sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Esboço inicial de plataforma para os próximos três anos (03/11)

Devo confessar a vocês que me sinto como aqueles soldados que voltam da guerra e têm enormes dificuldades na readaptação à vida normal. A eleição acabou e é quase desesperador perceber que os assuntos a tratar serão os mesmos de sempre. Hoje sei que Deus foi generoso no Egito Antigo com o faraó, ao alternar sete anos de abundância com sete de escassez (clique na imagem para ampliar o afresco do oitocentista Peter von Cornelius, em que José interpreta o sonho do faraó). No meu caso, foi um ano de abundância para três que prometem ser de escassez. Você sabe que neste blog escândalos são tratados apenas tangencialmente. Nada contra, mas não é a nossa especialidade jornalística. E qual seria então o nosso foco? Um amigo definiu bem, alguns dias atrás: "essa política sobre a qual você escreve não existe; essa coisa orgânica, programática, não é real". Mas meu amigo e os demais que pensam como ele devem perder a esperança de me fazer desistir. Ao contrário. Resistirei! Vejam, por exemplo, esse debate sobre a macroeconomia. Toda vez que alguém relevante disser que é necessário mudar a política econômica, desmontar a "armadilha juros-câmbio", este blog perguntará imediatamente o que vai acontecer com a inflação. Ou com a dívida pública. Até que um dia alguém tome coragem e diga abertamente que o país precisa aceitar mais inflação para crescer mais. Ou que uma alternativa é aumentar o déficit público. Ou que provem que eu estou completamente equivocado, que é possível baixar rapidamente os juros sem pressionar a inflação, mesmo mantendo inalteradas as políticas fiscal e cambial. Aliás, fica aqui uma promessa: quando alguém conseguir demonstrar essa última tese, aderirei imediatamente às hostes desenvolvimentistas e passarei a fazer campanha (jornalística) sistemática pela deposição de toda a diretoria do Banco Central. Outro assunto a que me dedicarei é a política de alianças do governo Luiz Inácio Lula da Silva e do PT. Aqui você não lerá que a oposição precisa ser patriótica e ajudar o governo a aprovar os seus projetos. Ao contrário. Toda vez que alguém relevante falar em pacto, concertação ou entendimento, estarei a postos para lembrar que uma oposição verdadeiramente patriótica é a que faz o seu trabalho de oposição na modalidade 24 x 7 x 365, como os melhores call-centers. Toda vez que a lenga-lenga concertacionista voltar ao noticiário, alertarei que essa conversa costuma aparecer sempre que o PT é confrontado com a necessidade de ceder espaços políticos aos aliados para formar uma base sólida de apoio ao governo no Congresso. Outro tema que merecerá um investimento de tempo serão os programas sociais. Continuarei aqui militando nas fileiras dos que consideram absolutamente irrelevante exigir contrapartidas das famílias que recebem complementação de renda do Estado. Defenderei sempre, por exemplo, que o trabalho infantil é ilegal, e que assim deve ser tratado. Mas manterei vivo o desafio de perguntar aos "contrapartideiros": vocês acham que o governo deve cortar a ajuda às famílias cujas crianças trabalham? Essa é a maneira de combater o trabalho infantil? Afundar os pais ainda mais na miséria? Sobre esse assunto, aliás, você sabe o que eu penso: ninguém é idiota por ser pobre. De vez em quando tratarei também da imprensa. Como não tenho graduação por nenhuma faculdade de engenharia de obras feitas (até porque não tenho graduação nenhuma), resistirei a julgar o trabalho alheio e lembrarei sempre que a democracia não existe sem a absoluta liberdade de imprensa. E que a democratização da comunicação é uma função matemática com fortes traços de linearidade: quanto mais veículos, mais democracia. Para os mais exaltados, defenderei que a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva foi uma das demonstrações mais cabais de que a liberdade de informar convive bem com a soberania política do eleitor, mesmo nas situações mais extremas. Que mais? Ah, sim, aqui a Política será defendida com unhas e dentes. Persistirei na luta em defesa da prerrogativa de o Congresso Nacional emendar a proposta orçamentária do Executivo, e lembrarei que o Legislativo nasceu exatamente para isso. Nessas ocasiões, argumentarei que, do contrário, melhor seria voltar aos tempos da monarquia absoluta, em vez de eleger um ditador a cada quatro anos. Cerrarei fileiras com os que consideram absolutamente legítimo os partidos reivindicarem cargos e espaço político para apoiarem o governo, e que a toda acusação de fisiologismo corresponde alguém que não quer largar do osso, alguém que se esconde atrás de um biombo "ético" para manter sua posição de poder. Criticarei sempre um certo Darwinismo político que cria o ambiente propício ao suicídio da elite. E ainda dizem que eu sou contra a elite. Desafio qualquer um a apontar alguém que lute mais do que eu para preservá-la e defendê-la. Para concluir (por enquanto), aqui me baterei pelo primado do Estado de Direito. Sempre. Incondicionalmente. Esses são os meus princípios e propósitos. Só lhe peço uma coisa. Você me fará um grande favor se fiscalizar duramente o meu dia-a-dia, para verificar se estou sendo coerente com o que me dispus a fazer.

