quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Para saber tudo o que não vai acontecer (15/11)

Todo dia aparece uma evidência adicional de que os Estados Unidos são uma democracia melhor do que a nossa. Agora mesmo o republicano George W. Bush perdeu a eleição legislativa na metade de seu segundo mandato e os americanos discutem como os democratas poderão influenciar as políticas do Executivo nos próximos dois anos. Mostra-se no vizinho do norte pelo menos algum respeito pela vontade do eleitor. Já aqui os políticos se comportam como se a expressão popular por meio do voto fosse uma formalidade, útil apenas para determinar qual o bando que tomará conta da caneta que nomeia os ocupantes de cargos públicos e determina o destino das verbas discricionárias do orçamento federal. O debate pós-eleitoral freqüentemente nada tem a ver com o que se discutiu durante a eleição, com os argumentos que levaram o eleitor a decidir majoritariamente por um dos candidatos. Tudo bem que a ética e a moral da política ocupam um departamento próprio, mas as pessoas deveriam ao menos disfarçar. Em respeito a quem compareceu às urnas faz menos de três semanas. É aquela história: se você acha que o sujeito é um idiota, faça-lhe ao menos a gentileza de fingir que não acha. Seria uma demonstração de respeito. Ora, a agenda vitoriosa na eleição presidencial foi clara. Nada de privatizações, nada de cortes nos gastos de custeio, nada de reformas na Previdência que reduzam benefícios, nada de reformas trabalhistas que reduzam ou eliminem direitos. Não se trata de ser a favor ou contra essa linha, do que se trata é manter algum vínculo entre o que se vai fazer agora e o que se disse antes do dia 29 de outubro. E não me venham falar em coerência. Não estou pedindo coerência, estou reivindicando alguma funcionalidade democrática. Vamos discutir a reforma tributária, com a unificação do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços, com o fim da guerra fiscal. Isso foi proposto pelos dois candidatos que chegaram ao segundo turno. Vamos discutir a reforma política, com o voto distrital ou em lista -ou misto. Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin falaram nisso. Vamos debater como ampliar o Bolsa Família e aumentar o valor dos benefícios. Lula e Alckmin prometeram isso. Vamos dialogar sobre como fazer o país crescer 5% ao ano sem comprometer investimentos sociais. O PT e o PSDB disseram que é possível. Tem muita coisa sobre o que conversar e buscar o apoio do Congresso. Mas não tentem apresentar o programa que acabou de ser derrotado como se fosse o vitorioso. Dias atrás, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) soltou um texto para discussão chamado Uma agenda para o crescimento econômico e a redução da pobreza. Cloquei um link na seção Textos de outros, na coluna direita deste blog. O trabalho de Paulo Mansur Levy e Renato Vilela (organizadores) é sério e bem feito. Só que está em total oposição ao que o eleitor decidiu em outubro. É uma espécie de antiprograma (de governo) derrotado na eleição presidencial. Dê uma olhada, para saber tudo o que não vai acontecer nos próximos quatro anos no Brasil. Por absoluta falta de apoio político e popular.

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6 Comentários:

Anonymous Marcus disse...

Concordo com você que a democracia americana é melhor que a nossa. E que lá se discutem questões substantivas, ao contrário daqui, onde, como você disse, o debate é todo sobre quem vai ou não estar no poder.

A imprensa é uma das culpadas disso, aliás.

Mas eu já disse uma vez e repito: Lula afirmou com todas as letras no Roda Viva, da TV Cultura, que se for necessária uma reforma da previdência, ele iria fazê-la. E, até o momento, nada indica que o governo tenha se decidido por ela.

O que não dá é, num país pobre como o nosso, com enormes carências sociais, colocar a questão macroeconômica como o principal do debate eleitoral.

O principal é atender às demandas da sociedade. Alckmin começou a perder a eleição quando fez do corte de gastos e impostos o principal de seu discurso, como se estivéssemos na Suíça. Empatia zero com o eleitorado. E Lula apenas mostrou que, na questão do atendimento das demandas, seu governo foi melhor que os anteriores.

