sábado, 18 de novembro de 2006

Pretos e mulheres (18/11)

O estudo especial do IBGE sobre cor ou raça na Pesquisa Mensal de Emprego, divulgado ontem, merece um comentário. O que mais me impressionou foi a diferença entre brancos e pretos/pardos com curso superior (25,5% a 8,2%). Mais até do que a diferença no rendimento médio (R$ 1.292,19 a R$ 660,45). Teorizem o quanto quiserem, as políticas universalistas não dão conta de desigualdades em estágio tão avançado quanto o detectado na pesquisa do IBGE. É possível que investimentos maciços na educação que o pobre recebe antes da Universidade resolvessem o problema (ou pelo menos o atenuassem) no longo prazo. "Mas quando é que esse longo prazo vai chegar, doutor?", perguntariam os interessados, se pudessem. Mais dia, menos dia, o assunto das cotas terá que ser enfrentado de uma maneira razoável. Claro que teria sido melhor se lá atrás a Abolição tivesse vindo acompanhada de uma reforma agrária para os escravos libertos. Infelizmente não foi assim que se passou. A questão é prática. Tratar igualmente os desiguais não reduz a desigualdade, pelo menos não numa velocidade aceitável. E o sistema de cotas não será novidade na legislação social brasileira. As mulheres, por exemplo, têm o direito de se aposentar antes dos homens. Trata-se de uma espécie de "cota" de gênero, não acham? De um ponto de vista intelectualmente "universalista", seria razoável que as regras para a aposentadoria de homens e mulheres fossem iguais. Qual é a minha proposta? Ainda não estou bem certo, mas penso que poderíamos adotar uma cota mista, social e racial, mas temporária. Seria como um remédio, prescrito durante tempo suficiente para ao menos reduzir essa fratura inaceitável, a mais vistosa cicatriz que carregamos da chaga da escravidão.

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9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, esta estatística pode ser interpretada de 2 maneiras, ideologicamente opostas.
Uma, a esquerdista, de que os negros sofrem de racismo, e a outra , que chegaria provavelmente à conclusão de que os negros tem algum problema genético.
Por isso estatística é que nem biquini, mostra tudo, menos o essencial. Cada um lê o que quer e ignora o que não interessa no momento. Estudo muito difícil e perigoso.
JV

domingo, 19 de novembro de 2006 00:34:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O anônimo acima pretende reinaugurar a genética ou o quê?

domingo, 19 de novembro de 2006 02:37:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O primeiro anônimo anda lendo Ali Kamel demais.

domingo, 19 de novembro de 2006 09:56:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

o primeiro anonimo lê tudo que passa pelos seus olhos, principalmente estatisticas livremente interpretadas. Ali Kamel é maldito, ou proibido?
JV

domingo, 19 de novembro de 2006 12:49:00 BRST  
Anonymous Luiz Edmundo disse...

As estatísticas podem realmente ser interpretadas de diferentes maneiras, entre elas as preconceituosas e incompetentes. Quanto às mulheres se aposentarem antes, também os professores e os trabalhadores em áreas de risco se aposentam antes dada a natureza do trabalho ou ao "excesso" do trabalho, a mulher tanto tem um físico desigual, como, normalmente, trabalha mais do que os homens, pois são mães e donas de casa. Quanto às cotas sou contra pois acredito que o acesso à educação está mais relacionado ao nível econômico das pessoas. Quantos por cento dos viveram sua vida abaixo da linha de pobreza chegaram á universidade? Com certeza a disparidade é maior entre os "ricos" e "pobres" do que entre "brancos" e "negros". Quando reamente quiserem mudar essa situação, vão fazer uma escola pública de qualidade, capaz de fazer com os filhos dos pobres, negros ou brancos,o mesmo que fazem as escolas particulares com os filhos dos ricos.

domingo, 19 de novembro de 2006 12:50:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Tem a história da Aranha, que estatisticamente, sem pernas, não escuta.

domingo, 19 de novembro de 2006 12:58:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Este negão meu chapa

http://c-avolio.com/2006/11/se-realidade-desmente-suas-convices.html

tem opiniões diferentes da sua de branquelo (como eu , Alon.

