sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Equívocos eclesiásticos e a dívida com Pombal (17/11)

Como não sou católico, estou fora da jurisdição espiritual da Igreja. Da jurisdição temporal, então, nem se fala. É bom que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emita de tempos em tempos as suas opiniões. Faz parte do amplo ambiente de liberdades democráticas em nosso país. Mas o bom mesmo é não sermos obrigados a seguir ou adotar as posições da CNBB. Meus agradecimentos renovados ao Marquês de Pombal, cujo retrato ilustra este post (clique para ampliar). Sei que o faço em nome dos milhões que talvez não tenham a coragem de dar a cara para bater, já que o Brasil continua sendo um país "católico". Um país em que a hierarquia obediente (às vezes nem tanto) a Roma insiste em ditar regras para quem nada tem a ver com o que a Igreja acha ou deixa de achar . Duas pérolas do dia provenientes da CNBB. Os bispos criticaram o Bolsa Família, por supostamente "viciar" os pobres e não estimular que busquem emprego. Para o bispo Aldo Pagotto, presidente da Comissão Pastoral para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz, "há pessoas no Nordeste que não querem mais trabalhar, que se contentam com o mínimo [recebido pelo programa]". A informação está em reportagem da Folha Online. Com o respeito que merece o bispo Pagotto, poucas vezes uma autoridade religiosa (ou outra qualquer) proferiu equívoco de tal magnitude. Já escrevi o que penso sobre o assunto em Ninguém é idiota por ser pobre. Caro bispo Pagotto, se o sujeito que recebe o Bolsa Familia rejeita uma oferta de trabalho, não é por ter se transformado num preguiçoso: é porque talvez a remuneração oferecida não lhe agrade. E cidadania é também o direito de não vender a própria força de trabalho se o comprador não chegar a um preço mínimo. Parabéns ao Bolsa Família por dar ao pobre o direito de poder recusar uma proposta de trabalho aviltante. Outra luminosidade do dia foi emitida pelo presidente da CNBB, Geraldo Majella. Também segundo a Folha Online, ele condenou as negociações dos partidos aliados com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva que envolvem cargos em troca de apoio. Disse que a nomeação dos novos ministros não pode ser tratada pelos partidos "como se estivessem dividindo o preço" da eleição de Lula e defendeu que as siglas tenham "coragem" para demonstrar "desprendimento". Estou interessado em saber como Majella sugere que seja formado o governo. Talvez Lula devesse compor um gabinete só com políticos da oposição ou com bispos "desprendidos". Piadas à parte, essa conversa do presidente da CNBB me deixou curioso. Como costuma ser composta a chapa para preencher os cargos na entidade episcopal? Será que na CNBB não há grupos, não há disputas, não há composições e concessões políticas? Ou devemos concluir que o lema dos bispos é o conhecido "faça o que eu digo mas não faça o que eu faço"? Ou o também clássico "casa de ferreiro, espeto de pau"? Dêem-se ao respeito, senhores.

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13 Comentários:

Anonymous Antonio Lyra disse...

A declaração do Bispo Aldo Paggoto, é de uma burrice cavalar. Sem comentários.
Quando a de Geraldo Majjela, acompanhar o clima existente na Igreja Catolica de querer se meter na politica, a criticando, quando o mesmo acontece na escolha dos membros de suas congregações.
Lá se faz politico de cooptação mas não desejam que um governo referendado por voto o faça.
Ainda bem, que estas declarações, não são levadas a sério.

sábado, 18 de novembro de 2006 11:27:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pois é, Alon, quando a igreja católica serve de andaime ao PT, tudo é aceito e perdoado. Também curiosa é essa sua noção de cidadania onde o cidadão tem o direito de se negar a trabalhar pelo salário oferecido e ao mesmo tempo meter a mão no bolso, ainda que indiretamente, dos que pagam impostos trabalhando.

Pedro

sábado, 18 de novembro de 2006 16:54:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, aqui você está equivocado. Trabalho nunca é aviltante, é sempre uma oportunidade, ruim ou boa, uma oportunidade.
Se você tira dinheiro de uns para dar a outros (essencialmente imposto de renda e bolsa familia), sem que nada tenha que dar em troca o recebedor, você cria um impasse moral profundo, prejudicial a ambas partes, mas muito pior para o lado recebedor.
Então, duas esferas, a interior, pessoal e a exterior, política.
Permita-m sugerir um quadrinho ilustrativo.

http://www.users.bigpond.com/anne.foss/compassion.gif

JV

sábado, 18 de novembro de 2006 17:35:00 BRST  
Blogger jose roberto disse...

