quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Um posfácio para o colapso da oposição (02/11)

Maria Sylvia Carvalho Franco escreve hoje artigo na Folha de S.Paulo. É a síntese quase perfeita da confusão mental que vitimou tucanos e pefelistas na eleição recém-terminada. Não estou dizendo que ela é tucana ou pefelista, estou afirmando que ela redigiu hoje na Folha uma espécie de posfácio da cartilha que levou PSDB e PFL à derrota. Com o seu texto, Maria Sylvia mostra, vistosamente, o equívoco que é tentar estabelecer uma relação linear entre grau de instrução e sabedoria política [aqui, um parêntese: não deixa de ser divertido observar como Luiz Inácio Lula da Silva fez de idiotas os que o consideram um idiota quase perfeito]. A essência do pensamento de Maria Sylvia não é original. Espremida a retórica, fica a idéia de que o assistencialismo e a apropriação dos vetores de atraso na vida política brasileira foram os fatores essenciais para Lula obter mais um mandato de quatro anos. Rapidamente, vou me deter na palavra assistencialismo. Quer dizer, segundo o Houaiss,

1 Rubrica: sociologia.
doutrina, sistema ou prática (individual, grupal, estatal, social) que preconiza e/ou organiza e presta assistência a membros carentes ou necessitados de uma comunidade, nacional ou mesmo internacional, em detrimento de uma política que os tire da condição de carentes e necessitados
2 Rubrica: política. Uso: pejorativo.
sistema ou prática que se baseia no aliciamento político das classes menos privilegiadas através de uma encenação de assistência social a elas; populismo assistencial .


Se eu fosse candidato a qualquer coisa, ainda que só a participar do debate público da política, evitaria usar o termo assistencialismo. Ele é depreciativo para o governante. Ele é ofensivo para o governado. É a versão moderna do velho discurso de que "o brasileiro é pobre porque não gosta de trabalhar". Dizer, como o faz Maria Sylvia, que o eleitor de Lula errou porque votou em alguém que dá o Bolsa Família em vez de escolher um outro candidato que daria emprego é de fazer rolar de rir. Quando você, finalmente, tiver controlado o riso, dê uma olhada nos números. As maiores votações de Lula aconteceram nas regiões do país em que a economia mais avança. O Amazonas deu 86% dos votos a Lula por causa da explosão de crescimento na Zona Franca, e não por causa do Bolsa Família. Talvez os amazonenses tenham desconfiado de que um governo sustentado pela elite econômica e política de São Paulo oporia resistência ao processo de desconcentração industrial do país. Ou seja, votaram em Lula para defender os seus empregos. Lula ganhou em Minas Gerais com 3, 2 milhões de votos a mais do que Geraldo Alckmin (65% a 35%). Ganhou no Rio de Janeiro com 3,1 milhões de votos a mais do que Alckmin (70% a 30%). As estatísticas do IBGE devem estar erradas: se Maria Sylvia estiver correta, Minas e Rio estão entre os maiores depósitos de miseráveis do Brasil. Lula ganhou em Goiás (55% a 45%) e quase empatou no Paraná (49% a 51%) e em São Paulo (48% a 52%). Três conhecidos bolsões de extrema pobreza, como se sabe. Ah, sim, tem o nordeste. Querem saber por que o nordeste votou maciçamente em Lula (77% a 23%)? Conversem com qualquer um que tenha feito campanha eleitoral por ali. Eu conversei. E ouvi a seguinte história, contada por um deputado de Pernambuco que se desgarrou nos últimos anos do bloco liberal-conservador para apoiar Lula.

Cheguei um dia numa cidadezinha do interior pernambucano onde estava reunido um certo público para me ouvir falar. A coisa ia indo meio morna, até que toquei na questão do emprego. Aí eu vi o brilho nos olhos das pessoas. Uma mulher já com seus cinqüenta anos resumiu o pensamento daquela gente:
- Sabe, deputado, nós aqui vamos votar no Lula por uma razão bem simples. Se ele ganhar, nossos filhos e nossos netos vão conseguir emprego e estudo aqui mesmo. Nós vamos poder reunir a família toda semana ou no máximo todo mês. Mas se o Lula perder só vai ter emprego mesmo é em São Paulo. E aí a gente só vai se ver no Natal, isso se as crianças tiverem dinheiro para comprar a passagem de ônibus.

Para a oposição, está na hora de acordar e encarar a realidade. E o despertar não será assim tão ruim. Afinal, estarão acordando de um pesadelo.

