quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Equívocos e um final feliz (01/11)

Alguns equívocos do pronunciamento de ontem do presidente da República. Os trechos do discurso estão em itálico:

Sei que agora, encerrada a disputa eleitoral, o que interessa a todos é a vitória do Brasil. Pois os verdadeiros adversários são a injustiça social, a desigualdade e as várias formas de atraso que atravancam a vida nacional.

Errado. O que interessa ao governo é governar e o que interessa à oposição é fazer oposição. E isso é legítimo. O techo sobre os "verdadeiros adversários" é pura retórica. Nada significa.

Uma votação maciça, como a que tivemos, eu e o meu companheiro José Alencar, dá plena legitimidade ao exercício do poder mas não resolve, num passe de mágica, os problemas nacionais. Volto a afirmar que o nome do meu segundo mandato será desenvolvimento --desenvolvimento com distribuição de renda e educação de qualidade. E é em torno desta proposta, capaz de unir todos os brasileiros e brasileiras, que venho pedir o esforço e o entendimento nacionais.

Duplamente errado. Qualquer votação (e não apenas "uma votação maciça") dá legitimidade a quem a vence. E o fato de Luiz Inácio Lula da Silva querer "desenvolvimento, distribuição de renda e uma educação de qualidade" não implica que todos os brasileiros devam apoiá-lo. Ele será apoiado por quem acha que deve apoiá-lo e sofrerá o combate político de quem acha que deve combatê-lo. As duas atividades são igualmente legítimas na democracia.

Como homem de diálogo que sempre fui, estendo mais uma vez as mãos para o diálogo e a concórdia. Conclamo toda a sociedade, a começar pelas lideranças políticas e movimentos sociais, a unirmos o Brasil em torno de uma agenda comum de temas de interesse geral.

Estar disposto ao diálogo e à concórdia não decorre de uma decisão subjetiva do presidente, mas das atribuições do cargo. O presidente não faz um favor quando se mostra aberto ao diálogo. É sua obrigação.

É um chamamento maduro e sincero feito por um presidente que está saindo de uma vitória expressiva nas urnas, que conta com o apoio majoritário dos governadores eleitos e que terá uma base sólida no Congresso Nacional. Mas já tem experiência suficiente para saber que para fazer as coisas com a velocidade que o Brasil necessita é preciso contar com o empenho e a boa vontade de amplos setores da vida nacional.

Ou seja, se as coisas não acontecerem "com a velocidade que o Brasil necessita" será porque o presidente não contou com "o empenho e a boa vontade de amplos setores da vida nacional". É uma inversão de atribuições. É o governo quem tem a obrigação de formar uma base política no Congresso e aprovar suas propostas. Não deve transferir essa responsabilidade para a oposição ou para a sociedade em geral.

É necessário, igualmente, criar um clima de profunda responsabilidade republicana para a discussão e votação de reformas importantes, a começar pela Reforma Política.

Errado. Quem votar contra o governo não o fará por "irresponsabilidade republicana", mas por discordar do governo e fazer oposição a ele.

Alguns afirmavam que a disputa presidencial iria dividir o Brasil em dois --e isso não ocorreu.

Errado. O Brasil está mesmo dividido politicamente. E daí? A vida segue, quem ganhou governa e quem perdeu faz oposição. Mas o final é bom:

Minhas amigas e meus amigos: quero continuar fazendo um governo que conjugue uma política econômica correta e uma forte sensibilidade social, com uma gestão administrativa eficiente e um comando político acertado. Um governo que continue a diminuir as desigualdades entre pessoas e regiões. Um governo que aprofunde, ainda mais, a inserção soberana do Brasil no mundo. Temos tudo, a partir de agora, para crescer mais rápido e ampliar nossas políticas sociais. Temos tudo para aumentar o emprego, melhorar a educação, a saúde e a segurança. Mas vamos fazer isso com grande responsabilidade na área fiscal e controle da inflação. Só assim vamos entrar, definitivamente, na rota do crescimento de longo prazo. Só assim vamos continuar crescendo, gerando empregos e distribuindo renda. Só assim vamos fazer do Brasil a nação livre e justa que nós todos sonhamos. Muito obrigado.

