domingo, 5 de novembro de 2006

Eu não quero visitar a cozinha (05/11)

Você sabe aqueles restaurantes que têm um cartaz convidando "visite nossa cozinha"? Pois eu nunca visitei. Assim como nunca quis entrar no refrigerador de um açougue para ver se estava limpo, se a carne era conservada adequadamente. Quando chego num posto de gasolina não desço do carro para debater com o proprietário (ou gerente) se o combustível é "batizado" ou não. E assim por diante. Minha visão das coisas relacionadas ao direito de quem consome é meio passadista. Delego ao Estado a tarefa de fiscalizar as empresas e pessoas com quem me relaciono na condição de consumidor. Mas não vou ficar reclamando do governo se a comida de um restaurante não me apraz. Simplesmente não apareço mais lá. Verdade que me habituei com São Paulo, onde a oferta de restaurantes é virtualmente ilimitada. Assim como a de padarias. Não há e não haverá uma cidade como São Paulo quando o assunto são as padarias. Mas alguém poderá perguntar: e se a padaria ou o restaurante lhe venderem comida estragada? Aí eu entro na Justiça em busca dos meus direitos. Bem, talvez a mudança contemporânea na esfera da informação consista exatamente nisso: passamos a ter acesso a uma quantidade de fontes informativas comparável ao contingente das padarias paulistanas. Tempos atrás, havia meia dúzia de restaurantes e padarias a que um indivíduo podia recorrer para comer notícias. Hoje são milhares. É um velho chavão da Internet, mas a verdade é que o seu concorrente passou a estar apenas a um clique de distância do seu cliente. É por isso que eu acho: mais eficaz do que ficar discutindo se a mídia agiu bem ou mal em determinada situação é ajudar na multiplicação das fontes de notícias, análises e comentários. Na eleição deste ano, por exemplo, a maior parte dos grandes veículos engajaram-se num movimento para tentar impedir a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. Esse era o cardápio. Atraiu alguma freguesia, é verdade, mas o objetivo não foi atingido. E daí? Vamos ficar agora discutindo o menu de um restaurante que não emplacou? Eu não. Vou cuidar do meu boteco, em vez de ficar insistindo para visitar a cozinha do restaurante alheio. Jornais, revistas, rádios e tevês são na sua maioria empreendimentos privados. Eles vão sempre fazer o que os seus proprietários acharem que deve ser feito. Vocês querem debater as orientações editoriais da Radiobrás? Eu topo. Mas desconfio que ninguém vai querer. Ao que me recuso é ser colhido na armadilha totalizante de "discutir a mídia como instituição da sociedade". Se fosse da "sociedade", os dirigentes dos veículos seriam escolhidos pelo voto, ou por concurso público. Em miúdos, não dou muito palpite no que os outros devem fazer porque não quero que eles se metam a dizer o que eu devo ou não ecrever aqui no Blog do Alon. Parece-lhe ridículo e pretensioso? Lamento.

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21 Comentários:

Anonymous Alberto disse...

Ridículo, não. Pretencioso, talvez. Revelador, com certeza!

domingo, 5 de novembro de 2006 22:11:00 BRST  
Blogger Cid disse...

Alon

Sou freqüentador assíduo de seu blog, e os blogs são para as pessoas comentarem ou "meterem o bedelho". É assim que se dá este grande fórum virtual, fórum democrático que, já já, vai encontrar seu ponto de equilíbrio, passado o porre inicial (a gente sempre se lambuza com as novidades).
Portanto, embora a mídia não seja uma instituição da sociedade - é tão-somente um instrumento poderoso de seus proprietários e dos interesses que representa -, sua ação afeta a todos nós. Reagir a ela é o grande barato da blogosfera; as últimas semanas que o digam.

cid cancer
mogi das cruzes -sp

domingo, 5 de novembro de 2006 23:16:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Concordo com a frase do Alberto.

Sim. Quanto ao boteco, eu digo que o que se serve aqui é "comida" e "bebida" honesta.

domingo, 5 de novembro de 2006 23:58:00 BRST  
Anonymous Marcus disse...