O governo estuda agora diminuir o crescimento da despesa, o que é diferente de cortá-la. Estancar o crescimento da carga tributária, que é o máximo que se pode fazer hoje sem paralisar a ação do Estado.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006 14:17:00 BRST  
Blogger Cid disse...

Alon

Sua fala somente reforça a tese de que os derrotados estão tentando - pela imprensa, sempre pela imprensa - pautar as ações do segundo mandato de Lula, eleito com 58 milhões de votos.
A agenda é de Lula, e com certeza não se afastará muito do que foi prometido na campanha. Como você mesmo lembrou, Lula não foi eleito para executar o progama dos derrotados, mesmo porque esta é a regra do jogo, goste-se ou não.

cid cancer
mogi das cruzes -sp

quarta-feira, 15 de novembro de 2006 18:04:00 BRST  
Anonymous Richard disse...

Cid, acabei de escrever p/ minha irmã que, mais uma vez, Lula não sabia o que estava dizendo nem tem um programa definido p/ o próximo mandato. Pelo "pití" que deu na equipe econômica deu p/ ver que ele prometeu, novamente, o que não tem certeza de que vai (ou sabe) fazer!

quinta-feira, 16 de novembro de 2006 12:03:00 BRST  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Excelente. Atenção o texto "O desabafo do ipeano" no blog do Nassif contribui para o tema. Um abraço.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006 22:33:00 BRST  
Blogger Cid disse...

Meu companheiro de postagem aqui no blog, o Richard, comenta que Lula não tem um programa definido para o 2º mandato, nem sabe se vai poder cumprir metas mínimas de crescimento, como tem sido ventilado. Menciona um “piti” que teria dado em sua equipe por causa disso. Como citou meu nome e, por tabela, meu comentário, vale outra intervenção nesta nota.
Lula sabe que ganhou a eleição porque a vida de muita gente melhorou graças à inflação baixa, conseguida pela ortodoxia de sua equipe econômica. O Bolsa Família ajudou, mas não foi determinante. E o presidente sabe também que os ventos do crescimento estão aí, e algo terá que ser feito, mesmo à custa de algumas concessões de sua política monetarista. Ou seja, aquela ladainha de que não dava para acelerar a queda dos juros sob risco da volta da inflação será apenas uma lembrança do primeiro mandato. Não que Lula adote alguma política populista; pelos últimos quatro anos, nada autoriza esse raciocínio. Ocorre que, por excesso de zelo de sua ortodoxa equipe, com certeza há margem para alguma manobra que possa proporcionar um pequeno crescimento; pequeno, mas crescimento. Pode não ser muito animador, mas é o que se prenuncia.
Portanto, caro Richard, Lula sabe muito bem o terreno em que pisa e os passos que pode dar. Há riscos, com certeza. Creio que o presidente vai arriscar, embora isso seja tímido demais para o meu gosto. Como não costumo brigar com os fatos – e os fatos são esses –, é bom a gente ir se acostumando. Vem aí, um pouquinho mais... do mesmo.

cid cancer
mogi das cruzes - sp

quinta-feira, 16 de novembro de 2006 23:42:00 BRST  
Anonymous Richard disse...

Cid, o problema é exatamente a falta do risco, da ousadia, a "esperança vencendo o medo", lembra deste slogan?! Por 25 anos o PT disse que podia fazer diferente e melhor, mas quando chegou com Lula Lá, decepcionou. Infelizmente eu não me encontro enquadrado nas políticas do presidente reeleito. E creio que vc tbm não! Não ganho tão pouco que precise do Bolsa-família, não sou negro e já cursei minha faculdade. Como 50% dos trabalhadores do Brasil, não tenho carteira assinada, mas tenho conta em banco e pago impostos. PRECISO pagar um plano de saúde e mantenho meus filhos em escolas públicas, rezando p/ que ele consigam ficar nas ainda melhores (Pedro II etc). Como todos podem ver, não fui e nem serei atingido por qq dos programas POPULISTAS do presidente. Voltando ao slogan; durante 25 anos acreditei nele, contra todas as evidências, que hoje se transformaram em FATOS: Lula não sabe e nem nunca soube como fazer diferente... apenas repete o que já deu (?) certo (?). Pena...

sexta-feira, 17 de novembro de 2006 17:25:00 BRST  

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