JV

domingo, 19 de novembro de 2006 20:58:00 BRST  
Anonymous Fernando Trindade disse...

Com satisfação vejo que o Alon concorda com alguma política de cotas. Digo isso porque pelos seus textos me passa, não sempre devo reconhecer (me lembro do seu texto insistindo que somos latino americanos e não outra coisa), mas muitas vezes, uma visão meio cientificista ou 'modernista' da sociedade, visão que passou a ser dominar o poder com a hegemonia capitalista e que tende a cair no economicismo e num universalismo que desprezam as diferenças (inclusive étnicas). Do ponto de vista político e ideológico tal visão se tornou hegemônica entre os 'progressistas', com a Revolução francesa e depois, com a Revolução russa (a proibição das jovens muçulmanas freqüentarem as escolas,que ocorreu na França, faz uns dois ou três anos, está vinculada a essa tradição). Um colunista que parece ser do gosto do Alon, que se inclui nessa linha é o Demetrio Magnoli (o Kamel também tá por aí).

Ocorre que se tal visão (elitista e autoritária) é questionável até nos 'países centrais', nos 'periféricos' é um fracasso só. A pesquisa do IBGE de que se trata mostra exatamente isso. No Brasil, tal tendência cientificista aportou via positivismo republicano, que se tornou (e permanece sendo) hegemônico no Estado e entre as elites desde a República, que radicalizou essa posição. Na questão da escravidão a política da República sempre foi a de embranquecer o negro, no sentido metafórico (cultural,simbólico) mas também no sentido genético (Oliveira Viana etc).

Só que o outro não quer ser igual a você. Aí nós vemos alguns marxistas e outros 'racionalistas' sem entender a vitória expressiva de Lula, pra pegar um exemplo de agora. Mas os modernistas já mostravam ( em 22) a falta de senso de realidade dos que achavam que o Brasil era, ou deveria ser, uma cópia da Europa e os tropicalistas de 67, 68 (Gil, Caetano, Oiticica, Glauber etc), não por acaso bahianos e carioca, radicalizaram: nem cópia da Europa, nem o nacionalismo romantismo (José de Alencar).

Enfim, para concluir, fazendo blague sobre a perplexidade de alguns com os resultados da pesquisa do IBGE, poderíamos dizer: é (ainda) a escravidão, estúpido! Joaquim Nabuco acertou o alvo quando disse, ainda em 1878! "A grande questão para a democracia brasileira não é a monarquia, é a escravidão."


Parabéns, Alon, por defender (ainda que com relutância) alguma política de cotas. Atenciosamente, Fernando Trindade

segunda-feira, 20 de novembro de 2006 12:13:00 BRST  
Blogger Sergio Leo disse...

Caro Alon, eu concordari contigo em relação a cotas, se o que barra o negro na Universidade fosse a cor. Mas, a que eu saiba, nenhuma universidade nega matrícula a uma pessoa porque a tez dela é mais escura (ao contrário do que ocorria nos EUA, onde foram necessárias as cotas).

Se o que barra o negro é a educação precária, não faz sentido criar uma regra que represente desviar os olhos desse problema, só para que possamos apresentar estatísticas mais, digamos, coloridas, de ingresso no ensino superior. A UnB, por exemplo, criou a cota, e, uma vez aprovado, o negro é deixado ao deus dará, sem nenhum acompanhamento especial que permita reduzir o fosso que o separava, em termos de conhecimento, dos que ganhariam a vaga dele no vestibular.

Política de cotas vale, onde é a cor da pele que representa uma porta fechada. No mercado de trbalho, por exemplo. Para mim, na Universidade, é equívoco, ou demagogia. Para ter efeitos estatístico, mais que de inclusão real.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006 19:28:00 BRST  

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