Concordo com você. Mas, perceba, quando eu, no meu blog, falo sobre as manipulações da imprensa, eu também estou produzindo conteúdo, e tentando convencer os leitores a fazerem uma análise crítica.

Eu não vou deixar de ler a Folha de S. Paulo ou o Globo, até porque têm bom conteúdo independentemente das manipulações, mas vou ler sempre criticamente.

Não vou ser chato de querer "discutir a mídia", mas apenas mostrar as impropriedades. Sou radicalmente a favor da liberdade de imprensa e contrário a qualquer censura.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006 02:07:00 BRST  
Anonymous Beto disse...

Alon, vc foi infeliz na analogia. Não se visita cozinha de restaurante para fiscalizá-la, mas por curiosidade, para conhecê-la, ver como os chefs trabalham, as especiarias que usam, etc. Como nos bons tempos em q os pilotos de avião ainda podiam convidar os passageiros para visitar a cabina (eu já visitei uma!).

segunda-feira, 6 de novembro de 2006 07:17:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

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segunda-feira, 6 de novembro de 2006 09:34:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

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segunda-feira, 6 de novembro de 2006 09:47:00 BRST  
Anonymous Richard disse...

Fica chateado não Alon... aliás, como está a sua classificação nos Melhores Blogs do Ano?!?!1

segunda-feira, 6 de novembro de 2006 12:16:00 BRST  
Anonymous Lísias Freire disse...

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segunda-feira, 6 de novembro de 2006 12:18:00 BRST  
Anonymous Rubens disse...

Eu estou de acordo com esse post.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006 12:25:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Chateado? Eu? De jeito nenhum. Estou em nono lugar entre os dez no voto popular. E agradeço a todos os que votaram ou pretendem votar em mim. Além do mais, o voto popular não é o que vale, mas sim o dos juízes.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006 12:33:00 BRST  
Anonymous José Augusto disse...

Alon, você foi perfeito no post quando utilizamos a parte civilizada do cérebro, e escolhemos para ler aqueles que nos agradam pela semelhança.
Apenas acrescento que o ser humano tem também seus sentimentos primitivos que muitas vezes precisam ser saciados, desde o desabafo, passando pelo desafio semelhante ao duelamento, chegando até mesmo à vingança. Por isso muitos leitores tem enorme prazer em ler seus desafetos, simplesmente para contestar, para desconstruir idéias oponentes.
A via de mão dupla criada pela internet que permite o rebate online pelo leitor, no final das contas, tornou tudo bem mais divertido para o leitor, ainda que mais sacrificante aos profissionais de jornalismo.
Empresas de mídia que atendem à massas (e não a nichos especializados), saberão ouvir seus clientes e entender que quando a quantidade de críticas e reclamações deixam de ser exceção, é porque não estão escrevendo para o público alvo, ou não estão sabendo comunicar o que escrevem. Adaptar-se-ão ou encolherão.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006 13:13:00 BRST  
Blogger André Lux disse...

Alon, entendo e respeito seu ponto de vista. O problema é que a análise do papel da mídia corporativa na cobertura das eleições não se restringe apenas em criticar essa ou aquela postura mais à direita (que, convenhamos, deu o tom à cobertura e às bravatas dos "formadores de opinião"). Ela vai mais além, pois tudo isso está intimamente ligado ao futuro da nossa democracia.

Por quê? Explico: a mídia corporativa é a primeira a espernear e esbravejar quando alguém vêm à público tentar discutir formas de democratizar a comunicação no Brasil ou regulamentar a profissão do jornalismo. E para melar essa discussão ela não poupa esforços, ofende os interlocutores, chama-os de "ditadores" e denigre as propostas apresentadas! Já vimos esse filme várias vezes. Isso é muito grave e, infelizmente, é uma realidade que tem paralelo direto com a manipulação das notícias.

