gente sem o menor compromisso com a sustentabilidade, o verdadeiro “nó ambiental” de que tanto reclamam membros do governo, antes José Dirceu, agora Dilma e até o presidente Lula.

Nesse sentido, sabemos todos que qualquer ação humana provoca impacto ambiental. O segredo estará sempre em escolher os caminhos menos agressivos e de maior possibilidade de recuperação. O problema é que isso acaba contrariando interesses (as tais alianças), principalmente se somado à visão estreita do crescimento a qualquer custo. Nem precisamos lembrar da devastação ambiental nos vários países dito socialistas quando da queda do Muro de Berlim: hoje, a China, e em menor escala, a Índia, são exemplos a serem evitados se o objetivo for o crescimento e o desenvolvimento sustentáveis.

Essa é a escolha, e não é fácil. E tenho reais dúvidas (toc toc) se o governo e o próprio país estão preparados para essa escolha. Porém, sonhar é preciso.

cid cancer
mogi das cruzes - sp

domingo, 17 de dezembro de 2006 13:58:00 BRST  
Anonymous Gilson Raslan disse...

Os ambientalistas não querem estradas, mas não combatem a miséria, que é o pior desequilíbrio ecológico; não querem hidrelétricas, mas nada fazem para minimizar o desemprego, que é a porta aberta para a prostituição, a degradação humana; combatem a espansão da fronteira agrícola, mas não se importam com a fome da população. Enfim, esses paladinos da natureza não estão nem aí para a população carente, sofrida, analfabeta, faminta, que é o maior desequilíbrio ecológico do planeta.

De que adianta ter florestas exuberantes, com a população passando fome? De que vale um país no escuro e sem estradas para levar o progresso às regiões mais distantes?

domingo, 17 de dezembro de 2006 15:02:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,
Ontem, pela segunda vez, tentei postar um comentário em seu blog, sem sucesso. Quando enviei, não houve confirmação. Creio que pode ser devido a utilizar o Firefox. Estou tentando, agora, com o Safari (sempre em Macintosh), e espero conseguir. Aí vai o comentário de ontem que, previdentemente, salvei cópia em meu HD. O anterior, perdi.).
Um abraço.

Caro Alon,

Não há como ter um "ambientalismo local", pois os efeitos são globais. Não é possível ter um ambientalismo num só país, já que você pergunta. Ou seja, ele só existe uma perspectiva planetária, não tem as fronteiras políticas criadas pelo homem. Na realidade, o Velho hoje diria "ambientalistas de todo mundo: uní-vos" (pois os trabalhadores estão cada vez mais preocupados em manterem seus empregos, em seus países, e só para isso incomodam as multinacionais quanto a relações de trabalho degradantes e baratas em outros países).
Mas só um ambientalismo "infantil" coloca-se contra "tudo". São militantes ou massas de manobra sem perspectivas do que estão fazendo, típicos do "ser contra" da adolescência.
O PT "adulou e açulou esse pessoal" durante duas décadas, como você diz, mais por agudo "senso de oportunidade" que por identidade, pois sua matriz fundamental sempre colocou e ainda coloca a criação de emprego acima de tudo. Ou seja, nada a ver com o que se convencionou chamar de desenvolvimento "sustentável".
É claro que dentro do PT criaram-se "ícones" ambientalistas, que defenderam as florestas, como a senadora Marina Silva. Mas, sem nenhum demérito, eles estavam defendendo a sobrevivência de suas comunidades, seus povos, que dependiam das florestas, não a biodiversidade em si.
Para lidar com isso, o presidente da República optou por usar a senadora como "escudo" para segurar o movimento ambientalista brasileiro, no que teve sucesso em seu primeiro mandato mas tudo indica que será difícil repetir nos próximos quatro anos. Daí sua provável substituição, pois perde "funcionalidade" já que não mais conseguirá "segurar" a militância ambiental.
Mas não existe, a meu ver, qualquer conflito insolúvel entre ambiente e desenvolvimento. E, mais ainda, tenho a convicção que é possível fazer crescer a economia brasileira, nos próximos quatro anos, a taxas anuais do PIB superiores a 5%, sem promover apagões e sem estuprar a natureza.
Maurício Galinkin

domingo, 17 de dezembro de 2006 19:08:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Presentão de Hannukah: o bom e saudável Projeto Nacional em uma tela de blog! E com Bukharin de contrapeso.
Vou respeitar o limite de uma caixa de comentários, mas confesso que salivo para entrar a sério no assunto.
Creio estar no abandono dessa perspectiva, no abandono do óbvio conhecimento empírico de que "território", "nação" e "país" ainda são elementos definidores na economia e na política, um dos maiores desserviços que a crítica açodada e superficial às formulações teóricas da esquerda brasileira, dos anos 50/60, prestou à causa dos trabalhadores.

Artur Araujo

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006 09:48:00 BRST  
Anonymous Alexandre Porto disse...

Vou ser curto por falta de tempo.
Eu não conheço ninguém e muito menos um Governo que não passe a vida acendendo uma vela pra Deus e outra pro Diabo. É condição básica para sobreviver.

Principalmente nesse caso quando ambos são são Deuses e Diabos ao mesmo tempo. Aliás, como todos nós, inclusive os petistas.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006 10:09:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home