segunda-feira, 2 de outubro de 2006

São os pobres, estúpido! (02/10)


Os institutos de pesquisa foram bem nesta eleição. Houve problemas localizados em alguns estados, questões que precisam ser esclarecidas. Mas na eleição nacional foram bem. Pesquisas devem ser vistas menos pelos números instantâneos e mais pelas tendências. Todos os institutos que fizeram pesquisa nos dias anteriores à eleição mostraram o estreitamento entre Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin. Datafolha e Ibope cravaram empate técnico entre Lula e adversários na véspera da votação. E o resultado final do primeiro turno foi muito próximo (em votos válidos) ao que ambos haviam diagnosticado na reta final. Mas, se, como diz Caetano Veloso, ninguém é normal quando visto de perto, vamos olhar então os números com uma lente. Uma coisa importante: os institutos não perguntam aos pesquisados se eles vão ou não votar no dia da eleição. Portanto, todos os índices obtidos nas pesquisas anteriores à boca-de-urna devem ser interpretados sobre o total do eleitorado. Assim, quando o Datafolha dizia no sábado que Lula estava com 46%, eram 46% sobre o total do eleitorado. Cerca de 57 milhões de votos. Quase dez milhões a mais do que os 37% que Lula teve nas urnas. A votação de Alckmin também estava superestimada, mas menos. Ele teve 35% na pesquisa e recebeu 32% na urna. Menos três pontos percentuais também foi o que conseguiu Heloísa Helena (5% em vez de 8%). Cristovam teve os mesmos 2% na urna e na pesquisa. Esses números estão na tabela acima, nas colunas B (% de votos dos candidatos sobre o total do eleitorado) e D (o último Datafolha antes da boca-de-urna). É um erro estatístico fazer comparações entre pesquisas anteriores à boca-de-urna e resultados eleitorais, simplesmente porque, como disse no começo, os institutos não perguntam ao entrevistado se ele vai votar ou não. Não há a distinção que se faz nos Estados Unidos (onde não há voto obrigatório) entre registered voters e likely voters. Mas não adianta os institutos explicarem isso, porque as pessoas sempre vão fazer essa comparação -e os políticos que perdem a eleição (e alguns que ganham) sempre atacam as pesquisas. Então, de uns tempos para cá, os institutos fazem, digamos assim, uma gambiarra para tentar se defender dos ataques políticos: nos últimos dias antes da eleição, passam a divulgar principalmente os índices de votos válidos. Fazem isso na suposição de que a abstenção será mais ou menos a mesma no eleitorado dos diversos candidatos e que, no fim, essa malandragem estatística passará despercebida. Mas isso quase sempre tem dado errado, exatamente porque a distribuição da abstenção não tem sido uniforme. Pelos números expostos na tabela, está claro que o eleitorado de Alckmin, Heloísa e Cristovam mobilizou-se para as urnas muito mais do que o eleitorado de Lula. Lula perdeu nove pontos percentuais entre a pesquisa e a boca de urna, enquanto a oposição perdeu seis. Por isso o segundo turno. Fala-se muito sobre o debate da TV Globo, sobre a crise do dossiê, mas eu prefiro prestar atenção em outro detalhe: a relação entre absenteísmo eleitoral (ausências, brancos, nulos) e menor instrução e renda. Essa quebra na votação sofrida agora por Lula aconteceu também com Fernando Henrique Cardoso em 1998. Mas é um debate em aberto. Importantíssimo para o segundo turno. Lula vencerá a eleição se mobilizar o seu eleitorado, se levantá-lo em defesa do governo. Se usar toda a sua força para levar às urnas a parcela da população que mais teria a perder com uma eventual mudança de guarda no Palácio do Planalto. Lula perderá se não o fizer. A dúvida é saber se Lula e o PT ainda têm energia e forças para travar essa sangrenta batalha pela “troca” da agenda eleitoral. Diante da passividade com que vêm apanhando e se deixando conduzir ao matadouro pelo adversário no último ano e meio, trata-se de uma dúvida bastante razoável.

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18 Comentários:

Blogger Ricardo disse...

Sua análise está um pouco simplista demais. Para mim, há erros amostrais (que vêm inclusive de 2000) que subestimam o percentual de classe média "média" no Brasil (o que explica a consistente subestimativa dos votos do PSDB).
Aliás, a melhor análise sobre o significado da polarização Brasil moderno (Sul+SP+parte de Minas e CO) e Brasil arcaico (RJ+Norte de Minas+NE+NO) está no excepcional artigo de Simon Schartzmann que ele publicou em seu blog hoje. Vale a pena a lida.

http://sschwartzman.blogspot.com/2006/10/sao-paulo-e-o-estado-nacional.html

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 19:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 19:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"Lula vencerá a eleição se mobilizar o seu eleitorado, se levantá-lo em defesa do governo. Se usar toda a sua força para levar às urnas a parcela da população que mais teria a perder com uma eventual mudança de guarda no Palácio do Planalto".

