sexta-feira, 24 de novembro de 2006

O feitiço do tempo (24/11)

É bacana pescar textos antigos e constatar que eles não morreram. Reli o post Back to basics para a oposição, de abril deste ano. Ele está vivo. Sete meses e uma eleição perdida depois, o PSDB e o PFL parecem aquele garoto que chegou da escola e tem uma lição de casa chata para fazer, tipo assim de matemática ou de química. Aí o cara começa a enrolar. Dá uma ligadinha na televisão, dá uma olhadinha nos emails, dá uma dormidinha, bate um papinho com a namorada ao telefone, vai jogar uma bolinha com os amigos. E os problemas de matemática (e química) ali, esperando por ele, olhando para ele. Intocados e implacáveis. O garoto, claro, pensa que está sendo muito esperto. Que está engabelando alguém. Está é enrolando a si mesmo. Coisa de adolescente. A oposição me dá a impressão de agir como um adolescente que se recusa a fazer a tarefa de casa, como se tivesse todo o tempo do mundo para encontrar a solução de problemas que, a serem enfrentados com prazo determinado, demandariam um pouco de inspiração e muita transpiração. Mas a oposição não quer saber da receita vitoriosa de Thomas Edison. Tomou pau nos exames e acha que, um dia, vai passar na recuperação com a mesma fórmula que a conduziu ao fracasso na primeira tentativa. Lembra, em alguns aspectos, "O feitiço do tempo" (Groundhog Day em inglês). Aquele filme em que o sujeito acorda todo dia no mesmo dia, como se o tempo não passasse nunca. É desesperador, mas o personagem principal tem a vantagem de poder aprender alguma coisa nova a cada 24 horas. É o que ele (ao contrário do PSDB e do PFL) acaba fazendo. O que acaba sendo de alguma utilidade, ainda que o desespero o leve a se matar seguidas vezes (foto). Apenas para acordar no dia seguinte e perceber que não manda nem no seu próprio suicídio. Vocês não acham que tem a ver com o PSDB e o PFL? A eleição passou e eles continuam na mesma ladainha, como se o tempo tivesse voltado: estão ali, resmungando contra Luiz Inácio Lula da Silva e fazendo birra no Senado. Enquanto isso, o petista vai jantando o PMDB, numa operação que pode comprometer o sonhado 2010 de tucanos e pefelistas. Se o presidente conseguir (torcemos para que consiga) conduzir o país ao destravamento de que tanto fala, se levar a economia a crescer não necessariamente 5%, mas pelo menos uma média entre 4% e 5% ao ano nos próximos quatro anos, se o Banco Central ao final de seu governo tiver reduzido a taxa básica de juros para algo em torno de 6% reais e se as obras que prometeu na campanha estiverem pelo menos para sair do forno vai ficar bem difícil a vida de quem tiver apostado todas as fichas no fracasso deste segundo mandato (como foi difícil a vida de quem apostou seus trocados no fracasso deste que está no final). E Lula eventualmente poderá eleger o sucessor numa provável aliança (mesmo de segundo turno) entre PT, PMDB, PSB, PCdoB e agregados -como aconteceu agora. A oposição não tem o suicídio como alternativa, nem terá os seus problemas resolvidos pelo efeito da passagem do tempo. Melhor é aceitar o recomeço e tentar aprender alguma coisa nova a cada dia. Melhor ainda será se decidirem dizer o que pretendem fazer pelo país nos próximos quatro anos, e usarem o poder dado pelas urnas para colocar essas idéias em prática, nos estados e no Congresso. Pois esse será o seu cartão de visitas para tentar voltar ao Palácio do Planalto em 2010. Mas talvez a oposição não esteja preocupada com 2010. Do mesmo jeito que todo ano tem o Dia da Marmota nos Estados Unidos e no Canadá, também tem eleição no Brasil de quatro em quatro anos. Depois de 2010 vêm 2014, 2018, 2022, 2026, 2030... Para que ter pressa? Ela é inimiga da perfeição, não é?

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

3 Comentários:

Anonymous Marcus disse...

Essa história de aprovar 13º para o Bolsa Família mostra bem como a oposição (no caso, o PFL) está desorientada.

Nem o PT, em seus mais incendiários períodos como oposição, teve a pachorra de defender algo parecido.

sábado, 25 de novembro de 2006 01:04:00 BRST  
Blogger alberto099 disse...