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12 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Tomara, tomara. Tomara que o PT deixe você ter razão.

quinta-feira, 2 de novembro de 2006 19:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, se acontecer as migrações contrarias, cidades para o campo ou de volta as origens, será um grande avanço para tentar reduzir os bolsões de pobreza nas grandes cidades, que com o crescimento desordenado, ficaram como estão caos total, já que falta tudo, desde moradia descente, emprego, hospitais, segurança, escolas, saneamento, etc. E se acontecer o desenvolvimento regional do norte, nordeste, aí sim veremos o tunel, porque luz ainda esta dificil.
Yoshio - Japão

quinta-feira, 2 de novembro de 2006 21:30:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ah, a dialética, sempre a dialética! Um dia, a periferia paulistana sorria de alegria com o avanço do varejo. Era o Nordeste espalhado do bolsa-família. Hoje, tudo mudou. São Paulo, mesmo crescendo míseros 2,5% ao ano (como a média do Brasil) é visto como um gigante do crescimento e da prosperidade.
Transferência de renda (para pobres via bolsa família e para ricos via juros) não é desenvolvimento econômico. É transferência de renda. E só. Se o bolo não cresce, uma hora a transferência acaba.
Não precisa muito para mostrar que a infra-estrutura acabou. Nem controle de tráfego aéreo esse governo consegue fazer. E tem apagão em 2008.

quinta-feira, 2 de novembro de 2006 21:51:00 BRT  
Anonymous Leonardo Bernardes disse...

Feriado, dia dedicado a comentar no blog do Alon. Pobre rapaz!

Anônimos, sempre eles.. fazem o que fez dona Maria, da Folha, e o que fez Alckmin ao dizer que investiu R$ 200 e poucos milhões em segurança pública, omitem que a interpretação detalhada dos dados permite observar que com R$ 89 milhões destinados a veículos e afins, sobra pouco dinheiro para o investimento necessário em inteligência e reforma estrutural do sistema penitenciário. Reduzir números a uma leitura conveniente é contar, como sempre fazem os experientes, com a incapacidade do leitor. Assim faz nosso ilustre anônimo acima. Aliás, você deixou de mencionar, porque, é claro, NÃO É IMPORTANTE saber os motivos pelos quais você credita ao governo Lula a situação do controle de tráfego aéreo nacional, tampouco o SEU possível apagão em 2008. Evidente, para nós, que estamos a ler o que você escreve, não importam as razões e premissas que sustentam suas conclusões, bastando a sua credibilidade de anônimo para conferir a tudo o que diz verdade e verossimilhança.

Nos próximos dias eu escreverei um texto sobre estrutura lógico-argumentativa, com ele eu pretendo poupar precioso tempo gasto observando todas as vezes que alguém apresenta uma denúncia ou conclusão sem se preocupar em dar a ela fundamento. Bastando a recomendação do texto como método sutil de sugerir a inconsistência.

quinta-feira, 2 de novembro de 2006 23:14:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"Aí eu vi o brilho nos olhos das pessoas. Uma mulher já com seus cinqüenta anos resumiu o pensamento daquela gente: - Sabe, deputado, nós aqui vamos votar no LULA por uma razão bem SIMPLES. Se ELE ganhar, nossos filhos e nossos netos VÃO CONSEGUIR EMPREGO E ESTUDO AQUI MESMO."

“Em lugar do funcionário público tornar-se cada vez mais um executivo que APENAS gere os meios da administração, manteve-se preservada a situação em que ele DETINHA SUA PROPRIEDADE” (LWV, seguindo o estudo da professora MSCF)

O artigo da professora Maria Sylvia é referenciado no seu clássico Homens Livres na Ordem Escravocrata.

A figura do Benefactor, e a questão do "assistencialismo", são objeto de estudo nesta obra de 1969. O que a professora observa, no artigo em questão, é o fato de Lula e o PT terem se apropriado (e ativado, via Estado e como instrumento de dominação e controle) de antigas (históricas) formas de dominação.

Registro que em seu estudo a professora periodiza seu trabalho no fato da Independência e nas ambiguidades do liberalismo brasileiro.

Na época, e que bela época, o debate acadêmico, ao seu modo, refletia as opções políticas da esquerda revolucionária brasileira, situando-se, o debate, na discussão e compreensão de que "atraso e moderno não se achavam, devido à forma de desenvolvimento desigual do capitalismo brasileiro, em contraposição agonística, MAS COMBINADOS, levando à acomodação princípios antitéticos que se fundiriam de modo heteróclito no Estado" (LWV, seguindo o estudo da professora).

