sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Verdades e Mentiras (06/10)

A campanha de Geraldo Alckmin tirou o dia hoje para se defender dos ataques adversários. Esclareceu que o tucano, se eleito, não vai cortar no Bolsa Família. Não vai privatizar a Petrobrás, nem o Banco do Brasil e nem a Caixa Econômica Federal. E não vai demitir funcionários públicos. Já o PT e Luiz Inácio Lula da Silva insistem que tudo isso vai acontecer se Alckmin chegar ao Palácio do Planalto. A estratégia do presidente é simples. Lula quase ganhou no primeiro turno. Os votos que não foram nem Lula nem Alckmin destinaram-se a dois candidatos de esquerda. Reforçar a tese de que Alckmin é de direita ajuda a evitar a formação de um bloco eleitoral anti-Lula. Como Lula ficou na frente de Alckmin no primeiro turno quase o mesmo tanto que a soma dos demais candidatos, se os eleitores de Heloísa Helena e Cristovam Buarque não correrem para um único lado (o tucano), Lula estará com a mão na taça. Os alckministas reclamam e dizem que Lula mente. Garantem que Alckmin não vai fazer nada disso. E daí? Pode não ser mesmo verdade, mas é verossímil. Infelizmente para a oposição. Pois a política trata muito mais da verossimilhança [Houaiss: ligação, nexo ou harmonia entre fatos, idéias etc. numa obra literária, ainda que os elementos imaginosos ou fantásticos sejam determinantes no texto] do que da verdade. Interessado na busca da verdade? Inscreva-se numa faculdade de Filosofia ou dedique-se a uma carreira científica qualquer. Se você escolheu a política, saiba que ela lida principalmente com símbolos e aproximações. Quer um exemplo? Se Lula tivesse acusado Alckmin de querer desapropriar fazendas produtivas -ou mesmo de planejar aumentar os índices mínimos de produtividade das propriedades rurais não passíveis de desapropriação para fins de reforma agrária- ninguém daria bola. Está na cara que coisas assim nada têm a ver com Alckmin (têm a ver com Lula). Ninguém vai gastar um mísero minuto para refletir sobre a possibilidade de um eventual governo tucano implantar uma reforma agrária radical. Entretanto, quando se fala em privatizar e cortar gastos correntes, isso tem a ver com a imagem que o PSDB construiu para si próprio. Como Alckmin não disse até agora onde vai cortar os gastos de custeio para -como prometeu- aumentar os investimentos públicos, cada um tem o direito de achar o que quiser. Até porque o tucano já garantiu que não vai aumentar a carga tributária. Como Alckmin foi um dos responsáveis pela privatização no governo paulista de Mário Covas, é legítimo que o eleitor se pergunte quais os planos dele nessa área. Como ninguém sabe, os adversários aproveitam e dizem o que mais lhes convêm. São os ônus da esperteza. É como se diz em Minas: esperteza quando é muita vira bicho e come o dono. Já tratei desse assunto em Darwin, a orfandade da agenda liberal e o "lamarckismo" da oposição. Vamos esperar pelos próximos lances. Ah, sim, ia esquecendo. Durante meses, intelectuais identificados com o PSDB chamaram o Bolsa Família de esmola. Num paralelismo com o "mensalão", falaram até em "esmolão". Pariram Matheus? Embalem-no. E o título deste post? Tem a ver com Orson Welles e seu último grande filme, F for Fake (clique na imagem para ampliar a capinha do DVD). Blog também é cultura.

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9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

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sexta-feira, 6 de outubro de 2006 23:35:00 BRT  
Anonymous Cesar Cardoso disse...

Passarinho que come pedra sabe o traseiro que tem. Imagino que a "assessoria" do Geraldinho não deva conhecer esse ditado popular (povo, argh, devem dizer eles), porque a impressão que me passa é que não mediram riscos quando montaram a estratégia.

Será que ninguém esperava no QG tucano-pefelê que o Lula fosse pegar o gancho de algumas coisas que não significam nada que o Alckmin andou dizendo e transformar em munição? Que amadorismo... nem a "inteligência" do PT faria melhor.