Seria interessante que você explicasse por que a população mais pobre teria a perder com a derrota de Lula. A taxa de crescimento é das piores do mundo, a taxa de juros reais é a maior do mundo, o spread bancário é o maior do mundo. Não parece um país muito propício aos pobres. A não ser que o "socialismo" tenha se resumido ao bolsa família e ao bolsa famiglia.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 19:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Tem que politizar o debate. Não dá para ficar só na base das realizações de governo. Tem que levantar a questão das privatizações (ou privatarias) bem alto: Banco do Brasil, Caixa, Correio, Petrobrás. Estes, e outros, planos que os tucanos estão escondendo debaixo do tapete até chegarem lá e com o apoio do congresso, poder judiciário e mídia. A volta da ditadura do pensamento único neoliberal.

O Jacques Wagner fez isto na, hoje, Vermelha Bahia e o resultado pode ser visto na foto manchete da Terra Magazine: http://terramagazine.terra.com.br/

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 19:50:00 BRT  
Anonymous Julio disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 21:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Que é isso, Alon? Sinto discordar de você, mas os institutos foram pessimamente ! Chegaram a desinformar o leitor . A razão parece-me estar em corrupção, misturada com o fato apontado pelo leitor Ricardo, e que eu costumo chamar (pelo menos é essa minha impressão) de erro na classificação das classe na sociedade brasileira, o que daria erro na amostragem. Os institutos erraram e erreram muito.

No mais, meu caro, Alckimin irá ganhar, o perigo que ele corre é o debate. Alckimin é pouco inteligente, e Lula poderá reverter a situação.

Qualquer um dos dois que ganhe, será muito bom para banqueiros e a persistente e multissecular elite rendeira e proprietária que ressurgiu no país com muita força.



Jarbas

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 21:55:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Puxa! Senti falta, em nome da isenção, da proposta de criação de uma sucursal do Granma. E do Pravda também, já que estamos com a mão na massa, por que não?

Às vezes eu acho que não acabou o estoque de aloprados...

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 21:56:00 BRT  
Anonymous Jose Augusto disse...

Alon, pelos números da apuração que li, a abstenção e votos nulos (brancos houve certo equilíbrio) prejudicou mais Lula que Alckmin:
Sul 14,75% 4,14%
Sudeste 15,91% 5,22%
Centro-Oeste 17,24% 4,97%
Nordeste 18,45% 7,83%
Norte 18,92% 4,58%
Sul foi o reduto de Alckmin com maior comparecimento (significou para Alckmin o que foi o cinturão bíblico para Bush); Nordeste, o reduto de Lula, teve maior abstenção. Sudeste houve empate, e Norte (Lula) contrabalançou o Centro-Oeste (Alckmin).
Então sua análise tem fundamento: a abstenção no NE (que foi menor do que os anos anteriores) tirou mais pontos de Lula do que a abstenção no Sul de Alckmin. Mas os votos nulos do NE também. Não acredito que sejam todos intencionais, e pelo menos 2% dos 7,83% devem ter sido por erro de votação.
Não fiz as contas do impacto sobre os números nacionais das pesquisas x resultado. Mas me parece que o eleitor de Lula no NE está motivado, porque a abstenção foi baixa para os padrões da região. Não sei se há muito o que fazer quanto a isso.
Acredito que Lula precisa recuperar o voto volátil (os 48,6% que teve, são consolidados, votos que resitiram à tudo) perdido com a pilha de dinheiro do dossiê e provavelmente a ausênsia do debate, que pode ter tirado 1 ou 2 pontos.
É preciso também reconciliar-se com o eleitor de HH, para que não votem nulo, porque é difícil acreditar que movimentos sociais, parte do MST, que votaram no PSOL venham a deixar de votar útil no moderado Lula, para permitir um retorno do conservador Alckmin ao poder.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 22:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pô, numa boa, quando os jornalistas irão cansar de usar esses trocadilhos, hein?? "É a economia, estúpido", "é o bolsa família, estúpido", "é o nordeste, estúpido". Quem aguenta mais isso, meu deus?!

Carlos Augusto

Salvador-Bahia

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 23:54:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

O aceno às massas pobres, miseráveis e negras (nesta ordem), lembra o extemporâneo uso de peões lançados, todos, em defesa de pretensos reis e seus fiéis acólitos, que clamam aos peões que protejam os vinhos e charutos de boa cepa. Aos peões, por seu sacrifício, numa insana empreitada, nada mais que a cuia de esmoler. O povo provou que quem semeia paranóias, paranóias terá a colher. Provou que não é refém do medo e manifestou-se, democraticamente, pela alternância. E provará outra vez. Portanto, temperança.

terça-feira, 3 de outubro de 2006 10:19:00 BRT  
Anonymous Sergio Maidana disse...