Torço para que o senhor consiga, presidente. Boa sorte.

Clique aqui para ler a íntegra do discurso presidencial
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4 Comentários:

Blogger Paulo disse...

Estes discursos de agradecimento depois de eleição são sempre assim, independente de partido, ideologia ou número de votos: "vamos fazer isto e aquilo", "a oposição precisa nos ajudar", "quem está contra mim está contra a maioria" etc.

Só um reparo.

Lula diz: "É necessário, igualmente, criar um clima de profunda responsabilidade republicana para a discussão e votação de reformas importantes, a começar pela Reforma Política."

Você diz: "Errado. Quem votar contra o governo não o fará por "irresponsabilidade republicana", mas por discordar do governo e fazer oposição a ele."

Errado. Você não pode transformar "discussão e votação" em "aprovação automática" como faz. Neste trecho Lula pede apenas que os projetos sejam discutidos e votados, não que sejam necessariamente aprovados. É pedir muito?

quarta-feira, 1 de novembro de 2006 14:25:00 BRT  
Blogger alberto099 disse...

Caro Alon,

Permita-me discordar ponto por ponto: 1) o fato de interessar à oposição fazer oposição não implica que não possam haver objetivos comuns; 2) no segundo trecho o significado é de que a legitimidade por sí não resolve os problemas que o país enfrenta, o presidente também não coage ninguém a apoia-lo, ele pede; 3) estar disposto ao diálogo decorre sim de uma decisão subjetiva do presidente, ele não necessita de apoio do congresso para exercer seu mandato (exceto em caso de processo de impedimento), e pode em tese sobreviver a aos quatro anos com um congresso travado; 4) as coisas podem não acontecerem na “velocidade que o Brasil necessita” também porque o presidente não foi competente, mesmo contando com amplos apoios; 5) quanto à responsabilidade republicana faço minhas as palavras do primeiro comentarista deste post e 6) a divisão do Brasil que se expressou nessas eleições não é uma divisão nova, apenas mostrou-se com maior clareza, e não não produziu maiores baixas (acho que um dedo decepado no Leblon e uns jornalistas sob mastros de bandeiras em Brasília). Mas tudo isso é para dizer que a forma “estranha” como o presidente busca a oposição decorre de problemas do nosso sistema democrático que a muito estão diagnosticados: o sistema permite a formação rápida de uma oposição capaz de travar o governo, como o PT já fez e como a atual oposição fez a partir do escandalo dos Correios. Acredito que a questão central é a fidelidade, amarrando políticos a partidos e partidos a seus políticos, é um objetivo extrememente difícil e seu atinjimento justificaria toda uma gestão. Não estamos aqui falando unicamente do funcionamento do congresso, mas da capacidade de o governo recuperar a liderança da máquina pública e de o país voltar a crescer.

quarta-feira, 1 de novembro de 2006 17:21:00 BRT  
Anonymous Richard disse...

Voltando ao "democrático" Lula. Para um cara tão assim, vc pescou os principais "erros".
Engraçado Lula começar pela reforma política... todo mundo falando de previdência, trabalho, tributos e o cara quer discutir a forma dos partidos agirem! Vcs não notaram não?!!?

sexta-feira, 3 de novembro de 2006 12:07:00 BRT  
Anonymous Richard disse...

Outra coisa: o Brasil já perdeu. Perdeu o bonde da história pois ainda não tem o principal de toda a nação organizada - um Projeto.
As lindas palavras de Lula são apenas o reflexo do que todos nós queremos e desejamos desde muitos anos atrás... novidade seria ele dizer como, mas esta responsabilidade ele condicionou a oposição, certo Alon?!

sexta-feira, 3 de novembro de 2006 12:15:00 BRT  

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