Não tem como separar uma coisa da outra. Enquanto esse oligopólio que foi construído a partir de concessões públicas (!) não for questionado, enfrentado e demolido, não existirá democracia plena no Brasil, muito menos justiça e liberdade (verdadeira) de imprensa.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006 14:22:00 BRST  
Anonymous Antonio disse...

Desculpe!

Deixar pra lá a patifaria do Jornal Nacional em não noticiar o acidente da Gol para evidenciar na passarela do jornal as fotos? Até a Band noticiou fartamente o fato antes do JN, como deixar isto num forno de padaria? Não é uma concessão publica? Em tese você esta absolutamente certo (o que não faz uma boa tese, um belo texto simples e objetivo!), mas o grande jornalismo afeta e muito a vida nacional, vide o histerismo, ódio e preconceito causado pela grande mídia, não da para deixar de lado! O preço do boteco pode subir a vontade, mas o do supermercado afeta o cidadão. Nada melhor do que um boteco para discutir o preço do supermercado e a vida da vizinha gostosa!

segunda-feira, 6 de novembro de 2006 15:20:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

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segunda-feira, 6 de novembro de 2006 17:03:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

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segunda-feira, 6 de novembro de 2006 17:48:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

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segunda-feira, 6 de novembro de 2006 18:46:00 BRST  
Anonymous Rodrigo disse...

Alon, que se uma determinada publicação não me agrade e eu decida trocar por outra, tudo bem, mas como fazer para criar outras opções se até com subsídios estas grandes empresas contam?

segunda-feira, 6 de novembro de 2006 23:12:00 BRST  
Blogger Peter disse...

Concordo com você, deixe os organismos oficiais fiscalizarem as cozinhas. E a imprensa também.
Se criaram orgãos específicos para fiscalizar cozinhas é por que tinha muita sujeira am algumas. O mesmoi deve ser feito para a imprensa, deixem um organismo oficial fiscalizar e ponto. Se tiver sujeira que seja punido.

terça-feira, 7 de novembro de 2006 01:10:00 BRST  
Blogger alberto099 disse...

Acredito que nessa discussão da imprensa costumamos misturar duas ordens de questões, o que cria falsas questões que se arrastam interminavelmente. De um lado há a questão individual do consumidor de notícias. Como “nenhum homem é uma ilha”, a imprensa, para quem freqüenta a imprensa, é fundamental para formar opinião. Não tanto a opinião dos jornais ou colunistas, mas a convicção básica sobre o que é fato e o que é especulação com maior ou menor fundamento. Aí é que o bicho pega: não se trata da opinião de fulano ou sicrano, mas de perceber que o fato está sendo manipulado: é o título que diz uma coisa não sustentada pela matéria ou a própria matéria que junta fatos e especulações e trata como se fossem a mesma coisa. Eu, particularmente, quase surtei: se você detecta manipulação de um lado corre para outro, mas se a encontra em toda parte tem que enfrentar a questão: devo estar errado, não? Devo ser muito mais ingênuo que a média, não? Só eu não consigo ver? Para essa ordem de questões a solução, quando possível, é a do Alon deixe essas fontes de lado. Foi o que fiz mesmo antes de conhecer este blog: hoje basicamente me informo nos sites de agencias estrangeiras como a BBC e Reuters que dão cobertura do essencial que se passa aqui (de passagem percebi que antes perdia muito tempo com muita bobagem) e em português mas o que faria se não houvesse a internet? A outra ordem de questões é mais grave. Quando percebo que a imprensa quase toda se partidarizou vejo que a sociedade em que vivo não é aquela que eu imaginava e isso a princípio me assusta. Pior, a imprensa mesmo sofrendo a “fiscalização” imposta pela concorrência do mercado não pode ser equiparada aos restaurantes e padarias. Não gostaríamos de ver um grupo de burocratas fiscalizando a veracidade do que é publicado, não é?

terça-feira, 7 de novembro de 2006 08:14:00 BRST  
Anonymous Manthonioz disse...

Concordo plenamente,mas acho que seria mas um jeito de tirar nosso dinheiro,como tantos outros orgãos de fiscalizações,que já não servem mais para nada.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009 10:04:00 BRST  

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