Clique aqui para ler também Abaixo a coerência, de 17 de agosto deste ano.

O Blog do Alon está entre os finalistas do concurso mundial de blogs The Best of the Blogs.
Se quiser me honrar com seu voto, clique aqui.

Para ver todas as categorias, clique aqui.

Para ver os finalistas em língua portuguesa, clique aqui.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

8 Comentários:

Anonymous José Augusto disse...

Quanto à escassez de assuntos novos, se estiver aberto à sugestões, tenho algumas. Vou sugerir a primeira agora:
Educação: O governo a elege como prioridade do segundo mandato, junto ao crescimento com distribuição de renda e estabilidde. Seria interessante um post sobre a evolução do orçamento para 2007 em relação aos anos anterioes. Vi no site do Senado, mas destrinchá-lo exatamente o que são recursos para o que (ensino fundamental, médio e universitário) não está tão claro quanto deveria (você, Alon, além se bom em analisar números, como mostrou nos casos das pesquisas, deve ter acesso a boas fontes que podem lhe passar dados). Também não sei em que ano o FUNDEB entrará em vigor, e onde o Congresso pode atrasá-lo, ainda, pois parece haver um pendência na Câmara. Um post sobre tudo isso poderia ser bastante esclarecedor sobre a qualidade dos gastos de nossos impostos, e o real compromisso com a educação do governo Lula.
Tenho a tese de que a melhor época para o cidadão fazer política (cobrar de seus representantes) é fora do período eleitoral. E seria bom estarmos bem informados do andamento das políticas públicas propagadas na campanha eleitoral, e não aguardarmos apenas prestação de contas daqui a 4 anos.
No mais, só posso congratulá-lo com sua "plataforma de governo do blog", pois suas idéias, dúvidas e exigências sobre os temas abordados neste post são aquelas que também tenho.

sábado, 4 de novembro de 2006 01:12:00 BRT  
Blogger Imprensa disse...

Boa Alon, boa!

sábado, 4 de novembro de 2006 10:50:00 BRT  
Anonymous Ricardo Melo disse...