Ah sim. A "assessoria" do Geraldinho deixou FHC escapar. Quando FHC fica amarrado na camisa-de-força, Geraldinho sobe. Ou só eles que não vêem isso?

sexta-feira, 6 de outubro de 2006 23:49:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Me admira você, jornalista experiente. Nada de fake, social democracia é uma coisa, “social democracia brasileira” é outra muito diferente (é uma piada). Um abraço.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006 23:59:00 BRT  
Anonymous Marcus disse...

Alckmin pode até negar que vá demitir funcionários públicos, mas deixou bem claro em entrevista à revista Época no mês de fevereiro que é contra o modelo tradicional de gestão estatal.

Em suas próprias palavras: "O PT acha que tudo precisa ser estatal. Para nós, precisa ser público. Dou um exemplo: em nossos 20 hospitais novos, não há funcionário público. É tudo organização social sem fins lucrativos, do terceiro setor, com contrato de gestão para ser fiscalizado".

Ou seja, ele pode até não demitir, mas não vai fazer concurso público e vai terceirizar a gestão. Do mesmo jeito que o Fernando Henrique fez em vários lugares, como no INSS, por exemplo. E acabou sucateando a qualidade dos serviços.

Quem estiver pensando em prestar concurso público, pode esquecer, se Alckmin for eleito.

sábado, 7 de outubro de 2006 00:32:00 BRT  
Anonymous José Ricardo do Nasciemnto disse...

É aquela estória: Pau que dá em Chico dá em Francisco. Em 2002 a Regina Duarte tinha "medo do Lula", e no entanto foi usada na camapanha da direita. Banana aos escrúpulos, quero ganhar de novo.

Um abraço,
JRN

sábado, 7 de outubro de 2006 00:48:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Concordo, Alon. Fiz um comentário semelhante em outro post: "Atordoados". E vou repetir que Alckmin também está pagando pela questão regional. Já carrega o estigma de candidato paulista, depois de longos anos de hegemonia política paulista no governo FHC, e forte influência paulista no governo Lula. Conta com o natural conflito de interesses de outros caciques regionais como Aécio, interessado em maior participação na política nacional.
E os intelectuais e correligionários tucanos, continuam a constranger Alckmin criticando as políticas de Lula que beneficiam o Nordeste. Até o sábio FHC citou o Brasil "moderno" votando em Alckmin (coincidentemene no Sul-Sudeste), e o Brasil "atrasado" votando em Lula (norte-nordeste).

sábado, 7 de outubro de 2006 03:10:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Bom, só se vê comentários pró-Lula aqui. Quem acha que é possível manter esse nível de gastos de custeio, está muito enganado. Quem acha que essa taxa de investimento público brasileira é boa, está muito mal informado.
A esquerda brasileira está achando ótimo o Brasil crescer 2,5% ao ano e o Lula pegar a carga tributária e dar aumento real de salário mínimo e previdência como se a economia estivesse crescendo a 7%. Isso não fecha.
O melhor para o Brasil já aconteceu. Foi ter o segundo turno e o Lula ganhar, mas ajoelhando no milho. Agora ele vai ter que fazer o ajuste.
Vamos ver, vamos ver.

sábado, 7 de outubro de 2006 09:35:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Investir no cidadão (salário-minimo, bolsa família), em detrimento ao investimento estatal (obras e subsídios à empreendimentos), também é investimento.
Inclusive está mais de acordo com as teses de Milton Friedman (reduzir a regulamentação e a intermediação do estado, deixando mais dinheiro na mão dos cidadãos e menos na burocracia estatal).
Em países do 1o. mundo, as teses de Milton Friedman se aplicam na redução de impostos para todos, porque em países ricos todos estão inseridos na sociedade de consumo, e por isso pagam impostos.
No Brasil, enquanto houver uma massa excluída da sociedade de consumo, em vez de reduzir impostos do cidadão que pode pagá-los, a prioridade é inserir a população de baixa renda na sociedade de consumo, através de políticas de renda mínima. Isso gera demanda de consumo no mercado. Capitalistas empreendedores saberão suprir com ofertas à estas demandas (hoje mais localizadas nas classes CDE), produzindo crescimento econômico.
Acreditem: Lula, quando combate a pobreza, está prestando serviços muito mais relevantes ao capitalismo no Brasil, do que o PSDB/PFL jamais prestaram.

sábado, 7 de outubro de 2006 15:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É o nativo adorando Mr. Kurtz.
The horror, the horror!

domingo, 8 de outubro de 2006 04:06:00 BRT  

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