Boa tarde, Alon, a gente se "trombou" (esse é o termo correto, de minha
parte, não da sua) durante a administração do David, aqui em Santos. Mas
quero falar sobre outra coisa, aliás, quero contar uma coisa.
Recentemente, durante um ato em apoio a Lula no segundo turno aqui na
cidade, Irmã Dolores, uma freira espanhola que faz há décadas um
incansável trabalho de inclusão em várias regiões miséraveis da Baixada
Santista, contou uma historinha interessante, mais ou menos assim:
"Outro dia, chegou lá na minha comunidade uma mulher, que se diz muito
cristã e piedosa, e falou: 'Lembra da Francisca, irmã, aquela nordestina
que bordava, costurava, fazia faxina em várias lugares e ainda cuidava
dos cinco filhos? Então, agora eu vejo ela sempre lá, debaixo daquela
árvore lá na praça, fofocando com as outras mulheres. E sabe de quem é a
culpa, irmã? Desse tal de Bolsa Família, que dá dinheiro pra eles (!!!)
e eles (!!!) não querem mais trabalhar, só ficam lá, fofocando'. Olhei
para aquela mulher tão cristã, tão piedosa, não aguentei, ergui os
braços para o céu e falei: 'GRAÇAS A DEUS, GRAÇAS A DEUS, CHEGOU O DIA
EM QUE UMA POBRE NORDESTINA PODE SENTAR DEBAIXO DE UMA ÁRVORE E FICAR
CONVERSANDO COM AS AMIGAS, SEM PRECISAR SE MATAR DE TRABALHAR QUE NEM UM
ANIMAL!"
Abraços,
José Roberto Fidalgo

sábado, 18 de novembro de 2006 18:10:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon
a PUC-Rio, da Igreja católica, aceita as bolsas do Prouni e as do CNPQ sem reclamar. Até os economistas ultraliberais que lá estão, fizeram doutorado fora com bolsas da Capes.
Os liberais sempre conceituaram pobre como vagabundo potencial (ver o pastor Malthus, por exemplo). E sugeriram casas de correção, como a de Oliver twist, para salvar os indigentes da preguiça crônica. Não houve avanços desde então, e o liberalismo há-de sempre de ter de lidar com este paradoxo - o sistema que mais cria riqueza, a economia de mercado - cria também miséria, a não ser ( e nisso Malthus ultrapassou os liberais porque viu !) que haja mecanismos de compensação. Sem eles, nem o mercado sobrevive. Mas é mais simples dizer vai trabalhar vagabundo, sem entender que de vagabundo em vagabundo, o mercado diminui de tamanho.
abraço
Inês

sábado, 18 de novembro de 2006 18:36:00 BRST  
Anonymous Edmundo Adôrno disse...

Caro Alon, pergunto-lhe, parafraseando Stalin: Quantas ministérios tem o Cardeal Majela?

sábado, 18 de novembro de 2006 19:13:00 BRST  
Anonymous Luiz disse...

Alon,

Não sei se você sabia, mas esse bispo Dom Aldo Pagotto quando era titular da diocese de Sobral-CE, e mesmo antes, quando era um simples padre atuando em Fortaleza, era conhecido por suas estreitas ligações com o PSDB, especialmente com o grupo do Tasso Jereissati.
Chegou a ganhar os apelidos de "tucano de batina" e "bispo tucano".

sábado, 18 de novembro de 2006 19:34:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O trabalho dela vai fazer falta...

JV

sábado, 18 de novembro de 2006 19:52:00 BRST  
Blogger Luca Sarmento disse...

O Brasil não é um país católico. Pelo menos é o que se conclui da leitura de nossa Constituição. Portanto as manifestações políticas da CNBB são da mais absoluta irrelevância. É apenas parte de um cacoete antigo de alguns membros da Igreja que ainda não se conformaram com a separação da Igreja do Estado. Falta a estes religiosos a coragem para fazer política partidária verdadeira, sem se esconder dentro de uma batina.

sábado, 18 de novembro de 2006 21:53:00 BRST  
Anonymous Marcelo Pinto disse...