Olá Alon. Você foi informado de que a meta de inflação que norteia as ações do BC é designada por homens liderados pelo presidente.
Tudo certo. Mas é importante lembrar que, ao contrário do BC dos EUA, por exemplo, o nosso BC só se preocupa com meta de inflação. O BC dos EUA é menos "bitolado" que o nosso, as suas ações visam não somente ao controle da inflação, mas também coisas como: nível de emprego e crescimento econômico.
O que está ocorrendo no Brasil é que a perseguição unicamente do controle inflacionário pelo BC, desconsiderando outros aspectos tão importantes quanto, incorre em uma certa “neurotização” da economia.
Seria importante que o BC do Brasil levasse em conta que existem no país inúmeras condições que permitem uma aceleração do PIB, sem impactar na taxa inflacionária, como é o caso, por exemplo, da existência de alto desemprego e a existência de grande capacidade ociosa nas empresas. Mas o nosso BC não se preocupa com esses “detalhes”.
Ou seja, em um primeiro momento em que se poderia acelerar a queda dos juros, as empresas não necessitariam imediatamente de dispor de investimentos para aumentar a produção, bastaria aumentar os turnos ou absorver mão-de-obra (barata ainda).
É isso, ao não contar com uma visão mais completa (alguns diriam até "holística") da realidade econômica, o BC torna o país refém de uma obsessão, de um “perigo” e de um dilema (crescimento ou controle inflacionário) que, na verdade é irreal.
É lógico, não estou advogando aqui uma "paulada" nos juros. Nem oito nem oitenta. Mas dá para fazer tudo com responsabilidade, prevendo até mesmo um forte aumento nas taxas de investimento para suprir as necessidades da economia no ponto em que taxas de desemprego e de ociosidade chegassem ao seu limite.
Outra coisa a levar em conta é que a Economia não se resume somente a números, a política também é um forte componente. E a adoção de uma postura desenvolvimentista, que faça a sociedade crer que existe uma oportunidade real de crescimento, é capaz de fazer o empresário querer participar desse crescimento, induzindo-o a “tirar o dinheiro do banco” e colocá-lo na expansão das atividades.
Com tudo isso, quero apenas demonstrar que, de acordo com Luís Nassif, o crescimento econômico é também um estado de espírito. E, embora também me considere cartesiano, sou obrigado a considerar que a Economia, assim como o resto da vida, não são apenas regidas pelas leis da racionalidade.
Compreendo a sua preocupação com o controle inflacionário, ela procede. Mas o país precisa encontrar um pouco de coragem para se ver livre até mesmo de seus traumas econômicos. Se não crescermos, vamos continuar a ter cada vez mais medo até de andar pelas ruas...
Alon, existem diversas opiniões disponíveis no mercado. Mas a grande maioria delas, infelizmente, está ligada à visão do mercado financeiro.
No caso do Brasil, se quisermos propor um projeto de desenvolvimento que integre as levas de pessoas que chegam ao mercado de trabalho todos os dias, teremos de ousar sair do pensamento dominante, do discurso único, que tanto calca num falso dilema. Dá sim para crescer com responsabilidade.
Só que, neste exato momento, a diretoria do BC, aquela que decide a taxa de juro que vai perseguir a meta do CMN, tem uma visão simplista e até neurótica da economia. E isso não vai levar a nada. Mas já andaram me contando que parte dessa diretoria vai ver expirada a sua "data de vencimento" no próximo ano.
E é sempre bom lembrar um dado que a “opinião dominante” sempre omite: taxa de juro exagerada aumenta exageradamente a dívida pública, e dívida pública em crescimento é um dado que tira a confiança dos investidores. Assim, manter o juro nas alturas incorre em um círculo vicioso, é o cachorro perseguindo o próprio rabo.
Os financistas afirmam, por exemplo, que a questão em aberto do rombo da previdência impede a retomada do crescimento. Mas, esses mesmos financistas, “esquecem” que um desenvolvimento mais acelerado resultaria na incorporação de milhões de pessoas no sistema previdenciário, resolvendo em parte o problema do rombo do sistema.
E, ainda sobre a questão da previdência, o Mercado financeiro continua afirmando que o sistema precisa de uma nova reforma, mas também se esquece de que a Reforma da Previdência feita no governo Lula ainda não foi implementada pelo Congresso. Ou seja, advogam uma reforma, fazendo alarde sobre o rombo no sistema, sem colocar em prática o que foi aprovado recentemente. É isso, tudo vale como desculpa para dizer que não é possível crescer mais agora.
Por outro lado, tirando a nossa elevada dívida pública (causada em parte pelo exagero nos juros), as condições existentes agora, alcançadas inclusive com o mérito da administração Palocci/Meirelles (inflação controlada), permitem dizer que existe sim um ambiente propício para o crescimento.
Acredito que o presidente Lula tem esse objetivo. Agora, o detalhe fundamental nessa condução da questão do juro é o ritmo. Qual vai ser o ritmo de rebaixamento do juro que será, ao mesmo tempo, responsável e indutor das taxas de crescimento que o nosso país precisa e merece obter? Essa é que vai ser a questão mais importante. E é claro, não sou eu que vou responder a uma questão dessas.
Mas, de acordo com o que tenho lido, como o pessoal do BC só se preocupa com a inflação, deixa de ver outros aspectos e, por isso mesmo, essa “diretoria” deverá ter uma postura tão conservadora a ponto de errar na sua análise. Outros dirão que não se trata de “conservadorismo”, mas sim de uma questão de comprometimento com os interesses do Mercado financeiro. Isso é verdade? Não sei, mas também não duvido.
Mas é quase certo que esse conservadorismo desperdice uma conjuntura interna e externa muito favorável ao crescimento. Para muitos, o desperdício de oportunidades já aconteceu no primeiro mandato. Estou entre aqueles que acham que não poderemos ficar estáticos no segundo mandato.
Embora eu não seja economista, e vendo que você também gosta dessa área, recomendo que experimente algumas leituras muito "arejadas", como é o caso de economistas como o Luís Nassif e o Paulo Nogueira Batista Jr.
Tenha certeza de que eles não afetarão o seu cartesianismo. Muito pelo contrário, a leitura de caras como esses (o Nassif tem até blog)poderá provar a você algumas coisas que eu não posso fazer. Quero frisar que citar o Nassif aqui não tem nada de provocação, até votei no seu blog.
Um abraço, e deixe de fechar com o pessoal do BC, eles não precisam disso e, aparentemente, não estão nem aí como você e com o mundo.