“Dessa forma, para que a matriz do interesse viesse a produzir SERES SOCIAIS DOTADOS DE AUTONOMIA E DE IDENTIDADE SOCIAL DEFINIDA, importaria, de um lado, erradicar as formas de patrimonialismo societal preservadas no processo de modernização da sociedade brasileira, e, de outro, POR UM FIM NA TRADICIONAL CAPACIDADE DA ESFERA PRIVADA DE INVADIR A ESFERA PÙBLICA, convertendo-a em um instrumento seu” (LWV, seguindo o estudo da professora)

Este texto do Luiz Werneck Vianna (http://www.artnet.com.br/gramsci/arquiv35.htm), que joga uma luz interessante nesta questão abordada no post, precisa ser lido na íntegra. Eu, que não sou isento, escolhi algumas passagens. Escolhi um lado.

sexta-feira, 3 de novembro de 2006 00:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo Araújo,

Não adianta. A memória da esquerda acabou. Eles estão vivendo num eterno "hoje". E, lembre-se: o dono do blog já escreveu "abaixo a coerência!".

Tá tudo dominado!

sexta-feira, 3 de novembro de 2006 07:42:00 BRT  
Anonymous Fernando Trindade disse...

Os artigos da Doutora Mª Sílvia que semanalmente estão agora sendo publicados na Folha de São Paulo, além de terem sentido extremamente elitista-alienado, como o Alon registrou, têm também um estilo e uma forma tão aristocrático-pernóstica, que mais parecem fac-símiles de artigos publicados nos jornais de outrora (quem sabe a Folha da Manhã da época do Prof. Nabantino)do que textos redigidos para os dias que correm.

A propósito, tenho verificado que a Folha, de algum tempo para cá parece que está retornando ao período pré-Cláudo Abramo, no que diz respeito à sua linha editorial, o que lamento como leitor e assinante, que reonhece a importante contribuição que o jornal deu à redemocratização´do País, especialmente a partir da campanha das diretas. Atenciosamente, Fernando Trindade

sexta-feira, 3 de novembro de 2006 10:18:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Paulo, veja que ninguém reclama quando se diz que o Fernando Henrique fez o Plano Real, ou que o Sarney fez o Cruzado, ou que o Geisel bancou a abertura. Parece-me que essa ortodoxia sociológica só vale quando se é contra alguém. Não me parece razoável. Essa despersonalização da política se levada ao limite representaria a morte da política. Qual seria então o papel do governante? Mero administrador da burocracia e incentivador dos movimentos sociais? O Plano Real, aliás, deu dois mandatos ao Fernando Henrique porque ele, como ministro e presidente, fez as escolhas políticas certas. Isso representaria uma regressão no processo de despersonalização da política? Parece-me um exagero.

sexta-feira, 3 de novembro de 2006 10:41:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Parece que a oposição vai demorar pra aprender...

sexta-feira, 3 de novembro de 2006 10:53:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

A questão central não é tanto haver programas sociais ou saber em que volume e para quem se deve transferir - ainda que sejam pontos importantes. A inovação lulsita (inovação em nossa Nova República apenas, registre-se) e que o diferencia de FHC, por exemplo, é a sua tentativa explícita de relacionamento direto com o destinatário do programa social. No lulismo, o programa Bolsa-XPTO é do LULA, e não do estado brasileiro. Acho que esse é o traço mais marcante do lulismo. Lula não titubeia em convocar as massas para defendê-lo dos "poderosos", como o fez no auge do escândalo do mensalão em 2005 - e, com isso, apelar para oposições do tipo “ricos X pobres”, “brancos X negros” e maniqueísmos afins. Achar que isso é um saudável amadurecimento do petismo, como tenta nos fazer crer o Alon, parece-me incorreto.

sexta-feira, 3 de novembro de 2006 14:36:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Alon

Queria apenas observar a gradidão daquela senhora ao Benefactor.

Sabemos, e quanto tempo passou desde sabemos, que isso não poderia (não deveria) ser gratidão. O fato é que ainda é.

Se tudo fosse como devesse ser (quimera) a senhora não teria que dizer "obrigrado, Lula". Teria que reverenciar o Estado, reverenciar a impessoalidade do Estado, promotor do bem que ela deseja para os seus filhos.

No meu entendiemto, o bom Brasil (quimera) seria aquele que prescindisse das benesses do Benefactor.

PS: A frase que encerra o artigo da professora:

"Quando, nos anos FHC, escrevi contra atos do poder, petistas diziam-se de alma lavada com meus artigos. Hoje, mordem ou silenciam. Meu detergente é menos eficaz ou as almas estão mais encardidas?"

sexta-feira, 3 de novembro de 2006 20:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro,

Acho que vc merece parabéns principalmente por decifrar o texto sobrenatural dessa articulista. Não sou burro, falo outras línguas, já li livros bem complicadinhos. Mas o que a MSCF escreve deveria vir com tradução simultânea para o português demótico.

domingo, 5 de novembro de 2006 02:27:00 BRST  

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