É por estas e outras que a outrora toda poderosa igreja católica, mingua a olhos vistos em todo o país.Com a isenção de que minha condição de agnóstico me faz crer ter, fica a pergunta:Por que a manutenção dos numerosos feriados católicos, impostos a todos em um país constitucionalmente laico e cada vez menos católico?

domingo, 19 de novembro de 2006 02:49:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Caro Luca

Não é o que parece. Na minha opinião padres deveriam afastar-se da política. Padres respondem primeiro e diretamentem ao Vaticano.

Estarreça-se com o que li no blog do Tambosi:

"É inquietante o relato feito por uma professora da USP que participou do 6º Colóquio do Consórcio Latino-Americano de Liberdade Religiosa, no qual o Brasil foi apresentado 'como juridicamente católico', sendo excluído do rol de Estados laicos. Estaria quase pronta, segundo a pesquisadora, uma concordata entre o Vaticano e o Brasil, com
'repercussões legais, políticas, administrativas, tributárias e financeiras'. Da assinatura desse acordo dependeria, inclusive, a visita do Papa ao país.

Como a concordata é um acordo bilateral, entre governos, é prerrogativa do presidente assiná-lo. Isto significa que corremos o risco de sofrer ingerências por parte de um Estado religioso (o Vaticano), praticamente abolindo a separação entre Estado e religião, sem que a sociedade tenha disso conhecimento prévio e sem qualquer debate parlamentar."

A íntegra do relato da professora pode ser lido no Jornal da Ciência da SBPC

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=42344

domingo, 19 de novembro de 2006 03:34:00 BRST  
Blogger alberto099 disse...

Nosso catolicismo tem sua parte de responsabilidade na formação de uma ideologia particularmente hipócrita como a nossa. A separação entre Igreja e Estado de um lado e os muitos feriados católicos é parte dessa hipocrisia. Já a condenação do bolsa família, pelo fato de consistir em doação, por parte de uma instituição que prega a caridade, é reveladora por sua desfaçatez: esmola sempre que não faça diferença para a miséria de quem recebe. A mesma hipocrisia de quem sempre se disse escandalizado com a miséria do país e hoje reclama de que o Estado dedique recursos não apenas simbólicos com as camadas mais pobres. Quanto à crítica às negociações políticas, é a velha hipocrisia que condena o fisiologismo na política brasileira, que você tantas várias denunciou. Muito apropriada a organizações opacas como a igreja católica, em que todo debate e negociação se dá sem o conhecimento dos fieis, onde erros precisão se avolumar de forma escandalosa para que deixem de ser simplesmente acobertados, como os casos de pedofilia.

domingo, 19 de novembro de 2006 10:22:00 BRST  
Blogger Catellius disse...

amigo, gostei de seu post
escrevi um texto sobre a decadência da arquietura eclesiástica, ligada à perda de poder da igreja católica, e citei 5 exemplos de igrejas abomináveis aqui de brasília
apreciaria muito seu comentário, por talvez conhecê-las
abraços e parabéns pelo texto
também sou fã do marques do pombal por ele ter expulso os jesuítas de portugal
escrevi em meu post Galvão e a Transubstanciação, algum tempo atrás:

"Frei Galvão viveu em uma época ímpar. Seu pai o enviou com a idade de treze anos para o Colégio de Belém, dos jesuítas, na Bahia. Lá ficou de 1752 a 1756. Em 1755 um terremoto de 9 graus na escala Richter arrasou Lisboa, vitimando milhares de portugueses, e derrubou a crença preconizada por Leibniz (e outros) de que vivemos no melhor mundo possível (não em relação aos atos do homem mas em relação à criação divina). O sismo ocorreu na cidade mais beata da Europa justamente no dia de todos os santos, 1º de novembro. O Marquês do Pombal ganhou mais poderes do rei Dom José I para reconstruir a cidade, e aproveitou para acusar os jesuítas de conspirar contra o Estado, expulsando-os de Portugal e de suas colônias. A França, a Espanha e os demais países europeus adotaram a mesma medida, e o próprio Vaticano extinguiu a ordem em 1773. Frei Galvão queria tornar-se jesuíta, mas devido à perseguição movida pelo Marquês, entrou para os franciscanos."

sexta-feira, 23 de março de 2007 18:48:00 BRT  

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