sábado, 4 de novembro de 2006 11:12:00 BRT  
Anonymous arkx disse...

desde 1999, quando se adotou o modelo de metas de inflação, registrou-se uma queda da renda do trabalho acumulando perda superior a 40%.

a política de juros altos não é necessariamente para combater a inflação, e sim para evitar o risco de fuga de capitais.

inflação alta: salários corrigidos eventualmente; saldos de receitas sobre despesas das empresas é corrigido diariamente por aplicações no mercado financeiro; parte dos salários é paga com receita financeira das empresas, inflada pelos juros; todo o peso da inflação recai sobre os assalariados, enquanto os detentores do capital são protegidos, ao menos parcialmente, pelas aplicações no mercado financeiro.

taxa de juros alta - situação atual: com o aumento da taxa básica real de juros, os detentores de saldos de caixa passaram a ganhar exponencialmente com a moeda financeira (aplicações diárias no mercado), enquanto o resto da sociedade deve se contentar com a moeda comum (dinheiro no bolso), que, embora não sofra corrosão inflacionária, não rende juros; o processo de transferência de renda continua, com a expropriação mascarada pelas relações fiscais, difíceis de serem percebidas.

sábado, 4 de novembro de 2006 13:15:00 BRT  
Anonymous Ruy Acquaviva Carrano Junior disse...

Alon, Seu blog é muito bom, voccê escreve muito bem. Um blog é um espaço para o autor escrever o que quiser e como quiser. Assim sendo é normal e natural que você faça em seu blog a campanha que quiser e da forma que quiser... Só não ententí o conceito de "campanha jornalística". Que eu saiba, o jornalismo é para informar e não para fazer campanha, nem para impor uma idéia. Será que eu estou enganado? Ou será que você está querendo dizer que é uma campanha feita por um jornalista (mas fora do âmbito do jornalismo, por ser uma campanha)? Acho que o jornalista deve se posicionar quanto a suas convicções. É inclusive a atitude correta, para nãoi enganar o leitor com uma pseudo-isenção. Acho também que a escolha da pauta, a abordagem dos temas e a análise do jornalista sofre influência de suas convicções e é bom que isso seja explicitado. Até aí nada de errado. Mas "campanha jornalística" continua me parecendo um conceito paradoxal. Pois a função do jornalismo não é fazer campanha, no sentido de que campanha é a propaganda de uma idéia específica e o jornalismo é a divulgação dos fatos em geral. Estarei equivocado???

sábado, 4 de novembro de 2006 16:10:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Ruy, foi uma ironia. De vez em quando os veículos jornalísticos entram em ritmo de campanha. Isso não é teórico, é empírico. O caso do BC é um exemplo. Dizer seguidamente que o BC é consevador sem lembrar que quem determina a meta de inflação é o CMN (ou seja, o presidente) me parece mais campanha do que jornalismo. Mas obrigado pelo reparo. Em teoria você tem 100% de razão.

sábado, 4 de novembro de 2006 17:33:00 BRT  
Blogger Luca Sarmento disse...

Alon, Sua tautologia que qualquer mudança implicaria em mais inflação ou endividamento maior, pode ser uma simplificação exagerada.
A análise macroeconômica que fundamenta seus argumentos não considera algumas variáveis fundamentais: Do lado endógeno da economia, pode ocorrer ganho tecnológico ou de produtividade que mude o equilíbrio atual. Por exemplo ganhos importantes de produtividade agrícola ou da matriz energética; Do lado exógeno, uma recessão ou expansão da economia mundial poderia criar um quadro mais ou menos adverso, mesmo que nada mudasse na atual política econômica atual.
Nos anos 70, grandes economistas faziam prognósticos semelhantes ao seu, analisando as conseqüências do aumento do preço do petróleo na economia Americana. A realidade foi outra pois nenhum deles previu o impacto econômico das novas tecnologias de empresas que se instalaram principalmente no Vale do Silício, Califórnia.

sábado, 4 de novembro de 2006 19:02:00 BRT  
Anonymous Diógenes disse...

A sua promessa de coerência, depois do post de 17 de agosto, reforça a desimportância que vc. credita à dita cuja. Eu chamaria a isso de "Aporia de Feuerwerker".

domingo, 5 de novembro de 2006 07:37:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home