Arlon,

você está equivocado quanto aos números (só naõ sei se está fazendo de caso pensado). Os intitutos inflaram Lula, pois, se colocassem o Alckmin para cima, Lula perderia muitos votos e perderia a eleição no primeiro turno. Veja que os Institutos colocavam o Lula com 48 a 50 dos votos totais e não dos votos válidos, quando na verdade deveria girar em torno de 44 a 46% que resultaria os votos de Lula. Já no caso de Alckmin, ele deveria girar em torno de 35 a 38%, mas só no dia anterior as eleições os intitutos deram esta notícia.
Agora, você falar que o Lula é dono dos votos dos 'pobres' faz me rir. Ninguém é dono de voto nenhum, meu chapa. Este maniqueísmo da esquerda, criada no século passado, já acabou. Isto é coisa de coronelismo e os "votantes" em Lula demonstram uma mudança rápida de posição.
Faço minhas apostas: Lula vai perder e feio. E o Arlon vai ficar perguntando para seus colegas de jornalismo: o que ocorreu?
Se me chamarem para a rodinha de chopp, lhe direi aonde a imprensa petista pecou, e esta estrada não tem volta.

terça-feira, 3 de outubro de 2006 10:19:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Sergio, nao acredito em manipulacao dos institutos na eleicao presidencial. Nao disse que Lula eh dono do voto A ou B, apenas acho que se voce quer ganhar uma eleicao trate de mobilizar fortemente as pessoas mais dispostas a votar em voce. E nao ha uma imprensa "petista", assim como nao ha uma imprensa "tucana". Apenas ha o fato de que as pessoas tem suas preferencias. Eh bom que todos se habituem a isso. Um abraco e obrigado por frequentar o blog.

terça-feira, 3 de outubro de 2006 11:09:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Isso, Swamoro, temperanca. Eh o que temos praticado aqui. Sempre. Sem concessoes. Um abraco.

terça-feira, 3 de outubro de 2006 11:10:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Um comentário extra: ainda acho engraçado ler que Alckmin seria o conservador, enquanto Lula - aliado a praticamente todos os coronéis e corruptos contumazes do país - ainda seria visto como de esquerda. Sua política assistencialista é típica dos coronéis (com a diferença que, ao invés da cesta básica, rola uma graninha). Todos os índices que valem para demonstrar o desenvolvimento social de um povo cairam (diminuição da classe média, aumento do analfabetismo e trabalho infantil, aumento do tráfico de drogas, desemprego acima dos 17%, PIB que cresce vegetativamente)...
A não ser que esquerda signifique loteamento de cargos estratégicos para sindicalistas (nenhum técnico), no que aí sim concordaria. Mas nada mais conservador que o tripé financismo, peleguismo e coronelismo eletrônico, base do governo Lula.
E, considerando o Brasil, a tal privataria foi feita agora, pelo PT, como se viu nos escândalos dos Correios, Banco do Brasil, CEF etc.

terça-feira, 3 de outubro de 2006 12:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

(Alon, parece que deu problema, estou reenviando)

Laércio disse....
Caro Alon,
Ainda sobre as pesquisas.
Você afirma que os institutos de pesquisa foram bem, e que questões localizadas precisam ser esclarecidas.
A título de contribuição envio abaixo, (desculpe-me ocupar tanto espaço)levantamento do Blog Congresso em foco sobre os "problemas localizados"
(http://www.congressoemfoco.com.br/Noticia.aspx?id=10256
Como explicar, Bahia,Rio Grande do Sul, Goiás, Pará, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Maranhão.
Concluindo, acho totalmente dispensável as pesquisas boca-de-urna, face ao acelerado trabalho da totalização dos votos pelo TSE e TREs, pois as pesquisas ao serem divulgados a partir das 17:00 são atropeladas pela divulgação dos dados oficiais.
Saudações
Laércio L. de Araújo

terça-feira, 3 de outubro de 2006 12:51:00 BRT  
Anonymous Luis Carlos disse...

Petistas acusando a imprensa de ser tucana, tucanos acusando a mídia de ser petista. Se os posts do Alon tem o seu valor, pois contribuem para que possamos captar algo da realidade, o mesmo não pode ser dito de alguns visitantes do blog e seus comentários. Quando a paixão prevalece, muita coisa irracional é dita. Mas são reflexo do que ocorre hoje no país, que está dividido em dois grandes grupos , de um lado o lulismo/petismo e do outro anti-lulismo/petismo, ambos febris, quase delirantes...

terça-feira, 3 de outubro de 2006 14:07:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Obrigado, Alon. Apesar do risível grasnar às armas, a ninguém é dado o direito de lograr incendiar o País.

terça-feira, 3 de outubro de 2006 16:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ué há bem pouco se falava que a midia estava em decadencia e já não influenciava mais as opiniões??? E agora voltou a midia e influenciou no eleitorado contra o lula???
Acho que o eleitorado esta ficando cansado da dupla face do candidato que outrora andava com a estrela no peito, colocava o bone do mst, e agora já não necessita mais??? E agora mais do que nunca vai precisar da ajuda de quem expulsou do seu meio???
¨Politica a arte do impossivel¨ outrora, o então candidato derrotado lula, desferiu virulentas palavras contra collor numa entrevista pós cassação, e hoje o elogia, é vale tudo pelo poder.
Enfim o segundo turno, deu para ver que o povo não é tão bobo, não se engana por muito tempo.
A justiça tarda mas chega, não dá para afirmar que não falha.
Yoshio - Japão

terça-feira, 3 de outubro de 2006 18:18:00 BRT  

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