A imagem do adolescente esperando escapar de obrigações desagradáveis como que por “decurso de prazo” é preciosa, como a percepção de que é recorrente esse comportamento da oposição, buscando alienar-se do que é desagradável e trabalhoso (com a remissão a um excelente post anterior). Acredito que esse comportamento da oposição não se dá por acaso, mas não creio que você me acompanhasse na explicação desse comportamento. Conheço as regras do Blog, e não me aborreceria se este comentário fosse censurado, mas as críticas que seguem não possuem qualquer intenção ofensiva. Vejo a imagem de adolescente contrariado encaixar bem melhor no PSDB do que no PFL, por entender que aquele partido é a principal representação política de nossa elite intelectual, e a principal característica dessa elite é justamente sua dificuldade de enxergar – e quando enxerga compreender –, o que se passa na base social do país. Não falo sozinho: não tem o presidente Fernando Henrique Cardoso se manifestado no sentido de que o partido deve se aproximar da sociedade? A situação pós-eleitoral dos dois principais partidos de oposição é muito diferente, enquanto o PFL perdeu boa parte da base social que possuía – e esse enfraquecimento o joga de volta a antiga aliança – a derrota do PSDB foi basicamente a perda de um discurso ético descolado do entendimento geral. Para convencer o eleitor da correção desse discurso lançou mão de todo seu poder de mobilizar a opinião pública (na acepção atual em que “público” não coincide com o conjunto de eleitores ou cidadãos), ou seja, mobilizar sua base social de fato, que é a elite intelectual do país.

sábado, 25 de novembro de 2006 09:46:00 BRST  
Anonymous Osmar Schröder disse...

Caro Alon, o mesmo cenário que você vê em relação à oposição (PSDB e PFL), eu também o vejo em relação ao PT. Ele se formou inteiramente na oposição, a mais regressiva possível e, até hoje, parece se sentir desconfortável no papel de governo. Tanto que seus cacoetes, adquiridos enquanto oposição, atrapalham-no agora no poder. Muitos de seus segmentos e partidários ainda se comportam como se fossem da oposição. E, quando determinados parlamentares exercem seu papel de defesa do governo ficam muito mal na foto. Tem que defender hoje aquilo que, veementemente, combateram ontem. O PT chegou ao poder sem ter um projeto para o país. Tinha e tem projeto de poder, de aparelhamento. Como não dispunha de um projeto mínimo – e ainda não dispõe – assumiu em 2003 abraçando às idéias em vigor - algumas já de certa forma superadas, como as da área econômica – e, assim, foi tocando o barco. Deu sorte porque enfrentou um céu de brigadeiro na economia mundial. Deu sorte porque em 1999 o mercado derrubou a âncora cambial que possibilitou ao país obter os superávits comerciais a partir de 2002 até os dias de hoje. O PT tem conseguido atrapalhar até as coisas que vinham dando certo, como o real desvalorizado, principal responsável pelos sucessivos saldos favoráveis na balança comercial. A atual apreciação de nossa moeda, que o governo Lula não consegue enfrentar com competência, já vem causando grandes estragos em setores exportadores de manufaturados, como as indústrias têxteis e de calçados. Sem falar no caos vivido pelo agronegócio. Enquanto isso, aproveitando-se dessa brecha – o real apreciado - artigos chineses, de qualidade questionável, invadem nosso mercado e nós nada podemos fazer porque o governo Lula elevou a China à condição de economia de mercado, quando ela não é. Nossa balança comercial só permanece favorável por causa da demanda internacional de algumas “comodities”, como o aço e o petróleo. Por isso, os preços desses produtos se mantém apreciados. Internamente, o governo Lula tem elevado os gastos de forma crescente sem a necessária contrapartida. A dívida pública interna explode, atingindo o assustador patamar de R$ 1,1 trilhão. Os juros continuam os mais elevados do mundo, embora diversos economistas responsáveis consideram que o governo desperdiçou momentos amplamente favoráveis para reduzí-los de maneira um pouco mais acelerada. Os investimentos públicos são pífios. Sem eles, é impossível crescer de forma sustentável. Você mencionou em seu artigo um conjunto de se isso ou se aquilo acontecer no segundo mandato de Lula, a oposição ficará sem qualquer chance para voltar em 2010. Quem sabe?, em 2014, 2018..., segundo sua ironia. Mas, para que os se isso e se aquilo aconteçam é preciso que haja projeto de governo e determinação e competência para cumprí-lo. No entanto, onde ele está? Veja como Lula anda para lá e para cá na formação de seu ministério para o segundo mandato. Não se percebe uma medida consistente. Diariamente, um novo factóide é criado. Reuniões e mais reuniões são realizadas e nada. Governadores, partidos são convidados a sentar à mesa de discussão sem nada para discutir. E dá-lhe cobertura da imprensa. A sensação que se tem é que essa lenga-lenga se manterá até o fim do segundo mandato. Como aconteceu no primeiro. Lembra-se que, ao assumir, Lula foi categórico em afirmar que, em seu governo, ao contrário do anterior, ministro nomeado é para ficar até o final do mandato. Quantos ficaram? Nunca antes neste país falou-se tanto e cumpriu-se tão pouco. Em resumo: para mim, PSDB e PFL não aprenderam ainda a ser oposição. Passaram a vida inteira sendo governo. Desde criancinha. Assim como o PT sente-se perdido no governo. O papel dele, desde criancinha, foi bater bumbo, fazer barulho. Jogar pedra no telhado de vidro dos outros. Agora é o próprio telhado de vidro. Está exercitando ser governo, enquanto a oposição está exercitando seu novo papel. Ambos cumprem seus respectivos papéis com dificuldade e desconforto. Até quando? Só o tempo dirá.
Abraços,
Osmar

sábado, 25 de novembro de 2006 11:36:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home